quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A Transvaloração dos Impotentes

"Já se percebe com que facilidade o modo de valoração sacerdotal pode derivar daquele cavalheiresco-aristocrático e depois desenvolver-se em seu oposto; em especial, isso ocorre quando a casta dos sacerdotes e a dos guerreiros se confrontam ciumentamente, e não entram em acordo quanto ao vencedor. Os juízos de valor cavalheiresco-aristocráticos tem como pressuposto uma constituição física poderosa, uma saúde florescente, rica, até mesmo transbordante, juntamente com aquilo que serve a sua conservação: guerra, aventura, caça, dança, torneios e tudo o que envolve uma atividade robusta, livre, contente.

O modo de valoração nobre-sacerdotal - já o vismo - tem outros pressupostos: as quais criam para ele uma situação suficientemente difícil no que concerne a guerra. Os sacerdotes são, como sabemos, os mais terríveis inimigos - por quê? Porque são os mais impotentes. Na sua impotência, o ódio toma proporções monstruosas e sinistras, torna-se a coisa mais espiritual e venenosa. Na história universal, os grandes odiadores sempre foram sacerdotes, também os mais ricos de espírito - comparado ao espírito da vingança sacerdotal, todo espírito restante empalidece.

A história humana seria uma tolice, sem o espírito que os impotentes lhe trouxeram - tomemos logo o exemplo maior. Nada do que na terra se fez contra "os nobres", "os poderosos", "os senhores", "os donos do poder", é remotamente comparável ao que os judeus contra eles fizeram; os judeus, aquele povo de sacerdotes que soube desforrar-se de seus inimigos e conquistadores apenas através de uma radical transvaloração dos valores deles, ou seja, por um ato da mais espiritual vingança. Assim convinha a um povo sacerdotal, o povo da mais entrenhada sede de vingança sacerdotal. Foram os judeus que, com apavorante coerência, ousaram inverter a equação de valores aristocrática (bom = nobre = poderoso = belo = feliz = caro aos Deuses), e com unhas e dentes (os dentes do ódio mais profundo, o ódio impotente) se apegaram a esta inversão, a saber, "os miseráveis somente são os bons, apenas os pobres, impotentes, baixos são bons, os sofredores, necessitados, feios, doentes são os únicos beatos, os únicos abençoados, unicamente para eles há bem-aventurança - mas vocês, nobres e poderosos, vocês serão por toda eternidade os maus, os crueis, os lascivos, os insaciáveis, os ímpios, serão também eternamente os desventurados, malditos e amaldiçoados!..."

Sabe-se quem colhe a herança dessa transvaloração judaica... A propósito da tremenda, desmesuradamente fatídica iniciativa que ofereceram os judeus, com essa mais radical das declarações de guerra, recordo a conclusão a que cheguei num outro momento (Além do Bem e do Mal, §195) - de que com os judeus principia a revolta dos escravos na moral: aquela rebelião que tem atrás de si dois mil anos de história, e que hoje perdemos de vista, porque foi vitoriosa..."
(Friedrich Nietzsche, Genealogia da Moral, Ensaio I, Capítulo 7)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Tomislav Sunic - Identidade Branca na Pós-Modernidade

por Tomislav Sunic



Nós começamos a refletir sobre nossa identidade no momento em que estamos para perdê-la. Nossos avós jamais fizeram perguntas sobre o sentido da identidade; eles jamais se preocuparam com quem eles eram. Eles tomavam como um dado sua afiliação a sua religião, sua tribo, e sua raça. É com a maré crescente de multiculturalismo, seguida pela decadência do Estado-Nação tradicional que a identidade se torna um problema.

O termo "identidade" entrou na moda porque pode significar tudo e nada ao mesmo tempo. Não é acidente que está bem em voga hoje porque, como notado em uma recente publicação do Institut für Staatspolitik, "possui uma ressonância mais científica do que 'consciência nacional' ou 'alma nacional.'"

Após a experiência trágica que os europeus tiveram com seus nacionalismos durante a Segunda Guerra Mundial e sua extensão menor durante a recente Guerra da Iugoslávia, a classe política europeia prefere usar termos neutros tais como "identidade nacional." A velha expressão "consciência nacional", que em língua alemã tem uma ressonância particularmente forte (Volksbewusstsein) ou na língua francesa "conscience nationale", cheira a vocabulário fascista e deve ser prudentemente evitada.

Por contraste, a expressão "identidade nacional" soa neutra. Pode ser usada por todos - até por aqueles que rejeitam sua identidade nacional ou que descartam a noção de orgulho racial. Até os ícones da esquerda costumam "afagar" a idéia de orgulho nacional posando com símbolos patrióticos.

É verdade que quando um europeu branco ou um americano branco fala da "consciência nacional" de seu grupo, a mídia popular automaticamente apontará para o espectro ressurgente do racismo. No mundo pós-moderno, o estéril termo "identidade" garante um certificado de consciência cívica decente, excluindo qualquer suspeita de xenofobia ou rejeição do Outro.

A maioria dos europeus e americanos brancos recorrem a identidades "funcionais" sem qualquer ligação a sua identidade racial ou cultural. Pesquisas psicológicas mostram que brancos possuem identidades relativamente fortes a nível inconsciente - o quê Kevin MacDonald nomeia "brancura implícita." Mas no nível explícito e consciente, eles se identificam como americanos, ou cristãos, ou fãs de música clássica.

De fato, para muitos brancos no mundo pós-moderno, sua identidade é expressa pela escolha de diferentes estilos de vida e pela adesão a costumes exóticos. Essas novas identidades modistas pós-modernas substituem as velhas identidades derivadas de nossa herança racial e cultural.

Por exemplo, um número cada vez maior de brancos, enquanto alegremente expressam suas raízes francesas, americanas, inglesas ou alemãs, exaltam bizarras identidades supranacionais e transnacionais. Eles alegremente abraçam exóticos escapismos africanos ou asiáticos, ou a música rap da América urbana. Eles detectam sua nova identidade não nas antigas vizinhanças brancas de sua cidade, mas nos locais mais distantes possíveis de suas vidas atuais.

Alain de Benoist observa que na sociedade pós-moderna, indivíduos geralmente buscam por identidades alternativas pela auto-identificação com logomarcas ou estéticas exóticas. Se uma nova moda dita que a nova identidade deve ser buscada na Cabala Judaica ou então na imitação do estilo de vida de uma tribo negra de Timbuktu, elas serão alegremente abraçadas.

Muito possivelmente os euro-americanos modernos, ou europeus em geral não podem se tornar racialmente conscientes sem primeiro encararem ameaça física séria vinda da identidade muito bem definida de um Outro. Tenha-se em mente a desintegração da Iugoslávia, quando muitos croatas descobriram uma forma intensa de identidade nacional graças ao avançar dos tanques comunistas iugoslavos.

Vitimologia: Uma Identidade Negativa

Em uma sociedade multiétnica e multicultural, a identidade de diferentes grupos étnicos é incompatível com o individualismo liberal. Por um lado o liberalismo prega o livre-mercado com alegres consumidores como sendo a identidade ideal para todos; porém por outro lado, a própria dinâmica do liberalismo não pode prescindir das identidades raciais e étnicas de seu próprio corpo político multicultural.

De fato, tão irônico quanto isso possa soar, o multiculturalismo (que é o eufemismo fraudulento para o multirracialismo), apresenta a maior ameaça ao sistema liberal. Isso é assim porque provoca os sentimentos de vitimologia entre seus distintos constituintes étnicos e raciais. A sociedade multicultural moderna, como a antiga Iugoslávia já provou e os EUA modernos provam diariamente, é um frágil sistema pleno de tensões étnicas e raciais. Pierre André Taguieff um escritor esquerdista francês e dissidente do politicamente correto, nota, que "particularmente as rivalidades interétnicas podem ser radicalizadas pela menor das fagulhas (um pequeno evento) e se desdobrar em um conflito similar a uma guerra civil."

Desde o fim da Guerra Fria, a classe política reafirma sua identidade pela constante ressurreição do espantalho fascista e dos antissemitas constantemente à espreita. Mesmo que esse bicho-papão antissemita não esteja por perto ele deve ser reinventado de modo a garantir credibilidade ao sistema liberal. De novo e de novo.

No início do terceiro milênio, pode-se ouvir em todas as frequências infinitas histórias de horror sobre o maligno Hitler - um homem que certamente está destinado a viver para sempre na infâmia. Parece que a democracia liberal não é capaz de funcionar de modo algum sem usar um Outro negativo.

O holocausto judaico se tornou um componente crítico de identidade para o mundo ocidental necessitado de um novo simbolismo semi-religioso - a cultura do holocausto. Em 2005, o presidente da Republica Federal Alemã, Horst Köhler, declarou lacrimejante no Knesset israelense que a responsabilidade pela Shoah [holocausto] é parte da identidade alemã." ("Die Verantwortung für die Schoa ist Teil der deutschen Identität.") Similarmente, o ex-chanceler da Alemanha Gerhard Schröder declarou que "a lembrança da Shoah pertence a nossa Identidade."

Pense nisso. Se considerado literalmente, isso significaria que não poderia ser possível ao alemão, pensar em si mesmo como alemão sem também pensar no papel dos alemães no holocausto. Ser um alemão é ter a Marca de Caim na própria testa.

Essa cultura do holocausto é fanaticamente mantida pelo sistema jurídico na Europa. A percepção de qualquer identidade antissemita quer real ou surreal desencadeira fúria judicial. Qualquer acadêmico que questione a narrativa judaica moderna pode facilmente cair nas garras do Código Criminal - a temida StGB, Seção 130, da Alemanha, ou a "Loi Fabius-Gayssot" francesa.

Obviamente há dois pesos e duas medidas aqui. É amplamente permissível exercitar a própria identidade pela realização de piadas sobre "alemães gordos" ou "franceses fedorentos" ou "protestantes anglossaxões hipócritas". Pode-se até mesmo ir tão longe quanto fazer uma leve piada sobre árabes. Mas uma minúscula piada sobre judeus é impensável na mídia e nos círculos políticos da América e da Europa. Pode-se criticar o Outro pela invocação da liberdade de expressão, desde que esse Outro não seja um judeu.

Identidades Ersatz (Substitutas)

Em sua busca desesperada por uma identidade não-racial, europeus brancos recorrem a identidades ersatz. Por exepmplo, eles assumem a identidade palestina ou tibetana ou a identidade de alguma tribo distante do Terceiro Mundo como se fosse a sua própria. Eles vão procurar por alguma tribo índigena perdida na Floresta Amazônica e então, com toda paixão, vão lutar para protegê-la e preservá-la.

Mas quando chega o momento de definir e preservar sua própria identidade racial - quanto mais preservar sua raça, eles permanecem em silêncio. Dizer em voz alta "eu tenho orgulho de ser um branco europeu" soa como racismo.

Tais substitutos ou identidades ersatz de inspiração estrangeira são particularmente fortes quando estão amparadas na narrativa da vitimologia. Europeus são ávidos por erguer monumentos a tribos exóticas das quais eles nunca ouviram falar até o dia antes de ontem - principalmente àquelas que possam ter sido vitimizadas por europeus. Dias de penitência continuam se acumulando no calendário. Cada europeu branco ou político americano é obrigado a prestar tributos morais e financeiros a povos cuja identidade não tem nada em comum com a sua própria.

Enquanto a mídia ocidental e os fazedores de opiniões nos garantem que a história se aproxima do seu fim, nós estamos testemunhando uma assustadora demanda pelo ressurgimento de micro-identidades não-europeias, geralmente amparadas em uma vitimização auto-centrada. E cada uma dessas vitimizações não-europeias requer um número cada vez maior de mortos domésticos e culpados estrangeiros. Os culpados são sempre os brancos europeus, que são forçados a praticar o ritual do remorso.

O velho senso do trágico, que até recentemente era o pilar fundamental da velha memória histórica greco-romana na Europa, cede seu lugar a lamentações levantinas pelas vitimizações de tribos asiáticas e africanas. Lentamente, mas indubitavelmente, o senso europeu do trágico é suplementado por uma fixação em identidades não-europeias.

Que escândalo se um estadista europeu ou americano branco esquece de demonstrar remorso pelo sofrimento passado de algum povo não-europeu! O que conta é a enumeração infinita de vítimas não-europeias do passado europeu.

Nessa "batalha de memórias" pós-moderna, as vitimizações não podem ser iguais. Algumas devem ter precedência sobre outras, e é bem óbvio que o holocausto judeu é o ápice da vitimização no Ocidente pós-moderno.

Mas há um grave perigo para todos. Dada a atmosfera vitimológica que prevalece hoje no Ocidente multirracial, cada tribo, raça ou comunidade não-europeia é levada a crer que sua vitimologia é única. Isso é um fenômeno perigoso porque cada vitimologia compete com outras vitimologias por orgulho de posição.

A história do século XX é que os maiores homicídios em massa na história - os homicídios em massa do comunismo - foram tornados possíveis pela ideologia marxista da vitimização e eles foram racionalizados em nome da tolerância e dos assim chamados "direitos humanos". A ideologia comunista da vitimização resultou na desumanização de intelectuais dissidentes e oponentes políticos, e mesmo de grupos inteiros de pessoas - com consequências monstruosas.

O espírito da vitimização deve buscar por sua identidade negativa pela negação e abolição do Outro, que é a partir de então não mais percebido como humano, mas representado como um monstro. O espírito da vitimologia não serve para prevenir conflitos. Ele torna os conflitos inevitáveis.

As identidades diversas no Ocidente multicultural são um problema severo. Por um lado, as sociedades ocidentais liberais modernas requerem que cada grupo étnico não-europeu receba uma identidade apropriada e seu direito à lamentação histórica; porém, por outro lado, as sociedades liberais são incapazes de funcionar bem em um ambiente acossado pela balcanização étnica.

Em particular, a dispura de diversas vitimologias torna o funcionamento do sistema liberal extremamente precário. Em essência, cada espírito vitimológico em uma sociedade multirracial é confrontacional e discriminatório. Cria um clima que promove a divisividade na sociedade. O único jeito em que tais sociedades podem funcionar é com elevadíssimos níveis de controle social. Esse prospecto é indubitavelmente visto muito positivamente por intelectuais pós-modernos. Mas isso levará à alienação e apatia da grande maioria - especialmente para Brancos que não possam reclamar uma vitimização e que são forçados a testemunhar a desintegração de suas comunidades outrora homogêneas.

As sociedades americanas e europeias estão encarando uma situação esquizóide. Por um lado, estão sendo sobrepujadas pela retórica das identidades negativas derivadas dos sentimentos de culpa - as várias vitimologias anticoloniais e as infinitas ladainhas sobre os crimes fascistas do passado europeu. Porém, por outro lado, mal se houve qualquer palavra sobre os gigantescos crimes cometidos pelos comunistas e seus aliados liberais durante e após a Segunda Guerra Mundial - crimes cometidos para vingar a vitimologia marxista da luta de classes.

Os brancos na Europa e na América tem que superar o senso de enraizamento territorial e conflitos interétnicos. A Identidade racial e cultural europeia se estende da Argentina à Suécia e à Rússia e a muitos outros lugares no globo.

Ainda mais importante, as pessoas brancas devem explicitamente aceitar uma identidade branca. Essa identidade branca explícita não implica que brancos sejam superiores a outros povos ou que outros povos não sejam também únicos e tenham o direito de preservar a sua singularidade. Ela apenas significa que nós somos um povo único com uma cultura única, e que tanto nosso povo quanto nossa Cultura são dignos de serem preservados.

