sábado, 31 de dezembro de 2016

Eduardo Velasco - A maldição oriental: danos dietéticos trazidos pela Revolução Neolítica

por Eduardo Velasco

"E ao homem declarou: 'Visto que você deu ouvidos à sua mulher e comeu do fruto da árvore da qual eu lhe ordenara que não comesse, maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida. Ela lhe dará espinhos e ervas daninhas, e você terá que alimentar-se das plantas do campo. Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó e ao pó voltará'." - (Gênesis 3:17-19)

"O registro fóssil indica que os primeiros agricultores, em comparação com seus antecessores caçadores-coletores, tiveram uma redução característica de altura, um aumento na mortalidade infantil, uma redução na expectativa de vida, um aumento na incidência de doenças infecciosas, um aumento da anemia ferropriva, aumento da incidência de osteomalácia, hiperostose porosa e outros distúrbios de minerais no esqueleto, e um aumento na cárie e defeitos do esmalte dentário. A agricultura não provocou um aumento na saúde, mas sim o contrário". - (Dr. Loren Cordain).

No artigo sobre nutrição e degeneração física vimos como a alimentação tradicional primitiva é infinitamente superior comparado com a moderna na produção de seres humanos mais saudáveis. A ideia mais importante que deve ser derivada disto é que a noção de "progresso" tem que ser seriamente questionada. A moderna doutrina oficial (herdeira das ideias do iluminismo francês, por sua vez fortemente influenciada pela burguesia urbana, as elites financeiro-comerciais, a maçonaria e grupos similares) insiste em que, de um passado de barbárie, "evoluímos" e progressamos e que esse progresso tem sido visível no desenvolvimento da matéria inerte e da civilização. Esse ponto de vista negligencia deliberadamente o fato de que o próprio homem não "progrediu" desde o Paleolítico, mas pelo contrário: ele perdeu a capacidade craniana, a integridade genética, a solidez esquelética e corporal, o equilíbrio psicológico, a harmonia interior e que "a cada dia estamos mais doentes e melhor curados" que nunca.

O homem deve parar de olhar para os objetos materiais que o cercam, e encontrar um espelho no qual olhe para si mesmo. Há muito tempo, a perspectiva antropocêntrica foi abandonada, na qual o homem era considerado como um modelo, um ensaio de Deus, e em que a civilização tinha de ser feita sob medida para o homem, e não vice-versa. Hoje, a civilização tornou-se um monstro que, para a maior glória do sistema econômico, procura maneiras cada vez mais distorcidas de moldar a mente humana para torná-lo apto através de marteladas em um conceito de mundo que não tem nada a ver com a ordem natural e com o que ditam os genes. Quando a natureza humana protesta ante esse estado de coisas, fala-se de "doenças", "inadaptação" e outros eufemismos, e se apressa a procurar novos remédios, remendos ou métodos educacionais que possam neutralizar os sintomas, evitando cortar o problema radicular. O desenvolvimento da civilização tecnológica e do sistema econômico exige que a natureza humana seja cada vez mais controlada e manipulada para selecionar e construir o tipo humano para o qual o sistema é adequado: uma raça majoritária de cordeiros e uma raça minoritária de pastores. É assim que Nietzsche refletiu: "ressaltamos que descemos mais e mais baixos, rumo a algo mais fraco, mais manso, mais prudente, mais plácido, mais medíocre, mais indiferente, mais chinês,  mais cristão — o homem, sem dúvida, torna-se cada vez mais 'melhor'." 

No entanto, mais e mais pessoas estão percebendo que o estilo de vida moderno é uma abominação e que está promovendo todos os tipos de desajustes psicofísicos no ser humano. Quando uma força expansiva é reprimida, mais cedo ou mais tarde, ela tem que explodir, e quanto mais tempo ela está contida, mais forte será a explosão. É o que o futuro nos reserva por causa da atual gestão desastrosa dos instintos humanos.

Se neste quadro eu presto atenção à dieta, é porque a comida influencia decisivamente na configuração genética e na evolução de uma espécie, pois, literalmente, "somos o que comemos". O cérebro humano só se desenvolveu quando, graças à carne cozida (ver revolução carnívora), teve como matéria-prima um alimento muito superior para alimentar o crescimento de seus tecidos. Da mesma forma, a falta de comida decente tem um impacto sobre a qualidade da substância reprodutiva, a falta de vitaminas produz uma prole raquítica e, a longo prazo, hábitos alimentares perniciosos são cobrados a toda uma espécie e causam sua involução. Na categoria de alimentos, o marco mais significativo na longa degeneração dos hábitos humanos é, sem dúvida, a adoção dos cereais como principal alimento.

Os cereais são atualmente a causa principal da superpopulação e, portanto, são os culpados de que um número crescente de seres humanos está arrancado cada vez mais recursos da terra de que dependemos. Se esses bilhões de parasitas bípedes sobrevivem ​​no mundo moderno e podem continuar a produzir poluição, é exclusivamente graças aos cereais. As monoculturas genocidas (especialmente arroz, trigo, milho e soja) produzem calorias baratas e fáceis, mas vazias como palha, e aniquilaram a variedade nutricional de que dispunham os nossos antepassados. A agricultura intensiva exige o uso de substâncias tóxicas e a desnaturação dos alimentos em troca da produção de mais quantidade. A dependência da humanidade dos grãos de cereais levou ao desmatamento (e à destruição da biodiversidade animal que abrigava florestas), à multiplicação descontrolada e desastrosa de nossas populações, a uma infinidade de doenças degenerativas, ao empobrecimento do solo, à desertificação e um longo etc. O número de seres humanos aumentou, mas sua qualidade decaiu.

Situemos numa sociedade caçadora do Paleolítico. Os meios de subsistência são principalmente a caça, que é ocupada por jovens da tribo. Se colocássemos um gasto calórico diário para o humano paleolítico médio, levando em conta o frio, a maior corpulência, um metabolismo basal mais intenso, atividade física frequente e rígida e outros, poderíamos talvez exagerar dizendo que o humano paleolítico médio poderia consumir 9.000 calorias diárias (para ser tão generoso como eu fui, um alpinista moderno pode precisar de 7.000 calorias diárias durante o inverno, e sob o peso de uma boa mochila), que vinha de fontes autorenováveis. Agora vamos comparar: nas sociedades industriais, as colheitas são coletadas por máquinas que consomem petróleo, e os alimentos são transportados de forma econômica a grandes distâncias por veículos que consomem grandes quantidades desse combustível. A cada passo que tomamos no mundo, devoramos grandes quantidades de eletricidade, gás, papel, carvão, plástico, metais etc., que em última análise vêm da Natureza. Desta forma, o indivíduo médio moderno pode consumir (por baixo) 250.000 calorias, a maioria das quais provenientes de fontes não renováveis ​​que são sutilmente arrancadas abominavelmente da Natureza e excretadas de formas ainda mais. Esse gasto calórico cresceu à medida que a tecnologia se desenvolveu e espera-se que continue a crescer até atingir limites insustentáveis ​​e exorbitantes, e uma guerra global de  vida ou morte por recursos seja desencadeada. Ironicamente, apesar do fato de que agora estamos arrancando mais calorias da Natureza do que nunca, o gasto calórico do próprio organismo diminuiu drasticamente devido ao sedentarismo, e o próprio corpo humano está cada vez mais degradado e contaminado. O mesmo para sua mente, já que o cérebro é parte do corpo.

Durante a Pré-história, os únicos recursos que nossos antepassados "cozinhavam" ​​vinham de fontes naturais renováveis: pedra, madeira, água, animais e plantas. A principal fonte de energia calórica para o corpo humano era a gordura animal saturada. Já vimos como atualmente consumimos uma vasta gama de recursos, desde petróleo e gás natural até lítio e urânio. Para alimentar sistemas e processos materiais que nada têm a ver com a sobrevivência da espécie, estamos saqueando os tesouros finitos do nosso planeta. Agora, a principal fonte calórica de energia humana são os açúcares. Tecnicamente, os herbívoros também funcionam a base de açúcares, pois isso é o que resulta da fermentação e decomposição de cadeias de celulose vegetal longa. Aparentemente, a domesticação do homem e a sua conversão em ovelhas perfeitas do rebanho perfeito, foi convertê-lo primeiro em herbívoro e aniquilar os instintos predatórios.

A proporção de defeitos físicos e doenças degenerativas nos humanos, de acordo com o registro paleopatológico, comparando o Paleolítico e o Neolítico. Este diagrama de Venn mostra como as evidências forenses de doenças são muito pequenas entre os restos paleolíticos, enquanto proliferam no Neolítico. Não temos evidências de doenças nutricionais antes do advento da agricultura. Em seguida, as sete pragas do Egito chegaram: raquitismo, cárie, osteoporose, beribéri, pelagra, diabetes, dermatite herpetiforme, doença celíaca, obesidade, câncer, várias pragas, cólera e tuberculose, entre outros. O assunto foi bem estudado em "Paleopathology at the origins of agriculture" (Mark N. Cohen e George J. Armelagos).

ORIGENS DA AGRICULTURA

Chegará um dia em que a Revolução Neolítica será estudada como o momento em que um tipo humano inferior se rebelou contra o plano de Deus, colocando-se fora da Natureza e se esforçando para criar uma "nova ordem" sem perceber que só pode haver uma ordem ― a ordem natural ― e que todo homem que a questione passando para o outro lado pagará com a degradação de seu corpo, mente e espírito.

Tradicionalmente, considerava-se que os cereais foram domesticados e cultivados pela primeira vez no Oriente Próximo há 14.000-12.000 anos. Sabemos agora que o primeiro uso comprovado de cereais remonta ao local de Ohalo II (atual Israel), não menos de 23.000 anos atrás, e que os neandertais já consumiam féculas.

