domingo, 4 de dezembro de 2016

Eduardo Velasco - Não é Ouro tudo que Brilha, ou a Serpente que Morde a própria Cauda: Grandes Personalidades Opinam sobre a Civilização

por Eduardo Velasco



Babilônia era um cálice de ouro nas mãos do Senhor; ela embriagou a terra toda. As nações beberam o seu vinho; por isso agora, enlouqueceram. (...) Secarei o seu mar e esgotarei as suas fontes. A Babilônia se tornará um amontoado de ruínas, uma habitação de chacais, objeto de pavor e de zombaria, um lugar onde ninguém vive. O seu povo todo ruge como leõezinhos, rosnam como filhotes de leão. Mas, enquanto estiverem excitados, prepararei um banquete para eles e os deixarei bêbados, para que fiquem bem alegres e, então, durmam e jamais acordem. Eu os levarei como cordeiros para o matadouro, como carneiros e bodes.
(Jeremias 51. 7/36-40)

Chamar "melhoramento" à domesticação de um animal é algo que nos soa quase como uma brincadeira. Quem saiba o que se passa nos lugares onde se domestica animais selvagens, duvidará muito de que estes sejam "melhorados".
(Friedrich Nietzsche).

O “progresso indefinido” é uma ideia de origem iluminista, que nasceu no Oriente Próximo junto com a civilização e procurou legitimidade teórico-racional durante o iluminismo francês do século XVIII. O mesmo é baseado na noção que o ser humano procede de um passado doente, sujo, ignorante e primitivo, e que pouco a pouco dirige à um futuro saudável, limpo, culto e “avançado”. A arqueologia sugere algo contrário: que a civilização provocou a caída do ser humano do estado de graça, tornando ele doente. A ideia das tradições religiosas era similar: existiu uma “era de ouro” endênica (Satya Yuga para os hindus) em que o ser humano era mais perfeito, e pelo qual contraiu um trauma que causou a degeneração humana e a aparição da miséria e a enfermidade, culminando na "era de ferro" (Kali Yuga para os hindus). Apesar disto, a espiral industrial em que estamos afundando segue propagando que o crescimento econômico infinito é viável, que a torre de Babel pode ascender indefinidamente, que as coisas vão melhorar e, em suma, que o ser humano “melhorou”.

Ao longo de sua história evolutiva, o homem ascendeu na pirâmide alimentar desde dos arcaicos macacos frugívoros, convertendo-se em um predador cada vez mais eficaz e coroando-se acima dos demais quando, após a revolução carnívora, deixou de ser vítima doutros predadores. No entanto, com o fim da Era Glacial e o advento da Revolução Neolítica, o homem e o planeta caíram sob uma nova forma de depredação: a tecnologia e o parasitismo da Terra; dois novos fatores que violaram uma equação holística até então harmoniosa, e que transtornaram para sempre o equilíbrio ecológico do planeta e a biodiversidade e qualidade genética da espécie.

O ser humano, ou melhor, um tipo humano desenraizado, alienado, miscigenado e confuso, acredita que a razão de seu mal-estar e de seu medo era que a ordem estava mal projetada. O frio glacial penetra até a medula, oprime o coração, desmoraliza ao timorato e não permite pensar em nada mais. Os elementos e a vegetação fustigam e arranham a pele. O solo maltrata os pés. O sustento diário somente é ganho com sacrifício atroz e derramamento de sangue. As mulheres, acaparadas pelos melhores caçadores e guerreiros, são difíceis de conseguir. Cada minuto de vida é um minuto arrancado a duras penas de morte lutando contra o meio em que vive e contra si mesmo. E além disso, em cada canto espreitam as garras de um predador de uma tribo inimiga que não hesita em devorar alegremente qualquer infeliz que cair em suas mãos. Quanto à própria tribo, ela é um organismo contundente, despiadado, frio e severo. Não é uma mãe em cujo brando regaço chorar em busca de consolo e caridade, mas um pai estrito que impõe obediência, que se deleita com o sacrifício e que não perdoa o erro. Como mandos militares, os sábios anciões marginalizam aos fracos da vida reprodutiva, e premiam somente aos bons caçadores e lutadores, exigem uma lealdade e uma entrega absoluta e não vacilam em deixar morrer aos elementos menos valiosos da coletividade pelo bem do clã. Goste ou não, estes são os fatores que nos fizeram subir acima do homem-macaco e que escreveram nosso genoma como um romance com letras de gelo, pedra, sangue, sêmen, carne e suor.

“Evolua ou morra”, dizia o mundo naquela época. Mas essa lei pode resultar muito dura para as vítimas da voraz maquinaria evolutiva: viver como carne-de-canhão da seleção natural não é vida. Portanto, é necessário questionar esse horrível estado de coisas, redesenhá-los desde do zero, reorganizar a obra de Deus ― já que Ele não soube organizá-la ao gosto do homem ―, fugir do sofrimento e erigir uma messiânica “nova ordem”. Nasce a moral do escravo e uma espécie de complexo de Édipo. Se deve construir um sistema (a civilização) dentro do Sistema (a Natureza), em que o sustento diário não acarrete em tanto esforço e em que a busca do prazer e da comodidade prime sobre as virtudes alquímicas do ascetismo, sacrifício e a força de vontade. A competitividade deve ser atenuada e a ferocidade do predador deve ser suavizada pra torná-lo apto a encarar o novo molde social pseudo-matriarcal. Para alcançar semelhante meta, deve-se recrutar pessoas de origens diversas, dispostas a trabalhar por um novo bem comum ― pela persuasão ou pela força ―, e abolir sua bagagem de tradições e identidade ancestrais. Onde antes haviam apenas as profissões de mãe, caçador, guerreiro, pescador, coletor e xamã, agora surgiram ocupações totalmente novas (cerâmico, agricultor, pastor, mercador, prostituta, sacerdote, minerador, servente, escravo) que hierarquizam a sociedade em base de critérios que não estão relacionados com a qualidade dos genes: um homem fraco e covarde pode agora ser valioso caso dedique mover objetos pelas rotas comerciais; uma mulher promiscua, outrora maldita pela tribo, agora pode vender seu corpo. A nascente sociedade deve ser um ente massificado em que os fortes puxam a carroça, rebocando os fracos com o suor de seu rosto. Os valentes morrem na guerra enquanto os covardes se multiplicam na retaguarda. Não é mais necessário caçar, pois o pão substituiu a carne e o vinho o sangue. Só existe um deus universal: a civilização. Todos os demais deuses são abominações. Quem pertence a essa espécie de seita são os elegidos. Quem não pertence a ela são os pagãos, os bárbaros, os profanos, os retrógrados, os "machistas", uma massa humana cega, selvagem e impura que vive nas cavernas e que deve ser escravizado e integrada no sistema para que os eleitos possam viver sem trabalhar. O pensamento linear, racional e lógico deve crescer monstruosamente até anular o pensamento simbólico e instintivo. A civilização acabará dominante a Natureza, decifrando todos seus segredos, e dissecando-a e finalmente submetendo-a, fagocitando-a e domesticando-a integralmente, para que nada escape do controle humano e para que o sistema seja previsível, mecânico e matemático.

Essa filosofia deve ter tomado raiz inicialmente no Oriente Próximo e afetou a numerosos povos, entre eles os judeus ― que atualmente é de longe o grupo humano que leva mais tempo vivendo sob condições civilizadas. O Antigo Testamento está salpicado de testemunhos sobre o amanhecer da civilização, coletados ao longo de toda a Crescente Fértil, desde a cidade suméria de Ur até a cidade egípcia de Mênfis. O escrito hebreu Midrash Tanjuma nos brinda com um exemplo perfeito de ideologia iluminista. Supostamente ocorre antes da Revolta de Bar Kokhba. Turno Rufo, o governador romano de Judeia, debate com o líder do Sinédrio Akiva ben Yosef, e lhe pergunta: “A obra de quem é mais bela, do Santo, abençoado seja, ou do homem, de carne e osso?”. O rabino responde que a obra do homem. Perplexo, o romano replica: “mas olhe para o céu e a terra! Pode por acaso o homem fazer algo semelhante?”. Akiva manda trazer uns grãos de trigo e um bolo: “Isso é obra divina e isso é obra humana”, disse. “Não é melhor o bolo que os grãos de trigo?”. Esse tipo raciocínio não difere muito do que teria impulsionado Adão e Eva a provar do fruto da arvora da ciência... perdendo para sempre o fruto da arvora da vida.

 

Está muito estudado pela eugenia que os meios sociais civilizados ― ao preservar a vida de pessoas fracas e burras que em um ambiente natural seriam incapazes de perpetuar sua linhagem, e ao lançar os fortes e inteligentes à guerras fratricidas e ocupações abomináveis que minam sua taxa de fertilidade e desperdiçam seu sangue ― provocam irremediavelmente a degradação do código genético do ser humano. A Natureza tem maneiras muito retorcidas de vingar-se de quem lhe dá as costas ou pretende dominá-la. O registro fóssil demonstra que quando o homem deixou de caçar e adotou a agricultura, o mesmo pagou com um tremendo declínio de sua saúde e de sua qualidade biológica. Atualmente, a proliferação cada vez maior de doenças degenerativas, alergias e desordem mentais (“a investigação das doenças avançou tanto que cada vez é mais difícil encontrar alguém totalmente saudável”, dizia Aldous Huxley) é sinal mais que evidente de que não dominamos a Natureza, mas que ela nos segue dominando como sempre, só que desta vez nos ataca, porque não estamos obedecendo-a. A doença e a degeneração são as maneiras que a Natureza tem de protestar e nos fazer perceber que não estamos exercitando nossas funções humanas, que ignoramos a sabedoria reprodutiva e que estamos fazendo, respirando, comendo e bebendo coisas que não deveríamos. Se a civilização é como uma serpente que morde a própria cauda, é porque é o resultado da qualidade genética e depende dela, mas como uma maldição, se volta contra a mesma substância que o alimenta, fechando o círculo de sua própria perdição. Esse “efeito bumerangue” biológico é o verdadeiro motivo pelo qual todas as civilizações caem uma hora ou outra e isso faz suscitar uma pergunta lógica e inquietante: se a próxima civilização humana será global, o que virá depois?

O homem civilizado não experimentou a dureza do mundo real em sua carne e nunca se adaptou a Natureza ― pelo contrário, seus atos são encaminhados a adaptar a Natureza a ele, embora seja a força. Portanto, tende a ter um ego grande e um espírito pequeno, e considera que está acima da evolução. Essa nova criatura artificial, esse novo animal doméstico que é o ser humano moderno, por seu isolamento na bolha do “bem-estar digno de lástima”, desconhece a humildade perante a Criação, e é portanto a única forma de vida do planeta capaz de desviar-se das leis naturais, inverter a ordem correta e incorrer no pecado de levantar-se contra a obra de Deus. Essa soberba sacrílega e autodestrutiva, os gregos chamaram de hubris ou hybris [1]. É a causa pelo qual, apesar da civilização ter sido total, absoluta e indiscutivelmente catastrófica sob um ponto de vista estritamente evolutivo, biológico, espiritual e meioambiental, o homem se converteu num “senhorito satisfeito” de seu trabalho, tal como disse Ortega y Gasset.

Diante de todo esse quadro surgem algumas perguntas: Seria a civilização uma guerra de morte contra a biologia e, portanto, uma revolta contra a vida, por parte das forças enfermiças, malignas e antitéticas do mundo, aquelas que estão ressentidas pelo sofrimento? O homem corre o risco de converter-se num escravo de sua própria criação, em um simples fator produtivo, em uma figura, uma estatística? Criamos um sistema com vida própria que tem subordinado nosso bem ao seu? Seria a tecnologia desumanizando e mecanizando a espécie, exterminando sua biodiversidade, provocando sua involução e chegando sua domesticação a níveis assombrosos? Seria a sociedade moderna um imenso campo de concentração, um zoológico massificado cujas jaulas definhadas, domesticou e castrou os degenerados descendentes mutantes do homem livre e caçador? Que tipo de seleção natural estamos promovendo? Que tipo humano é mais favorecido pelo "progresso"? No que se converterá o homem no dia que ele perder definitivamente sua adaptação à Natureza e esteja plenamente adaptado ao mundo industrial, comercial e tecnológico? A espécie humana chegou na senilidade ou no Alzheimer? A civilização está autodestruindo o mundo moderno em geral e a Civilização Ocidental em particular? A civilização segue sendo essa ciumenta seita oriental que exige a submissão da vida e que para conseguir isso, como toda seita, extirpa ao indivíduo de seu marco ancestral, aniquilando sua identidade e dinamitando as lealdades que possa ter fora da seita (nação, povo, raça, classe, sexo, família, região, profissão, etc.)? Este é o tipo de perguntas que fizeram os autores que veremos nesse artigo.