A identidade branca pode ser melhor preservada na esfera transcendental de sua própria singularidade. Mas a singularidade branca não precisa e não deve vir às custas da singularidade de outros povos e outras raças.


Sufrágio Universal

"Se a monarquia é o martelo que esmaga o povo, a democracia é o machado que o divide; ambas matam igualmente a liberdade. O sufrágio universal é uma espécie de atomismo pelo qual o legislador, não podendo fazer o Povo falar na unidade de sua crença, convida os cidadãos a expressarem as suas opiniões por cabeças (...) Isso é ateísmo político na pior significação do termo, como se da soma de uma quantidade qualquer de sufrágios pudesse resultar algum pensamento geral (...) O meio mais seguro de mentir ao Povo é através do sufrágio universal (...) o sufrágio universal, testemunho da discórdia, só pode produzir discórdia."
(Pierre Joseph Proudhon)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Hans F.K. Günther - Goethe e a Religiosidade Indo-Europeia

por Hans Friedrich Karl Günther



As maiores ideias da humanidade foram concebidas nas terras entre a Índia e a Germânia, entre a Islândia e Benares (onde o Buda começou a ensinar) entre os povos de língua indo-europeia; e essas ideias foram acompanhadas pela atitude religiosa indo-europeia a qual representa a maior realização do espírito maduro. Quando em janeiro de 1804, em conversa com seu colega, o filólogo Riemer, Goethe expressou a opinião de que ele considerava "notável que o todo do Cristianismo jamais havia gerado um Sófocles", seu conhecimento sobre religião comparativa estava restrito pelo conhecimento de sua era, porém ele havia inequivocamente escolhido como o precursosr de uma religião indo-europeia o poeta Sófocles, "típico do ateniense devoto...em sua forma mais elevada e inspirada", um poeta que representava a religiosidade do povo, antes que povo (demos) de Atenas tivesse degenerado em uma massa (ochlos). Mas onde senão entre os indo-europeus, o mundo produziu um homem mais devoto e com tão grande alma quanto o ateniense Sófocles?

Onde fora do domínio indo-europeu surgiram religiões, as quais combinaram tamanha grandeza de alma com tão elevados vôos da razão (logos, ratio) e tão ampla visão (theoria)? Onde os homens religiosos alcançaram as mesmas elevações espirituais quanto Spitama Zarathustra, como os professores dos Upanishads, quanto Homero, quanto Buda ou mesmo quanto Lucrécio, Wilhelm von Humboldt e Shelley?

Goethe queria que as canções de Homero se tornassem nossa Bíblia. Até mesmo antes da descoberta das alturas e poderio espiritual do teutão pré-cristão, mas especialmente após Lessing, Winckelmann e Heinrich Voss, o tradutor de Homero, a perspectiva indo-europeia foi renovada na Alemanha, reclamando um mundo do Espírito o qual foi aperfeiçoado pelos grandes poetas e pensadores alemães durante o final do século XVIII e início do século XIX.

Desde a morte de Goethe (1832), e desde a morte de Wilhelm von Humboldt (1835), o tradutor da devota obra indo-europeia Bhagavad Gita, esse Espírito indo-europeu, o qual também se revelava no teutão pré-cristão, desapareceu.

Goethe teve uma premonição desse declínio do Ocidente: mesmo em outubro de 1801 ele observou em conversa com a condessa von Egloffstein, que o vazio espiritual e a ausência de caráter estavam se espalhando - como se ele tivesse previsto o que hoje caracteriza a mais celebrada literatura do Ocidente livre. Pode ser que Goethe tenha até mesmo previsto, no futuro distante, a vinda de uma era na qual escritores fariam grandes lucros pela retratação do sexo e do crime para as massas. Como Goethe disse a Eckermann, em 14 de março de 1830, "a representação do porte e ação nobres começa a ser considerada tediosa, e esforços estão sendo feitos para retratar todos os tipos de infâmias".

Previamente em uma carta a Schiller de 9 de agosto de 1797, ele havia indicado pelo menos uma das causas do declínio: nas maiores cidades os homens viviam em um constante frenesi de aquisição e consumo e tinham, portanto, se tornado incapazes da própria atmosfera da qual a vida espiritual surge. Mesmo então ele se torturava e angustiava, ainda que ele pudesse ver apenas os primórdios dessa tendência, a visão do sistema mecanicista adquirindo supremacia; ele previu que ele viria e atacaria (Wilhelm Meisters Wanderjahre, Livro Terceiro, Capítulo 15). Em uma carta a seu velho amigo Zelter, em 6 de julho de 1825, ele pronunciou como sendo de sua opinião que o mundo educado permanecia enraizado na mediocridade, e que havia se iniciado um século para "cabeças competentes, para homens práticos com um domínio fácil das coisas, que [...] sentiam sua superioridade sobre as massas, mesmo que eles mesmos não fossem suficientemente talentosos para as maiores realizações"; a simplicidade pura não podia mais ser encontrada, ainda que houvesse uma suficiência de coisas simples; os jovens se excitavam cedo demais e então eram devorados pelo vortex do tempo. [...]

Em grau cada vez maior desde aproximadamente meados do século XIX, poetas e escritores, bem como jornalistas - os descendentes das "cabeças competentes" por conta dos quais Goethe estava alarmado já em 1801 - transformaram a necessidade uma virtude pela representação da falta de caráter como um fato. Com Thomas Mann essa falta de caráter impiedosa ganhou renome mundial pela primeira vez. Mann usou seu talento para ocultar sua desolação espiritual por artifícios os quais tem sido proclamados por admiradores contemporâneos como insuperáveis. Mas o talento dos escritores imitando Thomas Mann não era suficiente nem mesmo para ocultar sua vacuidade espiritual, ainda que muitos de seus leitores, eles mesmo espiritualmente empobrecidos, não notassem isso.

A liberdade da imprensa, a qual foi introduzida através da constituição de maio de 1816 no Ducado de Weimar e que já havia sido demandada por Wieland com seu juízo superficial iria, Goethe declarou, não fazer mais do que abrir caminho a autores com um profundo desprezo pela opinião pública (Zahme Xenien, Goethes Sämtliche Werke). Nos Annalen de 1816, ele observou que todo homem bem-pensante, de cultura, no mundo previa as consequências diretas e incalculáveis desse ato com temor e remorso. Então, mesmo em seu tempo, Goethe deve ter refletido sobre quão pouco os homens da imprensa eram capazes de combinar liberdade com dignidade humana.

Quando os descendentes das cabeças competentes do início do século XIX ergueram-se, através dos seus talentos, às classes superiores, onde graças a uma baixa natalidade suas famílias finalmente foram extintas, o processo eliminatório do alpinismo social na Europa tomou as cabeças menos capazes e os devorou no vortex do tempo. Sua cultura foi impiedosamente descrita por Friedrich Nietzsche em seus escritos de 1871-72: Sobre o Futuro de Nossas Instituições Educacionais. Nietzsche acima de tudo se concentrou em escritores contemporâneos famosos, "a produção vã e apressada, a manufatura desprezível dos livros, a falta de estilo aperfeiçoada, a ausência de forma e de caráter ou a lamentável diluição de suas expressões, a perda de cada cânone estético, a luxúria pela anarquia e pelo caos" - o que ele descreve como se ele tivesse realmente visto a literatura mais celebrada do Ocidente Livre, cujos autores mais famosos não mais dominavam suas próprias línguas mesmo na medida demandada por professores escolares nos idos de 1900. Esses arautos vociferantes da necessidade de cultura em uma era de educação universal foram rejeitados por Nietzsche que nisso demonstrou visões verdadeiramente indo-europeias - como opositores fanáticos da verdadeira cultura, à qual se apega firmemente a natureza aristocrática do Espírito. Se Nietzsche descreveu a tarefa do Ocidente como sendo de encontrar a cultura apropriada a Beethoven, então o observador sério hoje reconhecerá bem demais a situação que Nietzsche previu e descreveu como motivo de risos e vergonha.

No ano de 1797, Friedrich Schiller compôs um poema: Deutsche Grösse. Repleto de confiança no Espírito alemão ele expressou a visão de que a derrota em guerra por adversários mais fortes não poderia afetar a dignidade germânica, a qual era uma grande força moral. A posse preciosa da língua germânica também seria preservada. Schiller (Das Siegfest) certamente conhecia o que os povos tinham a esperar da guerra:

"Pois Pátroclo jaz enterrado
e Thersites retorna"


Mas ele deve ter imaginado que a perda dos melhores na luta poderia ser compensada. A extinção de famílias de dignidade e estatura moral (megalopsychia e magnanimitas), ainda não havia começado na Europa."

No ano de 1929, apenas uma década após o término da Primeira Guerra Mundial, aquela Guerra do Peloponeso dos povos teutônicos, que causou na Inglaterra e na Alemanha perdas excessivamente pesadas de jovens inteligentes, de oficiais e de aristocratas, Oskar Walzel (Die Geistesströmungen des 19. Jahrhunderts, 1929, p.43), Professor de literatura alemã na Universidade de Bonn, deu a opinião de que após essa guerra a tendência da desespiritualização da Alemanha havia se fortalecido muito mais rapidamente do que até então: "Há na história alemã em geral tamanha falta de profundidade nos homens a ser observada como no presente?". Mas para os alemães é uma pobre consolação que essa "desespiritualização" seja também evidente em outros países ocidentais. Outro sinal dessa tendência é que hoje muitos escritores famosos não são mais capazes de preservar a posse preciosa da língua alemã. Outras línguas ocidentais também estão negligenciando sua forma e literatura, mas isso também é pouco consolador para os alemães. Tamanha negligência é considerada por muitos escritores hoje como característica da, e parte do processo de aquisição da liberdade e da liberação de todas as posturas tradicionais. Goethe criticou isso como uma falsa ideia de liberdade (Máximas e Reflexões) nas seguintes palavras:

"Tudo que libera nosso Espírito, sem elevar nosso domínio de nós mesmos, é pernicioso."

Assim, por liberdade Goethe também entendia a dignidade dos nascidos livres, não a natureza e modo de vida dos escravos libertos.

Tradução por Raphael Machado

Resistência

"A Fraternidade não pode ser destruída, porque não é uma organização no sentido habitual do termo. A sua coesão assenta apenas numa coisa: uma ideia, uma ideia indestrutível. Nunca haverá nada que vos ampare, exceto essa ideia (...) Vocês terão de se habituar a viver sem resultados nem esperança. (...) Convençam-se de que é improvável virem a ocorrer mudanças perceptíveis durante a vossa vida. Nós somos os mortos. A nossa única vida autêntica está no futuro. Viveremos essa vida como uma mão cheia de pó e estilhaços de ossos. Mas ninguém sabe quando virá este futuro. Até pode ser daqui a mil anos. De momento nada podemos fazer senão alargar de pouco e pouco os espaços de saúde mental. Impossível agir coletivamente. Só podemos difundir o nosso conhecimento de indivíduo a indivíduo, de geração a geração."
(George Orwell, 1984)

domingo, 26 de setembro de 2010

Anderssen - O Jogo Imortal




Adolf Anderssen foi um jogador de xadrez, nascido em Breslau, Alemanha e o exemplo máximo da escola romântica de xadrez. Seu estilo é conhecido pelos seus sacrifícios e ataques poderosos, cujo exemplo mais conhecido é o ''Jogo Imortal'', no qual ele promoveu o sacrifício de duas torres e depois de sua dama, para então conseguir um xeque-mate e ganhar o jogo de forma sem igual em toda história do jogo.

Para jogadores de xadrez, há poucas atividades mais recompensadoras do que o tempo usado com a contemplação de jogos de Adolf Anderssen. Muito desses jogos deixam-nos estupefatos, surpresos com a coragem e a audácia do jogador. Muitos deles apresentam sacrifícios em cascata e ataques fulminantes. Todos mostram uma habilidade de mais alto nível, uma técnica avançada e um fim de jogo preciso. Em quase todos os todos, de qualquer forma, deixa-se a impressão de ter-se experimentado algo transcendental, algo maior do que o próprio jogo. Ese ''algo'', se definido, mostrará a linha entre a mortalidade e o perene - É por esse motivo que os jogos de Anderssen viverão para sempre - Seus jogos sempre cruzaram os limites em busca de Verdade e Estética.

O Jogo Imortal
Anderssen x Kieseritzky

video

A Decadência dos Instintos

"O todo do Ocidente não mais possui os instintos a partir dos quais crescem as instituições, a partir dos quais cresce um futuro: talvez nada antagonize mais seu 'espírito moderno' do que esses instintos. Vive-se para o dia, vive-se muito rápido, vive-se muito irresponsavelmente: precisamente isso é o que é chamado 'liberdade'. Aquilo que faz com que uma instituição seja uma instituição é desprezado, odiado, repudiado: teme-se o perigo de uma nova escravidão no momento em que a palavra 'Autoridade' é até mesmo falada alto. Isso é o quão longe a decadência avançou nos instintos valorativos de nossos políticos, de nossos partidos políticos: instintivamente, eles preferem o que desintegra, o que acelera o fim."
(Friedrich Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos)

Jean Vertemont - O que é o Paganismo?

por Jean Vertemont

"A Aterrissagem de Perunú" por Vsevolod Ivanov.

O paganismo caracteriza-se fundamentalmente pela compreensão intuitiva da ordem intrínseca da realidade, ordem fundada sobre uma rede de correspondências que ligam o corpo, a alma e o Espírito de cada homem, sujeito dos fenômenos (microcosmos), a uma ordem cósmica, ou ordem dos fenômenos exteriores ao sujeito (macrocosmos). Esta ordem inerente, chamada Rita entre os indianos, Asha entre os iraniano, Cosmos entre os gregos, tem um prolongamento na sociedade humana, chamado Dharma na Índia, pelo aspecto ético, e Varna pelo aspecto social, ou ainda, simbolizado nos gregos por uma Deusa da medida e da equidade, Nêmesis.

Um dos maiores símbolos desta ordem é o Zodíaco, aquele que todos conhecem, mas também o Zodíaco das runas, ou o das posições da lua, que sobreviveu na Índia, fazendo referência a múltiplos processos concomitantes, de ordem temporal, mas também atmosférica, mental, social, recordando que os grandes Deuses exprimiam uma ordem exterior assim como interior, uma ordem cósmica assim como social, ignorada pelo monoteísmo simplista. O método comparativo aplicado sobre os textos védicos, por um lado, e os textos tradicionais mais tardios da Europa por outro lado, mostrou que os indo-europeus colocaram no centro de sua religiosidade uma cosmologia que permitiu a prosperação de numerosas cosmogonias.

E o interesse da tradição védica é precisamente ter sido um notável repositório desta antiga religiosidade. Um sanscritista como Jean Varenne demonstrou que estas cosmogonias podiam classificar-se de acordo com as 3 grandes funções dumezilianas, porque existe nos textos védicos cosmogonias descrevendo o aparecimento do mundo pela ação da palavra sagrada, com a fórmula "abrir a montanha pelo brado sagrado para libertar a luz escondida" ou pela ação guerreira do campeão dos Deuses, Indra, contra potências de reabsorção e aprisionamento, ou pela ação de um demiurgo construtor e organizador, como Vishvakarman. Esta cosmologia, da qual encontramos traços em todos os povos de origem indo-européia, é extremamente antiga, remonta a uma comum pré-história. Tem o lugar que ocupa a escatologia nas grandes religiões abraâmicas, que têm por corolário um tempo linear e orientado.