O sítio de Ohalo II está na costa do sul do lago Galileia, ao norte da atual Israel, perto do rio Jordão e não longe de Nazaré. O verde claro representa o primeiro campo de implantação da agricultura, muitos milênios após a datação do sítio. É incrível ver como Israel nunca deixou de ser uma chave constante: lá o "homem moderno" cruzou com o Neandertal, surgiu a agricultura, infinidade de civilizações antigas chocaram, o judaísmo e o cristianismo apareceram, ocorreu a queda do mundo pagão europeu, foi objetivo dos cruzados e atualmente é o nó geopolítico mais preocupante no planeta.

Por volta de 15.000 AP (antes do presente), os israelenses da época estavam coletando trigo e cevada, moendo-as para obter farinha, algo evidenciado pelo uso de moedores. Dois ou três milênios mais tarde, seus descendentes colhiam grãos de cereais selvagens intensamente. Daí, a domesticação dos cereais e o desenvolvimento da agricultura havia apenas um passo. Os primeiros agricultores precisavam de campos abertos para estabelecer sua praga, então eles queimavam grandes extensões de floresta para expulsar os animais, nivelar a terra e prepará-la para ser irreversivelmente parasitada. A agricultura é, portanto, um biocídio contra as árvores, plantas e animais que não podem se defender. Consiste em carregar toda uma comunidade biológica, limpando a superfície do solo e causando uma avalanche de "refugiados" que desequilibrarão o ecossistema mais próximo. Comparado a este voraz buraco negro, os hábitos de caça do Neandertal e Cro-Magnon são brincadeiras inocentes.

Posteriormente, as sociedades neolíticas conceberiam a chegada do cereal (Deméter, Ceres) como algo que os tirou da escuridão. A verdade é que facilitou a vida diária, mas começou a deteriorar a sua qualidade de vida: deformações nos dentes, deterioração da saúde, desordem do metabolismo, aparição da obesidade e lento cultivo de um tipo humano diferente. Um tipo humano que não combinava com a espécie, mas com o Sistema. Um tipo humano comotivo, humilde, conformista, cândido e satisfeito. As origens da moralidade escrava, magistralmente retratada por Nietzsche em "Genealogia da moral" e "O Anticristo", devem ser buscadas em Israel, mas não durante a ocupação romana, mas no final do Paleolítico Superior.

À esquerda, o símbolo romano da deusa Ceres, que era equivalente a Deméter (Dea Mater, ou Deusa Mãe) da tradição grega. Ceres, como o nome sugere, era uma deusa de cereal, que veio do Oriente e ensinou os homens a semear a terra, a cultivar o trigo, a colher a colheita e a fazer pão. Em virtude de uma dessas casualidades cheias de sentidos, seu símbolo astral, a foice da terra (crescente para cima e para baixo) é a inversão da de Saturno (a foice do céu, cruz acima e meia lua abaixo), que, de acordo com Hesíodo, era o deus supremo da Idade de Ouro. No mundo clássico, as divindades da agricultura geralmente tinham uma origem oriental e eram objeto de numerosos cultos de rituais sobrecarregados e complexos, como os Mistérios de Elêusis. O cristianismo não é exceção: a hóstia (um mísero substituto ritual da carne de Deus encarnado) continua a ser um alimento sagrado na liturgia católica.

O Neolítico transtornou completamente a alimentação humana. Onde antes se comia a base de carne, agora se come a base de carboidratos. Como vimos, durante o Paleolítico, a principal fonte de energia biológica para os seres humanos era a gordura. A partir do Neolítico, foram os açúcares. Atualmente, 80% de nossas calorias provêm de cereais, e uma grande parte dos 20% restantes vem de açúcares refinados, gorduras processadas e edulcorantes artificiais altamente prejudiciais. Como pode ser visto, dificilmente há espaço para proteínas ou gorduras animais saturadas.

O ALVORECER DAS FÉCULAS

A fécula, também chamada amido, é um polissacarídeo (ou carboidrato complexo) presente como reserva de energia em todas as plantas verdes. Como exemplos de alimentos ricos em amidos, temos o arroz, trigo, milho, aveia, batata, mandioca (um tubérculo tipo a batata que é muito difundida nos trópicos) e outros. Devido ao forte componente cerealífero da dieta moderna, os amidos fornecem entre 70 e 80% das calorias consumidas pela humanidade, em produtos tipicamente amiláceos como massas, pão, arroz, cuscuz, mingau, bolos, farinha, biscoitos, batatas, doces em geral e vários cereais de caixa. Os amidos são, não mais ou menos, a base da alimentação humana atual.

É difícil entrar na psicologia dos primeiros neolíticos e de todo o mundo campesino posterior sem entender a importância do grão para eles, isto é, o que, com a debulha, separava da palha e que, quando moído e depois cozido, fornecia a base da alimentação no passado: "o pão nosso de cada dia", o primeiro alimento processado e "civilizado". Onde os invernos eram duros, onde a população era muito numerosa e a biodiversidade muito escassa para o mundo inteiro se envolver na caça e na colheita (teria implicado a extinção de muitas espécies, para as quais reservavam nas florestas reservas de caça proibidas a todos que não eram nobres) e onde somente a agricultura poderia garantir a vida de povos inteiros, um punhado de grãos era o símbolo da vida, da prosperidade, do futuro e do sustento. Com um punhado de grãos, toda uma região poderia ser colonizada. As forças políticas que queriam subjugar uma determinada população (de invasores estrangeiros ou senhores feudais sem escrúpulos até bolcheviques soviéticos) recorriam sempre aos confiscos de grãos e à queima de colheitas, pois sabiam que tal era a dependência das populações da agricultura, que trazê-los era suficiente para mergulhá-los na miséria, precipitar-los à fome e o desespero e escravizá-los: o homem já não era capaz de caçar, pescar, coletar ou sobreviver sozinho. Perdera a liberdade, dependia da tecnologia, estava mais vulnerável do que nunca e a Natureza dificilmente o reconhecia como seu filho.

No entanto, permanece de pé a pergunta de se, como seres humanos, estamos evolutivamente adaptados a esta substância. Os animais realmente adaptados à digestão dos amidos são chamados de granívoros. Entre eles estão muitos pássaros e porcos, possuindo imensas glândulas salivares que secretam uma grande variedade de enzimas "projetadas" para decompor os amidos. Os seres humanos têm o gene AMY1, que nos dá a capacidade de metabolizar o amido, mas temos apenas uma enzima capaz de decompô-lo: a ptyalin.

Que não estamos biologicamente equipados para a melhor assimilação do amido não é surpreendente. Por milhões de anos, evoluímos como caçadores-coletores e nossa genética adaptou-se a carnes, gorduras, órgãos e frutas silvestres. Em termos evolutivos, começamos muito recentemente (6.000 anos no noroeste da Europa e Cornija Cantábrica) a ingerir quantidades maciças de amidos. Todo esse tempo, nosso corpo só tem protestado e mostrado sinais de não-conformidade: os paleoarqueólogos sabem bem que o registro fóssil indica um impressionante declínio na saúde e na qualidade de vida assim que a agricultura foi adotada; tanto que os defeitos dentários, a osteoporose e o subdesenvolvimento esquelético são muitas vezes tomados como indicadores fiáveis ​​até à data da chegada do Neolítico a uma determinada área.

Nos tempos mais recentes, tem havido uma estranha campanha para promover os amidos, em detrimento de gorduras animais. Assim, desde a década de 1970, o desjejum tradicional americano de ovos, bacon, salsichas e manteiga foi gradualmente substituído por comida de vitrine para mulheres menopáusicas histéricas: a conhecida tigela de cereal com leite desnatado, um café com leite e sacarina, uma fatia de pão (naturalmente com margarina em vez de manteiga), uma colher de sopa de azeite virgem, uma olhada na última revista de fofocas e uma Coca-Cola para levar em sua bolsa. A indústria agrícola tem aumentado o consumo de carboidratos refinados porque, calorias por calorias, são os nutrientes mais baratos para produzir, eles são vendidos com uma margem de lucro imensa, eles dão muito jogo para inovar e quebrar os moldes do mercado com grande variedade de produtos todos os anos e, além disso, e eles viciam facilmente e "entram com facilidade". Nada mais rentável para o empresário do que investir em cereais. Então, é claro, nós nos queixamos do nosso deplorável estado de saúde e culpamos tudo pelo colesterol, sem mencionar o culpado mais discreto: o amido.

Desde a década de 1970, o consumo anual de grãos de cereais aumentou em cerca de 25 kg por pessoa, e o consumo de adoçantes calóricos artificiais (especialmente xarope de milho rico em frutose) aumentou em 15 kg. Ao mesmo tempo, o consumo total de calorias aumentou mais 400 por dia desde que as organizações de mídia começaram a estigmatizar gorduras e recomendar cereais. Por outro lado, o consumo de colesterol foi reduzido de forma impressionante em tempo recorde. No entanto, com a globalização dos alimentos, a saúde sofreu um colapso colossal, talvez não visto desde a chegada do Neolítico: várias doenças degenerativas como diabetes, candidíase e obesidade estão se multiplicando a um ritmo cada vez maior. O cidadão ocidental médio é, para o deleite da indústria farmacológica (que, não nos esqueçamos, se alimenta e é enriquecida por nossas doenças), um verdadeiro e autêntico saco de lixo.

Atualmente, a China é o primeiro produtor de cereais do mundo, seguido pelos EUA.

O GRANDE ORIENTE CONTRA A NATUREZA HUMANA ― COMO OS CEREAIS ATACAM O ORGANISMO

Não se trata apenas de não estar adaptado aos amidos. A dieta de amido pode chegar a matar e, provavelmente, de forma indireta, é o maior assassino em massa na história do planeta. Aqui vamos analisar alguns dos muitos problemas graves que os cereais representam para a saúde humana.

