sábado, 25 de junho de 2011

Aleksandr Dugin - Ou Quando a Metafísica e a Política se Unem

por Sergio Fritz Roa

Escassas personalidades nos últimos anos comoveram de maneira tão estrondosa os ambientes do radicalismo mundial, como fez Aleksandr Dugin. Polemista, homem dotado de uma memória prodigiosa, notável artesão na difícil ciência de gerar idéias, locutor radial de um programa transgressor como poucos, ensaísta, geopolítico, músico, estudioso da Metafísica guénoniana, crítico das ideologias políticas aceitas pela polícia do pensamento, editor clandestino das obras de Guénon e Evola quando ainda a União Soviética era uma realidade, diretor da associação e casa editorial Arctogaia, a qual literalmente inunda a Internet com suas páginas que tratam sobre Nacional-Bolchevismo, Otto Rahn, Eurasismo, e Julius Evola, entre um universo conceitual heterogêneo que poderá gerar aplausos ou odiosidades; pois frente a Dugin ou está-se com ele e segue-se o mesmo, ou repudia-se ele. Parece não haver outra opção. E, sem embargo, nós queremos fazer um juízo crítico que esteja mais além das posturas extremas antes mencionadas. Trataremos de expôr as idéias que sustenta Dugin, indicando, quando estimemo-lo procedente, nossa opinião.


1 - Tese Geopolítica

Um dos pontos centrais dos escritos desse pensador russo é a geopolítica. Nele converge uma tradição que vai desde Halford McKinder, passando pelo misterioso Karl Haushofer, até Parvulesco, seu amigo francês.

A importância dada por Dugin à política dos grandes espaços, o engrentamento entre dois postulados cosmovisionais como são o atlantismo e o eurasismo, o destino de Alemanha e Rússia, fundamenta-se na busca do sentido de uma luta que possui elos invisíveis e na qual não atuam somente os homens senão - se permite-se a nós a expressão - os próprios deuses. Quer dizer, o combate entende-se entre idéias-forças mais que entre personalidades. Os homens somente representam os corpos ou pontos espaciais em que manifesta-se a violência histórica.


2 - Política Hermética

Para Aleksandr Dugin como para Pauwels, Bergier, Serrano, Robin, Evola, Angebert, e tantos outros, existem conexões ocultas entre política moderna e espiritualidade. Muito já escreveu-se dos Iluminados da Baviera, da Ordem de Thule, da Maçonaria. Dugin assinala novos paradigmas. Fala-nos da geopolítica movida por seitas que enfrentam-se à morte; do cosmicismo russo. e de outras forças veiculadas por pequenos grupos, que trabalham nas sombras.

Tem sido matéria de fortes críticas a idéia de Dugin segundo a qual o comunismo seria uma espécie de "Via da Mão Esquerda", a qual encontra uma expressão no mundo tradicional em correntes como o Tantrismo. É este repetimos, um dos pontos mais controvertidos em Dugin, haja vista que em seus textos aprecia-se uma valoração deste caminho. Vimos na Internet na página de um sítio nacional-bolchevique, como se tratasse-se de uma reivindicação, uma fotografia do satanista Aleister Crowley, por quem o russo manifestou grande interesse. Não podemos omitir que dissentimos dessa nebulosa espiritual, a qual somente conduz a equívocos àqueles que não estejam inteirados da dicotomia "espiritualidade tradicional/pseudo-espiritualidade", expressa tão claramente por Guénon. Por outra parte, se Dugin pretende defender a Tradição, por quê não dedica-se exclusivamente à exposição séria e meditada do Cristianismo Ortodoxo - o qual sim possui até hoje a transmissão e os ritos próprios de um caminho tradicional - em vez de buscar a Luz em um dos terrenos mais instáveis da "espiritualidade", como é o ocultismo?


3 - Revolução Conservadora

O escritor russo resgata a mensagem daquele distinto grupo que Armin Mohler denominou em sua tese doutoral "Revolução Conservadora", e à qual teriam aderido pensadores da estatura de Thomas Mann, dos três Ernst (Niekisch, Jünger e von Salomon), Carl Schmitt, Oswald Spengler, os irmãos Strasser, entre outros.