Ao contrário, no paganismo, o tempo é cíclico, existia mesmo um culto do ano com um ritual muito preciso e, paradoxalmente, é possível atingir a imortalidade justamente transcendendo os ciclos, o que é impossível e impensável com um tempo linear. O pano de fundo destas cosmogonias é o mesmo das cosmogonias gregas: a água, sob a forma do oceano e dos rios celestes que lhe estão associados, forma o elemento primordial do qual surgiu o mundo. Do céu superior os Dueses zelam pela manutenção da Ordem da qual conhecem os segredos, às vezes pela razão mas também pela vontade. Daqui resulta um modo de existência, uma forma de estar no mundo, que se caracteriza por múltiplos aspectos bem salientados por centenas de autores sobre o assunto.

Os Poderes da Vontade

O reconhecimento dos poderes da vontade, para o qual foram concebidos vários exercícios espirituais, simples e eficazes, baseados na meditação, no controle do corpo, no domínio dos sentidos, na magia e na prece, cujo objetivo é afirmar um potencial de espiritualidade, que se eleva em direção ao sagrado e se fixa sobre suas simbolizações múltiplas. Todos estes exercícios espirituais, potentes e eficazes, emanam da visão pagã e devem ser dirigidos em relação a objetivos bem determinados, como várias flechas certeiras sobre um alvo. É o que haviam observado os Antigos, que ergueram um Deus por cada força da natureza, por cada potência cósmica, por cada manifestação proveniente dos mistérios divinos, por cada virtude moral.

O primado da energia sobre a palavra.

O reconhecimento do primado da energia sobre a palavra: a meditação, a oração e a intercessão são atos mágicos dos quais ignoramos ainda toda a força. A psicanálise caracteriza parcialmente este processo comparando-o ao fenômeno físico da sublimação. É uma fonte incomparável que é preciso saber dirigir sintetizando as energias. O cristianismo, como todas as religiões abraâmicas, coloca a ênfase sobre a palavra revelada, sobre um logos que seria criador, sobre a Lei e sobre o Amor, resumidamente, todo o tipo de processos que podem perpetuar-se sem fim e desligados da realidade.

O reconhecimento da arte como via de acesso ao divino: Sobre todas as suas formas, pela concretização do ideal, do belo, do sublime, não somente nas suas expressões religiosas mas também profanas. A escultura, a arquitetura, a pintura, a dança, a música, a poesia, a filosofia, o esporte, toda a atividade resulta mais ou menos da inspiração do divino, do sagrado, no que o homem pode de melhor e mais elevado. O artista ou o artesão, ou, o que é mais difícil hoje em dia, o trabalhador, o cidadão, o militante, sintetizam inevitavelmente o seu pensamento na obra à qual aderem. O paganismo, pela sua glorificação da natureza, dirige-se a um homem centrado e equilibrado, e finalmente, dirige-se mais ao Espírito do que ao coração. Introduz o sentido da grandeza, da harmonia e da saúde pelo sentido da medida e das proporções, pelo domínio e unificação do ser trinitário Espírito/alma/corpo, totalmente inseparáveis, pela cultura da beleza das formas e nobreza dos sentimentos.

sábado, 25 de setembro de 2010

A Economia Tradicional Ariana

"O espírito fundamental do corporativismo era o de uma comunidade de trabalho e de uma solidariedade produtiva na qual os princípios da competência, da qualificação e da hierarquia natural atuavam como sólidos eixos, tendo como próprio um estilo de impessoalidade ativa, de desinteresse, de dignidade. Tudo isto foi bem visível nas corporações artesanais medievais, nas guildas e nas Zünften: levando-nos todavia mais atrás no tempo, temos o exemplo das antigas corporações profissionais romanas. Estas, segundo uma expressão características, estavam constituídas ad exemplum reipublicae, ou seja, à imagem do Estado, e as mesmas designações (por exemplo de milities ou milities caligati para os simples agremiados até aos magistri) refletiam sobre o próprio plano o ordenamento militar. Relativamente à tradição corporativa, tal como floresceu no Medievo romano-germânico, teve particular relevo a dignidade de serem livres os pertencentes à corporação, o orgulho do sujeito de pertencer à ela; o amor pelo trabalho, considerando não como um simples meio de ganância, mas sim como uma arte e uma expressão da própria vocação, e ao compromisso das maestrias se vinculava a competência, o cuidado, o saber dos mestres de arte, o seu esforço para a potencialização e elevação da unidade corporativa, a sua tutela da ética e das leis de honra que a mesma tinha como próprias. O problema do capital e da propriedade dos meios de produção quase não aparecia aqui, tão natural era o concurso dos múltiplos elementos do processo produtivo para a realização do fim comum. No mais, tratava-se de organizações que tinham 'como próprios' os meios de produção, instrumentos que ninguém pensava em monopolizar para fins de exploração e que não estavam vinculados a uma finança estranha ao trabalho. A usura do 'dinheiro líquido' e sem raízes - o equivalente ao que é hoje é o uso bancário e financeiro do capital - era considerado como coisa de judeus e para eles deixada, estando muito longe de condicionar o sistema."
(Julius Evola, Homem Entre as Ruínas)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

As Mentiras do Liberalismo

* Autor Desconhecido



"O liberalismo significa maior poder de escolha, e melhores preços para o consumidor."

FALSO. Segundo o próprio dogma liberal, o liberalismo só funciona se existe concorrência suficiente do lado da oferta. Ainda assim, em verdade, o capitalismo liberal tende à concentração e à formação de monopólios que eliminam toda concorrência, reduzindo o poder de escolha do consumidor e fazendo subir os preços (e baixar a qualidade).

Na área dos serviços públicos como por exemplo na distribuição da água, nos correios, ou no serviço ferroviário, sua privatização sempre se traduziu em um aumento dos custos para o usuário do serviço, uma redução do serviço, e uma redução nos investimentos na manutenção das infraestruturas.

No que concerne os sistemas de aposentadoria privada (fundos de pensão), consistem em privar os assalariados de toda segurança, entregando-os à incerteza da gestão de ditos fundos por organismos financeiros. Em caso de quebra destes últimos, os assalariados se encontram sem aposentadoria apesar de anos de cotização. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos em 2002 com a quebra da Enron.

"O liberalismo é o jogo do livre-mercado".

FALSO. Sempre segundo o dogma liberal, o livre-mercado requer a transparência do próprio mercado e das informações.

Em realidade, por causa de práticas opacas e da iniquidade no acesso às informações, o consumidor nunca pode fazer escolhas com conhecimento de causa.

"O crescimento econômico cria empregos".

FALSO. O crescimento cria empregos em um primeiro momento, porém serve sobretudo para financiar as "reestruturações" e as relocalizações. Afinal de contas, destrói mais postos de trabalho do que cria.

"Só o mercado é apto para determinar o preço justo das matérias primas, das divisas ou das empresas".

FALSO. Os mercados são essencialmente guiados pela especulação e pela busca do maior lucro no menor prazo possível. As flutuações e variações do mercado são às vezes irracionais, excessivas e submetidas à manipulação. Essas oscilações excessivas no mercado (bolsas) são destrutivas, provocam ruína e quebras na economia real. Porém, ao mesmo tempo, essas variações são geradoras de lucros para os especuladores. Novamente o princípio dos vasos comunicantes...!

"A empresa cria riquezas. É a fonte de prosperidade dos países e de seus habitantes".

FALSO. Em geral, as empresas não criam riquezas, porque o valor criado é inferior ao custo real dos recursos utilizados ou destruídos, se tomamos em conta o custo ambiental e humano, assim como o custo real das matérias-primas renováveis.

O "lucro" das grandes empresas é conseguido, em realidade, em detrimento da natureza, pilhada pela exploração, a urbanização e a contaminação, ou "vampirizado" sobre outros fatores econômicos:

- sobre os assalariados, os quais terão sido despedidos para cortar custos ou "aumentar a produtividade", ou os quais terão reduzidas sua remuneração ou sua proteção social.

- sobre os consumidores que deverão pagar mais, por uma qualidade ou quantidade menores.

- sobre os provedores (em particular sobre os produtores de matérias-primas de minerais ou agrícolas)

- sobre outras empresas as quais se terá provocado a quebra mediante práticas desleais de concorrência, ou que são compradas para serem posteriormente desmanteladas, vendidas por partes, e cujos assalariados serão transformados em desempregados.

- sobre as populações do Terceiro Mundo que serão espoliadas de suas terras e de seus recursos, e que terão sido reduzidas à escravidão, obrigadas a trabalhar nas minas ou em oficinas de trabalho escravo de empresas transnacionais, ou pior ainda, obrigadas a servir como porquinhos da índia para a indústria farmacêutica, ou a vender seus órgãos (em geral os rins ou um olho) que serão transplantados a enfermos afortunados (o preço pago por um rim chega a 20.000 dólares na Turquia, ou a apenas 800 dólares na Índia).

"A globalização beneficia a todos".

FALSO. Entre 1992 e 2002, a renda por habitante caiu em 81 países. No Terceiro Mundo, o número de pessoas "extremamente pobres" aumentou em mais de 100 milhões.

A diferença entre salários aumentou de forma impressionante. Tomemos o exemplo de uma operária de uma empresa sub-contratada asiática da Disney que fabrica roupas com o logotipo do Mickey para consumidores ocidentais. Essa operária trabalha em uma fábrica, 14 horas por dia, 7 dias da semana, sem nenhuma proteção social, sem direito a folga, tudo por um salário de 0,28 dólares por hora. Ao mesmo tempo, o salário honorário de um Gerente da Disney (PDG) é de 2.800 dólares, quer dizer 10.000 vezes mais.

As 225 pessoas mais ricas do mundo acumulam um patrimônio global de 1.000 bilhões de dólares, equivalente à renda anual dos 3 bilhões de pessoas mais pobres do planeta, quer dizer 47% da população mundial. A fortuna somada das 84 pessoas mais ricas ultrapassa o PIB da China, com seus 1,2 bilhões de habitantes.

Em 2002, 20% da população mundial monopoliza 80% das riquezas, possui mais de 80% dos carros em circulação e consome 60% da energia, enquanto o 1 bilhão dos habitantes mais pobres compartilham de 1% da renda mundial.


Tradução por Raphael Machado

Socialismo SIM!

"Repudiamos qualquer tentativa de diluir essa idéia usando o termo 'reformista social' em lugar de 'socialista'. Esse truque de palavras não representa nada mais que uma tentativa hipócrita de esconder um dos mais visíveis defeitos do sistema econômico capitalista. Ou, na melhor das hipóteses, pode contemplar-se como uma tentativa compassiva e honesta, de tentar curar, colocando bandeides, as feridas sangrentas de nosso corpo econômico e de nosso povo. Somos 'socialistas', e não meros 'reformistas sociais', e não nos preocupa dizê-lo, ainda que os marxistas tenham distorcido desgraçadamente o sentido do termo."
(Gregor Strasser)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Dois lados da mesma moeda

"Tanto na vida individual como na coletiva o fator econômico é hoje o mais importante, real e decisivo. (...) Uma era econômica é por definição fundamentalmente anárquica e anti-hierárquica; representa uma subversão da ordem normal. (...) Esse caráter subversivo está presente tanto no Marxismo como em seu antagonista aparente, o capitalismo moderno. O pior absurdo é aqueles que hoje clamam representar uma 'Direita' política permanecerem no círculo sombrio desenhado pelo poder demônico da economia - um círculo habitado tanto pelo Marxismo como pelo Capitalismo, junto com toda uma série de fases intermediárias. Aqueles que hoje se alinham contra as forças da Esquerda devem insistir nisso. Nada é mais evidente do que o fato de que o capitalismo moderno é tão subversivo quanto o Marxismo. A visão materialista da vida que é a base de ambos, é idêntica."
(Julius Evola, Homem Entre as Ruínas)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Juan Pablo Vitali - Ser Dissidente

por Juan Pablo Vitali



Ser dissidente é levar uma espada de luz pelos labirintos da Idade das Trevas.

Ser dissidente é sentir a cada passo a solidão da estirpe, apertando nossos corações.

Ser dissidente é optar pelas alturas, e também pelos abismos.

Ser dissidente é talhar escrituras sagradas sobre nossa pele.

Ser dissidente é lançar-se sobre o aço nu da espada.

Ser dissidente é voltar sempre às cidades perdidas.

Ser dissidente é ter perdido o Sol da Atlântida e recuperá-lo nos gelos distantes do Sul.

Ser dissidente é ver o rosto de osso de nossos mortos como um espelho branco nas trevas quotidianas.

Ser dissidente é dissentir dos Deuses se estes nos forem adversos.

Ser dissidente é ocupar as ruas, até dominá-las.

Ser dissidente é o mármore, o músculo, a pedra, o fogo, a montanha e os caminhos.

Ser dissidente é o último lobo da Europa nas cavernas, a águia adormecida nas alturas, o cervo bramando na profundidade dos bosques.

Ser dissidente é dormir sobre punhais e despertar iluminado pelos olhos das crianças de Dresden, de Berlim e de Hiroshima.

Ser dissidente é assediar o tempo do silêncio, com bandeiras que desfraldam aproximando-se no vento.

Ser dissidente é ser sempre o último a recuar, e o primeiro a avançar.

Ser dissidente é ser o último homem em pé, se necessário, com o Sol como testemunha e a chama eterna dos nossos por bandeira.

Tradução por Raphael Machado

Totalitarismo Democrático

"Através de recursos cada vez mais eficazes de manipulação da mente, as democracias transformarão a sua natureza; as velhas formas pitorescas - eleições, parlamentos, Supremos Tribunais e tudo o mais - subsistirão. A sua essência será um novo tipo de totalitarismo não-violento. Todos os nomes tradicionais, todos os slogans consagrados permanecerão tal e qual como nos velhos tempos; a democracia e a liberdade serão os argumentos de todas as emissões radiodifundidas e de todos os editoriais (...). Entretanto, a oligarquia dirigente e a sua altamente treinada 'elite' de soldados, policiais, forjadores de pensamento e manipuladores de cérebro conduzirão tranquilamento o espetáculo como lhes apetecer."
(Aldous Huxley, 'Regresso ao Admirável Mundo Novo')

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Resistência antiliberal

"As forças que atualmente governam são liberais. Não são, ainda que tratem de confundir os termos, democráticas. A oligarquia já está em sua segunda linha de defesa, pois deve defender o liberalismo a custo de medidas antidemocráticas. Não podem coexistir pacificamente um movimento de liberação nacional e as instituições liberais, que são uma estrutura jurídica que protege um sistema determinado de organização econômica para benefício do capitalismo estrangeiro e nativo.

O liberalismo foi elevado à categoria de verdade eterna pelos poderes do privilégio, envolvendo-o no incenso da retórica idealista. Porém um sistema jurídico-econômico é apenas uma escolha humana convertida em situação. É contingente e determinado histórica e geograficamente. As soluçãos para o drama nacional exigem a caducidade dessas estruturas, o que constitui uma revolução.

Não somos forças da desordem, porque a ordem que combatemos se identifica com interesses e privilégios e a ordem a que aspiramos não pode se instaurar dentro do regime liberal por duas razões: 1 - Porque o esquema liberal exclui a revolução, que é uma modificação do statu quo existente; 2 - Porque o regime liberal é o instrumento da opressão e o problema nacional implica a liquidação da oligarquia como classe e a liberdade frente ao imperialismo.