1. INCOMPATIBILIDADE DIGESTIVA E QUÍMICA DE AMIDOS COM AS PROTEÍNAS. Para digerir otimamente as proteínas animais, o estômago deve fabricar a pepsina, uma enzima digestiva que só pode agir em um ambiente com um pH altamente ácido. No entanto, quando mastigamos os amidos, as glândulas salivares secretam a ptyalin e outros sucos gástricos relacionados, com um pH alcalino, de modo que a fécula é digerida em um meio alcalinizado. É fácil ver o que acontece quando proteínas e amidos são misturados no sistema digestivo: o estômago acumula sucos ácidos (para digerir a carne) e sucos alcalinos (para digerir os amidos) que se cancelam uns aos outros, e assim permanece uma solução aquosa para digerir qualquer um dos dois alimentos. Depois disso, a massa de alimentos confusa entra em contato com as bactérias do trato intestinal, que dão uma verdadeira festa com a qual somos incapazes de digerir, deixando-nos nada além de gás, toxinas e outras substâncias residuais. Em resposta a isso, os carboidratos complexos entram em fermentação, e as proteínas entram em decomposição. A carne libera substâncias indesejáveis, tais como a putrescina, cadaverina, moertina, necrotina e putrefatina, semelhantes aos que os cadáveres em decomposição enviam. Esta é uma das principais causas da má reputação da carne entre muitos vegetarianos, que não percebem que isso acontece devido à incompatibilidade de carboidratos complexos com proteínas, e que o culpado não é a carne (que fizeram parte da nossa dieta desde a pré-história e têm ajudado muito a nossa evolução), mas dos carboidratos complexos, de aparição muito recente.

Tanto a putrefação de proteínas quanto a fermentação de amidos têm efeitos colaterais desagradáveis ​​como gases, queimaduras, inchaço, constipação, colite, hemorroidas, retenção de líquidos e halitose. Desagradáveis ​​"alergias" também ocorrem quando a corrente sanguínea absorve toxinas da massa putrefata e fermentada transportada pelo intestino, produzindo dores de cabeça, náuseas, vômitos, erupções cutâneas, acne, urticarias e um longo e desagradável etc. Assim, enquanto as bactérias no nosso sistema digestivo se dão o banquete, ficamos com apenas restos indigestos, substâncias de resíduos, toxinas e uma sequência longa de sequelas, entre elas a degeneração completa e total do intestino grosso (os médicos dizem que o único lugar onde um intestino grosso normal pode ser visto atualmente está em um livro de anatomia).

Os metabolismos muito ativos tendem a minimizar esses efeitos, uma vez que sua máquina voraz "rapidamente" queima tudo em seu caminho, mas isso não significa que a combinação de fécula-proteína (onipresente na nossa sociedade, desde o arroz, feijão e carne, o bife com batatas, passando pelo hambúrguer simples, e não esquecendo o sanduíche de presunto ou chouriço) não é incompatível em qualquer caso. Há muitas pessoas que sofrem de distúrbios misteriosos cuja origem os médicos são incapazes de descobrir. Eles simplesmente tomam medicamentos que reduzem os sintomas sem tocar a raiz do problema, mas o que eles não suspeitam é que eles poderiam experimentar uma melhoria significativa se, além de remover o leite de sua dieta, separar carboidratos e proteínas em diferentes alimentos.

2. OS CEREAIS TÊM EFEITO ADITIVO. Os australianos Greg Wadley e Angus Martin ("The origins of agriculture: a biological perspective and a new hypothesis") postularam que os grãos de cereais (especialmente trigo, milho e cevada, também em certa medida produtos lácteos) contêm substâncias opioides chamadas exorfinas. Estes produtos químicos agem sobre os receptores opioides do cérebro imitando o efeito farmacológico do ópio, e também produzindo vício em certa medida. Nas palavras de Wadley e Martin:

"Primeiro, as extensões de cereais selvagens foram colhidas e protegidas. Os terrenos foram então limpos e semeados e nutridos para aumentar a quantidade e a confiabilidade do fornecimento. As exorfinas atraíram pessoas para se estabelecerem em torno de extensões de cereais, abandonando seu estilo de vida nômade e permitindo que elas exibissem tolerância em vez de agressão, à medida que a densidade populacional aumentava nessas novas condições".

De acordo com esse novo conceito, os cereais teriam sido o primeiro "ópio das massas", usado com o objetivo consciente ou inconsciente de sedar grandes multidões humanas para domesticá-las e forçá-las a coexistir em paz dentro de grandes comunidades, às quais os circuitos mentais humanos não estavam originalmente adaptados.

Os cereais têm um defeito aditivo. É raro alguém "beliscar" produtos com gordura saturada, como patê, manteiga, salsicha, carne ou ovos. Quando se trata de beliscar, alimentos "fáceis", como pipoca, batatas fritas, biscoitos, produtos assados, refrigerantes, doces e similares, estão sempre envolvidos. No cardápio rico e diverso desta mulher obesa, amidos e açúcares refinados fornecem a imensa maioria das calorias que vão inchar seu corpo. Em vez disso, as gorduras saturadas brilham pela sua ausência. Se ela removesse esses produtos (exceto as frutas) e os substituísse por carnes, gorduras animais e frutos secos, provavelmente entraria em cetose, deixaria seu círculo vicioso hiperinsulinêmico, melhoraria a sensibilidade de seus receptores de insulina e perderia uma quantidade espetacular de peso. Mas não fará, porque os apóstolos da máfia médica ensinaram que o colesterol é o problema.

3. O AÇÚCAR SUBSTITUIU AS GORDURAS COMO PRINCIPAL FONTES DE ENERGIA. O corpo humano — especialmente no caso das raças nórdicas, particularmente adaptado à queima de gorduras — passa a funcionar de forma metabólica totalmente diferente da de seus ancestrais. Isso é grave, pois o metabolismo está perdendo a capacidade de mobilizar gordura e queimá-la, e que, precisamente, o excesso de açúcares não metabolizados é armazenado como gordura. A consequência é a obesidade, especialmente em condições de vida sedentárias.

4. O ÁCIDO FÍTICO DE GRÃOS DE CEREAIS BLOQUEIA A ABSORÇÃO DE MINERAIS IMPORTANTES. No trato intestinal, o ácido fítico (um dos vários antinutrientes dos cereais) combina com magnésio, cálcio, cobre, ferro e especialmente zinco, bloqueando sua absorção. Isto, além de envolver distúrbios sexuais e atenuar a virilização (o zinco é muito importante para a saúde hormonal do homem), implica que o esqueleto não absorve os nutrientes de que necessita e cresce com pouca densidade e largura. Um esqueleto pobremente mineralizado implica numa face mais estreita. Uma face mais estreita implica uma mandíbula mais estreita, e uma mandíbula mais estreita implica dentes amontoados e desordenados, bem como problemas com os dentes do siso. É por isso que uma dieta rica em grãos de cereais pode levar à deficiência mineral, ossos frágeis e osteoporose, bem como anemia devido à falta de ferro. Se somarmos a falta de vitaminas A e D devido à ausência de alimentos ricos em gorduras animais saturadas, ficamos verdadeiramente frágeis e praticamente deformes, quando não se deformes por completo. Não é surpreendente que, em animais de laboratório, o raquitismo seja rotineiramente induzido alimentando-os com doses elevadas de cereais.

5. OS CARBOIDRATOS TÊM UM IMPACTO FORTE NA INSULINA. Os cereais têm um índice glicêmico muito alto. Depois de fazer uma refeição convencional, o nível de açúcar no sangue aumenta muito devido à quebra das cadeias de carboidratos. Em resposta, o pâncreas libera a insulina, um hormônio responsável pelo metabolismo da glicose (açúcar) e armazená-la em células musculares e células de gordura. Isso não seria ruim em uma dieta natural em que os carboidratos (principalmente carboidratos simples como a frutose, encontrada no mel e frutas) fossem usados com moderação. Mas hoje, devido ao esforço antinatural de ter que liberar insulina e enzimas a cada duas ou três horas para quebrar grandes quantidades de carboidratos complexos e compensar a deficiência enzimática de outros alimentos desnaturados, o pâncreas do homem moderno está cronicamente inflamado. Na verdade, em relação ao peso total do corpo, o pâncreas do humano "civilizado" é maior do que o de qualquer outra espécie animal. O Dr. Edward Howell ("Enzyme Nutrition") observa que "Em proporção ao peso corporal, o pâncreas humano pesa mais do dobro do que uma vaca" (!). Esta depravada superexploração de um órgão — realizada por um tipo humano evolutivamente inferior, mas cuja soberba miopia acreditava estar fazendo certo — é responsável pela alta frequência de casos de diabetes, resistência à insulina, pancreatite, câncer de pâncreas, hipoglicemia, hiperinsulinemia, obesidade e outras desordens totalmente desconhecidas em sociedades "primitivas". Outra consequência lógica da alta presença de insulina em nosso sangue em quase todas as horas é que nossos receptores de insulina estão perdendo sensibilidade: estamos reagindo cada vez menos à insulina e, portanto, precisamos de mais carboidratos para manter as mesmas "subidas" insulinogênicas — um quadro muito semelhante ao de um vício em qualquer droga.

6. OS CEREAIS ENZIMÁTICOS SÃO UM ALIMENTO NUTRITIVAMENTE INFERIOR. Mel, carne, manteiga, frutas, legumes ou frutos secos podem ser considerados alimentos "ricos em nutrientes". Cereais, por outro lado, têm praticamente apenas carboidratos. É por isso que todos os cereais matinais são muitas vezes artificialmente enriquecidos "com oito vitaminas + ferro" (mas sem as enzimas necessárias para assimilá-las): precisamente porque são conhecidos por serem deficientes em vitaminas e minerais. Devido à baixa biodisponibilidade dos cereais, o corpo deve retirar dele mesmo os elementos enzimáticos necessários para a sua digestão, absorção e metabolização, desvitalizando o nosso corpo, desmineralizando o nosso esqueleto e dentes, e pressionando ainda mais o já ferido pâncreas.