A civilização levou ao avanço descomunal da matéria inerte (tecnologia, comércio, consumismo, conforto), e o retrocesso absoluto da matéria viva (saúde, corpo, código genético, mente, sacrifício), para não mencionar a caída da espiritualidade. Até que os sistemas de poder não adotem uma perspectiva biocêntrica em geral e antropocêntrica em particular, e enquanto o alto da pirâmide do poder mundial siga ocupado pela elite financeira internacional (os pastores que estão domesticando, castrando, atontando e envenenando os seres humanos), a espécie seguirá degenerando-se a si mesmo e o ao planeta. Desmatar florestas inteiras para imprimir milhões de exemplares de revistas de moda sensacionalista, adoecer as pessoas para que precisem comprar medicamentos da indústria farmacológica, descartar a maternidade e a natalidade para que as mulheres trabalhem a fim de ganhar dinheiro para comprar coisas totalmente inúteis, ou arrancar milhões de pessoas do Terceiro Mundo para alimentar a maquinaria das multinacionais, são coisas que só num sistema econômico equivocado e podre poderiam ser beneficiosas ― para alguns, e só a curto prazo. Enquanto os Estados não se rebelarem contra a economia de livre mercado e o comércio internacional apátrida, e enquanto não intervenham com firmeza e decisivamente na reprodução humana para deter a involução da espécie e melhorar seu código genético, o ser humano rumará ao caminho de converter-se numa forma de vida cada vez mais ridícula e desenraizada. O mundo moderno necessita desesperadamente de uma série de revoltas populares que derrubem a economia financeira, global e de consumo, e estabeleça uma economia multipolar, austera e simples, mais baseada na autossuficiência, na autarquia de cada Estado, nos bens locais e aquilo que é estritamente necessário e em que o Estado, identificado como o povo trabalhador, se imponha aos mercadores, parasitas e prestamistas usureiros.

O atual estilo de vida não tem nada a ver com as necessidades da espécie, mas com as exigência de um sistema econômico com vida própria, e que se encontra em total contradição com a natureza humana, com seus instintos inatos e com o verdadeiro papel do homem livre no concerto da vida e do mundo.

A recompilação de passagens que são apresentadas não devem ser interpretadas como um argumento contra a civilização ou contra a tecnologia, mas sim contra a civilização mal entendida, contra a tecnologia mal utilizada, contra a economia usureira, livre-mercadista, parasitária, consumista e do crescimento indefinido, e a favor de um tipo radicalmente distinto de civilização, como por exemplo foi Esparta: um Estado, talvez o único da história, que com uma clarividência sem precedentes, percebeu que o ouro corrompe e de que a civilização é um produto nitidamente perigoso que para aproximar-se é preciso estar com o chicote nas mãos. Durante séculos, Esparta foi capaz de manter viva a natureza e a tradição de seus cidadãos, mas também pode defender seu meio geopolítico mais vulnerável da Europa contra inimigos infinitamente mais avançados economicamente e materialmente.

Ao selecionar os autores destas citações, não se discriminou por motivos de raça, religião, sexo, orientação sexual ou ideologia. Aqui veremos pessoas de diversas raças e etnias, diversas ideologias políticas e religiões, e inclusive até alguns homossexuais. A maioria tem em comum não compartilhar o infantil entusiasmo "progressista" e a olhar para a civilização com desconfiança, enquanto que paradoxalmente são considerados grandes expoentes da mesma. Se alguém conhecer mais citações semelhantes serão de grande valia nos comentários.

Cronologia de nossa evolução desde a aparição do gênero Homo até a atualidade. A civilização industrial em vermelho.

"A civilização é a vitória da persuasão sobre a força". 
(Platão, filósofo grego, 428-328 AEC).

"Qualquer tentativa de melhorar a natureza é cultura, e toda cultura é como uma doença: quanto mais culto for um homem, mais perigoso será".
(Chuang-Tzu ou Zhuāngzǐ, filósofo chinês, 369-286 AEC).

"Nascemos príncipes e o processo de civilização nos converte em sapos". 
(Públio Siro, escritor romano, 85-43 AEC).

"No início, quando os homens viviam imbuídos com sentimentos dignos de heróis, honravam aquela virtude que nos torna semelhante aos deuses; eles obedeciam às leis estabelecidas pela Natureza e, conjugando-se com uma mulher em idade apropriada, tornavam-se pais de crianças virtuosas. Mas, gradualmente, a raça caiu daquelas alturas para o abismo da luxúria, e buscou prazer por caminhos novos e errantes".
(Luciano de Samósata, escritor grego, 125-181 EC).

"Deus nunca fez o seu trabalho para o homem consertar".
(John Dryden, poeta e dramaturgo inglês, 1631-1700).

"As cidades são o abismo da espécie humana". 
(Jean Jacques Rousseau, filósofo francês, 1712-1778).

"Deus fez o campo, e o homem fez a cidade".
(William Cowper, poeta inglês, 1731-1800).

"Se nos amontoássemos em grandes cidades como europeus, vamos nos tornar seres corruptos, tal e como eles são agora, e devoraremos uns aos outros".
(Thomas Jefferson, revolucionário e presidente estadunidense, 1743-1826).

"O desvio do homem do estado em que foi originalmente colocado pela Natureza demonstrou ser uma prolífica fonte de doenças". 
(Edward Jenner, médico inglês e inventor da vacina da varíola, 1749-1823).

"As florestas precedem as civilizações, os desertos seguem-nas".
(François-René de Chateaubriand, diplomata, escritor e aristocrata francês, 1768-1848).

"Quando começa o cultivo outras artes vêm atrás. Os agricultores, portanto, são os fundadores da civilização humana". 
(Daniel Webster, estadista americano, 1782-1852).

"Rasgai ao homem civilizado e aparecerá o selvagem".
(Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, 1788-1860).

"É a civilização do homem apenas um envoltório, através do qual sua natureza selvagem ainda pode explodir, mais infernal do que nunca?"
(Thomas Carlyle, escritor escocês, 1795-1891).

"À medida que a civilização avança, a poesia declina quase necessariamente".
(Thomas B. Macaulay, aristocrata, historiador, poeta e político escocês, 1800-1859).

"A verdadeira prova da civilização não é o censo, ou o tamanho das cidades, ou as colheitas, mas o tipo humano que o país produz”. 

“O final da raça humana será quando ela eventualmente morrer de civilização". 
(Ralph Waldo Emerson, poeta e filósofo americano, 1803-1882).

"Entre os selvagens, os corpos ou as mentes doentes são rapidamente eliminados, os homens civilizados, entretanto, constroem asilos para os imbecis, os incapacitados e os doentes e nossos médicos põem o melhor de seu talento em conservar a vida de todos e cada um até o último momento, permitindo assim que se propaguem os membros fracos das nossas sociedades civilizadas. Ninguém que tenha trabalhado na reprodução de animais domésticos, terá dúvidas de que isto é extremamente prejudicial para a raça humana. É surpreendente o quão rápido uma necessidade de cuidados, ou de cuidados mal dirigidos, leva à degeneração de uma raça doméstica: mas excetuando o caso do próprio ser humano, ninguém é tão ignorante como para permitir que seus piores animais se reproduzam.

A ajuda que nos sentimos compelidos a brindar aos necessitados é principalmente um resultado incidental do instinto da simpatia, que foi adquirido originariamente como parte dos instintos sociais, mas subseguintemente tornado, da maneira antes indicada, mais terno e mais amplamente difundido". 
(Charles Darwin, naturalista inglês, 1809-1882).

"A tecnologia está regida por dois tipos de pessoas: aquelas que gerenciam o que não entendem, e aquelas que entendem o que não gerenciam".
(Mike C. Trout, membro da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, 1810-1873).


"O efeito de toda civilização levada ao extremo é a substituição do espírito pela matéria e da ideia pela coisa".
(Théophile Gautier, escritor e fotógrafo francês, 1811-1872).

"Embora a civilização tenha melhorado as nossas casas, não melhorou igualmente os homens que as habitam. Ela criou palácios, mas não foi tão fácil criar nobres e reis".

"A maioria dos luxos e muitas das ditas comodidades não somente são indispensáveis, mas são obstáculos para a elevação da humanidade". 

"Os homens tornaram-se as ferramenta de suas ferramentas".

"É a preocupação com a posse, mais do que qualquer outra coisa, que impede os homens de viver livremente e nobremente".

"Vida na cidade: milhões de seres vivendo juntos na solidão". 
(Henry D. Thoreau, poeta e filósofo americano, 1817-1862).

"O progresso, essa grande heresia da decadência".
(Charles Baudelaire, poeta e escritor francês, 1821-1867).

"A produção de muitas coisas úteis resulta em muitas pessoas inúteis".

"A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas".

"O desenvolvimento da civilização e da indústria em geral mostrou-se tão ativos na destruição das florestas que, em face disso, tudo o que inversamente se fez para a sua conservação e produção é insignificante em comparação". 
(Karl Marx, ideólogo judeu-alemão, 1818-1883).

"A barbárie é necessária a cada quatrocentos ou quinhentos anos para trazer o mundo de volta à vida. Caso contrário, morreria de civilização".
(Edmond H. de Goncourt, escritor francês, 1822-1896).

"A civilização tem ido cada vez mais longe do chamado "homem natural", que usa todas as suas faculdades: percepção, invenção e improvisação".
(Robert G. Ingersoll, veterano de guerra, político e orador americano).


"A civilização é o que te faz doente". 
(Paul Gauguin, pintor francês, 1848-1903).

"A civilização é uma ilimitada multiplicação de necessidades desnecessárias". 
(Mark Twain, escritor americano, 1835-1910).

"O bruto paganismo da civilização geralmente destruiu a natureza, a poesia e tudo o que é espiritual".
(John Muir, naturalista americano, 1839-1914).

"O indivíduo tornou-se uma mera engrenagem de uma enorme organização de coisas e de poderes que arrancam de suas mãos todo progresso, espiritualidade e valor para transformá-los de sua forma subjetiva em uma forma de vida puramente objetiva".
(Georg Simmel, sociólogo e filósofo de origem judeu-alemão, 1858-1918).

"Parece-me que a civilização tende mais a lapidar o vício que aperfeiçoar a virtude".
(Edmond Thiaudière, filósofo e poeta francês, 1837-1930).

"A civilização é uma planta terrível que só vegeta e floresce quando a regam com lágrimas e sangue".
(Arturo Graf, poeta ítalo-alemão, 1848-1913).

"Provisoriamente pelo menos, toda civilização de base militar resulta muito superior ao que se chama civilização. Esta última, em sua forma atual, é a forma mais baixa que se conheceu até agora"

"Quem nos contará a história completa dos narcóticos? É quase a história da civilização, o que chamamos de civilização superior".

"Quem pouco possui, tanto menos pode tornar-se possuído. Louvado seja a pequena pobreza!"

"Também me enoja essa grande cidade (...) Ai dessa grande cidade – E eu gostaria de já enxergar a coluna de fogo em que ela arderá! Pois tais colunas de fogo devem preceder o grande meio-dia. Mas esse tem seu tempo e seu destino".

"Esta enfermidade da vontade não se estendeu pela Europa de um modo uniforme. Onde mais afetou e onde mais complicada aparece é naqueles lugares em que a civilização há mais tempo lançou raízes, enquanto que vai desaparecendo na medida em que, sob a descuidada roupagem da cultura ocidental, o 'bárbaro' segue reivindicando (ou volta a reivindicar) seus direitos"

"A má consciência é a dolência maior, a mais sinistra, uma dolência da qual a humanidade não se curou até hoje, o sofrimento do homem pelo homem, por si mesmo, resultado de uma separação violenta de seu passado animal, resultado de um salto e uma queda, resultado de uma declaração de guerra contra os velhos instintos nos quais até este momento repousavam sua força, seu prazer e sua fecundidade". 

"O 'cultivo' do ser humano correu sempre lado a lado com o debilitamento, isto é, com a desagregação e o decaimento enfermiço da força de vontade".
(Friedrich Nietzsche, filósofo alemão, 1844-1900).

"O grande problema da civilização é assegurar um aumento relativo daquilo que tem valor, quando comparado aos elementos menos valiosos ou nocivos da população. O problema não será resolvido sem uma ampla consideração e imensa influência da hereditariedade".
(Theodore Roosevelt, presidente americano, 1858-1919).

"Nossa civilização vive nos princípios dos sofistas atenienses denunciados por Platão, ou seja: ter os desejos mais violentos possíveis e encontrar o meio de satisfazê-los".
(Juan José Dardo Rocha y Arana, político, militar, advogado e periodista argentino, 1838-1921).

"A civilização senta tão mal ao corpo que alguns a chamaram de enfermidade, apesar das artes que mantém vivos os corpos adoentados até idades médias mais avançadas, e de nossa maior proteção de enfermidades contagiosas e microbiais"
(George S. Hall, psicólogo americano, 1844-1924).


"O descontentamento é a primeira necessidade do progresso".
(Oscar Wilde, poeta anglo-irlandês, 1854-1900, e Thomas Edison, inventor americano, 1847-1931).

"Civilizar um povo não é outra coisa senão fazê-lo sentir novas necessidades".
(Charles Gide, economista francês, 1847-1932).