A oligarquia apoiada por instituições superadas pelas circunstâncias históricas, impõe uma tirania que deve ser derrubada junto com todas as suas estruturas. A luta pela liberação é, portanto, revolucionária, assim como nacional e social."
(John William Cooke)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O General Perón e o FMI

por Juan Domingo Perón



Quando em 1946 assumi o governo, a primeira visita que recebi foi a do presidente do Fundo Monetário Internacional que vinha nos convidar a que nos uníssemos ao mesmo. Prudentemente lhe respondi que necessitava pensar nisso e, em seguida, destaquei dois jovens técnicos de confiança da equipe do governo para investigar esse 'monstro tão perigoso', nascido segundo me lembro nos suspeitos acordos de Breton Woods. O resultado desse informe foi claro e preciso: em síntese, se tratava de um novo engendro putativo do imperialismo. Eu, que tenho a vantagem de não ser economista, posso explicá-lo de maneira que se entenda.

A política das 'áreas monetárias', depois do abandono do padrão ouro, foi frutífera em acontecimentos onde sempre o negócio esteve envolvido. Mediante diversas maneiras de deformar a realidade, se conformou já uma longa história através da 'área esterlina', como a 'área dólar' e, ainda que o pretexto fosse dar respaldo indireto às moedas dos países pobres em reservas de ouro, em verdade tudo não passou de uma nova forma de especular com a boa-fé dos demais.

Até depois da Primeira Guerra Mundial existiu a 'área esterlina', que abrigou numerosas moedas à mercê do ouro da Inglaterra, que a guerra foi levando paulatinamente até o Forte Knox, até o extremo de que a Grã-Bretanha se viu com um grave problema para sustentar sua área monetária. Tentou fazê-lo fundando o Banco Central da Inglaterra e declarando em seguida que, se antes a área esterlina estava garantida pelo ouro da Inglaterra, agora o estava pelo Império inglês. Porém ocorre que os Estados Unidos, no interím, havia acumulado quase 80% do ouro de todo o mundo e dita sua famosa Lei Fiduciária que estabelecia que quem apresentasse um dólar no Banco da Reserva Federal receberia seu equivalente em ouro. Essa promessa, ainda que jamais tenha sido cumprida, teve a suficiente atração natural para forçar na direção do nascimento da 'área dólar'. É assim que, a partir desse momento, o dólar passa a ser a moeda de câmbio no mundo ocidental, e a libra esterlina deixa de sê-lo.

Desde então, assim como antes todas as semanas, a partir da Torre de Londres, os ingleses anunciavam o valor oficial do ouro, frente ao povo e de viva voz, Wall Street se encarregou de substituí-los em silêncio e a partir de seus escritórios da Quinta Avenida, fixando o valor da Onça Troy [unidade de medida utilizada para metais preciosas e gemas] pelo dólar americano sobrevalorizado, com um preço político que, não obedecendo à lei da oferta e da demana no mercado do ouro internacional, lhes permitiu cobrar um royalty em todas as operações em que interviesse essa moeda de câmbio.

Pouco depois de acabada a Segunda Guerra Mundial, a perda de grande parte da reserva de ouro dos Estados Unidos ameaçavam gravemente a existência da 'área dólar', gravidade que segue aumentando com os gastos do pós-guerra, com o quê os EUA se colocavam em situação parecida com a da Inglaterra depois da guerra anterior se alguma Nação conseguisse a formação dessa reserva. Em consequência era preciso criar o instrumento necessário para consolidar a 'área dólar'. O Fundo Monetário Internacional foi a solução. Nele participariam a maioria dos países ocidentais, comprometidos mediante uma grande contribuição ao fundo, de onde se manejariam todas as suas moedas, se fixaria não só a política monetária, mas sim também os fatores que direta ou indiretamente estivessem ligados à economia dos associados. A realidade depois se encarregou de ir muito além, como podemos ver agora, quando chega a hora dos lamentos.

Eis aqui algumas das razões, a parte muitas outras, pelas quais o Governo Justicialista da República Argentina não aderiu ao FMI. Para nós, o valor de nossa moeda fixávamos no país, como também, nós estabelecíamos os câmbios de acordo com nossas necessidades e conveniências. Para o intercâmbio internacional recorremos à troca e assim nossa moeda real foram nossas mercadorias. Ante a falsificação permanente da realidade monetária internacional e as manobras de todo tipo a que se prestava o insidioso sistema criado, não havia outra solução além de fazer isso, ou se deixar roubar impunemente.

O tempo passou, e em quase todos os países aderidos ao famoso FMI se sofrem as consequências e se começa a ouvir as lamentações. Esse fundo, criado segundo diziam para estabilizar e consolidar as moedas do 'Mundo Livre', não fez senão desvalorizá-las na maior medida.

Enquanto isso, os EUA se encarregavam, através de suas empresas e capitais, de apropriar-se das fontes de riqueza em todos os países onde os idiotas ou os cipaios lhes davam espaço, à mercê de seu dólar ficticiamente valorizado em relação às envilecidas moedas dos demais.


domingo, 19 de setembro de 2010

Democracia Liberal - Será realmente democrática?

por Aldred Wulfric

Nossos 'governos' abdicaram a soberania autêntica à instituições globais universais e nos governam 'de cima para baixo' presidindo sobre cidadãos atomizados e alienados em uma zona geográfica ao invés de um povo harmonioso em uma Nação/tribo.

A Democracia Liberal, com seu sistema econômico associado fundamentalista de livre mercado irrestrito é a forma de governo que possibilitou o resultado acima e conseguiu convencer milhões de que é democrática e representativa do cidadão médio.

A Democracia Liberal trabalha tendo como base os 'direitos' acima da Política e enfatiza a importância do indivíduo. Há uma presunção de que esses 'direitos' são universalmente aceitos ou justificados em sua aplicação em todos os povos. Porém, a Democracia Liberal não é capaz de reconhecer e explicar diferenças irreconciliáveis, as quais levarão a tensões sociais significativas. Por exemplo, o 'direito à vida' e o 'direito de escolha' ou 'direito à privacidade' e a 'liberdade de expressão'.

A Democracia Liberal quer que acreditemos que é um dado garantido que um conjunto de 'direitos' universais existem e que ademais, seus proponentes 'descobriram' o que eles são. A 'esquerda liberal humanitária' junto com a 'direita liberal neoconservadora', repletos de zelo missionário agora buscam impôr seus 'direitos' descobertos sobre todo o globo. Ao fazer isso eles obliteram dias as diferenças étnicas e culturais em sua passagem. Isso subjaz a tentativa de instalar uma 'Carta Universalista de Direitos' na Austrália por vários humanistas totalitários. Isso apresenta a questão: quem define o que são direitos, e quais são esses direitos?

Os seguintes trechos ilustram, 'direitos', os quais não são eles mesmos fatos objetivos (como a lei da gravidade), mas subjetivos e derivados de fontes alternativas dependendo do grupo populacional, contexto e história.

Professor de Política, Richard Bellamy é citado no livro de Roland Axtmann 'A Democracia Liberal no Século XXI: Globalização, Integração e o Estado-Nação' afirmando:

"(...) que direitos devem estar relacionados a, e depender de, concepções particulares de comunidade humana e desenvolvimento humano na medida em que emergem do auto-entendimento de comunidades políticas particulares" (Bellamy 1993: 54;1994:429).

Similarmente, John Gray afirma que direitos são:

"(...)moldados por nossos juízos dos interesses vitais, ou condições de bem-estar, da pessoa sob consideração".

[Gray, John (1993). pg101 Beyond the New Right. Markets, Government and the Common Environment, London, New York, Routledge]

Gray ainda enfraquece o conceito de 'direitos' pré-existentes quando ele comenta que:

"(...) na filosofia política e moral, o Bem é sempre anterior ao direito: nós fazemos juízos sobre os direitos que as pessoas tem, apenas tendo como base nossos juízos dos interesses centrais ao seu bem-estar" (Gray 1993:102)

Entendendo como até mesmo os 'direitos' eles mesmos surguem de um processo subjetivo dependente da tribo e de sua concepção de 'bem', nós podemos ponderar no quê o liberalismo moderno nos dá, se alguma coisa. Um fato que é fundado em milhares de anos de natureza humana registrada é que os conceitos de 'particularidade' e 'diversidade' [nacionalismo] caracterizam os homens muito mais que os conceitos modernamente manufaturados de 'universal' e 'igualdade'.

Quantidade alguma da ferramenta mais eficaz do liberalismo, o Politicamente Correto, poderia erradicar isso. O Politicamente Correto é um eufemismo para a censura intelectual infestando os livros infantis, os currículos universitários e os departamentes de RH das empresas.

Dado que os direitos surgem do 'bem' e que o 'bem' surge de 'concepções particulares de comunidade humana' e 'juízos sobre os interesses centrais a seu bem-estar' é razoável afirmar que uma sociedade harmoniosa, uma com um conjunto aceito de 'direitos' relevantes será aquela na qual os habitantes compartilhem de uma definição (homogênea) de 'bem'. O 'bem' é definido pelos valores e crenças (cultura), de propósitos, estilos de vida e direção compartilhados, de fundação e herança comuns.

Em 'sociedades' plurais diferenciadas ou mais acertadamente nas tentativas de engenharia social da sociedade atual, multicultural e multirracial, o divisionismo é constante e os juízos sobre liberdade e 'direitos' apropriados se tornam avaliações controversas deixando todos os grupos alienados e insatisfeitos.

As democracias liberais são caracterizadas por uma sociedade despedaçada e dividida entre si. O Parlamento é repleto de 'partidos políticos' constantemente influenciados por subdivisões de interesses em competição, ou grupos minoritários e lobbies que jamais 'puxam' juntos na mesma direção. Partidos políticos ou a maioria dos partidos liberais modernos, jamais representam o povo mas simplesmente seus doadores, grupos lobbistas e financiadores corporativos ao longo de ciclos de quatro anos.

Compare isso com uma nação homogeneamente povoada por aqueles de origem similar e e cultura, etnia, e consequentemente uma definição de 'bem' compartilhadas.

A Democracia Liberal também é caracterizada pela proeminência central e promoção das atividades dos indivíduos privados que estão focados na busca de interesses peculiares. Daí que na Democracia Liberal espera-se que o indivíduo confie mais ou menos no Estado para a manutenção de sua liberdade. O Estado Liberal 'descobriu' e instituiu seus 'direitos' e a cidadania é meramente uma condição não-participativa a ser passivamente aproveitada.

Compare isso com uma simples 'democracia', ou democracia real, na tradição que se estende de volta a Aristóteles e Maquiavel onde de modo a fruir de liberdades, os indivíduos tem o dever de participar na Política para coletivamente determinar o caráter de sua comunidade. Na tradição republicana a atividade política é vista como essencial para se alcançar a auto-realização e a liberdade só pode ser alcançada e totalmente garantida através de uma forma de comunidade auto-governante em que a cidadania é uma responsabilidade alegremente assumida pelo indivíduo.

Outras distinções são ganhas através das seguintes citações:

"A primeira [democracia] torna a cidadania o centro de nossas vidas, a segunda [democracia liberal] a torna o quadro exterior de nossas vidas. A primeira assume um corpo de cidadãos fechado e próximo, seus membros comprometidos uns com os outros; a segunda assume um corpo diverso e pouco conectado, seus membros (geralmente) comprometidos em outro lugar". (Walzer 1989:216)

"Na tradição liberal, direitos garantem a liberdade contra coerções externas; na tradição republicana, os direitos de cidadania permitem a seus portadores a participarem ativamente com os outros na esfera pública, a participar como cidadãos entre cidadãos em uma prática comum de modo a se transformarem eles mesmos em criadores politicamente autônomos de uma comunidade de pessoas livres e iguais tendo como base o reconhecimento mútuo". (Habermas 1992b: 325-9)

"(...) uma comnunidade de famílias ou agregados de famílias [a Nação] em bem-estar, em nome de uma vida perfeita e auto-suficiente."

Uma distinção clara emerge da Democracia Liberal é não democrática e deveria perder o uso do termo 'democracia'. Problemas terminais com a Democracia Liberal incluem;

A Democracia Liberal possui um conjunto impreciso e ambivalente de 'direitos' manufaturados que não tem fundação em um conceito comunitário e consensual de 'bem' ou de 'interesses centrais ao bem-estar das pessoas' e que isso resulta em alienação, ausência de direção e mediocrização de todos os sub-grupos em competição.

Que isso ocorre é em parte devido a experimentos em engenharia social como o multiculturalismo e o multirracialismo que tornam o consenso impossível.

Que seus parlamentos não são representativos e são estrangulados por partidos políticos que por sua vez são escravizados por um miasma de agendas conflitantes e grandes doadores.

Que a Democracia Liberal impede a liberdade pessoal e o consenso comunitário ao encorajar o desengagamento de indivíduos do processo político e promover homens e mulheres como indivíduos 'privados' (átomos) que são irrestritos em suas buscas de interesses puramente pessoais. (Irrestritos, é claro, dentro das fronteiras criadas pela principal arma dos Liberal-Democratas - o Politicamente Correto).

A Democracia Liberal se funda em uma tese falha de que um conjunto de direitos humanos universais pode servir como princípio fundacional para qualquer ordem política ou social. Esse erro fatal é devido ao fato de que os direitos universais, como já demonstrado, pressupõem um certo modo de vida, e não pré-existem a ele, e portanto a existência desde tempos imemoriais de diferentes modos de vida e concepções de 'comunidade humana' entre os povos da Terra gerarão por sua vez 'diferentes' conjuntos de direitos.

A falácia dos direitos universais e a identificação do conceito sendo apenas pré-suposta ao invés de pré-existente é melhor ressaltada pela definição de pré-suposição - uma afirmação, conjectura, especulação ou algo suposto sem prova.

O Nacionalismo em contraste, é democrático e condição natural da humanidade:

*Tem contida em sua definição de política o reconhecimento explícito de uma dimensão pública, a idéia de que o indivíduo existe em um nível além da mera preocupação privada e dos direitos pessoais, mas também com deveres comunitários e grupais.

*Gera comprometimento ao incentivar e esperar que a cidadania inclua participação na sociedade além dos interesses privados.

*Dá poder aos indivíduos por seu envolvimento ativo no governo.

*Defendo o direito de todos os povos do mundo de se unirem em suas várias homogeneidades para se auto-governarem e para instituir para si direitos que não são inventados ou transferidos, mas que encontram fundação em uma herança, cultura, estilo de vida, espiritualidade e etnia comuns. O quê Aristóteles chama de interesse comum ou 'bem' e esse bem na Política é a Justiça.

*A sociedade é muito menos divisiva, combativa e alienante e permite a completa expressão da própria forma/cultura/espírito nacional movendo-se em unidade.

*O governo que emerge é portanto representativo em um grau muito maior já que é baseado no reconhecimento mútuo em relação ao bem comum da Nação.

*Um globo repleto dessas formas nacionais (Nações) cada uma dominante apenas dentro de sua própria terra e sociedade, ao mesmo tempo respeitando a completa independência de seus vizinhos, realmente garante uma profunda diversidade ao redor do mundo comparado com um globo no qual cada continente tem imposto o multiculturalismo/multirracualismo e no qual com o passar do tempo uma cidade cosmopolitana 'com grandes distritos de compras e uma chinatown' é idêntica à próxima independentemente do continente em que esteja.