O que importa para o sistema não é a sua saúde, mas a saúde do bolso de alguns. E a dita economia está apenas preocupada em conseguir dinheiro, criando necessidades artificiais para endossar bens e serviços que você não precisa. Esta enorme montanha de resíduos tóxicos multicoloridos é suspeitamente boa para a indústria alimentar. Um filé de carne será sempre um filé de carne; não pode-se decorar e\ou moldar, o marketing não prossegue: é simplesmente carne. Mas os cereais dão um monte de jogo para aumentar drasticamente as vendas com novas inovações: com chocolate, com passas, com mel, em forma de anel, ursinho de pelúcia, sopa de letrinhas, macio, fofo, inflado, comprimido, colorido, com todos os tipos de caricaturas ridículas e sentimentais nas caixas para idiotizar nossas crianças... e agora com oito vitaminas + ferro, todos sintéticos, de laboratório e baixa biodisponibilidade. O mercado é permanentemente energizado pelo efeito halo da mais recente publicidade lançada, e o consumidor será sempre atraído para o esquema de cores hipnotizante do último produto da vez.

7. O TRASTORNO DA INSULINA TEM EFEITO NEGATIVO NO SISTEMA IMUNE. A insulina permanece flutuando na corrente sanguínea muito tempo depois que o açúcar foi metabolizado. Seu efeito colateral mais conhecido é produzir um novo episódio de fome de açúcar, uma vez que o excesso de insulina em nosso sangue precisa fazer algo, "fica entediada" e exige mais açúcar para queimar (um processo que se assemelha a criação de crédito do nada, muito acima das necessidades da economia produtiva, o que faz com que o dinheiro alavancado "fique entediado" e dedique-se a especular, conceder hipotecas e maus investimentos). Isto por sua vez irá liberar mais insulina em um círculo vicioso que é indesejável e leva diretamente a compulsão alimentar, obesidade e diabetes. No entanto, o efeito secundário mais sutil e mais nocivo do aumento prolongado e frequente da insulina é que elas suprimem a liberação do hormônio do crescimento. O hormônio do crescimento é secretado pela glândula pituitária (um importante plexo nervoso no meio do cérebro, que os antigos hindus chamavam de "sexto chakra"), além de promover a altura, o desenvolvimento muscular, a densidade óssea e a queima de gordura, é um importante agente imunológico e rejuvenescedor.

8. ACIDIFICAÇÃO CORPORAL. O corpo precisa encontrar o equilíbrio entre o ácido (que o chineses antigos associavam com o Yang) e o alcalino (a Yin). Como regra, carnes, ovos (especialmente a gema) e produtos de origem animal são acidificantes, bem como cereais. A maioria dos produtos vegetais são alcalinizantes. Antigamente nossos ancestrais compensavam o consumo de carne com produtos vegetais e temperaturas muito baixas. Agora, fornecemos ao corpo quase 80% de nossas calorias a base de cereais, e os mesmo ficam fortemente acidificados. O ambiente ácido irrita os órgãos com os quais está em contato, causando inflamações ou mesmo tumores, e os ácidos em excesso são depositados como cristais que "soldam" as articulações sabotando a flexibilidade do corpo e levando a anquilose e artrite a longo prazo. Outra consequência da acidificação é a desmineralização e, portanto, a descalcificação do esqueleto e dos dentes, uma vez que o corpo precisa "jogar" minerais no ácido para neutralizá-lo e restabelecer o equilíbrio ácido-base. Muitas pessoas são atualmente viciadas em café, não tanto por causa da própria cafeína, mas por causa do efeito fortemente alcalinizante que tem sobre seus corpos. A solução para esta situação seria reduzir drasticamente o consumo de cereais, substituir as suas calorias por gorduras animais e aumentar os produtos alcalinizantes naturais (em resumo: paleodieta ou dieta paleolítica). Atualmente é raro um corpo ser alcalinizado, embora isto seja frequentemente verdadeiro para muitos vegetarianos. A excessiva alcalinização é tão negativa quanto a acidificação.

DOENÇA CELÍACA: IMPLICAÇÕES ÉTNICAS DA INTOLERÂNCIA DO GLÚTEN

A "doença" celíaca não é uma doença, mas um protesto normal do organismo diante de uma alimentação que não lhe corresponde por natureza. Se alimentássemos com carne uma ovelha e ela sentisse mal, não diríamos que ela tem uma "doença de intolerância à carne", pelo contrário, mas que estaria perfeitamente saudável, uma vez que as ovelhas são totalmente herbívoras e a carne não corresponde para eles. Da mesma forma, se colocarmos gasolina em um carro diesel e desse problema ao dirigir, não estaríamos falando de um defeito motor, mas de um defeito mental por parte daquele que colocou combustível errado. O mesmo é verdade para um ser humano que não é geneticamente adaptado ao glúten.

O glúten é uma proteína vegetal que é combinada com amido em vários grãos de cereais, como centeio, cevada, aveia, malte e especialmente trigo. Graças à textura peculiar do glúten (na sua forma pura, o glúten é uma substância fibrosa e pegajosa como a goma de mascar), a massa da farinha é elástica e maleável, e os produtos esponjosos e volumosos são em grande parte compostos de ar, como o pão. Devido à sua origem cerealista, o glúten é encontrado em muitos outros alimentos diários, tais como cereais matinais, pastas, pizzas e outras massas, bolos e biscoitos. No entanto, nem sempre é tão simples, uma vez que os cereais contendo glúten também são usados ​​como ingredientes em polmes, molhos e alguns produtos à base de carne, como salsichas e hambúrgueres. Além disso, muitos medicamentos e até mesmo suplementos dietéticos, também o contém. Arroz, batatas e milho não têm glúten, mas amido.

A intolerância ao glúten, também chamada celíaca ou doença celíaca, é a intolerância alimentar genética mais comum em seres humanos. A maioria dos portadores nem sequer sabem disso (estima-se que apenas dois em mil casos são identificados e incorporados em estatísticas), e eles podem gastar suas vidas carregando-a nas costas sem nunca ser diagnosticado. Isso ocorre porque muitas pessoas tomam como normais uma série de desconfortos que não são normais, como ventre inchado, retenção de líquidos, desconforto digestivo, anemia, perda de cabelo, avitaminose, falta de vitalidade, inibição do desenvolvimento esquelético, mal rendimento físico, sexual e intelectual e até mesmo distúrbios psicológicos.

A doença celíaca significa que o corpo identifica o glúten como um corpo estranho. Consequentemente, a mucosa ou "revestimento interior" do intestino delgado deteriora-se, reduzindo assim a nossa capacidade de assimilar os nutrientes. É verdade que as proporções de celíacos, mesmo em lugares com mais casos, não são elevadas. No entanto, a população que sofre de doença celíaca é apenas a ponta do iceberg, uma vez que a percentagem de indivíduos que respondem positivamente a uma dieta sem glúten é sempre muito maior. Destes, celíacos são apenas o caso extremo, assim como os pacientes com câncer de pele são apenas o caso extremo de intolerância à luz solar.

A doença celíaca é apenas a ponta do iceberg para todos os casos não diagnosticados de sensibilidade ao glúten ou intolerância.

A doença celíaca tem sido chamada de "doença celta", uma vez que seus níveis mais altos estão em áreas "célticas" como a Irlanda, a Escócia, o País de Gales ou o País Basco (lendo entre as linhas, reconheceremos a herança da raça nórdico-vermelha). Depois, os mais afetados são os escandinavos (raça nórdico-branca). Nos EUA e no Canadá é sabido a tendência dos celíacos de ter parentes de ascendência irlandesa e escocesa. Na Irlanda, a proporção de celíacos na população total é de 1%: a maior proporção de toda a Eurásia e Américas. Claro, este 1% é apenas a ponta do iceberg. A porcentagem é certamente muito maior, já que a maioria dos celíacos morre sem saber que são. Além disso, isso implica que uma proporção muito maior da população irlandesa, sem doença celíaca, responderia muito positivamente a uma dieta sem glúten.

Em contraste, na maior parte da Ásia, a intolerância ao glúten é desconhecida. É considerada uma condição extremamente rara ou inexistente na maioria dos africanos (exceto os saarauís), chineses e japoneses. Na Europa, o país com a menor taxa de doença celíaca é a Grécia, e dentro da Grécia, o território menos propenso parece ser a Tessália, onde havia um núcleo neolítico (Sesklo-Dimini) muito importante de origem na Ásia Menor e de onde irradiou a agricultura em todo o Danúbio e no Mediterrâneo (por exemplo, com a cultura da cerâmica cardial). Desta vez, a leitura entre as linhas revela o perfil da raça armênida.

A extensão da agricultura em torno do ano 6500 AEC. Os sítios de Dimini e Sesklo estão sinalizados, que são considerados o germe do posterior Neolítico Balcânico e Mediterrâneo.
O aspecto que deveria ter tido o assentamento de Sesklo no VI Milênio AEC.

A genética também tem algo importante a dizer sobre isso. Os genes DQ2 e DQ8 estão presentes em 90-99% dos pacientes celíacos, e também estão presentes em 35-45% da população dos EUA, sendo particularmente circunscrita àqueles com herança do noroeste da Europa. O DQ2.5 é especialmente elevado no noroeste da Europa e no País Basco, atingindo frequências de 50% em algumas áreas da Irlanda. O DQ8 é extremamente elevado em ameríndios da América Central, mas essas tribos tradicionalmente têm se alimentado à base de milho, desprovido de glúten.