"O progresso da civilização corresponde com a expansão da náusea generalizada".
(Edgar E. Saltus, escritor americano, 1855-1921).

"A civilização é o processo de reduzir o infinito ao finito".
(Oliver Wendell Holmes, Jr., veterano de guerra e jurista americano, 1841-1935).

"O fim prático da civilização consiste em obrigar à morte a fazer a cada dia mais comprida a antessala diante de nossa alcova"
(Santiago Ramón y Cajal, médico espanhol, Premio Nobel de medicina, 1852-1934).

"A ascensão do homem primitivo e incivilizado está sujeita às mesmas leis que prevalecem em todo o reino animal, até que a civilização humana intervém e interfere com a ordem natural das coisas. Assim, quando o homem começa a se especializar e as raças humanas começam a se miscigenar, a Natureza perde o controle. Parece que as melhores raças humanas, assim como as melhores raças animais, surgiram quando a Natureza tinha o controle total, e que o homem civilizado está perturbando a ordem divina da origem humana e do progresso".
(Henry F. Osborn, geólogo, paleontólogo e eugenista americano, 1857-1935).

"É impossível desprezar o ponto até o qual a civilização é construída sobre uma renúncia ao instinto".
(Sigmund Freud, médico judeu-austríaco, criador da psicanalise, 1856-1939).

"O que chamamos de 'progresso' é a troca de um incômodo para outro incômodo".

"A maior tarefa perante a civilização no presente é fazer das máquinas o que elas deveriam ser, as escravas, ao invés de mestras de homens".
(Henry H. Ellis, médico inglês, 1859-1939).

"Onde o ambiente é muito suave e luxuoso e nenhuma luta é necessária para a sobrevivência, não só as estirpes e indivíduos fracos são autorizados a sobreviver e incentivados a procriar, mas os tipos fortes também engordam mentalmente e fisicamente".
(Madison Grant, advogado e eugenista americano, 1865-1937).

"Nós [os seres humanos modernos e civilizados] promovemos a degeneração racial pela nossa negligência, através da criação de uma nova espécie horrivelmente depreciada, monstros físicos e morais que estão corrompendo o sangue da raça e ameaçando sua própria extinção".
(John H. Kellogg, médico e eugenista americano, 1852-1943).

"Uma longa experiência cirúrgica provou-me conclusivamente que há algo radical e fundamentalmente errado com o estilo de vida civilizado, e acredito que, a menos que os atuais costumes dietéticos e de saúde da raça branca sejam reorganizados, a deterioração social e a deterioração da raça são inevitáveis".
(Sir William Arbuthnot Lane, cirurgião escocês, 1856-1943).


"O progresso, sob cujos pés a grama lamenta e a floresta se transforma em papel a partir do qual as plantas do jornal crescem, subordinou o propósito da vida aos meios de subsistência e nos transformou nas porcas e parafusos para nossas ferramentas".
(Karl Kraus, escritor, periodista, poeta e dramaturgo judeu-austríaco, 1874-1936).

"O homem sensato adapta-se ao mundo. O homem insensato insiste em tentar adaptar o mundo a si. Sendo assim, qualquer progresso depende do homem insensato".
(George B. Shaw, escritor irlandês, 1856-1950).

“Não se pode conseguir nenhum progresso verdadeiro querendo facilitar as coisas".
(Hermann Keyserling, filósofo e cientista alemão, 1880-1946).

"Dor e calamidade indizíveis afligiram o homem porque perdeu em um falso intelectualismo este conhecimento profundamente enraizado no instinto".
(Adolf Hitler, líder alemão, 1889-1945).

"No frio, tremente crepúsculo, precedendo o amanhecer da civilização, a emoção dominante do homem era o medo".
(Paul Harris, advogado americano, 1868-1947).

"A superstição do progresso é o veneno que corrói nosso tempo".
(Simone Weil, filosofa judia-francesa, 1909-1943).

"Os homens não podem seguir adiante o curso atual da civilização moderna, porque estão degenerando. Eles ficaram fascinados pela beleza das ciências da matéria inerte. Eles não compreenderam que seu corpo e consciência estão sujeitos a leis naturais, mais obscuras, mas tão inexoráveis como as leis do mundo sideral. Nem compreenderam que não podem transgredir essas leis sem serem punidos".

"A civilização moderna, com a ajuda da higiene, conforto, boa comida, vida fácil, hospitais, médicos e enfermeiras, permitiu viver muitos indivíduos de má qualidade. Esses seres fracos e seus descendentes contribuem, em grande medida, para o enfraquecimento da raça branca. Talvez deveríamos renunciar a essa forma artificial de saúde e buscar exclusivamente a saúde natural, que provem da excelência das funções adaptativas e da resistência inerente à doença".


"Aparentemente, não há adaptação possível à agitação incessante, dispersão intelectual, alcoolismo, excessos sexuais precoces, ruído, ar poluído e alimentos adulterados. Se for esse o caso, devemos modificar nosso modo de vida e nosso meio ambiente, mesmo à custa de uma revolução destrutiva. Afinal, o propósito da civilização não é o progresso da ciência e das máquinas, mas o progresso do homem".

"Parece que as modernas organizações empresariais e a produção em massa são incompatíveis com o pleno desenvolvimento do ser humano. Se for esse o caso, então a civilização industrial, e não o ser humano, deve desaparecer".
(Alexis Carrell, biólogo, médico e eugenista francês, 1873-1944).

"Eu erradicaria as máquinas da face da terra novamente, e acabaria com a época industrial absolutamente, como um erro negro".
(D. H. Lawrence, escritor inglês, 1885-1930).

"A cultura contemporânea requer autômatos. Uma coisa é muito certa, que a escravidão do homem cresce e aumenta. O homem está se tornando um escravo voluntário que não necessita mais de correntes. Ele começa a gostar de sua escravidão, e até orgulhar-se dela. E esta é a coisa mais terrível que pode acontecer a um homem".
(George I. Gurdjieff, místico e esoterista armênio, 1872-1949).

"A metáfora fatal do progresso, que significa deixar coisas para trás, obscureceu completamente a ideia real de crescimento, que significa deixar coisas dentro de nós".
(G. K. Chesterton, escritor inglês, 1874-1936).

"Você acha que uma parede tão sólida quanto a terra separa a civilização da barbárie. Eu lhes digo que a divisão é um fio, uma folha de vidro. Um toque aqui, um empurrão ali, e você traz de volta o reinado de Saturno".
(John Buchan, aristocrata, novelista e político escocês, 1875-1940).

"A civilização avança ao ampliar o número de operações que podemos realizar sem que precisemos pensar nelas".
(Alfred North Whitehead, matemático e filósofo inglês, 1861-1947).

"O luxo é uma das influências mais incômodas que existem. Começa pela comodidade e, passando pelo relaxamento e afeminação, conduz à degeneração física, intelectual e moral. Sendo, ao princípio, sedutor, conclui finalmente em paixões debilitantes que produzem a ruína total de todas as energias sãs e fortes da vida. Constituiria um tema especial estudar as mútuas relações entre o luxo e a desmoralização, e o resultado final seria que a causa fundamental de ambas aparências converte em uma e a mesma força".
(Henry Ford, magnata industrial americano, 1863-1947).

"A civilização é uma competição entre a educação e a catástrofe".
(H. G. Wells, escritor inglês, 1866-1946).

"A civilização, como o Universalismo e o Cristianismo, é anti-evolutiva em seus efeitos; ela trabalha contra as leis e condições que regulavam os estágios iniciais da ascensão do homem".
(Arthur Keith, anatomista e antropólogo escocês, 1866-1955)

"Se a tecnologia continuar progredindo nesse ritmo, o homem irá atrofiar todos os seus membros exceto o dedo para pressionar o botão".

"Olhar o corte transversal do mapa de uma grande cidade é como olhar a secção de um tumor fibroso".
(Frank Lloyd Wright, arquiteto americano, 1867-1959).


"O brilho da civilização nos cegou a tal ponto no que tange a compreensão de verdades interiores que as coisas, que durante muito tempo acreditamos que, à medida que a civilização progredia, a qualidade da estirpe humana encarregada na sua construção também progrediu. Em outras palavras, imaginamos que vimos uma raça melhor, enquanto que tudo o que realmente vimos foi uma raça expressando-se sob melhores condições. Uma perigosa ilusão isso!"
(Lothrop Stoddard, politólogo, historiador, periodista, eugenista, antropólogo e estudioso americano do Islão, 1883-1950).

"A civilização moderna aparece na História como uma verdadeira anomalia. Entre todas que conhecemos, é a única que se desenvolveu num sentido puramente material". 
(René Guénon, matemático, esoterista e filósofo francês, 1886-1951).

"Repete-se insistentemente que a civilização é a causadora da degeneração das raças, por transformar as características de domesticação em características de degeneração, conservando-se nessa forma variantes extremas que se teriam eliminado por seleção natural. Tal decadência é, em certa medida, de origem hereditária, pois os esforços da higiene e da medicina conservaram progenitores cujas condições biológicas são de má qualidade para a geração, debilitando-se a raça pela sobrevivência de tais reprodutores".
(Coronel Antonio Vallejo-Nájera, médico, militar, eugenista e psiquiatra espanhol, 1889-1960).

"A longo prazo, podemos descobrir que a comida enlatada é uma arma mais mortal do que a metralhadora".
(George Orwell, escritor inglês, 1903-1950).

"Qualquer um pode ser um bárbaro; mas requer um tremendo esforço permanecer um homem civilizado".
(Leonard Sidney Woolf, autor judeu-britânico e esposo da escritora Virginia Woolf, 1880-1969).

"Diga, antes, que a culpa é da civilização. Deus não é compatível com as máquinas, a medicina científica e a felicidade universal. É preciso escolher. Nossa civilização escolheu as máquinas, a medicina e a felicidade".

"O progresso tecnológico apenas nos forneceu meios mais eficientes para retroceder".

"Toda civilização é, entre outras coisas, um arranjo para domesticar as paixões e colocá-las a fazer um trabalho útil".

"A civilização é, entre outras coisas, o processo pelo qual os rebanhos primitivos são transformados num análogo, grosseiro e mecânico, das comunidades orgânicas dos insetos sociais".
(Aldous Huxley, escritor inglês, 1894-1963).

"A verdadeira liberdade está na selvageria, não na civilização".
(Charles Lindbergh, aviador, engenheiro e político americano, 1902-1974).

"A humanidade está adquirindo toda a tecnologia certa por toda as razões erradas".
(Richard Buckminster Fuller, arquiteto, inventor e designer americano, 1895-1983).


"A civilização existe por consentimento geológico, sujeito a mudanças sem aviso prévio".

"A civilização nasce com a ordem, cresce com a liberdade e morre no caos".

"Toda civilização é um fruto da árvore robusta da barbárie, e cai na maior distância do tronco".
(Will Durant, filósofo e historiador americano, 1885-1981).

"A civilização, clemente com os genes defeituosos, provoca o surgimento do mal biológico. Geneticamente, estamos pagando muito alto o preço do progresso médico e social". 

"O fraco, como o velho, é um produto da civilização".
(Jean Rostand, biólogo e filósofo francês, 1894-1977).

"Estamos tão envoltos em racionalização e ocultação que não podemos apenas reconhecer os profundos impulsos primários que nos motivam".
(James Ramsey Ullman, escritor e alpinista americano, 1907-1971).

"A educação faz máquinas que agem como homens e produzem homens que agem como máquinas".

“A grande promessa de progresso ilimitado – a promessa de dominar a natureza, de abundância material, da maior felicidade para o maior número de gente, e a liberdade individual sem peias – manteve a fé e as esperanças de gerações após gerações desde o início da era industrial. Certamente, nossa civilização começou quando a espécie humana assumiu o domínio ativo da natureza de forma ativa; mas aquele domínio permaneceu limitado até o advento da era industrial. Com o progresso industrial, mediante a substituição da energia humana e animal pela energia mecânica e depois pela nuclear, e a mente humana pelo computador, percebeu-se que o homem podia tudo, caminhando para a produção ilimitada e, por conseguinte, de consumo ilimitado; que a técnica nos faria onipotentes; que a ciência nos faria oniscientes. Estava a caminho de se tornar deuses, seres supremos com o poder de criar um segundo mundo, utilizando o mundo natural apenas como matéria-prima para nossa nova criação.

Os homens, e, cada vez mais as mulheres, viveram um novo sentido de liberdade; tornaram-se senhores de suas próprias vidas: as amarras feudais foram rompidas e podia-se fazer o que quisesse, livre de qualquer entrave. Pelo menos se pensava assim. (...) Supunha-se que a realização de riquezas e comodidades para todos redundaria em irrestrita felicidade para todos. A trindade “produção ilimitada, liberdade absoluta e felicidade irrestrita” formava o núcleo de uma nova religião: o Progresso, e uma Nova Cidade do Progresso vinham substituir a Cidade de Deus. Não admira que essa nova religião nutrisse seus crentes de energia, vitalidade e esperança.