Tradução por Raphael Machado

sábado, 18 de setembro de 2010

A Humanidade do Presente e do Futuro

"Ai! Aproxima-se o tempo em que o homem se tornará incapaz de gerar uma estrela dançante. Ai! o que se aproxima, é a época do homem mais desprezível, do que nem poderá desprezar a si mesmo.
Olhai! Vou mostrar-lhes o Último Homem:
'O que é amar? O que é criar? O que é desejar? O que é uma estrela?' Assim falará o Último Homem, piscando o olho.
A terra ter-se-á então tornado exígua, nela se verá saltitar o Último Homem, que apequena todas as coisas. A sua espécie é tão indestrutível como a do pulgão; o Último Homem será o que viver mais tempo.
'Descobrimos a felicidade', dirão os Últimos Homens, piscando o olho.
Terão abandonado as regiões onde a vida é dura; pois precisam de calor. Ainda amarão o próximo e se roçarão por ele, porque é necessário calor.
A doença, a desconfiança hão-de parecer-lhe outros tantos pecados; é só preciso ver onde se põem os pés! Insensato é aquele que ainda tropeça nas pedras e nos homens!
Algum veneno de vez em quando coisa que proporciona sonhos agradáveis. E muito veneno para acabar, a fim de ter uma morte agradável.
Trabalhar-se-á ainda, porque o trabalho distrai. Mas ter-se-á cuidado para que esta distração nunca se torne cansativa.
Uma pessoa deixará de se tornar rica ou pobre, são duas coisas demasiado penosas. Quem quererá ainda governar? Quem quererá ainda obedecer? São duas coisas demasiado penosas.
Nenhum pastor e um só rebanho! Todos quererão a mesma coisa, todos serão iguais; quem quer que tiver um sentimento diferente entrará voluntariamente no manicómio.
'Noutro tempo toda a gente era doida', dirão os mais sagazes, piscando o olho.
Ser-se-á sagaz, saber-se-á tudo o que se passou antigamente; desta maneira se terá com que zombar sem cessar. Ainda haverá querelas, mas depressa surgirá a reconciliação, com medo de estragar a digestão.
Ter-se-á um pouquinho de prazer durante o dia e um pouquinho de prazer durante a noite; mas reverenciar-se-á a saúde.
'Descobrimos a felicidade', dirão os Últimos Homens, piscando o olho."
(Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Alógeno

por Guillaume Faye

Todo aquele, que no seio de um determinado povo, é de origem estrangeira, culturalmente e biologicamente. Atualmente, mais vale falar de “alógenos” do que de imigrantes ou de estrangeiros, na medida em que a maioria destes últimos nasceram na Europa [ou em outros países de origem civilizacional europeia*] sem serem etnicamente europeus [ou seja, brancos, caucasianos, etc*], podendo, em virtude do direito de solo, deter a nacionalidade de um país europeu. Desde a antiguidade, fato já assinalado por Aristóteles, Tucídides e Xenofonte, toda a nação que admite no seu seio a entrada desenfreada de alógenos está condenada à decadência, sendo que esses últimos substituem progressivamente os autóctones e tendem a persegui-los e a destrui-los culturalmente e/ou fisicamente. Esse processo está em marcha em inúmeras zonas da França.
A noção de alógeno não deve adquirir, na Europa, na orla do século XXI o carácter jurídico, linguístico e nacional. Deve ser declarado alógeno todo o residente não-europeu de origem, sobre critérios étnicos em detrimento dos políticos e jurídicos. Um Belga, um Italiano, um Russo de origem europeia residindo na França não é um alógeno. Contudo atenção : ao fim de certo tempo, um povo submerso por alógenos torna-se minoritário, estrangeiro na sua própria pátria. É a lógica do processo de colonização populacional que nós conhecemos. Ao fim de um certo tempo o alógeno torna-se no autóctone.



Tradução, itálicos e grifos, por Raphael Machado

Guerra e Paz

"Do pouco que podemos conhecer dos acontecimentos do futuro, só uma coisa é certa: as forças do movimento do futuro não serão distintas das do passado: a vontade do mais forte, os instintos vitais, a Raça, a vontade de possuir, e o poder. Há uma imensa diferença, que a maioria das pessoas não entenderá nunca, entre ver a história futura como será e vê-la como queriam que fosse. A paz é um desejo, a guerra um fato, e a história nunca prestou atenção nos desejos e ideais humanos."
(Oswald Spengler)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

“Directrizes” de Julius Evola (breve resumo)

“Directrizes” de Julius Evola (breve resumo)

1 – Encontramo-nos num mundo em ruínas, mas existem homens em pé no meio das ruínas.

2 – Um homem novo, animado mediante um determinado espírito e uma adequada visão da vida. Fortificada mediante a adesão férrea a certos princípios.

3 – O homem novo será aquele que seja fiel ao espírito legionário, ou seja aquele que saiba escolher o caminho mais duro.

4 – Valores como a honra, a fidelidade, a valentia, o espírito de serviço e sacrifício são arquétipos que encarnam o espírito do guerreiro. Deverão estes valores ser adaptados como norma vital e rebaixados os modelos existentes: o burguês e o proletário.

5 – O liberalismo, depois a democracia, mais tarde o socialismo, também o radicalismo e enfim o comunismo, o bolchevismo aparecem historicamente como graus do mesmo mal, como estados que preparam sucessivamente o complexo processo de uma queda. A globalização provocada pelo demoplutocratismo, ou seja o americanismo comporta um grande perigo...

6 – Todos os âmbitos da vida devem estar ao serviço de metas superiores, não nos devemos deixar alucinar com o demónio da economia.

7 – O Estado a atingir é o Estado orgânico e não totalitário ou democrático... um Estado que atinge e coordena as actividades dos grupos e entidades sociais.
Conceito de Império como Doutrina de Estado baseado em função da autoridade e de um poder que estão investidos numa natureza sacra... que servirá de guia, de modelo à comunidade.
Formação de uma elite revolucionária como órgão dirigente de Estado.

8 – Repudiam-se conceitos nacionalistas e uma ideia genérica de Pátria que só se baseiam num prisma físico de terra em que se habita, ou uma adesão sentimental aos momentos altos do seu passado histórico... A chave para a construção de um Estado é: a ideia, ordem, elite e homens de ordem.

9 – Combate ao materialismo histórico, economicismo, darwinismo, psicanálise, existencialismo, neo-realismo ...
A verdadeira realidade da existência está subordinada a algo que vai além do que o vinculado ao meramente humano. Isto tem que ser evidenciado através de uma via interior e na própria conduta.
Desintoxicados da cultura livre, podemos conseguir claridade, retidão e força (ascetismo).

10 – União entre a vida e o risco, a fim de superar a sociedade burguesa e o espírito burguês.

11 – Não aceitamos o estado laico nem o clerical de estilo moralismo católico com a sua componente humanitarista de igualitarismo e pela sua ideia de amor e perdão, em lugar de honra e justiça.

12 – Defender a ideia intransigentemente em função da qual devemos estar unidos. Este é o homem novo, o homem da resistência, o Homem Vertical entre as ruínas.

Por: http://legiaovertical.blogspot.com

A AIDS mental do Ocidente

"A presente situação pode ser explicada, quase clinicamente, como uma espécie de 'AIDS mental'. Nossos males presentes derivam do vírus do niilismo, que Nietzsche previu, e que enfraqueceu todas as nossas defesas naturais. Assim infectados, os europeus [e a raça branca, em geral*] sucumbiram a uma auto-extinção febril. Eles voluntariamente abriram os portões da cidade.

O sintoma primário dessa doença é a 'xenofilia': uma preferência sistemática pelo Outro ao invés de pelo Mesmo. Um segundo sintoma é o 'etnomasoquismo', um ódio pela própria civilização e pelas próprias origens . Um terceiro é a emasculação, ou o que poderia ser chamado de culto da fraqueza e um favorecimento do homossexualismo masculino. Valores historicamente comprovados, associados com o uso da força e com a sobrevivência de um povo - valores associados a honra, lealdade, família, fertilidade, patriotismo, vontade de sobrevivência, etc. - são tratados hoje como defeitos."
(Trecho de um discurso de Guillaume Faye, Moscou, 2005)

*acréscimo de Raphael Machado

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Anton Shekhovtsov - Música Apolitéica: Neofolk, Martial Industrial e o "Fascismo Metapolítico"

por Anton Shekhovtsov



"Novos pesares da guerra, novas marés tempestivas nacionais gerarão novas canções folclóricas também"
(Hans Breuer, 1913)

Em 2000, quando eu era o editor de uma pequena revista musical independente, eu recebi um CD intitulado Victory or Death [Vitória ou Morte] pela banda sueca Folkstorm. O CD continha dez faixas de uma dura música industrial e o disco estava decorado com uma Reichsadler [Águia Imperial] de estilo nazista no topo de uma coroa de carvalho. A contracapa estava ornamentada com runas e listava as faixas 'Feldgeschrei' [Alarido no Campo], 'Harsh Discipline' [Disciplina Rígida], 'Propaganda', 'We Are the Resistance' [Nós Somos a Resistência], 'Social Surgery' [Cirurgia Social], para nomear apenas algumas. As palavras nas músicas eram inaudíveis graças aos vocais altamente distorcidos, mas tudo mais sugeria vagamente a natureza extremo-direitista da 'ideologia' do Folkstorm. Surpreendemente, a banda prometia 'Nada de política. Nada de religião. Nada de padrão', uma declaração prudente escrita no próprio disco.

Se a banda se distancia de qualquer referência política enquanto esses sinais sugerem o oposto, que tipo de 'propaganda' seria? A mensagem do Folkstorm tem pouco a ver com a de alguns de seus compatriotas como o Totenkopf, cuja faixa 'Can't be Beaten' sem reservas proclama: 'Mostre-os pelo quê você luta e não sinta remorsos, meu irmão ariano, é hora da guerra racial.' Nem seria a mensagem do Folkstorm uma provocação similar a do punk rocker Sid Vicious ao posar com uma camiseta com uma suástica nela. Se a mensagem não é a disseminação de ódio racial do 'White Noise', nem o 'cuspe na face da sociedade burguesa', então o que é? Nesse artigo, eu argumento que existe um tipo particular de música direitista radical que não promove violência direta, não está relacionada às atividades de organizações políticas ou partidos, e não é um meio de recrutamento para qualquer tendência política. Portanto, eu tomo a declaração 'Nada de política' do Folkstorm a sério, apesar de eu esperar reconceitualizá-la de modo a evitar qualquer tentativa fútil de drenar a mensagem claramente direitista de sua essência. Eu me refiro a essa música como 'apolitéica' (um termo explicado abaixo), e esse artigo irá analisar sua natureza e significância considerando dois gêneros musicais, nomeadamente Neofolk e Martial Industrial, que são os mais utilizados por bandas e artistas para disseminar uma mensagem apolitéica. Eu espero demonstrar que música apolitéica e White Noise são reflexos culturais das duas distintas estratégias polícias que o fascismo foi forçado a seguir nas condições 'hostis' do período pós-guerra.

Antes que eu prossiga, deve ser observado que nem o Neofolk nem o Martial Industrial podem ser considerados 'gêneros musicais fascistas'. Diferentemente do White Noise, que remete especificamente a música ideologicamente motivada, esses dois gêneros são primordialmente construtos tipológicos que abraçam tipos particulares de sons combinados. De fato, quer o Neofolk ou o Martial Industrial possam ser equiparados a propaganda fascista ou neonazista, ou não, foi furiosamente debatido desde meados da década de 90 quando um certo número de bandas desses gêneros começaram a receber - devido a seu uso extensivo de estética fascista - atenção de jornalistas esquerdistas bem como ataques de grupos antifascistas. Em diversas ocasiões, protestos antifascistas, abaixo-assinados e piquetes foram apoiados pelas autoridades que baniram performances de certas bandas de Neofolk/Martial Industrial. Em 2004 a principal banda austríaca de Martial Industrial, Der Blutharsch, teve que cancelar uma performance em Israel, graças a protestos, entre outros, do ministro israelense Natan Sharansky, do membro do Knesset Yossi Sarid, do prefeiro de Tel Aviv Ron Huldai e da Liga Anti-Difamação. No ano seguinte, a mais famosa banda de Neofolk, Death in June, perdeu o direito de vender seu álbum Rose Clouds of Holocaust na Alemanha após uma investigação conduzida pela Bundesprüfstelle für jugendgefährdende Medien (BPjM, Departamento Federal para Mídia Danosa aos Jovens). Nenhuma dessas bandas é parte da cena White Noise, mas ambas abraçam - como eu demonstrarei abaixo - elementos explícitos da Weltanschauung [Visão-de-Mundo] fascista.

Principais termos e conceitos

Há vários termos que jornalistas, servidores públicos e acadêmicos usam para se referir a artistas ou bandas que - sob o ponto de vista dos observadores - executam música impregnada com idéias fascistas ou extremo-direitistas. Alguns desses são termos genéricos que abrangem diferentes gêneros musicais, enquanto outros se referem a gêneros específicos.

O termo 'White Noise' origina da White Noise Records, uma gravadora que lançou o single 'White Power' da banda Skrewdriver em 1983. Skrewdriver foi uma banda britânica que abertamente promovia o ultra-nacionalismo revolucionário por meio de suas gravações, e suas performances às vezes se transformavam em revoltas de skinheads neonazistas. O líder do Skrewdriver Ian Stuart foi membro do British National Front (NF), enquanto a banda em si estava fortemente associada tanto com o NF como com o British National Party (BNP). Em verdade, o Skrewdriver poderia ser considerado a 'ala musical' do NF, já que levantava fundos para a organização e ajudava a recrutar novos membros. Ademais, em 1987, Stuart fundou a rede Blood & Honour que promovia bandas ultra-nacionalistas, organizava seus concertos e servia como nexo para os skinheads neonazistas da Europa e dos Estados Unidos. Já que o Skrewdriver tocava um tipo de Punk Rock conhecido como Street Punk ou Oi!, o termo 'White Noise' originalmente fazia referência a bandas de Punk Rock que propagavam idéias de extrema-direita. Atualmente, graças à variedade genérica de bandas que tocam nos concertos da Blood & Honour, pode-se aplicar esse termo a qualquer rock agressivo que está imbuído com uma mensagem abertamente fascista ou racista.

É de importância crucial ressaltar duas características do White Noise. Primeiro, esse tipo de música é caracterizada por um ultra-nacionalismo abertamente racista ou revolucionário. Bandas White Noise não velam suas mensagems e alguns dos nomes das bandas - sem mencionar títulos dos álbuns e músicas - falam por si mesmos: Race War, Totenkopf, Final Solution, Jew Slaughter, Legion 88, Konkwista 88, Angry Aryans, Brigada NS, RaHoWa, etc. Em segundo lugar, White Noise está associado ou com violência direta contra um 'Outro' ou com a causa política, não importa quão marginalmente, que a inspira. É bem comum que músicos de White Noise não ocultem sua filiação a células ultra-nacionalistas revolucionárias, organizações maiores, ou mesmo partidos eleitorais. Como mencionado acima, o Skrewdriver trabalhava junto ao NF, enquanto a banda romena Brigada de Asalt é parte integral da organização neonazista Noua Dreapta (Nova Direita), presumidamente financiada pelo partido romeno de extrema-direita Partidul Noua Generatie (Partido Nova Geração). Um grande número de bandas White Noise aparecem nos chamados CDs de 'pátio escolar' compilados e lançados pelo extremo-direitista Nationaldemokratische Partei Deutschlands (Partido Nacional-Democrata da Alemanha) para distribuição gratuita entre a juventude alemã.