Há estudos genéticos que ligam a expansão da agricultura (não a sua origem) com a linhagem paterna R1b. No entanto, considero que esta teoria coloca muitos problemas, uma vez que a R1b atinge as suas mais altas frequências nas áreas mais intolerantes ao glúten do mundo, como a Irlanda ou o País Basco. Valg, por sua vez, acredita que os nórdicos-brancos são responsáveis ​​tanto pelo gado quanto pela agricultura. No entanto, os padrões étnicos interessantes na distribuição da doença celíaca e suas predisposições genéticas falam por si. Claramente, a doença celíaca é mais baixa nas áreas europeias onde a agricultura tem sido enraizada por mais tempo, nomeadamente os Balcãs e o Mediterrâneo Oriental. Estas áreas, como a Mesopotâmia e Egito, eram propícias à agricultura em tempos passados, e seus habitantes tiveram que desenvolver rapidamente mecanismos de adaptação. Por outro lado, o norte e oeste da Europa tem sido tradicionalmente uma faixa não muito adequada para cultivar cereais. A agricultura levou muito tempo para chegar e, quando chegou, provavelmente depois de muitos milênios, apenas certos grupos étnicos a praticaram intensamente, enquanto outros permaneceram caçadores-coletores e/ou exerciam a pecuária (gado). Mesmo durante a era moderna, numa época em que a "prosperidade" equivalia a "cereais", as zonas córnicas e celtas cantábricas das Ilhas Britânicas eram hostis à agricultura de cereais devido à sua umidade e condições de solo. Os cereais apodreciam facilmente, era difícil armazená-los e só com a introdução da batata que estas áreas poderiam ser efetivamente agrárias.

Atualmente os habitantes do oeste da Europa têm as maiores tolerâncias à lactose, algo que contrasta com a sua intolerância ao glúten. Isso é revelador em que, na Mesopotâmia do início do Neolítico, a agricultura e a pecuária nunca andam de mãos dadas ou aparecem juntas. Claramente, no início havia pecuaristas (Alta Mesopotâmia, Irã), por um lado, e agricultores (Levante, Baixa Mesopotâmia), por outro. A Escócia, a Irlanda e o País de Gales são os núcleos nórdico-vermelhos mais puros da Europa, enquanto na Grécia a influência armênida é muito maior. Todos os dados acima tendem a indicar que os povos agricultores eram originalmente da raça armênida, enquanto os pecuaristas eram da raça nórdico-vermelha. A intolerância à lactose na Europa atinge as suas mais altas frequências no sul da Itália, na Sardenha e na Grécia.

As origens do gado não coincidem com as origens da agricultura. Este mapa representa as datas de domesticação dos primeiros bovinos: cabras e ovelhas (11.000 AP), porcos (10.500 AP) e vacas (10.000 AP). Nenhum desses primeiros boiadeiros praticavam a agricultura, e nenhum dos primeiros agricultores praticavam o gadismo A distribuição geográfica sugere uma origem iraniana do gado ou, menos provável, caucásico.

No artigo da Revolução Carnívora, vimos que os traços típicos da caça e da humanidade carnívora são especialmente fortes entre os nórdicos-vermelhos. Se acrescentarmos isto ao exposto, é difícil pensar que tal raça adotaria a dieta do cereal tão fácil; as suspeitas podem estar mais com a população autóctone do Oriente Médio, ou seja, com a raça armênida. Os cereais são provavelmente prejudiciais a todas as raças humanas, mas especialmente às raças que têm uma dieta mais carnívora, mal adaptada à metabolização dos açúcares e bem adaptada à queima de grandes quantidades de gordura para manter a temperatura corporal num ambiente frio. Assim, embora toda a espécie tenha sido prejudicada com os grãos, as raças mais afetadas foram as nórdicas.

Os ecos da luta entre os povos pecuários e agricultores no Oriente Próximo ressoam claramente no episódio dos irmãos Caim e Abel (Gênesis 4), os filhos de Adão e Eva. Caim era um agricultor e ofereceu a Deus um sacrifício de frutos, enquanto Abel era pastoreiro e ofereceu um sacrifício dos melhores cordeiros de seu rebanho. O fogo de Deus consumiu apenas a oferta carnívora de Abel, e desprezou os frutos de Caim. Este, com ciúmes, matou seu irmão.

SEJA AMÁVEL COM OS CEREAIS E OS CEREAIS SERÃO AMÁVEIS COM VOCÊ

Existem inúmeras razões pelas quais uma pessoa pode se recusar a renunciar os cereais. Você pode ser um vegetariano e os cereais são a única opção viável para obter o grosso de suas calorias. Você pode ser melhor adaptado aos cereais (genética). Você pode simpatizar com o preço barato da maioria dos produtos cereais. Você pode ter uma dieta esportiva rígida que inclui muitos cereais. Muitos sentem que precisam da energia que eles trazem, e não estão dispostos a substituí-los por gorduras animais em tempo integral. Ou você pode simplesmente gostar deles. Por outro lado, não se deve esquecer que seria impossível sustentar a população atual sem cereais. Então, se vamos usar cereais, vamos pelo menos tentar ser tão saudável quanto possível.

O que se segue são algumas indicações sobre como preparar grãos de cereais (também servem para alguns frutos secos e legumes) para minimizar suas substâncias mais indesejáveis. As pessoas que percebem que os cereais lhes fazem mal notarão uma melhora.

Os grãos não deixam de ser sementes, e uma semente precisa de alguma acidez, umidade, escuridão, algum calor e tempo para germinar. Para evitar germinação até que o ambiente ideal seja encontrado, as sementes têm antinutrientes (tais como ácido fítico, taninas irritantes que reduzem a biodisponibilidade de ferro e cobre, açúcares demasiado complexos para decompor, gliadina et cetera) e inibidores enzimáticos sensíveis à acidez e a umidade. Até que esses antinutrientes sejam "desativados" e as sementes germinem liberando suas enzimas, o grão cru será um nutriente pobre e até tóxico para a maioria dos seres vivos. Cozinhá-lo apenas parcialmente resolve o problema. Vimos que o ácido fítico bloqueia a absorção de numerosos minerais no trato intestinal, os inibidores enzimáticos exigem que o pâncreas libere enzimas adicionais, deixando-o exausto. Estes antinutrientes realmente fazem parte do sistema de autopreservação da semente.

Para preparar as sementes, devemos imitar o processo que ocorre espontaneamente na Natureza. Fornecemos um ambiente quente, um pouco ácido, escuro e úmido para "enganar" a semente e forçá-la a germinar. O ambiente que criamos conterá enzimas (como a fitase) e bactérias benéficas (como lactobacilos), que atuarão para neutralizar os antinutrientes, aumentar o conteúdo de vitaminas (especialmente o grupo B) e quebrar substâncias complexas (taninos, glúten, açúcares complexos e outros) em formas mais simples e mais biodisponíveis. Tecnicamente, estaremos realizando uma prédigestão do produto, assim como muitos animais granívoros que têm vários estômagos para o efeito.

Amêndoas de molho. Muitos leitores provavelmente lembram de recipientes com alimento ao molho na casa de seus avós. Trata-se daquela sabedoria ancestral que funcionava bem e que, devido à industrialização forçada pelo desenraizamento, esquecemos.

O processo é simples. Coloque as sementes (por exemplo, arroz integral, amêndoas cruas, lentilhas ou flocos de aveia) em uma tigela e adicionamos o dobro do volume de água morna. Em seguida, adicione um catalisador de acidez e fermentação, como vinagre de maçã, manteiga ou suco de limão, para obter o ambiente ácido necessário. Cubra e armazene o recipiente para manter as sementes no escuro, e deixe durante a noite. Na manhã seguinte esvazie a água, limpe com água adicional e então drene (é opcional colocar de molho mais oito horas por precaução). Notaremos mudanças substanciais, por exemplo, as amêndoas cruas terão adquirido um tom brilhante e luminoso, terão ficado crocantes e macias, e muitas delas serão divididas pela metade. O arroz, depois de drenado, estará pronto para ser cozido, e seu perfil nutricional e digestibilidade terão melhorado muito.

Este processo era seguido em praticamente todas as sociedades tradicionais que usavam grãos para se alimentar. Na Inglaterra, flocos de aveia eram "colocado de molho" por uma noite antes de preparar o mingau no dia seguinte. Em outros lugares, a massa da farinha era levada e deixada por um longo tempo para garantir a fermentação. A maioria desses sistemas benéficos de preparação deixou de ser praticado quando o surgimento da civilização comercial e a "confusão da vida moderna" privaram-nos de significado prático como quase uma superstição.

Aveias colocadas de molho. Este processo irá preparar as sementes para consumo humano, neutralizando grande parte dos antinutrientes, aumentando seu valor nutritivo e biodisponibilidade, e prédigerindo o alimento.

Qualquer pessoa que gosta de comer fatias de pão e não está disposto a desistir deste hábito ficará feliz em saber que assar a fatia de pão intensamente (sem queimar) ajuda a quebrar os amidos, transformando-os em açúcares simples de maior biodisponibilidade. É preferível que o pão seja integral.