A grandiosidade da Grande Promessa, as fabulosas realizações materiais e intelectuais da época industrial devem ser encaradas a fim de se compreender o trauma que a percepção de seu fracasso está produzindo hoje. A época industrial, de fato, deixou de cumprir sua Grande Promessa, e cada vez mais se constitui o consenso de que:

- A satisfação irrestrita de todos os desejos não é conducente ao bem-estar, nem é a via para a felicidade ou mesmo para o máximo prazer.

- O sonho de sermos senhores independentes de nossas vidas terminou quando despertamos para o fato de que todos nos tornamos peças ínfimas da máquina burocrática, com nossos pensamentos, sentimentos e gostos manipulados pelo governo, pela indústria e pelas comunicações em massa que controlam tudo.

- O progresso econômico continuou restrito às nações ricas e o fosso entre nações ricas e pobres amplia-se cada vez mais.

- O próprio progresso tecnológico ensejou perigos ecológicos e riscos de guerra nuclear, cada um dos quais ou ambos os quais podem acabar com toda a civilização e possivelmente com toda a vida.

(...)

Na verdade, pensava-se que a máquina econômica era uma entidade autônoma, independente das necessidades e da vontade humana. Foi um sistema que decorreu naturalmente e de acordo com as suas próprias leis. (...) O desenvolvimento deste sistema econômico não era já determinado pela pergunta: ‘O que é bom para o homem?’, mas por uma outra: “O que é bom para o crescimento do sistema?”.

Tratava-se de ocultar o inflamado desse conflito supondo que o que era bom para o desenvolvimento do sistema (ou ainda para uma só grande empresa) também era bom para o povo. Essa interpretação se viu reforçada por uma interpretação subsidiária: que as qualidades mesmas que o sistema requeria dos seres humanos (egoísmo e avareza) eram inatas à natureza humana; por isso, não só o sistema, mas a própria natureza humana as fomentava; se supunha que as sociedades em que não existia o egoísmo e a avareza, eram 'primitivas', e seus habitantes eram como 'crianças'. As pessoas se negaram a reconhecer que estes traços que haviam dado o ser à sociedade industrial não eram impulsos naturais, mas produto das circunstâncias sociais. Não é menos importante este fator: a relação das pessoas com a natureza se tornou muito hostil... Nosso espírito hostil e de conquista nos cega ao fato de que os recursos naturais tem limites e podem se esgotar, e que a natureza lutará contra a rapacidade humana...

A necessidade de uma profunda mudança humana não só é uma demanda ética ou religiosa, nem só uma demanda psicológica que impõe a natureza patógena de nosso atual caráter social, mas é também uma condição para que sobreviva a espécie humana...

É possível que tenhamos perdido o mais forte de todos os instintos, o de conservação?"
(Erich Fromm, psicanalista americano de origem judeu-alemão, 1900-1980).

"A civilização é horrivelmente frágil...não há demasiado entre nós e os horrores de baixo, só uma camada de verniz"

"A tecnologia é uma coisa estranha: com uma mãe te traz grandes presentes, e com a outra te apunhala pelas costas".
(Charles P. Snow, químico e romancista inglês, 1905-1980).

"A quantidade de lazer real que uma sociedade desfruta tende a estar em proporção inversa à quantidade de maquinaria que economiza trabalho que emprega".

"O sistema da Natureza, do qual o homem é parte, tende a ser auto-equilibrado, auto-ajustável, auto-limpável. Com a tecnologia, não é assim".
(Ernst F. Schumacher, economista germano-britânico, 1911-1977).


"A distância entre a civilização e a barbárie é tão fina quanto o papel do tabaco".
(Antonio Robles, escritor espanhol, 1895-1983).

"Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente".
(Jiddu Krishnamurti, filósofo indiano, 1895-1986).

"O verdadeiro perigo não é que os computadores vão começar a pensar como homens, mas que os homens vão começar a pensar como computadores".
(Sydney J. Harris, periodista americano, 1917-1986).

"A sociedade ocidental aceitou como inquestionável um imperativo tecnológico que é tão arbitrário quanto o tabu mais primitivo: não apenas o dever de fomentar invenções e de criar constantemente novidades tecnológicas, mas também o dever de se render incondicionalmente a essas novidades, só porque elas são oferecidas, sem respeito às suas consequências humanas".

"O homem ainda tem, todavia, em seu interior, recursos suficientes para alterar a direção da civilização moderna, portanto, não devemos considerar o homem como a vítima passiva de seu próprio desenvolvimento tecnológico irreversível".
(Lewis Mumford, sociólogo e historiador americano, 1895-1990).

"A máquina não isola o homem dos grandes problemas da Natureza, mas mergulha-lo mais profundamente eles".
(Antoine Saint-Exupéry, aristocrata, aviador e escritor francês, 1900-1944).

"Lamento dizer que há muito sentido na piada de que a vida está extinta em outros planetas porque seus cientistas eram mais avançados do que os nossos".
(Dennis Gabor, físico húngaro, Premio Nobel por inventar a holografia, 1900-1979).

"Se continuarmos a desenvolver a nossa tecnologia, sem sabedoria ou prudência, nosso servo pode vir a ser o nosso carrasco".
(Omar Bradley, militar americano, 1893-1981).

"O mundo, em geral, está caminhado em uma direção cada vez mais devastadora para a meta absurda do extermínio – ou melhor, para ser mais exato – das cidades, campos e povos do hemisfério norte que desenvolveram nossa civilização".
(Alva Myrdal, diplomática, eugenista e socialdemocrata sueca, Premio Nobel da paz, 1902-1986).

"Em nossa civilização de consumidores ricos nós criamos casulos ao nosso redor e somos possuídos por nossas posses".
(Max A. Lerner, periodista americano, 1902-1992).


"A tecnologia é a habilidade de organizar o mundo de tal forma que não precisamos experimentá-lo".
(Max Frisch, escritor e arquiteto suíço, 1911-1991).

"A única esperança é que nossa civilização desmorone em certo ponto, como sempre acontece na História. Então, pela barbaridade, um renascimento".
(Pierre Schaeffer, compositor francês, 1910-1995).

"O progresso é a injustiça cometida por cada geração em relação aos seus predecessores".
(Emile M. Cioran, filósofo romeno, 1911-1995).

"O aspecto mais triste da vida agora é que a ciência reúne conhecimento mais rápido do que a sociedade reúne sabedoria".
(Isaac Asimov, escritor americano de origem judeu-bielorrusso, 1920-1992).

"A civilização é o processo em que se aumenta gradualmente o número de pessoas incluídas no termo ‘nós’ e, ao mesmo tempo, diminui aqueles no termo 'você’ ou 'eles', até que não haja mais ninguém nessa categoria".
(Howard Winters, arqueólogo americano, 1923-1994).

"A civilização é a arte de viver em cidades de tal tamanho que todos não conhecem todos os outros".
(Julian Jaynes, psicólogo americano, 1920-1997).

"As gerações nascidas nas mais monstruosas aglomerações humanas, como Nova Iorque, Londres, Paris ou, por que não, Madri, começam a gerar um alto número de jovens inadaptados, sujos, melancólicos, sujos, irascíveis, toxicômanos e com uma expressiva sintomatologia psíquica muito parecida à do animal de experimentação arrancado prematuramente de seu biotipo e enjaulado".

"A entrada do neolítico é a do abuso e da subjugação, e nela seguimos, inadaptados".
(Félix Rodríguez de la Fuente, médico e ambientalista espanhol, 1928-1980).

"Nós criamos uma civilização global em que a maioria dos elementos cruciais dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara".
(Carl E. Sagan, cientista americano, 1934-1996).

"O progresso é a capacidade do homem para complicar simplicidade".
(Thor Heyerdahl, biólogo marinho e explorador norueguês).

"Nossa sociedade se dirige mais e mais rumo ao consumismo desnecessário. É um círculo vicioso que eu comparo com o câncer... Deveríamos eliminar o sofrimento e as enfermidades? A ideia é bonita, mas quiçá não seja benéfico a longo prazo. Não deveríamos deixar que nosso horror pela enfermidade ponha em perigo o futuro de nossa espécie".
(Jacques Cousteau, oficial naval e explorador francês, 1910-1997).

"Não viestes à terra para por diques e ordem na maravilhosa desordem das coisas. Viestes para nomeá-las, para comungar com elas sem erguer cercas para sua glória".
(José Hierro, poeta espanhol, 1922-2002).

"A tecnologia é muito divertido, mas podemos afogar em nossa tecnologia. A névoa de informação pode expulsar conhecimento".
(Daniel J. Boorstin, historiador, advogado e professor americano de origem judeu-russo, 1914-2004).

"Estamos nos tornando servos, no pensamento e na ação, da máquina que criamos para nos servir".
(John Kenneth Galbraith, economista americano, 1908-2006).

"Se um aborígene redigisse um teste de QI, presumidamente toda a Civilização Ocidental se sairia mal".
(Stanley Garn, professor americano de antropologia física, 1922-2007).


"Os seres humanos serão mais felizes – não quando eles curarem o câncer ou chegar a Marte ou eliminar o preconceito racial ou liberar o Lago Erie, mas quando eles encontrarem maneiras de habitar as comunidades primitivas novamente. Essa é minha utopia".
(Kurt Vonnegut, escritor e veterano de guerra americano, 1922-2007).

"Quanto mais rapidamente progride uma civilização, mais rápido morre para que outra ascenda em seu lugar".
(Edward T. Hall, antropólogo americano, 1914-2009).

"O governo federal financiou uma pesquisa que produziu um tomate que é perfeito em todos os sentidos, exceto que não se pode comê-lo. Nós devemos fazer todo esforço para garantir que essa doença, não raro referida como 'progresso', não se espalhe".
(Andy Rooney, roteirista americano de radio e TV, 1919-).

"Com a civilização passamos do problema do homem das cavernas ao problema das cavernas do homem".
(Edgar Morin, filósofo e político judeu-francês de origem sefardita, 1921-).

"Nós podemos chegar ao ponto em que a única maneira de salvar o mundo será que a civilização industrializada entre em colapso"
(Maurice Strong, empresario canadense e ex-Secretario General da ONU, 1929-).

"Cada nova geração nascida, é na verdade, uma invasão da civilização por pequenos bárbaros, que devem ser civilizados antes que seja tarde demais".

"Se a batalha pela civilização se resumir aos fracotes versus os bárbaros, os bárbaros vão ganhar".
(Thomas Sowell, economista liberal americano, 1930-).

"Parece claro que a imagem hobbesiana, segundo a qual os seres humanos primitivos levavam uma vida 'solitária, pobre, desagradável, bestial e curta' (ideia que sustentavam muitos antropólogos do século XIX, e inclusive alguns do século XX), não responde em absoluto a uma descrição exata do estilo de vida caçador-coletor. Em realidade, como veremos, existem razões de preso para crer que na atualidade a vida humana moderna mostra, em média, muito poucas melhores em relação a de nossos antepassados primitivos".
(Bernard Grant Campbell, professor e antropólogo inglês1930).

"O progresso tem vindo a significar simplesmente mais poder, mais lucro, mais produtividade, mais prosperidade de papel, todos os quais são conversíveis em padrões preocupado apenas com o tamanho ou magnitude, em vez de qualidade ou a excelência".
(Alex Campbell, político canadense, 1933-).

"A fé mais central e irracional entre as pessoas é a fé na tecnologia e no crescimento econômico. Seus sacerdotes acreditam até a morte que a prosperidade material traz alegria e felicidade – embora todas as provas da história tenham mostrado que apenas a falta e a tentativa fazem uma vida digna de ser vivida, que a prosperidade material não traz nada além do desespero. Estes sacerdotes acreditam na tecnologia ainda quando se asfixiam em suas máscaras de gás".
(Pentti Linkola, pescador e ecofascista finlandês, 1932-).

"A civilização arruína o planeta do fundo do mar até a estratosfera”.
(Richard Bach, escritor e piloto americano, conhecido autor de "Fernão Capelo Gaivota", 1936-).

"Uma vez que a tecnologia te atropela, se não és parte da niveladora, és parte da rua".
(Steven Brand, militar, autor e editor americano, 1938-).

"A barbárie é o estado natural da humanidade. A civilização é antinatural. É um capricho das circunstâncias. E no final, a barbárie sempre triunfará!"

"Homens civilizados! Eles envenenam tudo à sua volta e definem isso como progresso!"
(Conan da Ciméria, personagem de ficção literária, por Robert E. Howard e Roy Thomas).

"Durante muito tempo, éramos simplesmente pessoas. Mas isso foi antes de começarmos a ter relações com sistemas mecânicos. Envolva-se com uma máquina e, mais cedo ou mais tarde, você será reduzido a um fator".
(Ellen Goodman, periodista judia-americana, 1941-).

"A Revolução Industrial e suas consequências foram um desastre para a raça humana".