Surpreendentemente, o termo 'White Noise' não parece abarcar bandas de Black Metal que promovem idéias ultra-nacionalistas. Nesse caso, jornalistas e estudiosos usam o termo 'National Socialist Black Metal' (ou simplesmente NSBM) para fazer referência ao mesmo tipo de mensagem sócio-política do White Noise quando ela é disseminada na música Black Metal.

Outro termo genérico para música de extrema-direita é simplesmente 'Rock Direitista'. Esse termo ganhou popularidade na Alemanha (Rechtsrock) entre ativistas esquerdistas, estudiosos e instituições governamentais como o Bundesamt für Verfassungsschutz (BfV, Departamento Federal para a Proteção da Constituição) e o BPjM, mas é usando em trabalhos acadêmicos de língua inglesa também. O BPjM afirma que, 'com exceção do jazz e da música clássica, não há gênero musical que não esteja infiltrado por organizações de extrema-direita e que não seja um veículo para conteúdo extremo-direitista. Ele lista oito gêneros musicais que são coletivamente identificados como Rechtsrock: bandas skinheads (obviamente não é um gênero, mas aparentemente o BPjM queria dizer White Noise aqui), NSBM, Hatecore, Techno, Hip-Hop, Folk, cantores-compositores (de novo, não um gênero, mas indivíduos que compõem e tocam suas próprias obras, usualmente acompanhados apenas por violão) e Neo-Folk. Segundo o departamento alemão, são esses gêneros que são comumente usados por músicos que promovem a 'glorificação do Nacional Socialismo a representação de Adolf Hitler e seus partidários como exemplos (ou heróis trágicos)' e que buscam 'instilar ódio racial, clamar por violência contra estrangeiros, judeus ou os que discordam deles'. Tal análise sofre de uma grave deficiência. 'Rock Direitista' per se é um termo 'inchado', e o BPjM o interpreta de modo muito estreito para que ele possa ser aplicado à ampla gama de música direitista. Para ser um direitista ou mesmo um fascista não é necessário ter que glorificar o Nazismo ou buscar instilar ódio racial. O BPjM obviamente atinge o alvo com White Noise e NSBM, mas ao incluir Neofolk - mesmo que assumamos que são apenas as bandas direitistas de Neofolk - dentro de uma definição estreita de Rechtsrock, corre o risco de se equivocar. De modo a explicar essa distinção crucial, precisamos considerar dois conceitos-chave: fascismo e apolitéia.

Nesse artigo, eu subscrevo, metodologicamente, a uma escola dominante dentro dos 'estudos fascistas' que propõe que a ideologia fascista é uma forma de ultra-nacionalismo revolucionário. Essa abordagem é mais extensivamente elaborada por Roger Griffin que define 'fascismo' como:

"(...) uma espécie revolucionária de modernismo político originada no início do século XX cuja missão é combater as forças supostamente degenerativas da história contemporânea (decadência) trazendo uma modernidade e temporalidade alternativas (uma 'nova ordem' e uma 'nova era') baseadas no renascimento, ou Palingenesis, da Nação."

Essa interpretação do fascismo 'implica uma concepção orgânica da Nação que não é necessariamente equiparada ao Estado-Nação ou suas fronteiras existentes, e que está endividada com a moderna noção de soberania do "Povo" como uma entidade e ator histórico supra-individual determinado'. Essa mitologização excessiva da Nação bem como o impulso impetuoso na direção de sua Palingenesis resulta em ter o fascismo a aparência de uma religião política. Como tal, o fascismo gera seu próprio comportamento coletivo culturalmente determinado que possui características específicas, entre as quais 'aventura, heroísmo, espírito de sacrifício, rituals de massa, culto aos mártires, os ideais da guerra e dos esportes e fanática devoção ao Líder' são as mais proeminentes. Essas características não são de modo algum sine qua non do fascismo mas elas são indicativas do compromisso do fascismo com a estetização da vida política, com o ativismo extremo e a política espetacular, e portanto diretamente ligadas a sua tendência de se manifestar como uma forma de religião política.

Ainda que o fascismo seja o enfant terrible do século XX, sua longevidade sócio-política não está lugada aos regimes de Hitler e Mussolini. Após as forças conuntas da URSS e das democracias liberais ocidentais terem esmagado a máquina de guerra fascista, ele foi forçado a evoluir, ou melhor, transmutar em três formas distintas. Os grupos que ainda queriam participar no processo político tiveram que suavizar dramaticamente o seu ardor revolucionário e traduzi-lo 'o máximo possível dentro da linguagem da democracia liberal'. Essa estratégia deu origem aos partidos radicais de extrema-direita que tem se tornado bem-sucedidos eleitoralmente em vários países durante os últimos vinte anos. Ultra-Nacionalistas revolucionários, por outro lado, recuaram para as margens da vida sócio-política e assumiram a forma de células e grupúsculos que mantinham vivo o 'prospecto ilusírio de ter algum impacto revolucionário na sociedade'. A terceira forma de fascismo no pós-guerra foi conceitualizada nos ensinamentos de dois filósofos fascistas, Armin Mohler e Julius Evola. Em Die konservative Revolution in Deutschland 1918-1932, publicado em 1950, Mohler afirma que, já que a revolução fascista foi indeterminadamente adiada graças à dominação política da democracia libera, os verdadeiros 'conservadores revolucionários' se encontravam em um 'interregnum' que iria, porém, abrir caminho espontaneamente à grandeza espiritual do redespertar nacional. Esse tema da 'emigração interior' foi ecoado por Evola em seu Cavalcare La Tigre (Cavalgar o Tigre), publicado em 1961. Evola reconheceu que, enquanto 'o verdadeiro Estado, o Estado hierárquico e orgânico', esteja arruinado, não há 'nenhum partido ou movimento com o qual possamos concordar em absoluto e pelo qual possamos lutar com devoção absoluta, em defesa de alguma idéia superior'. Portanto, l'uomo differenziato deve praticar 'desinteresse, separação de tudo que hoje constitui "política"', e esse era exatamente o princípio que Evola chamava 'apoliteia'. Enquanto apoliteia não necessariamente implica abstenção de atividades sócio-políticas, um indivíduo apolitéico, um 'Aristocrata do Espírito' deve sempre incorporar sua 'distancia interna irrevogável dessa sociedade moderna e seus "valores"'.

Os conceitos de interregnum e apoliteia tiveram um grande impacto no desenvolvimento do "Fascismo Metapolítico" da European New Right (ENR), um movimento que consiste em agrupamentos de think tanks, conferências, revistas, institutos e editoras que tentam - seguindo a estratégia do assim chamado 'Gramscismo direitista' - modificar a cultura política dominante e fazê-la mais suscetível a um modo não-democrático de política. Como Mohler e Evola, os adeptos da ENR acreditam que um dia a supostamente decadente era do igualitarismo e cosmopolitismo darão lugar a uma 'inteiramente nova cultura baseada em valores orgânicos, hierárquicos, supra-individuais e heróicos'. É importante enfatizar, porém, que "Fascismo Metapolítico" foca - quase exclusivamente - na batalha por corações e mentes e não no poder político imediato. Seguindo os preceiros de Evola, a ENR tenta se distanciar de partidos e regimes fascistas tanto históricos quanto contemporâneos. Como o racismo biológico ficou desacreditado no período pós-guerra, e não era 'mais possível falar publicamente das diferenças perceptíveis através da linguagem do "antigo racismo"', os pensadores da ENR apontaram para as incomensuráveis diferenças entre povos, não em termos biológicos ou étnicos, mas sim em termos de cultura. Eles abandonaram um fascismo ultra-nacionalista aberto 'em nome de uma Europa restaurada à (essencialmente mítica) homogeneidade de seus componentes culturais primordiais'.

Como as estratégias do fascismo no ambiente 'hostil' do pós-guerra se relaciona com a música? Enquanto não pode haver nenhum reflexo puramente musical da política partidária direitista, o White Noise se tornou parte e parcela da subcultura ultra-nacionalista revolucionária. E eu sugiro que o 'Fascismo Metapolítico' tem sua própria manifestação cultural no domínio sonoro, nomeadamente, a música apolitéica. Esse é um tipo de música no qual a mensagem ideológica contém referências óbvias ou veladas aos elementos essenciais do fascismo mas é simultaneamente distanciada de qualquer tentativa prática de implementar essa mensagem através de atividade política. Música Apolitéica é caracterizada por posturas extremamente elitistas e um desdém pelo 'materialismo mesquinho e banal'. Tanto artistas apolitéicos como seus fãs conscienciosos parecem se apresentar como 'Aristocratas do Espírito', unidos em seu conhecimento implícito de que o Imperium Internum é o reflexo de uma nova era vindoura de Palingenesis nacional e espiritual. Perdidos na contemplação desse futuro utópico, eles percebem a atual situação como o interregnum. Independentemente da medida em que o mundo contemporâneo europeizado esteja realmente decadente ou espiritualmente empobrecido, ele sempre parecerá pálido ao lado do 'admirável novo mundo' fascista.

O conceito de apoliteia se relaciona com uma noção mais importante, verdadeiramente crucial, nomeadamente, o de Waldgang [Passeio na Floresta]. Dez anos antes do aparecimento do primordialmente livro pessimista de Evola, Cavalcare la Tigre, Ernst Jünger publicou o ensaio Der Waldgang, que antecipou as reflexões de Evola sobre apoliteia. Jünger, o autor do criticamente aclamado In Stahgewittern (1920) - traduzido em Português como Tempestades de Aço - a Der Arbeiter (O Trabalhador) (1932), celebrava a guerra, na qual ele via inserido o processo metafísico da criação de uma nova civilização. Ele portanto simpatizava com o regime Nazista, que parecia ser o instrumento corporificado para pôr esse processo em movimento. Porém, como Griffin observa, Jünger 'permanecia alheio à política, relutante em abandonar as alturas de seu posto metapolítico', apesar de o regime ter efetivamente se beneficiado de suas obras literárias que legitimavam o fascismo na esfera cultural. Em seu livro do pós-guerra Der Waldgang, Jünger critica severamente o Titanic espiritualmente empobrecido que é a Idade Moderna, tomada por 'liquidações, racionalizações, socializações, eletrificações e pulverizações' que não requerem 'nem cultura, nem caráter'. Ainda assim, ele convocava os indivíduos livres a permanecerem 'à bordo' (ou seja, usar o progresso tecnológico para sua vantagem) e, ao mesmo tempo, 'recuar para a floresta' (Waldgang). Para ele, a floresta era o símbolo do 'Ser supratemporal' ou 'o Ego' e, ao 'recuarmos' nela, 'o caminhante na floresta' (Waldgänger) pode resistir à corrupção moral do interregnum. Confrontados com as 'forças demoníacas de nossa civilização', l'uomo differenziato rejeita a escolha aparente ('ou uivar com os lobos ou lutar contra eles') e encontra uma alternativa em 'sua existência como indivíduo, em seu próprio Ser que permanece inabalado'. Interessantemente, Jünger afirma que o

"recuo para a floresta (Waldgang) não é...dirigido contra o mundo da tecnologia, apesar disso ser uma tentação, particularmente para aqueles que lutam para recuperar um mito. Indubitavelmente, a mitologia ressurgirá novamente. Está sempre presente e ergue-se em um momento propício como um tesouro vindo à superfície. Mas o homem não retorna ao reino do mito, ele o reencontra quando o tempo está fora de encaixe e no círculo mágico do perigo extremo."

Enquanto o conceito de Waldgang é claramente outro aspecto de apoliteia (ou talvez o seu reverso), artistas apolitéicos percebem a si mesmos como 'caminhantes na floresta'. Eles necessariamente aludem a mitos - quer pagãos ou, menos frequentemente, cristãos - mas tais alusões não representam uma tentativa de retornar a um passado mitologizado. Nem as posições desses artistas poderiam ser consideradas como antimodernas, muito menos antitecnologicas. Ao contrário, eles escolhem 'tanto a floresta como o navio', na medida em que se opõem ao interregnum decadente com seu comprometimento interior a uma modernidade alternativa reencantada da nação renascida, do invididualismo heróico e de uma ética de honra militar subjetivamente interpretada.

Neofolk e Martial Industrial: as origens

Indubitavelmente os exemplos mais óbvios de música apolitéica - que se revela através da música, letras, nomes de bandas, títulos de álbuns e músicas, arte das capas, estilo de vestimenta bem como é sutilmente articulado em performances ao vivo - pode ser encontrado em certas obras de Neofolk e Martial Industrial. A partir de um ponto de vista 'técnico', os dois gêneros podem parecer musicalmente diferentes. Os artistas típicos de Neofolk cantam canções 'folclóricas' melancólicas ao acompanhamento de violões, violinos e piano, enquanto os projetos típicos de Martial Industral criam sonoplastias bombásticas e sinistras que comumente envolvem vários samples de marchas militares, sons de batalha ou discursos beligerantes. Os gêneros se relacionam - o que não é surpresa - com a interpretação evoliana da origem idealizada da atualmente dessacralizada música moderna ocidental. Sob seu ponto de vista, como exposto em Cavalcare la tigre, 'a música ocidental mais moderna tem sido caracterizada por um distanciamento cada vez maior de sua linhagem, tanto da linha melodramática, melódica, heroicamente romântica e pretensiosa (cujo último exemplar é tipicamente representado pelo Wagnerismo), e da linhagem trágico-patética (precisamos apenas fazer menção às principais idéias de Beethoven)'. Ainda que seja improvável que o próprio Evola fosse apreciar os exemplares mais extremos de Martial Industral, é significativo que ambos gêneros - não importa o quão 'tecnicamente' diferentes eles sejam - se encaixem em sua descrição.

Música Apolitéica é organicamente acomodada dentro do Neofolk e do Martial Industral já que suas raízes se encontram nas traduções culturais nacionais e revolucionárias. Enquanto o Martial Industral claramente descende da música Industrial, Peter Webb e Stéphane François corretamente afirmam que o Neofolk, também, é uma emanação da música Industrial. O Industrial pode ser brevemente e, inevitavelmente de modo inadequado, caracterizado como uma fusão entre Rock e música Eletrônica, misturado com experimentações avant-garde e provocação Punk. Apesar do gênero ter nascido 'geneticamente' em meados dos anos 70 com o estabelecimento da gravadora Industrial Recordas, Karen Collins rastreou o primeiro uso do termo 'industrial' aplicado à música no prefácio de Musica Futurista de Francesco Balilla Pratella em 1912. Luigi Russolo, outro músico futurista e colega de Pratella, foi o autor de um manifesto de 1913 entitulado L'Art des bruits (A Arte dos Barulhos) no qual é possível aparentemente encontrar a primeira conceitualização do Martial Industrial. Considerando a variedade de barulhos naturais e artificiais que poderiam ser empregados para a projetada 'revolução da música', Russolo escreve: 'E nós não podemos esquecer os próprios barulhos da Guerra Moderna. O poeta Marinetti, em uma carta das trincheiras búlgaras de Adrianópolis descreveu para mim...em seu novo estilo futurista, a orquestra de uma grande batalha.' Apesar de o Futurismo de Russolo não tê-lo atraído para o Fascismo Italiano, Pratella e Filippo Marinetti se tornaram - como muitos outros Futuristas - apoiadores ardentes do regime de Mussolini. Obviamente, a música Industrial moderna foi influenciada por outras tendências culturais e musicais (Dadaísmo, musique concrète, Pop, Rock, Eletrônico e Pós-Punk), mas sua emergência (ou melhor, reemergência) em meados da década de 70 foi um resultado da evolução 'espiritual' da música Futurista.