OS LEGUMES

Os legumes (os frutos das leguminosas) são outro dos presentes orientais gentilmente trazidos pela Revolução Neolítica para transtornar nossos sistemas digestivos e enriquecer a nossa saúde europeia com uma rica e bela diversidade de doenças degenerativas. Legumes não faziam parte do menu caçador-coletor e, portanto, como seres humanos, não temos experiência evolutiva com este produto. Provavelmente o primeiro uso de legumes não foi como alimento, mas como um método de enriquecimento do solo, já que os legumes tendem a fixar o nitrogênio atmosférico na terra. Isto veio particularmente bem em áreas em que os cereais foram cultivados além da conta, deixando o solo esgotado e despojado de minerais. O uso de legumes como alimento deve ter começado quando os agricultores começaram a perceber que os cereais estavam desorganizando seus corpos. Esses agricultores decrépitos precisavam de aminoácidos com urgência, mas não queriam caçar, ou não havia mais nada para caçar ou coletar por causa do desmatamento, então eles recorreram a legumes, que têm as maiores proporções de proteínas e os mais completos aminogramas do mundo vegetal. Assim, por volta de 6.000 AEC, já encontramos, no sítio israelita de Jericó, lentilhas trazidas da Transjordânia. O papel dos legumes é evidente no livro Gênesis (25:34), quando Jacó oferece seu irmão Esaú para comprar o direito de primogenitura "por um prato de lentilhas". Esaú havia caçado durante horas sem sucesso, estava exausto e aceitou.

Aconselhado por sua mãe Rebeca, Jacó (agricultor) engana seu irmão mais velho Esaú (caçador) para manter os direitos de sua primogenitura e herdar todas as riquezas... em troca de um prato de lentilhas. Ele mais tarde também enganaria seu pai, Isaque, para receber sua bênção.

Os legumes incluem alimentos como feijão, grão de bico, soja (óleo de soja, merece uma boa seção separada em algum artigo futuro), ervilhas, fava e amendoim. Eles não são comestíveis no estado cru devido à sua alta toxicidade, exceto alfafa ou soja germinada. E é que os legumes tampouco deixam de ser sementes e contêm vários antinutrientes:

• As lectinas alteram os microvilos do duodeno e do jejuno, interferindo na absorção de nutrientes. Além disso, as lectinas estão associadas a certos tipos de bactérias que, a partir do intestino delgado, são arrastadas para a corrente sanguínea, favorecendo infecções. Considera-se também que favorece a esclerose múltipla, uma vez que algumas bactérias têm semelhanças com a mielina (a substância de que são feitos os revestimentos de nossos nervos), pelo que o sistema imunológico desenvolve células para atacar qualquer coisa que se assemelha as bactérias em questão, que inclui a mielina. O tomate é outro produto que tem lectinas. Uma das lectinas de soja, a soyina, produz coágulos de glóbulos vermelhos.

• Os taninos tendem a bloquear a absorção de ferro (sempre foi dito que as lentilhas têm muito ferro, e é verdade, mas sua biodisponibilidade é muito baixa). Além disso, podem causar irritações no estômago, intestino, rins e fígado.

• Os glicosídeos cianogênicos, através da hidrólise enzimática, dão origem ao íon cianeto, que é extremamente tóxico.

• As saponinas causam a inibição de várias enzimas digestivas e metabólicas.

• Os inibidores de tripsina neutralizam esta enzima, que é essencial para quebrar as proteínas em aminoácidos e péptidos.

• Vários componentes alergênicos. Todos estes elementos desagradáveis ​​causam desordens como o latirismo (paralisia grave causada pelo acúmulo de neurotoxinas no sistema nervoso e comum em áreas pobres da Índia), favismo (um tipo de anemia, muito comum na bacia do Mediterrâneo) e intoxicação por aflatoxinas (a partir um molde frequente envolto do mineral granada e amendoins finos).

Outro bem conhecido e famoso problema dos legumes são os gases. Todo mundo sabe o que acontece depois de comer muito feijão. Isso ocorre porque os legumes têm oligossacarídeos (especialmente rafinose) que, devido à sua baixa biodisponibilidade e digestão difícil, tendem a se acumular no intestino. Lá elas são atacados por bactérias da flora intestinal, em um processo que produz enormes quantidades de metano como resíduos, e é por isso que muitas pessoas têm problemas de flatulência.

A ebulição só parcialmente neutraliza esses antinutrientes problemáticos, por isso é necessário prepará-los como grãos de cereais. Uma opção pode ser deixar de molho entre 8 a 12 horas com bicarbonato de sódio, então escorra e lave bem, e cozinhe em uma panela de pressão. E, honestamente, para evitar todas essas inconveniências, compensa mais cozinhar uma boa carne de cordeiro.

OS DANOS DO AÇÚCAR

Os carboidratos complexos são realmente longas cadeias de açúcares. As celuloses vegetais que digerem os animais herbívoros são cadeias de açúcares ainda mais longas e difíceis de digerir. Goste ou não, os carboidratos aumentam o açúcar no sangue ainda mais. Também as frutas e mel têm açúcares, mas estes são mais simples e de cadeias mais curtas. Além disso, elas têm enzimas naturais, por isso são mais facilmente absorvidos. No entanto, o que nos ocupa nesta seção será a forma moderna de "açúcar": o açúcar refinado ou sacarose.

O açúcar é obtido refinando a cana-de-açúcar ou a beterraba, isto é, retirando-as de suas vitaminas, minerais, aminoácidos, enzimas, fibras e água. Estes elementos são sinérgicos e necessários para o corpo absorver adequadamente os alimentos; quando os tiramos, permanece um produto químico que não é encontrado na Natureza e com uma estranha estrutura molecular para o nosso organismo, que o reconhece corretamente como uma substância tóxica, lutando contra ela. O açúcar mascavo é simplesmente o açúcar branco que foi adicionado alguns melaço para dar-lhe cor e gosto, e não tem nada natural tampouco.

Uma vez que o açúcar é completamente desprovido de nutrientes adequados, o sistema digestivo e metabólico deve "emprestar" dos tecidos do corpo as vitaminas, minerais, enzimas e outros elementos sinérgicos necessários para a metabolização do açúcar. O consumo frequente de açúcar resulta na desvitalização progressiva do corpo e perda de nutrientes. Ele tende a eliminar particularmente vitaminas B, algo especialmente sangrante no caso dos vegetarianos. Não é o contato com açúcar que causa cavidades, mas o processo metabólico subsequente, que leva minerais do corpo, incluindo cálcio. Vendo os efeitos devastadores que o açúcar refinado tem sobre as partes mais fortes do corpo humano (esqueleto e dentes), deveríamos ficar ouriçados de apenas imaginar os efeitos que pode ter sobre as partes mais fracas (órgãos, músculos, sangue, substância reprodutiva).

Arte por David Dees. Atualmente a maioria da população não é normal biologicamente falando. O consumo de açúcares e adoçantes artificiais é imenso, mas as indústrias alimentares e farmacológicas, lideradas por ditócratas dietéticos dos meios de comunicação, continuam a culpabilizar as gorduras animais saturadas.

A perda de elementos nutritivos causada pelo açúcar provoca desejos intensos de comer ainda mais para repor todas as substâncias "roubadas". É a principal causa da "compulsão", que só piora quadro já negativo.

Muitas pessoas consomem mais açúcar do que seus corpos queimam. Excesso de açúcar é convertido pelo fígado em triglicérides que são armazenados como gordura e são um fator importante na doença cardíaca.

Em 1900, o consumo de açúcar do estadunidense médio era inferior a 2 kg por ano. Atualmente é de cerca de 60 kg por ano (!), um consumo que pode ser denominado como abuso de substâncias. Geralmente poucas pessoas estão conscientes da quantidade de açúcar que consomem, porque a maioria está camuflada em outros alimentos: uma lata de refrigerante geralmente contém não menos de nove colheres de chá de açúcar branco refinado industrial.

Se você está pensando em desistir do açúcar, deve saber que você vai encontrar os sintomas típicos de uma verdadeira síndrome de abstinência: cansaço, depressão, dores de cabeça, dores no membro e desejos exorbitantes de ingerir alimentos proibidos. Estes sintomas vão durar até que o corpo tenha "resetado", ajustando o metabolismo para a nova situação.

Sem dúvida, o açúcar refinado é uma substância diabólica que nunca deveria ter sido inventada, que está destruindo a biologia humana e deve ser banida sem cerimônia. O problema é que, se isso fosse feito, setores inteiros de supermercados iriam desaparecer; muitas empresas poderosas iriam quebrar e até mesmo seriam levadas ao tribunal. E nenhum advogado seria capaz de convencer ninguém de que essas empresas não estavam conscientemente envenenando a humanidade por décadas.

SOBRE O SAL

Quando um mapa dos primeiros assentamentos do Neolítico é sobreposto a um mapa com importantes depósitos de sal, conclui-se que o sal teve um papel muito importante no início do Neolítico e posteriormente. Os primeiros sítios neolíticos são encontrados no Levante, na Anatólia e nos Zagros, áreas ricas em sal. Por exemplo, temos o caso do Mar Morto em Israel (conhecido por suas fabulosas concentrações de sal), próximo ao qual foi estabelecida a primeira cidade da história, Jericó. Temos também o caso de Çatal Hüyük na Turquia. Este último local está localizado na planície de Konya, a algumas dezenas de quilômetros do lago salgado de Tuz Gölö. Haçilar, outra das primeiras cidades, não está longe de Hadji Bektas, a terceira fonte de sal de terra do muito posterior Império Otomano. Durante o período Neolítico, o lago era maior, suas águas chegavam na cidade, e no verão eles evaporavam deixando uma enorme crosta de sal pronta para ser coletada. Posteriormente, durante a extensão do Neolítico aos Bálcãs (cerca de 8.000 anos atrás), vemos o mesmo padrão. Por exemplo, existem mais de vinte locais na Sérvia, Romênia, Bulgária e Macedônia chamado "Slatina", um toponímico derivado do sal, e a maioria desses sítios estão relacionados com assentamentos neolíticos. Hallstatt (Alta Áustria, que abriga as minas de sal mais antigas do mundo), um importante centro da posterior Idade dos Metais, considerado quiçá o florescimento do mundo celta, e núcleo nórdico-vermelho, também era conhecido por suas minas de sal, assim como a atual Salzburg.