"Desde o começo da civilização, as sociedades organizadas vêm oprimindo seres humanos em favor do funcionamento do organismo social. O tipo de pressão variou muito de uma sociedade para outra. Algumas foram físicas (parca alimentação, trabalho excessivo, poluição ambiental), outras psicológicas (ruído, massificação, ajustar o comportamento humano à sociedade). No passado, a natureza humana manteve-se constante, ou variou apenas em certos aspectos. Consequentemente, as sociedades foram capazes de controlar as pessoas até certos limites. Quando se ultrapassa o limite da resistência humana, as coisas começam a sair fora das engrenagens: há o incremento de rebeliões, crimes, corrupção, evasão do trabalho, taxa decrescente de nascimentos e daí em diante, de forma que a sociedade também colapsa, seu funcionamento se torna demasiado ineficiente ou é (rápida ou gradualmente) substituída por alguma outra forma mais eficiente de sociedade".
(Theodore Kaczynski, também conhecido como Unabomber, superdotado, matemático, professor de universidade e terrorista americano de origem polaca, escreveu "A sociedade industrial e seu futuro", também conhecido como "Manifesto Unabomber", 1942-).

"Os progressos da civilização facilitam as condições de existência e modificam também as leis de seleção biológica originais".

"Quanto mais consegue um grupo humano dominar e transformar as condições de sua área de vida pelo estabelecimento de uma cultura fiel à lei da vida, mais facilmente consegue o indivíduo se preservar e evitar a eliminação. As leis de seleção e eliminação, severas em sua origem, desaparecem pouco a pouco e se atenuam. Quanto mais envelhece uma cultura e alcança o estado das épocas civilizadas tardias, mais perde seu vigor. Ela produz, inclusive, o processo inverso. Indivíduos fracos e enfermos podem assim sobreviver e se reproduzir: tipos raciais diferentes se misturam. A lei criadora da espécie já não parece atuar (...) Quando a cultura apresenta já as características de uma ação civilizadora tardia, a 'seleção' por si mesma já se transformou em uma espantoda contrasseleção".
(Caderno SS Nº7, "O sentido biológico da seleção", 1942).

"A cultura nos levou a trair nosso próprio espírito aborígene e integridade, em troca de um mundo cada vez mais degradado de distanciamento sintético, isolador e empobrecedor. O que não quer dizer que não haja mais prazeres cotidianos, sem os quais perderíamos nossa humanidade. Mas à medida que nossa problemática situação se aprofunda, vislumbramos o quanto deve ser erradicado para a nossa redenção".
(John Zerzan, escritor americano de origem checa, 1943-)


"Hoje a programação é uma corrida entre os engenheiros de software para tentar construir maiores e melhores programas à prova de idiotas, e o Universo tentando produzir maiores e melhores idiotas. Até agora, o Universo está ganhando".
(Rick Cook, escritor americano, 1944-).

"Os esforços modernos nos campos da educação e do treinamento são similares a tentar conseguir que o motor do velho automóvel Modelo T seja capaz de alcançar as 200m/h simplesmente colocando nele um melhor óleo de motor e gasolina de octanagem maior. Se poderia dizer que a civilização realmente desgasta o motor e que quando suas partes são desgastadas, se substituem por metal menos robusto, até que finalmente, o motor é incapaz de funcionar".
(David Duke, político e escritor americano, 1950-).

"A tecnologia corrói o caráter humano. Nos separa da natureza, que diminui o nosso ser natural. Fora do contato com a natureza, nos comportamos egoisticamente, estupidamente. Nos tornamos consumidores em vez de receptores. Nos tornamos artificiais. Levado ao extremo, nos comportamos como máquinas. A tecnologia nos faz gananciosos, infelizes, impacientes, insensíveis e cheios de arrogância".
(Kevin Kelly, editor e escritor americano, 1952-).

"Todas as maiores invenções tecnológicas criadas pelo homem – o avião, o automóvel, o computador – dizem pouco sobre sua inteligência, mas falam bastante sobre sua preguiça".
(Mark Kennedy, homem de negócios e político americano, 1957-).

"Talvez a preocupação com o progresso tecnológico tenha ofuscado nossa preocupação com o progresso humano".
(Wynton Marsalis, trompetista americano de jazz, 1961-).

"O 'trem de vida' dos guerreiros e das primeiras hordas primitivas se foi apaziguando. Começam a se gestar as primeiras civilizações sedentárias e isso acarreta, ainda que relativamente, uma menor aspereza e brutalidade na luta pela existência; paralelamente os maus genes antes eliminados de maneira expeditiva pelas mesmas condições do meio, começam a se manifestar cada vez com menos travas, se convertem em um perigo latente"
(E. Aynat, "A eugenia: breves notas históricas").

"A tecnologia possibilita que as pessoas tenham controle sobre tudo, exceto sobre a tecnologia".
(John Tudor).

"Civilização: um fino verniz cobrindo o barbarismo"
(John M. Shanahan, escritor americano).

"Me choca a tendência insidiosa, computadorizada, de tirar as coisas do domínio da atividade muscular e colocá-las no domínio da atividade mental. Essa transferência não está compensando. Claro, os músculos não são confiáveis, mas representam vários milhões de anos de finura acumulada".
(Brian Eno, compositor inglês de música eletrônica, 1948-).

"Nós somos todos prisioneiros, e a maioria de nós tem sido desde a introdução da agricultura – em algum ponto na Idade de Pedra".
(Varg Vikernes, músico e compositor norueguês, 1973-).

"Como o clube de luta faz com trabalhadores de escritório e office boys, o projeto Mayhem destruirá a civilização para que possamos fazer do mundo algo melhor. (...) Este era o objetivo do projeto Mayhem, disse Tyler, a completa e imediata destruição da civilização"
(Tyler Durden, personagem de ficção literária no romance "Clube da Luta", de Chuck Palahniuk).

"Rejeite os pressupostos básicos da civilização, especialmente a importância das posses materiais".

"Imagine (...) você, caçando alces nas florestas úmidas do cânion formado pelas ruínas do Rockfeller Center (...) Você vai usar roupas de couro que vão durar a vida toda e escalar as trepadeiras grossas como um pulso enroladas na Sears Tower. Como João e o pé de feijão, você vai atravessar a copa das árvores e o ar será tão limpo que verá pessoinhas batendo milho e estendendo tiras de carne de veado para secar nos acostamentos vazios de uma autoestrada com oito pistas e milhares de quilômetros de extensão".
(Tyler Durden no filme "Clube da Luta", de David Finch).



NOTAS

[1] Essa palavra procede do latim hybrida, do qual procede por sua vez a palavra "hibridar", isto é, cruzar duas variedades.

sábado, 26 de novembro de 2016

Andrea Virga - Geração Donbass

por Andrea Virga



No rio de infantis banalidades arrojadas pelos gurus do pensamento único liberal-progressista, que resultam francamente ofensivas, sem levar em conta sua opinião, para qualquer pessoa com um mínimo de inteligência, a pior dessas banalidades é, quiçá, a do mito da chamada "Geração Erasmus", anunciada e enfurecida como se fosse um dos diversos e com que os apátridas tentam preencher o vazio de suas almas. Um culto que agora tem seus mártires: desde os frequentadores do Bataclam às estudantes mortas no acidente de ônibus em Tarragona (e ninguém se importa com o motorista sexagenário obrigado a trabalhar turnos esgotadores por uns poucos euros).

Os muezzins progressistas chamam à oração, Saverio Tommasi e Roberto Saviano à frente, e os salafistas dos gizes coloridos respondem: há uns 2 dias (juro!), vi exibida com orgulho no facebook uma tese de doutorado dedicada a Giulio Regeni e a Valeria Solesin. É objetivamente surpreendente como pessoas formalmente equipadas com conhecimentos especializados (bachareis, doutores, investigadores) podem adotar acriticamente essa mistura de coletivismo individualista e cosmopolita, que nega qualquer diferença para afirmar somente uma massa de átomos humanos desenraizados e nômades, feliz de ser forçado pelo peristaltismo do Capital a se mover constantemente para trabalhar, estritamente mal pagos e sem garantias, não importando onde e como.

Não obstante, aqui, como em todas as mentiras, há um núcleo positivo: "caminhos da Europa, cansados, sujos, mas felizes" cantava uma nossa velha canção. Claro, não é uma novidade: precisamos lembrar que Codreanu estudou em Weimar, Jena e Genebra? Que a Falange Espanhola tinha uma seção em Milão já em 1935? Que Lênin e o jovem Mussolini passaram muito tempo na Suíça? Agora, não obstante, se poderia dizer, é muito mais fácil: uma moeda comum, nem visto, nem passaporte, passagens de avião baratas; com umas centenas de euros se gira pela Europa.

Os horrendos carniceiros de Marne e da Polônia já haviam ensinado a nossos avós a sangrente inutilidade do chauvinismo fratricida, impulsionado pelo provincialismo burguês em benefício dos barões do carvão e do aço. "No more brother wars" era a palavra de ordem a partir de 1945. Segue sendo a mesma, para os que bem sabem que Erasmo era um holandês "bárbaro" que tratava de teologia dogmática e direito romano em latim e grego clássicos, e não um semestre de alcoolismo, maconha e putaria. E então é justo recordar que existe hoje outra geração de jovens europeus, que viaja levando suas próprias raízes no coração, para conhecer e amar à grande Mãe da qual sua pequena pátria não é mais que uma peça: a Europa de cinco mil anos de história, da qual a sexagenária UE é só uma paródia.

O autor, como simples exemplo nada excepcional, viveu pelo menos dois meses em Dresden, Lyon, Berlim, Madri: 21 meses no estrangeiro com várias bolsas, sem a necessidade de programas Erasmus. Bebeu da fonte Castalia de Delfos e se banhou nos lagos alpinos. Foi de carona até a tumba de Nietzsche nas planícies da Saxônia e entrou nas catacumbas abaixo de Paris. Rezou sob a Cruz no Vale dos Caídos e saudou à loba romana na costa do Mar Negro. Ele escreveu poemas para Jan Palach e rendeu homenagem aos soldados do Exército Vermelho em Treptower Park.

Pulsou seu coração em uníssono com os tambores da Guarda Real britânica e do Tercio espanhol. Admirou ao vivo as armas de nossos antepassados: as armaduras dos hussardos alados de Jan Sobieski e as espadas de ferro da antiga Micenas, as armaduras equestres de Carlos V e os caças da Luftwaffe. Bebeu cerveja com jovens patriotas nas vielas da parte antiga de Lyon e marchou para a Revolução no primeiro de maio em Kreuzberg. Desceu pelas ruas com bandeiras dos povos atacados e marchou com tochas e a Tricolor em memória dos caídos. Cruzou antebraço com os que haviam abandonado seus lares para lutar no Donbass, junto a seus irmãos da Eurásia.

Essa é a geração a que pertencemos, que apesar de tudo e todo, não nos resignamos ao pensamento único liberal-democrata, aos defensores do politicamente correto baixados de cima para baixo para justificar o capital-consumismo pós-moderno da atualidade, como se fosse o melhor dos mundos possíveis. E a luta contra a opressão da junta de serviço atlantista ucraniana conduzida pelas populações de Donetsk e Lugansk com o apoio de voluntários europeus e eurasiáticos, é um dos casos mais próximos e evidentes dessa resistência.

Isso se aplica aos que foram lutar em pessoa, mas também para aqueles que apoiam essa luta com artigos ou demonstrações de solidariedade; para aqueles que viajam a Europa saboreando a diversidade de tradições locais e evitando McDonald's e Starbucks como se tratasse da peste; para os que, obrigados a emigrar, não se esquecem de sua própria terra e de seu próprio sangue. Somos nós, irredutíveis aos modelos semicultos ocidentais, a Geração Donbass.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Eric Toussaint & Maud Bailly - A Reestruturação, Auditoria, Suspensão e Abolição da Dívida

Entrevista com Eric Toussaint por Maud Bailly



Eric Toussaint é um historiador e cientista político com Ph.D. das universidades de Paris VIII e Liège. Ele é o Representante da CADTM Internacional onde ele tem sido ativo por muitos anos nas lutas pela abolição das dívidas dos países meridionais e das dívidas ilegítimas dos países setentrionais. Ele foi membro do comitê de auditoria da dívida do Equador criado em 2007 pelo presidente Rafael Correa e durante o mesmo ano aonselhou o presidente equatoriano e o ministro de finanças sobre a criação do Banco do Sul. Ele também aconselhou o secretariado da ONU sobre o mesmo assunto em 2008. No mesmo ano Fernando Lugo, presidente do Paraguai, convocou sua experiência para lançar uma auditoria na dívida pública de seu país.