À parte das influências gerais que moldaram a música Industrial, o Neofolk se inspira fortemente nas tradições folclóricas nacionais. O primeiro ponto de referência é uma onda das assim chamadas 'root revivals' que varreram o mundo europeizado algumas décadas após a Segunda Guerra Mundial, alcançando seu apogeu nas décadas de 60 e 70. Várias características principais caracterizaram 'root revivals': Em primeiro lugar, a revitalização e imitação da música tradicional nacional; em segundo lugar, a adaptação da música folclórica à gêneros musicais modernos, especialmente ao Rock e Pop; e, em terceiro lugar, a politização da música folclórica. Como Britta Sweers afirma, 'no contexto dos vários ressurgimentos folclóricos no século XX, a terminologia [música folk] sempre foi combinada com significados políticos ou ideológicos, em particular com a idéia de música tradicional ou folk como um contraponto à música popular (ou seja, comercial)'. Politicamente, a maioria das bandas e cantores-compositores folk foram influenciados por idéias esquerdistas enquanto os 'eventos de Maio de 1968' tiveram um forte impacto no desenvolvimento dos 'roots revivals'. A orientação esquerdista dos artistas folk era particularmente evidente na Alemanha, onde o roots revival encontrou um problema de legitimidade dado que a Volkmusik foi 'destruída' pelos 'kurzbehoste [os de calças curtas] dos grupos juvenis alemães e dos exércitos de soldados e partidários Nacional-Socialistas' através do seu 'uso agressivo das canções e da tradição'.

Apesar de os 'roots revivals' nos EUA e Europa terem - em certa medida - contribuído para a emergência do Neofolk na década de 80, as bandas apolitéicas de Neofolk aparentemente buscam inspiração não nas canções folk de protesto esquerdista dos anos 70, mas nos ressurgimentos folclóricos prévios que ocorreram no final do século XIX e início do século XX. Esses ressurgimentos variaram através dos países europeus. Na Grã-Bretanha, por exemplo, o fenômeno estava associado com colecionadores de canções folclóricas como Cecil Sharp, Ralph Vaughan Williams e Lucy Broadwood, que tomaram a iniciativa - bem-sucedida - de aumentar a apreciação popular da música folk e 'preservar' uma tradição folclórica distintamente inglesa. Na Alemanha, o ressurgimento folclórico se desdobrou dentro de vários clubes e movimentos como os Der Wandervogel (Pássaro Migratório). Esse movimento surgiu em 1896 'em reação a aspectos da vida e estética burguesas e apresentava uma contracultura às onipresentes e harmônicas Männergesangsvereine (sociedades de corais masculinos) do final do século XIX'; ele 'objetivava resgatar uma identidade nacional para a Alemanha, baseada em suas canções'. Na Itália, um dos mais famosos colecionadores de canções folclóricas foi ninguém mais, ninguém menos do que Francesco Balilla Pratella, que abandonou o movimento Futurista após a Primeira Guerra Mundial e dedicou o resto de sua vida à música tradicional de sua Romagna natal, 'para o grande desgosto de Marinetti'. Notavelmente, ao mover-se da música Futurista ao folk tradicional italiano, Pratella antecipou o surgimento do Neo-Folk a partir do milieu Industrial na década de 80.

'Europa esta morta' - 'Procurando por Europa' - 'Europa, Desperta!'

Europa - ou mais um conceito altamente mitologizado e idealizado de Europa - é central para o ethos da música apolitéica. Em verdade, Europa há muito tem sido objeto popular de mitologização. Uma estátua modernista em frente ao Parlamento Europeu em Strasbourg representa Europa como uma mulher sentada em um touro. A estátua representa o antigo mito grego da abdução de Europa pelo lascivo Zeus disfarçado como um touro branco. Ao longo dos séculos o mito foi objeto de milhares de obras de arte, mas nos tempos modernos a idéia de Europa gerou ainda mais interpretações: um bastião do Cristianismo, uma parte do 'Mundo Livre', uma vanguarda da civilização, um lugar imprensado entre as potências capitalistas e socialistas ou, mais recentemente, dividida pelo ex-presidente americano George W. Bush em uma 'nova Europa' favorável à Guerra do Iraque e uma 'velha Europa' que duvidava da validade da campanha militar. Esses são construtos mitológicos aplicados a uma mesma região geográfica. Fascistas, ou Eurofascistas, construíral sua própria Europa mitológica como uma 'entidade cultural homogênea ou comunidade racial primordial'. Com relação à música direitista radical, pode-se distinguir os três temas líricos e artísticos principais aludidos no título dessa seção: a morte da Europa; Europa no interregnum; e o renascimento da Europa.

Sob o ponto de vista do Waldgänger, há várias causas para a morte da Europa. Foi, em primeiro lugar, uma consequência do estabelecimento da Nova Ordem Mundial, marcada pela dominação dos valores liberal-democratas e da rejeição dos mitos fascistas europeus. Em uma entrevista com a banda apolitéica anglo-holandesa H.E.R.R., um dos vocalistas, Troy Southgate, que também é um prolífico autor da Nova Direita, afirma:

"Na Europa...as abominações gêmeas da Americanização e da democracia liberal estão devorando a própria alma de nossa civilização. O individualismo substituiu a individualidade, a economia tem prioridade sobre as idéias, e a sociedade consumista de massa atropela barbaramente o politeísmo, a identidade e a diversidade".

Se a democracia liberal é a inimiga da identidade cultural européia, interpretada em termos fascistas, então a Conferência de Yalta de 1945 - onde os líderes da Grã-Bretanha, Estados Unidos e URSS discutiram a reorganização pós-guerra da Europa - foi claramente o início da marcha fúnebre. 'Death in June' deixa a mensagem clara:

'Sons of Europe
Sick with liberalism
Sons of Europa
Chained with capitalism...
On a marble slab in Yalta
Mother Europe
Was Slaughtered'

[Filhos da Europa
Cansados do liberalismo
Filhos da Europa
Agrilhoados com o capitalismo...
Sobre uma tábua de mármore em Yalta
Mãe Europa
Foi trucidada]

A Morte da Europa (ou, talvez, seu 'mero' declínio) também está ligada ao crescente multiculturalismo dos Estados europeus. Em sua análise da 'cena Euro-Pagã', Stèphane François afirma que tais bandas 'condenam a sociedade multicultural, vista como a manifestação do declínio dos valores europeus e a vitória do universalismo ocidental corruptor'. Josef Maria Klumg do Von Thronstahl, uma das bandas apolitéicas mais influentes e prolíficas, corrobora claramente essa noção:

"O assim chamado 'multiculturalismo'...cria uma população mestiça sem qualquer cultura real...o 'choque de culturas' já causou muito dano nas grandes cidades alemães, onde você pode ver e sentir o 'Declínio do Ocidente' spengleriano simplesmente caminhando por algumas ruas."

O músico russo Ilya Kolerov (Wolfsblood) ecoa a preocupação de Klumb pela identidade cultural européia. Enquanto ele afirma que não gosta 'nem do comunismo, nem do nazismo, nem da moderna democracia judaica', Kolerov admite abertamente: 'Talvez, eu seja parcialmente racista. Eu não quero que Moscou se torne uma cidade asiática. Eu quero ver franceses e ingleses puros nas ruas de Paris ou Londres." O argumento de Kolerov se baseia nas 'novas teorias racialistas' do etnopluralismo promovidas pela Nova Direita Européia e propagadas na Rússia pelo filósofo 'fascista metapolítico' Aleksandr Dugin. A teoria etnopluralista defende o pluralismo etnocultural globalmente mas é crítica do pluralismo cultural (multiculturalismo) em qualquer sociedade específica. Distorcendo um chamado democrático pelo direito de todos os povos e culturas de serem diferentes, a teoria tenta portanto legitimar o exclusionismo europeu e a rejeição da miscigenação. Em termos etnopluralistas, a "mistura de culturas" e a supressão das "diferenças culturais" corresponderia à morte intelectual da humanidade e poderia até mesmo pôr em perigo os mecanismos de controle que garantem sua sobrevivência biológica.'

Toroidh, uma das bandas de Henrik N. Björkk (à parte da já defunta Folkstorm), elabora musicalmente outra explicação para a morte da Europa em European Trilogy. Em uma entrevista conduzida pela revista britânica Compulsion Online seguindo-se ao lançamento de Europe is Dead, a segunda parte da trilogia, Björkk conta a seus leitores: 'A European Trilogy é baseada no caótico século XX - as guerras mundiais, os conflitos étnicos e o sonho de uma Europa unida. A Europa que conquistou o velho mundo, e colonizou o novo, e que desapareceu com a Segunda Guerra Mundial.' Björkk presumidamente ergue o espectro da visão eurofascista da 'guerra civil européia' perdida no século XX, perdida não para um país europeu ou outro, mas para os não-fascistas. Em qualquer caso, o 'sonho de uma Europa unida' de Bkörkk claramente não tem nada a ver nem com a Comunidade Econômica Européia, ou com a União Européia mas é, ao invés, de uma Europa unida fascista, uma noção que era extremamente popular dentro de certos círculos Fascistas italianos e Nazistas.

A visão de uma Europa morte é articulada não apenas nas letras, títulos de canções e entrevistas de artistas, mas é também graficamente expressa em capas e encartes de álbuns. Na maioria dos casos o tema da morte da Europa é representado em imagens melancólicas de esculturas de cemitérios, pessoas de luto com as cabeças baixas, soldados mortos e seus pertences, campos de batalha e trincheiras abandonadas. É claro que as imagens representadas não implicam que um dado álbum irá - quer musicalmente ou liricamente - focar exclusivamente na morte da Europa. A maior parte das bandas apolitéicas combina os três temas eurocêntricos, ainda que cada tema tenha suas representações gráficas específicas.

A banda alemã Darkwood tem sua própria trilogia que lida com a 'luta pela Europa'. A primeira parte é intitulada In the Fields, e sua capa mostra um baixo-relevo de uma mulher triste se ajoelhando sobre um joelho, sua cabeça baixa em uma mão e uma flor na outra. A capa da segunda parte, Heimat & Jugend (Pátria e Juventude), mostra uma imagem de um cemitério belga. A terceira parte Flammende Welt (Mundo em Chamas), tem em sua capa outro baixo-relevo, este representando um médico militar presumidamente servindo com as forças do Eixo (ele porta um capacete de aço M35) carregando seu camarada caído ou gravemente ferido.

Flammende Welt começa com a faixa instrumental solenemente agourenta 'For Europe', e eventualmente conclui com a canção 'In Ruinen', que indubitavelmente alude ao livro de Evola Gli uomini e le rovine (literalmente 'os homens e as ruínas', mas usualmente traduzido para o português como Homem Entre as Ruínas), publicado em 1953, antecipando portanto o Cavalcare la Tigre de 1961. Henryk Vogel, o homem por trás de Darkwood, comenta: 'o final aberto "Em Ruínas" não é apenas o estado após o conflito europeu mas também uma premonição sombrio do que está por vir...Na última música [In Ruinen], vocais sussurrados anuncia que haverá uma resistência cultural - a qual será necessária não apenas para a Europa.' Em outro comentário sobre a música, Vogel pondera que o desenvolvimento da Europa após a guerra e afirma que 'eles decidiram pelo Plano Marshall e compraram nossas almas com ouro. Mas algumas almas não podem ser compradas, e uma Europa Secreta continua viva - como expresso em "In Ruinen".' Similarmente, Ian Read da banda britânica Fire + Ice responde à pergunta de se ele ainda acredita na Europa: 'Todo o mundo está rapidamente se tornando o mesmo e isso é dolorosamente óbvio na Europa que está rapidamente perdendo qualquer essência que já possui. Em verdade, este Espírito permanece apenas em algumas pessoas especiais que o cultivam.'

Para os fascistas, 'uma Europa Secreta' está oculta no interregnum, enquanto a Europa da 'mortal' ordem liberal-democrata e da sociedade multicultural 'homogeneizadora' triunfam. Aqueles que se sentem devastados pela suposta perda de uma velha Europa de hierarquia aristocrática, comunidade etnocultural orgânica, sacrifício e heroísmo não tem outra solução senão 'recuar para a floresta' e encontrar a resposta para a situação atual lá.

"He walked to the forest, to the lair of the wolf
Said: 'I'm looking for Europe, I'll tell you the truth.'
Some find it in a flag, some in the beat of a drum
Some with a book, and some with a gun
Some in a kiss, and some on the march
But if you're looking for Europe, best look in your heart."

[Ele caminhou até a floresta, para o lar do lobo
Disse: 'Estou procurando por Europa, vou lhe dizer a verdade'
Alguns a encontram em uma bandeira, outros na batida de um tambor
Alguns com um livro, e alguns com uma arma
Alguns em um beijo, e outros na marcha
Mas se você busca pela Europa, melhor procurar no seu coração.]

Referências a Ernst Jünger estão em todo lugar em textos e imagens de música apolitéica. Pelo menos duas bandas Neo-Folk dedicaram álbuns ao escritor alemão: Sagittarius (Die Grosse Marina), e Lady Morphia (Recitals to Renewal). O segundo álbum apresenta uma faixa chamada 'The Retreat into the Forest' [O Recuo à Floresta] na qual um cantor recita um trecho da tradução inglesa do Der Waldgang de Jünger. Em 2001 a gravadora alemã Thaglasz, que evoluiu de um fã-clube do Death in June, lançou a verdadeiramente pan-européia compilação em três LPs chamada Der Waldgänger. Como poderia se esperar, muitas das faixas são nomeadas com base em livros e artigos de Jünger, e alguns tem títulos que refletem uma certa elaboração das idéias em seu ensaio supramencionado: 'Innere Emigration' (Emigração Interior) do This Morn' Omina, 'A Solitary Order' [Uma Ordem Solitária] do Luftwaffe e o provocativo 'Waldgang & Apoliteia' do Von Thronstahl.

Von Thronstal, cuja música, nas próprias palavras de Klumg, 'reflete a nostalgia pela verdadeira Identidade e Alma européias', 'nosso lar secreto que é Europa', demonstra a mais aguda perspicácia no que concerne o 'fascismo metapolítico'. Uma das faixas da banda é chamada 'Interregnum' e está inclusa no álbum Pessoa/Cioran, dedicado a Fernando Pessoa e Emil Cioran. Pessoa foi um poeta modernista português que misturava 'um sentimento nacionalista elitista, que favorecia líderes autoritários, com certo viés poético avant-gaarde e um misticismo anticlerical'. Apesar de sarcasticamente crítico do Estado Novo de Salazar (especialmente após ter banido organizações secretas como a Maçonaria e os Rosacruzes), Pessoa abraçou o Salazarismo e, em 1936, um ano após sua morte, o governo republicou alguns poemas de seu livro Mensagem (1933) para celebrar o aniversário do regime. Cioran foi um filósofo romeno que, no curso da década de 30, simpatizou tanto com os regimes fascistas italiano e alemão, bem como era extremamente próximo do movimento fascista romeno Guarda de Ferro, também conhecido como a Legião do Arcanjo Miguel. O líder da Guarda de Ferro, Corneliu Codreanu, também foi honrado com uma compilação especial dupla, Codreanu: Eine Erinnerung an den Kampf (Codreanu: uma reminiscência da luta), que incluiu muitos artistas do Neofolk e do Martial Industrial.