Provavelmente, mais uma vez, é que, inicialmente, o sal não era para consumo humano, mas para preservar a carne, alimentar o gado (especialmente bovino) e talvez derreter a neve e gelo. Os hallstattianos, por exemplo, dependiam fortemente da pecuária bovina e de uma dieta rica em lácteos, e para isso precisavam de sal abundante. 

Antigamente havia duas fontes de sal: sal marinho (mares e lagos) e sal mineral (mineração). Sendo uma mercadoria bastante escassa e difícil de obter, considera-se que o sal tinha um valor enorme e que chegou até a ser usado como moeda (diz-se que daí deriva o termo "salário"). O sal também era usado para destruir o inimigo: os assírios costumavam salgar os campos inimigos para que nada crescesse lá novamente, e os romanos fizeram o mesmo quando destruíram Cartago. As minas de sal da Polônia eram uma parte importante da força da poderosa República das Duas Nações, e tanto os venezianos como os genoveses lutaram pelo controle do comércio do sal no Mediterrâneo.

Nutricionalmente, o sal é muito necessário no metabolismo humano e até mesmo no sistema bioelétrico, pois fornece íons (sódio, cálcio, magnésio, potássio etc.). O problema não é o sódio ou o próprio sal, mas o sal de mesa atual, extraído pela mineração da terra, refinado, desprovido de minerais e elementos nutritivos e camuflado em inúmeros produtos embalados e processados, como aperitivos e outros (duas fatias de pão integral contém 1,5 g de sal refinado).

Este produto é o que dá a má reputação ao sal, já que durante a refinação, os fabricantes eliminam quase todos os minerais e oligoelementos, deixando apenas um cristal branco que consiste em 98% de cloreto de sódio. Entre os elementos removidos está o magnésio, um mineral que também está praticamente ausente nos alimentos atuais devido aos métodos de cultivo e processamento, e que é muito importante para o equilíbrio ácido-base, para a metabolização de gorduras e açúcares e para prevenir complicações cardíacas. Alguns estudos confirmam que mais de 75% dos estadunidenses sofrem de deficiência de magnésio.

Para obter magnésio, a melhor opção é completar os sais marinhos não refinados, especialmente as variedades cinzas e brutas, como as coletadas na costa da Bretanha. Entre 1 e 3 g destes sais por dia seria mais do que suficiente para assegurar o magnésio diário. Atualmente, o estadunidense médio consome entre 12 e 15 g de sal de mesa refinado por dia; isso é cerca de 5 kg de sal por ano. Sal refinado provoca hipertensão, prejudica a função renal e retém líquidos causando celulite, obesidade, entre outras coisas. Também foi demonstrado que quanto maior a ingestão de sal, maior a quantidade de cálcio na urina, fazendo com que o sal desmineralize o esqueleto. Cloreto de sódio também cristaliza na forma de ácido úrico, que se acumula nos ossos e articulações causando dor e rigidez. Também contribui para cálculos renais.

PREJUÍZOS DA ALIMENTAÇÃO CEREALISTA
(Tirado de Daniel Reid, "The tao of health, sex, and longevity")

O início da agricultura marcou o último passo na degeneração dietética do ser humano. Quando os cereais se tornaram a base de seu alimento, um novo elemento foi introduzido no sistema digestivo humano, um elemento que a natureza não tinha a intenção de servir como alimento para o homem: os amidos. O fato de os cereais serem o único componente da dieta humana que não pode ser comido ou digerido em estado cru é prova suficiente de que não se destinavam ao consumo humano. Os cereais se tornaram o primeiro "alimento preparado" no mundo.

Todas as evidências tendem a indicar que o homem pré-civilizado se absteve de comer cereais. Aparentemente, os seres humanos começaram a colher e depois a cultivar cereais não para comê-los, mas para alimentar seus animais de estimação e preparar cerveja. O homem só recorreu aos cereais para seu sustento quando o aumento da população fez que as plantas selvagens e os animais fossem insuficientes para alimentar a espécie.

Os cereais têm sido a base da dieta humana por apenas 6.000 ou 7.000 anos, e é por isso que os sábios taoistas da China antiga considerava-os como uma adição relativamente recente à dieta humana, com efeitos prejudiciais sobre a saúde e a longevidade. Na antiga literatura taoista sobre saúde e longevidade, a expressão bi gu ("evitar cereais") aparece uma e outra vez. Isso coincide plenamente com as descobertas de estudiosos contemporâneos da nutrição, como Arnold Ehret, Dr. Herbert Sheldon, Marsh Morrison, Dr. Norman Walker e V. E. Irons (...) O fato de que nos últimos milênios a dieta tradicional chinesa se baseia em cereais por 80 ou 90 % reflete apenas as demandas de superpopulação. Os taoistas que "evitam cereais" desfrutam de vidas mais longas e saudáveis ​​do que a população em geral, mas pelo menos a dieta tradicional chinesa combina cereais muito mais harmoniosamente do que as dietas ocidentais modernas.

Ainda hoje — no auge dos alimentos processados industriais —, tal é o papel desempenhado por um campo de trigo maduro como símbolo de prosperidade e felicidade no imaginário coletivo de nossa civilização, que somos incapazes de ver outras implicações da praga "civilizada" cerealista: degeneração dietética, degradação da paisagem, destruição de nossa própria biologia, empobrecimento do solo e, portanto, o avanço de uma desertificação que ameaça transformar o mundo inteiro num gigantesco Oriente Próximo.

SEIS MILÊNIOS DEPOIS ― REFLEXÕES SOBRE OS CEREAIS

Os cereais foram ideais como uma "solução de emergência" fácil e barata para sair dos períodos de escassez, mas eles não deveriam ter sido estabelecidos como um hábito permanente. Eles provocaram uma multiplicação descontrolada do ser humano, puseram em marcha o círculo vicioso da civilização e do qual não havia mais vontade de voltar. Os cereais alimentaram uma inércia da qual era impossível sair: a serpente que morde a própria cauda.

Os cereais atenuaram o dimorfismo sexual e afeminaram sociedades inteiras, como é evidente na maioria das culturas pré-indo-europeias anteriores às invasões. Com o passar do tempo, as qualidades de luta, ferocidade e instinto territorial só existiriam no bastião das männerbunden, os vários grupos de caráter militar e paramilitar que, ao longo da história, se dedicavam à guerra, ao esporte e à caça.

¿Devemos desenvolver a capacidade de metabolizar os cereais de forma eficaz? ¿Devemos nos tornar granívoros, como porcos ou galinhas? A experiência tem mostrado que, simplesmente, aqueles que o fazem degeneram. Eles não experimentam um desenvolvimento cerebral como aconteceu com os primeiros comedores de carne, muito pelo contrário. Pode ser que se persistimos em consumir amidos, podemos nos adaptar depois de milhares de gerações, mas talvez até então o ser humano tenha degenerado terrivelmente, tornando-se um herbívoro plácido sem substância. Há muito tempo, a revolução carnívora nos distanciou dos macacos frugívoros e nos fez evoluir para alturas biológicas provavelmente nunca alcançadas antes por algum ser vivo. A revolução dos cereais foi a inversão dessa revolução, sua antítese, e sua tendência, prolongada até o infinito, é tornar-se uma espécie herbívora. Na medida do possível, os cereais e os legumes devem ser dispensados, dedicando-se progressivamente ao cultivo de outros produtos, e se isso implica responsabilidade pela proliferação humana, é correto fazê-lo.


domingo, 18 de dezembro de 2016

Christophe Geffroy - Entrevista com Alain de Benoist: A Bênção dos Limites



Nós tivemos a alegria de entrevistar os maiores intelectuais franceses, de Chantal Delsol a Pierre Manent, passando por Marcel Gauchet, Alain Finkelkraut, Jacques Juillard, e alguns outros, em nossas colunas. Alain de Benoist não é cristão e, portanto, divergimos em alguns pontos, mas ele é uma grande mente aberta ao debate e com a qual as concordâncias abundam. Enquanto ele permanece majoritariamente ostracizado na "mídia de massa", nós estamos felizes e honrados e dar espaço aqui.

P: Você é um dos fundadores da "Nouvelle Droite", do GRECE, e muitas publicações desse movimento. Você poderia recordar as circunstâncias desses desenvolvimentos e as principais ideias que você, assim, defende?


R: O que foi designado muito mais tarde pela extremamente medíocre expressão "Nouvelle Droite" [Nova Direita] nasceu em 1967-1968, um pouco antes dos eventos em Paris durante o mês de maio. Adolescente, eu havia tido uma experiência de militância política intensa, praticamente total nos quatro ou cinco anos precedentes, dentro da direita radical (a Fédération des étudiants nationalistes de François d'Orcival, então o movimento do periódico Europa Ação, fundado por Dominique Venner). Uma escola dura e uma experiência memorável, mas cujos limites eu rapidamente testei. Aos 25 anos de idade, eu entendi que eu era um homem do saber, não um homem do poder, para falar como Raymond Abellio. Ademais, eu estava cansado dos slogans e das ideias prontas. Então eu rompi definitivamente tanto com a ação política quanto com a extrema-direita, para me devotar completamente ao trabalho do pensamento. É então que eu criei o periódico Nouvelle École, pouco antes de lançar o GRECE. O periódico Éléments apareceu em 1972. Eu também publiquei o periódico Krisis em 1988, que foi criado para ser um "periódico de ideias e debates". Essas três publicações ainda são publicadas hoje. Minha intenção à época era começar do zero, quer dizer inventariar sistematicamente todos os domínios do conhecimento de modo a levar ao desenvolvimento de uma nova cosmovisão capaz de esclarecer o momento histórico em que vivemos. Eu tinha em mente o exemplo da Escola de Frankfurt, da Action Française e do CNRS! Obviamente, eu tive que dar alguns passos para trás. No mínimo posso dizer que desde meio século atrás, eu jamais estabeleci outros objetivos.