Ele apoia e está envolvido nas diferenças iniciativas para auditorias populares da dívida na Grécia, Portugal, Espanha, França e Bélgica. Em 2011 ele foi consultado pela CPI da Dívida no Brasil e em 2013 pela Comissão Econômica Senatorial do Brasil. Em 2012 e 2013 ele participou, com Alexis Tsipras, presidente do Syriza, de discussões sobre a dívida grega. Em novembro de 2014, ele foi um convidado da maioria presidencial no Congresso argentino, ávido por dar início ao processo de auditoria garantido pela lei de "pagamentos soberanos" adotada em setembro de 2014. Desde abril de 2015, Eric Toussaint é o coordenador científico do Comitê da Verdade sobre a Dívida Pública Grega criado pelo presidente do Parlamento helênico. Eric Toussaint é o autor de várias obras de referência sobre os problemas da dúvida e sobre as Instituições Financeiras Internacionais e editou dois manuais populares sobre a dívida. Sua última obra em inglês, Bancocracia, aparecerá em julho de 2015.

Segundo Eric Toussaint, a reestruturação da dívida sempre foi o resultado de cálculo econômico e geopolítico, raramente produzindo um resultado favorável a longo prazo para os devedores; a não ser que os credores vissem uma vantagem estratégica para eles nisso. A "reestruturação" soberana da dívida, como ela é agora chamada pelo FMI, pelo Clube de Paris e pelas grandes corporações bancárias, e mais recentemente pela esquerda na Grécia, Portugal e Espanha, não é uma expressão satisfatória, na verdade usar o termo "reestruturação" é perigoso, porque os credores o carregaram com o que eles querem que o termo signifique. O representante da CADTM Internacional recomenda que governos progressistas ponham grande ênfase em realizar amplas auditorias da dívida (com participação popular), associadas onde necessário a suspensão de pagamentos. Essa auditoria deve levar à abolição da parte da dívida que seja ilegal, ilegítima, odiosa e/ou insustentável e a impor uma redução no montante do restante. Este restante pode ser reestruturado, mas de nenhuma maneira uma reestruturação pode ser considerada, por si mesma, suficiente.

P: Assim, o que é "reestruturação" da dívida?


R: Segundo definições vistas em documentos oficiais publicados pelo FMI [1] e pelo Clube de Paris, uma reestruturação de dívida soberana pressupõe, na vasta maioria dos casos, trocar um conjunto de dívidas por um novo conjunto de dívidas ou liquidezes em minúsculas quantidades. Em geral, uma reestruturação de dívida é o resultado de negociações entre países devedores e diferentes tipos de credores.


A reestruturação de uma dívida soberana pode assumir uma de duas formas principais: [2]

1 - Uma nova agenda de pagamentos: pela redução das taxas de juros de modo a reduzir o nível de repagamentos e/ou prolongar o período de repagamento;

2 - A reestruturação pode incluir uma redução da quantidade de dívida (pela renúncia de somas devidas). Na maioria das vezes trata-se de velhas obrigações ou contratos que são substituídos por novos. Uma redução de dívida pode ser implementada por uma recompra de obrigações com liquidezes disponíveis.

Uma recompra de dívida é algo raro. Aproximadamente 600 reestruturações ocorreram entre 1950 e 2012, mas apenas 26 envolveram recompras com liquidezes. Essa é uma pequena minoria de reestruturações as quais, de modo geral, estavam ligadas a acordos HIPC nos quais uma parte dos credores de um país eram reembolsados pelos outros credores. [3]

Dívidas soberanas são reestruturadas em épocas de crise, geralmente após uma situação de inadimplência de repagamento, ou em uma situação de verdadeiro perigo de inadimplência (suspensão total ou parcial de pagamentos). Quando o FMI, o Clube de Paris ou a Troika interferem para organizar uma reestruturação da dívida sua primeira consideração é recriar uma situação de dívida solvível em um país suavizando o fardo dos repagamentos. Muito comumente, em troca da reestruturação eles impõem condições que correm contra o interesse do país endividado e seu povo. [4] Ademais, as estratégias geopolíticas do credor desempenham um papel decisivo na escolha de que países podem se qualificar para a reestruturação de sua dívida e as condições que são impostas em retorno.

P: Já houve alguma vez reestruturação por credores que foi benéfica, a longo prazo para devedores?


R: Sim, há o caso particular da Alemanha. [5] Em uma conferência realizada em Londres em 1953, os credores da Alemanha Ocidental, EUA, Reino Unido, França, Bélgica e Holanda, [6] concordaram com uma importante redução da enorme dívida da Alemanha. Quantias tomadas emprestado entre as guerras e imediatamente depois foram reduzidas em 62.5%. Uma moratória de cinco anos também foi concedida e reivindicações de dívidas e danos de guerra, causados pela invasão e ocupação nazista, foram adiados sine die. É estimado que a dívida total reivindicada pelas potências aliadas da Alemanha foi reduzida em 90%. [7] Além disso, os termos de repagamento para o remanescente foram reestruturados para permitir à Alemanha se reconstruir e reconstruir sua economia rapidamente.


P: Quais foram estes termos favoráveis?


R: 1 - A Alemanha foi capaz de repagar a maior parte de sua dívida em sua própria moeda, apesar do marco alemão ter pouco valor. Como um país derrotado e destruído, o dinheiro da Alemanha era considerado como de pouco interesse nos mercados de câmbio. O marco alemão não era nem uma moeda segura, nem uma moeda forte. Essa possibilidade foi bastante benéfica. Deve ser apontado que é muito raro que credores aceitem que um país repague em sua própria moeda se esta for uma moeda fraca. [8] Normalmente demanda-se moeda forte (euro, dólar, libra, iene, etc.)


2 - Os países credores prometeram comprar bens alemães para poder criar um mercado de exportação que, por sua vez, produzisse renda comercial, reservas de câmbio e uma boa balança de pagamentos.

3 - Os credores aceitaram que, em caso de litígio com a Alemanha, cortes alemães seriam as competentes.

4 - Foi decidido que a Alemanha não usaria mais que 5% de sua receita de exportação para repagar dívida.

5 - Taxas de juros não seriam maiores que 5% e, em alguns casos, poderiam ser renegociadas e revisadas para baixo.

Essas condições permitiram que a Alemanha se erguesse rapidamente a partir dos escombros. Devemos ter consciência de que os Acordos de Londres só diziam respeito ao que era, à época, a Alemanha Ocidental. O país foi dividido em Alemanha Oriental (República Democrática Alemã - RDA) alinhada com o bloco soviético, e Alemanha Ocidental (República Federal da Alemanha - RFA) alinhada com o Ocidente. Se os credores da Alemanha Ocidental fizeram tamanhas concessões foi porque, no contexto da Guerra Fria com a URSS, eles precisavam de uma Alemanha estável. Eles temiam que se grandes movimentos sociais surgissem em uma Alemanha abalada isso seria uma ameaça a seus interesses. Também, eles não queriam cometer o mesmo erro cometido no Tratado de Versalhes em 1919 que impôs condições insustentáveis sobre a Alemanha. [9] Finalmente, não deve ser esquecido que desde o fim do século XIX, a Alemanha havia se tornado a força militar e econômica mais poderosa na Europa.

Para resumir, não só o fardo da dívida foi bastante aliviado e bastante ajuda econômica foi concedida à Alemanha (o equivalente a 10 bilhões de dólares americanos foi canalizado para a Alemanha Ocidental através do Plano Marshall entre 1948 e 1952 [10]), mas especialmente, o país teve permissão para empregar uma política econômica que favorecia seu crescimento. As grandes corporações industriais foram consolidadas, incluindo as mesmas que haviam desempenhado papeis fundamentais na aventura militar da Primeira Guerra Mundial e haviam apoiado os nazistas e o genocídio de judeus e ciganos, o saque dos países ocupados e anexados e o enorme esforço logístico e de produção militar da Segunda Guerra Mundial. A Alemanha foi capaz de construir uma infraestrutura pública impressionante; o país apoiava suas indústrias para satisfazer a demanda interna e conquistar mercados estrangeiros.

As condições nas quais a dívida da Alemanha Ocidental foi abolida são claramente difíceis de imaginar hoje. Seria muito difícil para países como Grécia, Chipre, Espanha e Portugal obter, por meio de um processo de reestruturação de dívida, condições similares às concedidas à Alemanha na década de 50. Pareceria impossível por causa da composição e políticas de autoridades europeias, dos governos dos países europeus mais fortes, das políticas do FMI e do contexto atual.

P: Que exemplos há, além dos da Alemanha Ocidental, de reestruturação de dívida favorável aos devedores?


R: Outro caso de reestruturação de dívida favorável foi o da Polônia em 1991. O país recebeu uma grande redução, de aproximadamente 50% de sua dívida bilateral aos credores do Clube de Paris. Eles queriam ajudar o governo pró-ocidental de Lech Walesa que havia acabado de sair do Pacto de Varsóvia, a aliança militar entre países do bloco soviético. Essa redução de dívida foi certamente menos significativa que a concedida à Alemanha Ocidental em 1953, mas o contexto era razoavelmente parecido. A Polônia foi um dos países mais importantes a passar ao lado ocidental, adotando as medidas econômicas neoliberais e políticas de privatização demandadas, que levaram a Polônia a se unir à UE poucos anos depois.


Foi durante a mesma cúpula de G7 em Londres de 1991 que o Egito recebeu uma redução de 50% de sua dívida bilateral com membros do Clube de Paris. Os EUA e seus aliados estavam querendo apoio para sua primeira Guerra do Golfo do presidente egípcio Mubarak.

Podemos relembrar que o Iraque, também, se beneficiou de uma redução de dívida em 2004, [11] após os EUA e seus aliados invadirem o país em 20 de março de 2003. Poucos dias depois o Secretário do Tesouro dos EUA convidou seus análogos do G7 a um encontro em Washington, no qual ele declarou a dívida incorrida por Saddam Hussein como odiosa. Ele pressionou os credores do Iraque a conceder uma grande redução de dívida, de modo que as novas autoridades apontadas pelos ocupantes pudessem reconstruir rapidamente o país. Os credires bilaterais principais do Iraque reduziram suas demandas em 80%, os outros credores (privados, Banco Mundial e FMI) se seguiram.

P: Quais são as similaridades e diferenças entre os casos acima?


R: O que estes exemplos tem em comum é que eles todos ocorreram em situações de conflito armado ou tensão extrema entre blocos. Isso trouxe a potência hegemônica, neste caso os EUA, a conseguir que seus parceiros concordassem com uma significativa redução de dívida, servindo assim a seus interesses estratégicos. Não obstante, o acordo de 1953 em favor da Alemanha é um caso excepcional: as condições postas em lugar realmente objetivavam transformar um país em uma potência mundial novamente. Enquanto os outros países foram agraciados por sua lealdade, o objetivo não era criar potências econômicas. Os gestos feitos frente a estes países são comparáveis ao tratamento que senhores medievais poderiam ter reservado a Estados vassalos fieis.


P: Já houve casos em que Estados que tiveram suas dívidas reestruturadas não continuaram a expressar lealdade?


R: Só sei de um caso que não resultou no que os credores haviam planejado. Este foi o caso da Bolívia que, em 2005, se beneficiou de uma redução de sua dívida multilateral dentro do esquema da MDRI (Iniciativa de Alívio de Dívida Multilateral) criado pelo G8, pelo Banco Mundial, pelo FMI e outros prestamistas multilaterais, como prolongamento da iniciativa HIPC (Países Pobres Altamente Endividados). Aqui também, os prestamistas pensavam estar lidando com as autoridades de um país dócil. A Bolívia havia sido exposta à "estratégia de choque" em 1985, na forma de um impenso programa de privatização planejado com a colaboração ativa do FMI, do Banco Mundial, do Clube de Paris e dos EUA. Após 12 anos de políticas de ajuste estrutural a economia boliviana estava de joelhos. Assim ela foi aceita na iniciativa HIPC. A Bolívia concordou com continuar o programa de ajuste estrutural e em retorno recebeu alívio de dívida. [12] Porém, Evo Morales, que não era parte da elite dócil, foi eleito como candidato do partido MAS (Movimento ao Socialismo). Quando isso ocorreu, o alívio da dívida já havia sido concedido e era tarde demais para os credores recuarem.


Essa reestruturação foi, neste caso, benéfica para o país e sua população. Ao mesmo tempo que a redução de dívida aconteceu, o governo inverteu sua política econômica e se recusou a atender às medidas impostas pelos credores. Isso é importante, porque muitos países que obtiveram alívio de dívida comparável continuaram com mais 5 ou 10 anos de políticas de ajuste estrutural e as economias e as populações não se beneficiaram. Observe que sempre que os credores concederam alívio de dívida significativo foi em seu interesse estratégico fazê-lo.

P: E a Argentina? Após a maior suspensão de pagamentos na história, em 2001 o governo argentino renegociou sua dívida soberana. Quais foram as condições?


R: Sim! Em 2005 e 2010 a dívida argentina foi reestruturada através de uma troca de títulos: títulos velhos foram trocados por novos. Foi essa a situação: em dezembro de 2001, as autoridades argentinas, sob o presidente interino Adolfo Rodríguez Saá, suspendeu unilateralmente os repagamentos da dívida em um total de 80 bilhões de dólares para credores privados e o Clube de Paris (6.5 bilhões de dólares). Observe que eles não suspenderam os pagamentos a organismos multilaterais como o Banco Mundial, o FMI e outros. Essa ação foi tomada em uma situação de crise econômica e revolta popular contra as políticas que foram seguidas por anos por sucessivos governos neoliberais, dos quais Fernando de la Rua foi o mais recente. Foi assim, sob pressão das ruas em uma época em que o tesouro estava vazio, que as autoridades argentinas suspenderam os repagamentos da dívida.