A filosofia desse agrupamento caracterizar-se-ia por um evidente culto à guerra, o ter bebido em fontes nietzscheanas, sua oposição ao Nacional-Socialismo, um acento esquerdista - o qual, devemos dizer, não dá-se com o politólogo católico Schmitt - que sem embargo é capaz de resgatar a Nação como entidade e bandeira de luta.

Os membros desta corrente serão focos de atração para Dugin, como foram-no para o movimento cultural chamado Nova Direita.

4 - Espiritualidade Tradicional

Dugin editará duranto os anos do marxismo em formato de samizat, textos dos autores tradicionalistas René Guénon e Julius Evola. Assinalará que tanto na Igreja Ortodoxa como no Islã há duas forças vivas da Tradição na Rússia e nos países eslavos. Será portanto crítico do neo-espiritualismo e desse fenômeno extraordinariamente anti-tradicional e subversivo que é a New Age. Sem embargo, e como já indicamos, existem aspectos em seus postulados que parecem-nos rotundamente questionáveis; por exemplo sua valoração em relação a aspectos da magia ocultista e obscurantista de Crowley.


5 - Convergência dos Extremos

Aleksandr Dugin definir-se-á Nacional-Bolchevique. Portanto, sua pretensão é a união tática das hostes nacionalistas e comunistas. E assim unirá o radicalismo alemão com o bolchevismo russo. Digamos de nossa parte que esta doutrina, ainda que disparatada, não obstante não é nova, e, que ao contrário, já foi apresentada como um muro defendido por vários pensadores. É o que denominou-se "aliança marrom-vermelha", que seduziu a alguns autores da "Revolução Conservadora", e em anos mais recentes a Giorgio Freda, autor do texto "A Desintegração do Sistema" e criador de um curioso movimento chamado nazi-maoísta.

Tal postura, segundo os nacional-bolcheviques, justifica-se no fato de que os únicos adversários do sistema capitalista tem sido e são a extrema-direita e a extrema-esquerda.

Como anedota, digamos que Julius Evola criticou estas posturas, as quais apresentaram-se muito fortes e radicais na Itália, durante a década de 60 e 70, levando inclusive ao cárcere vários dos militantes desta corrente, os quais acreditavam que não havia outra via plausível além da violência. O resgate por este grupo de figuras como Che Guevara, Mussolini, Mao Tsé-Tung, ou do próprio Evola (o qual jamais em seus textos ou diálogos aprovaria um atuar semelhante), foi uma das características na Itália desta doutrina demasiado ambígua e perigosa.


6 - Novas Estratégias

Não somente a erudição do diretor de Arctogaia chamou a atenção dos europeus. Também fê-lo seu caráter de polemista. Para ele hão de utilizar-se novas estratégias e táticas. A guerra atual exige novos meios, e não devem ficar de lado a televisão, o rádio, o jornal, a revista, a Internet. Em todos eles, Dugin lançou seus dardos venenosos, semeando a comoção nos meios intelectuais.

Porém não somente basta utilizar novas ferramentas, extrai-se de seu atuar. Deve utilizar-se uma nova semântica. A revolução não é outra coisa que a imposição de novos parâmetros conceituais. Assim, uma linguagem que utilize palavras supostamente antagônicas despertará a atenção. Utilizar termos como revolução-conservadora, socialismo-nacional, união entre extrema-direita e extrema-esquerda, é fortemente polêmico. E é aqui que assinalamos um traço operacional de Dugin: ao querer abarcar muito - ao ser extensivo - caiu em contradições.

Tentamos mostrar em uma síntese - que sabemos ser demasiado apertada - as principais idéias que movem este intelectual do ativismo mais radical. Esperamos que seja de utilidade nosso trabalho para aqueles que busquem outros caminhos nos tristes mares da política atual. 

Digamos, para finalizar, que pode-se estar de acordo ou em oposição em relação às teorias do pensador russo. Não obstante, alguém poderia ser indiferente aos seus postulados? Acreditamos que não, e há aí um mérito não menos imputável a este geopolítico da metafísica.


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