Compilações temáticas são meios importantes para a expressão da idéia da Europa no interregnum. Tributos musicais a indivíduos (geralmente ícones genuínos tanto para neofascistas como para 'fascistas metapolíticos'), tais como Ernst Jünger, Corneliu Codreanu, Julius Evola, Leni Riefenstahl, Arno Breker, e Friedrich Hielscher, revelam que essas figuras - de um modo ou outro associadas com o fascismo - são verdadeiros expoentes da Europa agora morta e, ao contribuir suas faixas para essas compilações, artistas apolitéicos reconfirmam sua fidelidade aos princípios da 'Europa orgânica'. O sentimento e percepção do interregnum é, talvez, melhor descrito na música 'Runes and Men' do Death in June (outra alusão ao Glu uomini e le rovine):

"Then my loneliness closes in
So, I drink a German wine
And drift in dreams of other lives
And greater times"

[Então minha solidão aperta o cerco
E eu bebo um vinho alemão
E vago em sonhos de outras vidas
E tempos mais grandiosos]

A específica expressão estilística do tema do interregnum se encontra fora do próprio reino da música. Enquanto pode-se corretamente considerar que as imagens de ruínas retratadas nas capas de álbuns e/ou encartes faz referência ao tema da morte da Europa, parece mais razoável - dada a enorme popularidade de Evola entre os artistas apolitéicos - ligar tais imagens ao tema do interregnum. O mesmo se aplica a imagens de florestas. É claro que quando artistas ilustram seus álbuns com tais imagens (às vezes os próprios artistas são retratados nelas), é possível concluir que eles simplesmente gostam de florestas. Pode-se também interpretar florestas como símbolos do enraizamento orgânico duradouro e/ou da dissociação voluntária da assustadora decadência da modernidade. Ambas explicações são legítimas e muito provavelmente corretas em muitos casos. Porém, o legado de Jünger, cujo fantasma assombra a cena Neofolk/Martial Industral, não pode ser ignorado; portanto, a imagem de floresta pode muito bem aludir à idéia do 'recuo à floresta' que significa a existência durante o interregnum.

A idéia de renascimento (palingenesis) da Europa é um elemento importante e integral da música apolitéica eurocêntrica. Essa noção implica que, apesar da morte da Europa, seguida por um interregnum indefinido duranto o qual os 'Aristocratas do Espírito' são forçados a realizar um Waldgang, uma Europa mítica (ou, melhor, sombria) de 'fascistas metapolíticos' inevitavelmente ressurgirá. A banda alemã Belborn inseriu essa idéia de forma metafórica em uma canção chamada 'Phoenix':

"In dieser kalten Welt aus Eis
Sind wir das Feuer das bewahrt
Die Wahrheit in des Wesens Kern
Den Schöpfungsgeist in Wort und Tat.
Vogel aus der Götter Hand
Hebe uns empor
Setze die Welt in Brand."

[Nesse mundo frio de gelo
Nós somos o fogo que mantém
A verdade na semente essencial
O Espírito criativo em palavra e ação
Pássaro das próprias mãos dos Deuses
Ergue-nos alto
Ateia fogo ao mundo]

Refletindo sobre o 'renascimento espiritual' da Europa em uma entrevista com a revista romena Letters from the Nuovo Europae, Belborn, porém, nega a morte da Europa, mantendo que ela estava apenas dormindo: 'Não é preciso parir algo novamente que nunca morreu! Europa está apenas dormindo no momento porque Morfeu era e é ocupado demais. Europa desperta!!!' Em qualquer caso, ambas idéias - o Renascimento da Europa e seu Despertar - são metáforas mitológicas que revelam o impulso palingenético da música apolitéica. A banda de Troy Southgate Seelenlicht expressa isso citando Demian de Hermann Hesse (1960) na capa interior do álbum Gods and Devils: 'O pássaro rompe o ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer, deve primeiro destruir um mundo.' Além da similaridade das metáforas dos pássaros nestes textos dos álbuns de Belborn e Seelenlicht, ambos apontam para a morte da ordem atual que irá gerar uma nova. Nesse contexto, a destruição necessária não é a da 'Europa orgânica' mas do atual 'McMundo' da democracia liberal. Essa conotação da noção de palingenesis é efetivamente articulada por Howard Williams em seu artigo sobre o emprego dos termos 'metamorfose' e 'palingenesis' por Immanuel Kant: 'Quando uma mudança palingenética ocorre, a estrutura existente assume uma aparência totalmente inapropriada, que está fora de sintonia com a verdadeira natureza do organismo. Aqui o nascimento de uma nova estrutura pode ocorrer apenas com a morte completa da velha.'

Portanto, não é coincidência que, por exemplo, a banda americana Luftwaffe associa palingenesi com Kalki, uma Deusa hindu que irá pôr fim à presente era (Kali Yuga) de decadência e degeneração, em 'Kalki's Army':

"We'll tear this world to shreds
We'll rip your world to shreds
Your corporations will burn
Your institutions will burn
Your churches will burn
You will burn!...
Within the Meta-Kronosphere
This moment is decried
You would have thought
Your actions were your own
But history has moved your hand
Now history has given us this day
The dark ages are over
Our age is come."

[Nós vamos despedaçar seu mundo
Nós vamos rasgar seu mundo em pedaços
Suas corporações vão queimar
Suas instituições vão queimar
Suas igrejas vão queimar
Sua bandeira vai quemar
Você vai queimar!...
Dentro da Meta-Kronosfera
Esse momento é execrado
Você teria pensado
Que suas ações eram suas próprias
Mas a história moveu sua mão
Agora a história nos deu este dia
As eras de trevas acabaram
Nossa era começou.]

A associação de palingenesis com Kalki pode ser encontrada nos escritos da mística nazista francesa Maximiani Portaz, melhor conhecida como Savitri Devi. Durante os anos do Terceiro Reich ela ativamente propagandeou uma crença de que Hitler era um avatar de Kalki, destinado a esmagar 'as forças das trevas combinadas do Judaísmo, do Marxismo, e do Capitalismo Internacional'. O impacto dos escritos de Savitri Devi sobre o neonazismo bem como sobre o 'fascismo metapolítico' é considerável. A banda apolitéica alemã Turbund Sturmwerk cita seu O Relâmpago e o Sol na contra-capa de seu álbum epônimo: 'Não se importe com quão sangrento o golpe final poderá ser!...Nós estamos aguardando por isso e pelo triunfo de todos aqueles homens que, através dos séculos e hoje, jamais perderam a visão da Ordem eterna, decretada pelo Sol...' Esse 'leitmotif' - obviamente, nem sempre um resultado da adoção dos delírios de Devi - reaparece repetidamente nas letras e entrevistas de artistas apolitéicos. Henryk Vogel, por exemplo, assume que 'é possível que tudo vá ruir e virar pór e que uma nova geração surgirá das cinzas desse sistema materialista para instaurar uma nova ordem de esplendor e luz'.

Interessantemente, a idéia de renascimento da Europa também revela a si mesma através dos nomes das gravadoras que lançam - quase exclusivamente - música apolitéica. Em 1981 Douglas Pearce fundou a New European Recordings, cuja discografia inclui os álbuns de sua banda (Death in June), bem como de outros projetos como Boyd Rice and Friends, Fire + Ice, TeHÔM e Strength Through Joy. Em 2002 a gravadora belga Neuropa Records foi fundada para lançar álbuns por tais bandas como Toroidh, Horologium, Un Défi d'Honneur, Levoi Pravoi, Oda Relicta e outras.

É importante notar que a palavra 'palingenesis' ela mesma ganhou popularidade no meio apolitéico. O que é ainda mais importante é que ela é interpretada por fãs conscienciosos em um sentido 'fascista metapolítico', mesmo se o termo não aparecer realmente. Veja, por exemplo, um review da faixa instrumental 'Palingenesis', composta pela banda sueca de Martial Industsrial Arditi, pelo sabor tanto desse tipo de interpretação apolitéica intuitiva e da música Martial Industrial:

"'Palingenesis' começa com uma percussão bombástica que imediatamente incendeia a alma. O tambor ecoa dos alto-falantes com incrível definição e profundidade. Uma caixa se une ao tímpano acrescentando dimensão e impingindo uma tonalidade definitivamente marcial à canção. Sintetizadores solenes contribuem com um senso de atmosfera que é bem antigo e resignado. 'Palingenesis' pinta uma imagem mental de soldados alinhados prontos para marchar para o combate, resignados com seus destinos, e unidos por honra e sangue."

H.E.R.R. reproduz quase a mesma 'pintura mental' em sua música 'A New Rome':

"Marching through the rain
We are soldiers again
We are raised from the fields
With our swords and our shields...
A city to win
With the sun on our skin
We failed in the past
But today she will last."

[Marchando através da chuva
Somos soldados novamente
Fomos recrutados dos campos
Com nossas espadas e nossos escudos...
Uma cidade para conquistar
Com o Sol em nossa pele
Nós falhamos no passado
Mas hoje ela durará.]

Estética militar é, não surpreendentemente, um dos elementos estilísticos mais empregados pela música apolitéica. Quando tais projetos e artistas como Death in June, Boyd Rice, Dernière Volonté, Les Joyaux de la Princesse e Krepulec se vestem com uniformes militares ou quase militares para performances ou fotografias promocionais, eles enfatizam sua imagem musical e lírica como 'soldados culturais' que mantém a bandeira hasteada na luta contra 'a era de decadência e demoloucura', como o título de uma das músicas do Von Thronstahl afirma.

Evitando a política profana pela guerra espiritual

O semanário alemão da Nova Direita Junge Freiheit, em 1996 publicou um curto artigo sobre novas tendências musicais.

"Alemanha se tornou o centro de uma cultura musical enraizada nas correntes antimodernas da cena 'Gótica'. Romantizando o pathos e o poder arcaico (archaische Gewalt), a música abrange desde, por um lado, melodias classicamente influenciadas à, do outro, Industrial duro. Essa mistura contém uma força explosiva, a qual aqueles no mainstream musical que mantém guarda contra a velha tradição devem temer. Se o mítico e o irracional, bem como o desejo por instrospecção anti-Iluminista e transcendência viva, encontrarem uma voz na cultura jovem, o consenso estético do Ocidente será quebrado."

Esse artigo foi possivelmente a primeira tentativa de envolver os artistas Neo-Folk/Martial Industral na luta 'Gramsciana direitista' pela hegemonia cultural. Desde então, tem publicado entrevistas com artistas apolitéicos e reviews musicais entusiasmados. Na França, porém, a recepção da música Neofolk/Martial Industrial por pensadores da Nova Direita tem sido ambivalente. Por exemplo, o líder da Nova Direita francesa, Alain de Benoist, que gosta de música folclórica, acha perturbador quando artistas folk (como Death in June) acrescentam 'elementos da subcultura nazista' a sua música, e os considera provocadores. Por sua vez, Christian Bouchet, o fundador da Nouvelle Resistance (Nova Resistência), abraça o que eu chamo de música apolitéica, em oposição ao White Noise. A Nova Direita russa, associada principalmente com as organizações neo-eurasianistas de Aleksandr Dugin, especialmente a Ievraziiskii Soyuz Molodezhi (UEJ, União Euroasiática Jovem), tem uma opinião positiva da música apolitéica, e um líder da divisão local da UEJ de Kazan até possui uma pequena companhia (Arcto Promo) que organiza festivais musicais - chamados 'Finis Mundi' - que às vezes incluem bandas apolitéicas. O caso britânico é mais direto já que Troy Southgate, o líder da Nova Direita britânica e o fundador do grupo Nacional-Anarquista é ele mesmo um artista apolitéico. Ele também é o editor da revista da Nova Direita Synthesis; Journal du Cercle de la Roise Noire, na qual ele publica, inter alia, seus reviews de álbuns Neofolk/Martial Industrial.

Significativamente, todos os movimentos e grupos que, de uma maneira ou de outra, se voltam para essas bandas em uma tentativa de infiltrar certas subculturas jovens são metapolíticos, ao invés de políticos. Essas organizações então eventualmente descobrem que eles tem mais em comum com bandas do que com partidos genuinamente políticos, movimentos ou mesmo grupos neofascistas violentos. Similares aos músicos apolitéicos, que 'funcionam como um tipo de ponto de referência metapolítica para aqueles que se encontram desiludidos com o estado do mundo moderno', esses grupos da Nova Direita focam no terreno cultural em sua tentativa de influenciar a sociedade e torná-la mais suscetível a modos autoritários e antidemocráticos de pensamento.

Obviamente, há exceções. Troy Southgate já foi um membro do NF, mas ele abandonou a organização muito antes de ter começado a participar de projetos 'fascistas metapolíticos' musicais. Anthony Wakeford do Sol Invictus também já foi membro do NF e, em 2007, ele escreveu uma mensagem arrependida para o seu website dizendo que ele não tinha interesse ou simpatia pelas idéias do NF há mais de 20 anos, e que se juntar àquela organização havia provavelmente sido a 'pior decisão de sua vida, e uma da qual ele se arrependia'. Ademais, a possibilidade de que alguns músicos apolitéicos sejam membros de organizações políticas radicais ou de extrema-direita não pode ser descartada, mas é crucial que essa participação seja mantida em segredo e não propagada.

A razão pela qual artistas apolitéicos evitam envolvimento com atividades políticas abertamente direitistas não reflete preocupação por suas reputações (apesar de eles a valorizarem), mas sim a falta de correspondência entre a 'guerra espiritual' e a 'política profana'. Por exemplo, membros da banda Neofolk russa Ritual Front, que definem o conceito da banda como 'Tradição, antiguidade, modernidade, Deuses, morte, vida, guerra, luta, o caminho do guerreiro', ao mesmo tempo desdenhosamente afirmam: 'Nós não somos uma banda Oi nem participantes do underground skinhead que estão engajados na política diretamente!' Tanto os partidos políticos de direita radical e os grupúsculos racistas/nenazistas também parecem desprezar os 'revivalistas espirituais', que provavelmente se recusariam a tocar em concertos de campanha ou a pedir para se livrarem de 'inimigos raciais'.

A questão, porém, permanece sobre se bandas apolitéicas podem funcionar como instrumentos para popularizar e promover idéias genuinamente fascistas, a adoção das quais pode eventualmente levar seus ouvintes a contribuir à causa política, mesmo se tais bandas - talvez honestamente - não queiram isso. A resposta, sem dúvida nenhuma, é 'sim'. A música é um instrumento poderoso de (má)educação: a idealização do fascismo, enquanto super-enfatiza seus 'valores' e deliberadamente oculta (e até mesmo normaliza) seus crimes e práticas genocidas durante o período entre-guerras e a Segunda Guerra Mundial, efetivamente contribui para uma leitura errada da história moderna, especialmente por fãs conscienciosos. Nós podemos apenas conjecturar sobre se uma vontade individual se satisfará com apenas 'vagar em sonhos de outras vidas e tempos mais grandiosos' ou se eventualmente se tornará envolvida com tentativas de implementação prática desses 'sonhos'.

(...)