A suspensão argentina de pagamentos de títulos da dívida soberana durou de dezembro de 2001 a março de 2005. Isso foi benéfico para a população e economia argentinas. Entre 2003 e 2009, o crescimento econômico argentino foi entre 7% e 9%. Alguns economistas afirmam que este crescimento se deveu ao aumento de preços nas exportações de matéria-prima da Argentina, mas é claro que se a Argentina tivesse continuado pagando sua dívida, a renda aumentada das exportações (em outras palavras, os impostos cobrados sobre empresas de exportação) teria sido utilizada para repagamentos de dívida.

Entre 2002 e 2005 as autoridades argentinas negociaram com seus credores para convencer uma maioria deles a concordarem com trocar os títulos que eles tinham por novos, reduzidos em 60%, mas com uma garantia mais forte e uma taxa de juros favorável indexada pelo crescimento do PIB argentino. Essa foi uma reestruturação da dívida por troca de títulos: até março de 2005, 76% dos títulos haviam sido trocados, uma maioria que foi considerada proteção suficiente contra os 24% que recusaram a troca. As autoridades anunciaram, à época, que aqueles que recusassem a troca não teriam outra ocasião para negociar.

P: Então, por que a Argentina reestruturou sua dívida de novo, em 2010?


R: De fato, em contradição com declarações prévias e apesar dos protestos de Roberto Lavagna, o Ministro da Economia que havia participado nas negociações de 2005, o governo argentino abriu uma nova fase de negociações com os outros 24% dos credores. Um novo acordo foi alcançado com 67% daqueles 24% em 2010. Ao todo, 8% de todos os títulos cujo pagamento havia sido suspenso desde 2001 "sobraram" contra ambos acordos. Ambos acordos continham cláusulas estipulando que em caso de litígio envolvendo as novas questões, cortes americanas seriam a jurisdição competente. [13]


P: No fim das contas, essa reestruturação pode ser considerada um sucesso? Outros governos podem seguir a estratégia argentina?


R: As autoridades argentinas afirmam sucesso por causa da redução em 50-60% da dívida. Mas, em retorno, foram feitas grandes concessões: altas taxas de juros; indexação ao crescimento do PIB argentino, o que significa que na prática o governo concordou em entregar parte dos lucros do crescimento aos credores; renúncia a soberania em caso de litígio.


Na verdade, o exemplo argentino não deve ser seguido, mas ele é uma possível fonte de inspiração. Ele mostra o interesse em suspender pagamentos e os limites de um acordo negociado que dá grandes concessões aos credores. A situação atual é evidência suficiente. Primeiro, as quantias efetivamente reembolsadas aos credores são consideráveis; a própria Argentina reconhece que ela reembolsou 190 bilhões de dólares desde 2003; segundo, apesar de a dívida argentina ter sido certamente menor entre 2005 e 2010, hoje a quantidade de dívida argentina é maior do que era em 2001. Terceiro, a Argentina está sob forte pressão para reembolsar os fundos abutres que se recusaram a aceitar as ofertas de troca, após não só um juiz nova iorquino, mas a Suprema Corte dos EUA decidir a favor dos fundos abutre. [14]

P: A dívida pública do Equador não foi reduzida em 2009 após a auditoria de 2007-2008? Isso pode ser chamado de "reestruturação"?


R: Não, no caso do Equador não se tratou de uma reestruturação genuína. [15] Não houve troca de títulos, especialmente já que não houve negociação com credores. Isso foi uma coisa muito boa. Títulos antigos não foram substituídos por títulos novos. O Equador suspendeu unilateralmente o repagamento de sua dívida pública e disse a credores privados em posse dos títulos, chamados bônus Global 2012-2030, [16] que eles seriam recomprados com um corte de 65% e a prazo fixo. Esses títulos não existem mais. O Equador não reestruturou sua dívida: ele nunca negociou taxas de juros ou reagendamento de repagamentos de novos títulos com seus credores.

O Equador combinou isso com uma auditoria integral de sua dívida pública, que precedeu sua suspensamento de repagamento. Em julho de 2007 uma Comissão para uma auditoria integral, na qual participei, foi criada. Ela trabalhou até setembro de 2008, ou seja, por 14 meses, durante os quais houve diálogo constante entre governo e os membros da comissão. Eles submeteram suas recomendações ao governo e ao presidente. Com base nisso, o poder executivo do Equador decidiu suspender o repagamento de parte de sua dívida, como explicado acima. Apenas depois, em 2009, ele forçou os credores a aceitarem um corte significativo.

Alguns números: O Tesouro Público do Equador comprou títulos que valiam 3.2 bilhões de dólares por menos de 1 bilhão de dólares. Ele economizou, assim, 2.2 bilhões de dólares do principal de sua dívida, ao qual deve-se acrescentar 300 milhões de dólares em juros anuais para 2008-2030. Ao todo, o Equador economizou mais de 7 bilhões de dólares. Isso libertou novos recursos financeiros para o governo aumentar seus gastos sociais nos campos da saúde, educação, assistência social e no desenvolvimento de infraestrutura de comunicação.

P: Podemos dizer que essa abordagem é mais benéfica do que a escolhida pela Argentina?

R: Claramente sim. Pode-se, também, imaginar se a posição determinada do Equador impediu o país de conseguir acesso renovado aos mercados financeiros. A resposta é não. Enquanto em 2009, o Equador forçava seus credores a aceitarem a redução que acabei de mencionar, apenas 5 anos depois, o país lançava novos títulos nos mercados financeiros, a uma taxa de juros de 7%, abaixo da taxa paga pela Argentina ou pela Venezuela (a Venezuela tem pago regularmente suas dívidas desde 1990 a taxas que variam entre 12 e 15%). Isso mostra que posições radicais não fecham necessariamente o acesso a recursos financeiros. 

Assim, no caso do Equador, podemos dizer que houve um ato soberano unilateral suspendendo o repagamento e recomprando dívida sem negociação, combinado com uma auditoria da dívida que foi mais benéfica para a população.

P: E quanto à Islândia após o colapso do sistema bancário em 2008?

R: No caso da Islândia, não houve reestruturação também. O que aconteceu? O sistema bancário privado da Islândia entrou em colapso em 2008, por causa de suas aventuras financeiras fraudulentas. No papel, o valor dos bancos islandeses equivalia a mais de dez vezes a produção anual de riqueza da Islândia! Os bancos haviam crescido fora de toda proporção, como na Irlanda ou na Bélgica ao mesmo tempo. Após o colapso do sistema bancário, o governo islandês não pagou o que era devido àquelas instituições bancárias privadas e se recusou a pagar os 3.5 bilhões de euros que o Reino Unido e a Holanda demandavam para equilibrar as compensações que eles tiveram que pagar a seus cidadãos que tinham dinheiro naqueles bancos. Deve ser enfatizado que essa medida foi tomada sob pressão popular: a mobilização social foi bastante poderosa e teve sucesso em influenciar as intenções do governo do país em várias ocasiões. Dois referendos foram organizados, também graças a pressão popular. No primeiro, mais de 90% votou contra compensar o Reino Unido e a Holanda. [17] Negociações resultaram em um novo plano de compensação, que foi novamente derrubado por 2/3 dos eleitores em um segundo referendo. Essa recusa de compensar foi combinada com outra medida forte tomada pelo governo, nomeadamente um controle estrito sobre fluxos de capital. [18] De fato, como resposta a uma situação de crise na qual o país era ameaçado com evasão massiva de capital por grandes corporações nacionais e estrangeiras, o governo islandês proibiu transferências de capitais. É notável que o FMI, neste caso, deu as costas a sua posição usual e até apoiou essas medidas!

Essas várias medidas foram benéficas para a Islândia, cuja economia se recuperou muito mais rápido do que em países europeus que utilizaram outra abordagem, como a Irlanda e a Grécia, que resgataram seu setor bancário privado, aceitaram empréstimos da Troika, bem como uma reestruturação de suas dívidas, e pagaram seus credores.

É interessante acrescentar que no caso da Islândia em janeiro de 2013, a Corte de Justiça dos Estados Associados para o Livre-Comércio Europeu (mais comumente conhecida como Corte EFTA), que também inclui Liechtenstein, Noruega e Islândia, recusaram o pedido do Reino Unido e da Holanda de que a Islândia fosse ordenada a pagar a compensação pedida. A Corte de Justiça considerou que não havia elemento que pudesse compelir um governo a assumir os deveres de instituições privadas. Essa conclusão é importante de levar em conta já que ela pode fornecer jurisprudência para outras disputas. [19]

No caso da Islândia, não houve reestruturação de dívida também mas sim, repetimos, uma decisão soberana unilateral de não pagar a compensação demandada por duas potências econômicas muito mais fortes.

P: Em 2012, a Troika realizou uma reestruturação da dívida grega: o que deu errado?

R: O contexto foi o seguinte: desde o início de 2010, a Grécia foi sujeita a ataques especulativos pelos mercados financeiros que exigiam taxas de juros excessivamente altas para empréstimos rotativos. A Grécia estava prestes a declarar falência porque não conseguia refinanciar sua dívida a taxas razoáveis. A Troika interferiu com um memorando de ajuste estrutural. Ele concederia novos empréstimos para que a Grécia repagasse seus credores, ou seja, essencialmente os bancos privados europeus. [20] Aqueles novos empréstimos estavam acompanhados de medidas de austeridade que tiveram um impacto brutal, até desastroso, sobre as condições de vida da população e sobre a atividade econômica.

Em 2012, a Troika reestruturou a dívida grega devida apenas a credores privados, nomeadamente os bancos privados, dos países da UE, que já haviam majoritariamente sacado apesar de ainda possuírem algumas dívidas gregas, e outros credores privados como fundos de pensão de trabalhadores gregos. Essa reestruturação envolveu cortar as dívidas gregas com credores privados em 50 a 60%. A Troika, que tem emprestado dinheiro à Grécia desde 2010, reestruturou a própria dívida grega mas se recusou a reduzir o montante a ser pago. A operação foi apresentada como um sucesso pela mídia de massa, pelos governos ocidentais, pelo governo grego e pelo FMI e a Comissão Europeia. Eles tentaram enganar a opinião internacional pública e a população grega para que acreditassem que credores privados haviam se esforçado para alivar a situação dramática da Grécia. Na realidade, a operação não foi nem um pouco benéfica para o país em geral, e menos ainda para sua população. Após um recuo temporário em 2012 e no início de 2013, a dívida grega tem aumentado constantemente e está agora acima do ponto mais alto atingido em 2010-2011. As condições impostas pela Troika resultaram em uma queda dramática na atividade econômica do país: o PIB caiu mais de 25% entre 2010 e o início de 2014. As condições de vida da população deterioraram dramaticamente: violação de direitos sociais e econômicos, retrocesso no sistema de aposentadoria, redução drástica nos serviços de saúde e educação públicas, desemprego em massa, queda no poder de compra... Ademais, uma das condições para qualquer alívio de dívida era uma mudança na lei aplicável e na jurisdição relevante em caso de disputa com credores. Resumindo, essa reestruturação da dívida vai contra os interesses da população grega e da Grécia enquanto país.

P: Como essa reestruturação da dívida grega se compara ao Plano Brady que foi implementado em países do sul como consequência da crise da dívida de 1982?

R: O Plano Brady [21] foi implementado em aproximadamente vinte países endividados ao fim dos anos 80. Ele foi uma maneira de reestruturar dívidas por meio de uma troca com títulos assegurados pelos EUA sob condição de que os bancos credores reduzissem o montanto do que lhes era devido e que eles utilizassem o dinheiro na economia. Em alguns casos a dívida foi reduzida em 30%, e os títulos Brady garantiram uma taxa de juros fixa de aproximadamente 6%, que é bastante favorável para os banqueiros. O problema foi, assim, resolvido para os bancos e apenas adiado para os países endividados.

Nós encontramos os mesmos componentes na reestruturação da dívida imposta à Grécia, Irlanda, Portugal e Chipre que no Plano Brady.

1 - No Plano Brady, tal como no Memorando imposto aos países na "periferia" da UE, governos das grandes potências e instituições internacionais substituíram bancos privados como principais credores. Todos aqueles planos objetivam, portanto, tornar possível para bancos privados se retirarem como credores principais dos países em questão sem grandes perdas, já que eles são substituídos por governos e instituições multilaterais como o FMI. Isso foi o que aconteceu com o Plano Brady. Na Europa, a Comissão Europeia, o Mecanismo de Estabilidade Europeia, o ECB e o FMI substituíram gradativamente bancos privados e instituições financeiras privadas como credores.

2 - Todas aquelas operações são obviamente acompanhadas por condicionalidades que impõem a implementação de medidas de austeridade e políticas neoliberais.

3 - O outro ponto comum jaz na falha fatídica dessas reestruturações para países endividados. Mesmo economistas neoliberais como Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart [22] reconhecem que o Plano Brady não foi benéfico para os países envolvidos: a redução de dívida foi muito mais limitada do que havia sido anunciada e a longo prazo o montanto da dívida aumentou e as quantias sendo pagas eram bem altas. Podemos agora dizer o mesmo sobre Grécia, Chipre, Portugal e Irlanda.

P: Se reestruturar a dívida não é uma solução, o que deve ser feito para ajudar esses países a solucionar a questão da dívida?

R: Esses países devem unilateralmente: 1) organizar uma auditoria integral da dívida, com a participação ativa dos cidadãos; 2) suspender o repagamento da dívida; 3) se recusar a pagar a parte ilegal ou ilegítima dela; e 4) demandar uma redução do remanescente. A redução do que sobrar após o cancelamento da parte ilegítima e/ou ilegal pode ser vista como uma forma de reestruturação, mas ela não pode ser isolada como resposta suficiente.

P: O que ocorre se um governo começar a negociar com os credores sem suspender os repagamentos?

R: Se não há suspensão do repagamento ou auditoria pública, os credores estão em uma posição de vantagem. Não devemos subestimar suas habilidades de manipulação que podem levar governos a compromissos inaceitáveis. Suspender o repagamento da dívida como decisão soberana unilateral cria uma nova relação de poder com os credores. Ademais, com uma suspensão, os credores tem que sair de seus buracos. De fato, se você lidar com possuidores de títulos sem supensão de pagamentos eles permanecem anônimos, já que os títulos não são nominais. Só se essa relação de poder for derrubada os governos podem criar as condições necessárias para impor medidas que legitimem sua ação no direito doméstico e internacional. Nos casos da Grécia, Portugal, Irlanda e Chipre a troia é o principal credor e seria obrigada a ir à mesa de negociação.

P: Neste caso poderiam os governos iniciar negociações para mostrar à opinião pública que os credores tem uma posição inaceitável e que eles não terão escolha a não ser se voltar para ações unilaterais?

R: Sim, mas tal abordagem tem suas desvantagens. Os credores podem criar confusão nas mentes do povo afirmando que os governos são intransigentes e atrasam negociações. Ao mesmo tempo que os países precisam de soluções urgentes e não podem arcar com usar a renda de seus impostos para repagar suas dívidas.

O momento adequado para suspender o repagamento da dívida deve ser definido segundo as condições específicas de cada país: o grau de consciência do povo, a urgência, as chantagens dos credores, a situação econômica geral do país... Em algumas circunstâncias a auditoria pode ocorrer antes; em outras, os dois devem ocorrer simultaneamente. 


Notas:

|1| O FMI produziu uma grande quantidade de memorandos, trabalhos e proposições sobre reestruturação de dívida. Ver o site do FMI: https://www.imf.org/external/np/exr/facts/fre/sdrmf.ht, IMF working paper WP/12/203, August 2012.ps://www.imf.org/external/np/exr/… Debt Restructurings 1950–2010: Literature Survey, Data, and Stylized Facts Particularly: U.Das, M.Papaioannou and C.Trebesch

|2| "Reescalonar deve ser diferenciado de "reestruturar", que é uma redução de dívida incluindo um montante descartado. Essa definição limitada não é a usada aqui.

|3| Uma reestruturação típica foi realizada para preparar a República Democrática do Congo, em 2002, para a iniciativa da HIPC. A situação financeira foi regularizada e as condições criadas que permitiram que repagamentos fossem feitos. Após 32 anos da ditadura Mobutu (1965-1997) a RDC havia acumulado dívidas importantes. A dívida que o regime Mobutu deixou para trás, após sua queda, deveria ter sido apagada, era uma dívida odiosa. Os credores que haviam financiado Mobutu por tanto tempo concordaram com a reestruturação. Na primeira fase, quatro países (Bélgica, França, África do Sul e Suécia) adiantaram empréstimos que permitiram ao Congo repagar suas principais dívidas antigas com o FMI. Esse foi um arranjo de consolidação que substituiu as velhas dívidas com dívidas novas na taxa de juros "concessional" de 0.5%. Então, o FMI emprestou $522 milhões ao governo congolês de modo que ele pudesse pagar os quatro países de volta. Ao mesmo tempo, o Banco Mundial emprestou $330 milhões ao Congo para que o Congo pudesse pagar dívidas mantidas com o próprio Banco Mundial. Na segunda fase, a dívida do Congo devida aos catorze países do Clube de Paris foi reestruturada: uma parte da dívida foi cancelada e o restante estendido por um período mais longo. No final as duas fases juntas somaram um 60% de reestruturação da dívida congolesa. Essa reestruturação foi anunciada como sucesso, mas o resultado final foi uma troca de velhas dívidas impagáveis por dívidas novas, mais modestas, pagáveis, e então os pagamentos voltaram. Ao invés de ser descartada, a dívida congolesa foi consolidada. Ela renasceu em uma nova estrutura que agora não é mais "odiosa".
Ver: Éric Toussaint, Arnaud Zacharie, “La République démocratique du Congo”, 2002,http://cadtm.org/La-Republique-democratique-du ; Arnaud Zacharie, “La restructuration de la dette congolaise”, 2002, http://cadtm.org/La-restructuration-de-la-dette.

|4| Este foi o caso da reestruturação da dívida grega de 2012 (ver abaixo) e de centenas de outras gerenciadas pelo FMI e/ou Clube de Paris.

|5| Ver Éric Toussaint: http://cadtm.org/The-cancellation-of-German-debt-in August 2014

|6| Ao todo, 21 países. Ver http://www.monde-diplomatique.fr/2013/02/TSIPRAS/48724 (French)

|7| A Alemanha Ocidental, antes da reunificação de 1990 e depois, a Alemanha reunificada mal foi obrigada a pagar danos e dívidas de guerra (após a SGM) em proporção ao dano humano e econômico causado. A maior parte do que foi pago foi para Israel por causa da perseguição dos judeus. Em março de 2014, o governo grego pediu compensação por danos de guerra causados na Grécia durante a SGM. Naturalmente, o governo alemão recusou. Ver Le Monde, “La Grèce exige des réparations de guerre de l’Allemagne”, 6 March 2014, http://www.lemonde.fr/europeennes-2014/article/2014/03/06/la-grece-exige-des-reparations-de-guerre-de-l-allemagne_4378951_4350146.html.

|8| Isso é permitido pela França para países em desenvolvimento no esquema do "C2D". O Contrat de Désendettement et de Développement (contrato de dívida e desenvolvimento) é um tipo particular de reestruturação por meio da qual a França opera um sistema de concessão de reestruturações. No caso do contrato camaronês, por exemplo, a França retorna diretamente montantes da dívida paga para o pobre país devedor para financiar, por assim dizer, programas de desenvolvimento, assim fingindo auxiliar no desenvolvimento do país. A verdade é bem diferente: por um lado a Agência Francesa de Desenvolvimento decide o uso que deve ser feito do recurso, assim, as escolhas estão claramente no interesse da ex-potência colonial. Ademais, a AFD supervisiona os projetos e pode vetar decisões tomadas pelo governo camaronês emitindo um "memorando de não-objeção". Dessa maneira, a França mantém um domínio político e econômico flagrante sobre a soberania nacional camaronesa.
Ver Owen Chartier, Jean-Marc Bikoko, “Pourquoi faut-il réaliser un audit citoyen de la dette du Cameroun?”, August 2014, http://cadtm.org/Pourquoi-faut-il-realiser-un-audit (French)

|9| Em As Consequências Econômicas da Paz (1919) John Maynard Keynes denunciou as condições que foram impostas à Alemanha ao fim da Primeira Guerra Mundial; ele havia previamente se demitido da delegação britânica de negociação em protesto. Depois, em 1920, houve um grande debate entre ele e outro economista, Bertil Ohlin, sobre as consequências econômicas das compensações de guerra demandadas pelos Aliados. Keynes afirmou que para poder pagar a quantia pedida a Alemanha teria que exportar mais e importar menos, o que inevitavelmente levaria a uma deterioração de sua balança comercial e aumentaria o peso da dívida. Ohlin respondeu que pagara compensação resultaria em um aumento na demanda em outros países, que se voltaria ao menos parcialmente para produtos alemães. Isso limitaria a deterioração da balança comercial alemã. Ohlin defendia que se apoiasse este mecanismo por meio de um acordo comercial internacional permitindo que a Alemanha erguesse suas tarifas, ao mesmo tempo que se reduzisse as mesmas nos países receptores. O resultado teria sido uma balança comercial positiva. (Ver http://perso.univ-rennes1.fr/denis.delgay-troise/CI/Cours/REI223.pdf (French)

|10| Ver Éric Toussaint, “Why the Marshall Plan?”, August 2014, http://cadtm.org/Why-the-Marshall-Plan

|11| Sobre o Iraque ver: Éric Toussaint, « Irak : la dette odieuse », in La finance contre les peuples, pp. 435-451, éditions Syllepse/CETIM/CADTM, 2004.updated version 2006 : « La dette odieuse de l’Irak », May 2006, http://cadtm.org/La-dette-odieuse-de-l-Irak.

|12| O alívio da dívida veio em fases: a primeira, no esquema da HIPC em 1998 e em 2001; em 2005, o alívio final da dívida foi no esquema da Iniciativa Multilateral de Alívio da Dívida (IMAD), a extensão do HIPC para os países mais dóceis. (ver Frédéric Lévêque, “La dette de la Bolivie” , June 2006, http://cadtm.org/La-dette-de-la-Bolivie#nh6

|13| Essa renúncia da soberania começou com a ditadura militar de 1976.

|14| Sobre a Argentina e os fundos abutres, ver: Renaud Vivien, “Un vautour peut en cacher d’autres”, carte blanche, Le Soir, 23 June 2014 ; Jérôme Duval, Fatima Fafatale, “The vulture funds that corner Argentina also comes for you”, July b2014, http://cadtm.org/The-vulture-funds-that-corner; Éric Toussaint, “How to resist vulture funds and financial imperialism?”, September 2014, http://cadtm.org/How-to-resist-vulture-funds-and; Julia Goldenberg , Éric Toussaint, “Vulture funds are the vanguard”, October 2014,http://cadtm.org/Vulture-funds-are-the-vanguard

|15| Sobre o Equador, ver Éric Toussaint, « Les leçons de l’Équateur pour l’annulation de la dette illégitime », 29 May 2013, http://cadtm.org/Les-lecons-de-l-Equateur-pour-l(in French only), also U. Das, M. Papaioannou and C. Trebesch, Sovereign Debt Restructurings 1950–2010: Literature Survey, Data, and Stylized Facts, FMI working paper WP/12/203 http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2012/wp12203.pdfp. 25 et 78
Ver ‘Islande : le CADTM salue le Non massif au référendum sur la loi Icesave’, 8 March 2010, http://cadtm.org/Islande-le-CADTM-salue-le-Non

|16| O bônus Global é resultado da reestruturação da dívida comercial externa do Equador que ocorreu em 2000 no contexto de uma operação de resgate após a crise financeira de 1999. Títulos Brady foram trocados por novos títulos (bônus Global A e B) em condições que eram extremamente vantajosas para credores (notavelmente a altas taxas de juros de 10 a 12%). Os próprios títulos Brady haviam sido o resultado de uma troca de dívidas bancárias de 1995 que haviam se tornado impossíveis de pagar com uma nova dívida na forma de títulos garantidos pelo Tesouro americano (sobre o Plano Brady ver a resposta para uma outra pergunta posterior). Essas duas ações sucessivas de reestruturação haviam sido apresentadas tanto por credores como pelo governo. Na verdade, elas foram afetadas por irregularidades e atos ilegais que a comissão de auditoria pôde identificar. Ver pp. 46-47 do Relatório Final http://cadtm.org/IMG/pdf/Informe_Deuda_Externa.pdf

|17| Ver : CADTM, “Islande : le CADTM salue le Non massif au référendum sur la loi Icesave (Iceland! The CADTM welcomes the massive non in Iceland ’s “Icesave” referendum)”», Press release 8 March 2010, http://cadtm.org/Islande-le-CADTM-s…(French)

|18| O FMI também sancionou os controles rígidos de movimentação de capital introduzidos no Chipre em março de 2013. Se um país da UE pode fazer isso, por que não os outros?

|19| Ver http://cadtm.org/EFTA-court-dismisses-Icesave

|20| Bancos franceses, alemães, italianos e belgas, principalmente.

|21| O plano foi batizado por causa de Nicholas Brady que foi o Secretário do Tesouro dos EUA entre 1988 e 1993, http://www.treasury.gov/about/history/pages/nfbrady.aspx

|22| Kenneth Rogoff foi o principal economista com o FMI e Carmen Reinhart, professor universitário, é  was chief economist with the IMF and Carmen Reinhart, university professor, é assessor com o FMI e o Banco Mundial.