P: Você colaborou com a Revista Figaro no fim da década de 70: você alcançou notoriedade ali, mas você foi expulso. Isso já havia sido por "crimepensar", e podemos ver neste episódio o início do ostracismo midiático do qual você tem sido vítima?


R: As coisas são mais simples. Louis Pauwels, quando criou a Revista Figaro, me pediu para ajudá-lo, o que aceitei. Muitos de meus amigos também participaram nessa aventura. Três anos depois, traumatizado pela chegada da esquerda ao poder, Pauwels decidiu se convertar ao cristianismo e ao liberalismo, ainda antes ele não fosse nem cristão, nem liberal. O Monsenhor Lustiger recebeu sua confissão. Seguindo seu exemplo, teria sido fácil para mim preservar minha posição na revista. Eu não o fiz. A expulsão da qual você fala foi a consequência lógica. Mas eu não penso que este tenha sido a origem do ostracismo que você também mencionou. Este é apenas um aspecto da evolução mais geral da paisagem intelectual, que tem progressivamente marginalizado uma série de livres-pensadores e que atingiu muitos outros intelectuais além de mim. Isso é algo que está começando a passar hoje. A geleira intelectual está em processo de derretimento. Aquecimento global!


P: Eles o criticaram por defender teorias "racistas" à época: o que era, na verdade, e você mudou? Não seriam essas acusações antigas que se mantém presas a você?


R: Os pequenos perseguidores que querem ditar a mídia hoje lançam mão de muitos meios! Os fantasmas "racialistas" eram parte da bagagem de juventude que eu há muito deixei de lado. Eu publiquei três livros contra o racismo, nos quais eu desconstruí metodicamente teorias racistas de modo a demonstrar sua falsidade intrínseca. Eu fiz o mesmo com todas as doutrinas que pretendem derivar a especificidade sócio-histórica das sociedades humanas exclusivamente da biologia. E quanto eu falo em identidade, é a Martin Buber que faço referência, não a Gobineau! É suficiente me ler para perceber isso (não há falta de material: 102 livros, 2.000 artigos, 600 entrevistas). Mas eu não sou mais tão inocente: ao contrário, eu sei bem que o objetivo verdadeiro é impedir que as pessoas me leiam.


P: Em relação ao início da "Nouvelle Droite", quais são os principais pontos que você acredita terem mudado e quais são os temas persistentes, fundamentais?


R: Mais que mudanças, houve inflexões. Por exemplo, hoje eu não mais subscreveria à rejeição completa do pensamento de Freud ou de Marx à qual eu aderia nos anos 70. Além dos grandes polos de influência que deixaram sua marca em mim bem cedo, como o pensamento socialista do início do movimento sindicalista (Sorel, Proudhon, Leroux, Malon), os "inconformistas" da década de 30 (Mounier, Robert Aron, Alexandre Marc), ou a Revolução Conservadora alemã (Schmitt, Spengler, Jünger, Moeller van den Bruck), meu interesse se voltou cada vez mais para as ciências sociais, de Max Weber a Jean-Claude Michéa, passando por Simmel, Sombart, Baudrillard e Louis Dumont. Mas eu também segui com minhas obras sobre tradições populares e a história das religiões.


P: Como você analisa a emergência do "politicamente correto", com seu vetor principal de antirracismo, e a pouca resistência que ele enfrenta?


R: Ele é originalmente um modismo que veio dos EUA. Na França, ele floresceu na esquerda, mas também marcou o fim de uma esquerda fiel a suas aspirações iniciais. Ao privilegiar o antirracismo e a "luta contra toda discriminação", a esquerda buscou um sujeito histórico substituto, porque ela deliberadamente se separou do povo. Ao recitar os mantras dos direitos humanos e reivindicar a defesa de toda forma de desejo, inclusive a nível institucional, ela quer ocultar sua vergonhosa adesão ao monoteísmo de mercado. Este virada encontrou pouca resistência porque o terreno havia sido preparado, por pelo menos dois séculos, pelo que eu chamei de a ideologia do "Mesmo", essa ideologia multifacetada que nos diz que os homens são fundamentalmente os mesmos em todo lugar e que as diferenças que notamos entre eles são secundárias, ou mesmo danosas. A igualdade, nessa perspectiva, se torna um sinônimo de mesmidade.


P: Você tem escrito bastante sobre liberalismo. Enquanto nosso país sofre com um paralisante socialismo estatal, enquanto violência islâmica se espalha em casa com a imigração em massa, enquanto eles "desconstroem" o homem passo a passo da teoria de gênero ao trans-humanismo, em resumo, enquanto muitas ameaças concretas nos sobrepujam, por que o liberalismo também é um perigo nesse contexto?


R: As ameaças mais barulhentas e visíveis não são necessariamente as mais importantes. Algumas são tão formidáveis quanto silenciosas, como o poder crescente da inteligência artificial ou a convergência de NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, informação e ciências cognitivas) na fabricação e transformação da vida. Se eu privilegio a crítica do liberalismo, é porque ele hoje representa a ideologia dominante na maioria dos países do planeta, mas também porque ele está na origem da maioria dos males que você menciona. O trans-humanismo e a ideologia de gênero se sustentam na ideia de que o homem pode criar a si mesmo a partir do nada, que se conforma perfeitamente à antropologia liberal, que não vê o homem como herdeiro, mas como um ente autorizado a sempre buscar seu interesse de maneira egoísta e cujas escolhas jamais se enraizam em algo que o precede. Desde o começo, a imigração representa o "exército de reserva" dos empregadores: os liberais sempre foram partidários da livre circulação de pessoas, bens e capital. Em face das patologias sociais resultantes, eles não tem nada a oferecer além da criação de um "mercado de imigração" (já que eles também querem criar um mercado baseado no direito de poluir!). Quanto a violência islamista, ela é apenas o resultado convulsivo das guerras "humanitárias" lançadas no Oriente Médio pelas potências ocidentais dominadas pelo universalismo dos direitos humanos e pela obsessão pelo mercado.


P: Segundo você, os problemas que eu acabei de mencionar delineam novas divisões políticas, e se sim, quais?

R: Nascida da modernidade, a divisão esquerda/direita decai com a modernidade. Apenas aqueles que ainda se apegam a ela não entenderam que o mundo mudou, e que instrumentos conceituais obsoletos não permitem análises. A única divisão verdadeira hoje é a que contrasta a França periférica com a França urbanizada, o povo com as elites globalizadas, as pessoas comuns com a classe governante, as classes populares com a grande burguesia globalista, os perdedores com os vencedores da globalização, os defensores das fronteiras com os parditários da "abertura", os "invisíveis" com os "sobrerrepresentados", em resumo os que estão no fundo e os que estão no topo. Sobre este ponto eu os remeto às obras de Christopher Lasch e Christophe Guilluy. É apenas nessa perspectiva que podemos compreender um fenômeno como a ascensão do populismo, que constitui a única real novidade política dos últimos 30 anos.

P: Você acha que estes problemas podem encontrar soluções no esquema do debate eleitoral, e assim se aproximar a uma resolução após uma "boa" eleição?

R: Eu não acredito muito em "boas" eleições, nem que o partido político enquanto forma ainda tenha muito futuro. Sob as circunstâncias atuais, as eleições permitem alternância, mas não alternativas: elas permanecem no mesmo paradigma social. Toda a questão é saber como podemos mudá-lo. Mesmo se vivemos na época de implosões, ao invés de explosões, meu sentimento é de que só mudaremos a sociedade quando se tornar impossível não mudá-la. É outra maneira de considerar o fim do capitalismo que desejamos. Eu escrevi isso muitas vezes: o sistema monetário perecerá pelo dinheiro.

P: O que combate cultural significa para você, e como você o situa em relação a ação política?

R: A cultura geral desapareceu na escola; a classe política hoje consiste fundamentalmente de pessoas educadas, mas incultas, como disse Alain Finkelkraut. Ademais, os partidos políticos sempre desconfiaram de ideias, que inutilmente dividem as pessoas aos seus olhos. Quanto a direita, ela nunca gostou muito de intelectuais. O trabalho cultural, que objetiva mudar o espírito dos tempos, deve portanto seguir outros canais.

P: Os EUA terão um novo presidente neste outono. Você acha que isso mudará algo concretamente em termos de equilíbrio mundial?

R: Os EUA entraram em uma fase de relativo declínio, mas permanecem uma potência que não deveríamos subestimar. Com Hillary Clinton, que é a representante dos meios empresariais e do sistema, o principal risco é o de um relançamento da Guerra Fria, ou mesmo da guerra, ponto. O capital sempre demandou guerra quando não há outros meios de relançar a corrida pelo lucro! Donald Trump representa o desconhecido. No mínimo, estaria de acordo com o princípio da precaução lembrar que, se a Europa sempre teve muitos governos pró-americanos, nunca houve um governo pró-europeu nos EUA.

P: Você se define como "pagão": Para você, o que é ser pagão? O que estabelece sua antropologia?

R: Como resumir em poucas frases, e ademais em uma publicação católica, uma posição sobre a qual eu já escrevi milhares de páginas? A oposição entre cristãos e pagãos claramente não pode ser reduzida ao número de deuses. O paganismo é, fundamentalmente, uma religião da pólis (os gregos adoram deuses gregos). Ele é, então, uma religião do cosmo e da vida, onde ética e estética jamais entram em oposição. O paganismo é a ética da honra, não a moralidade do pecado. É a condenação do excesso (hybris), o senso de limites, a negação da primazia a tudo que é meramente material. Historicamente, o cristianismo é um fenômeno híbrido que teve que disputar com as formas do paganismo sem cessar de combatê-lo em essência. É essa complexidade que eu tentei revelar em Comment peut-on être paien? [Como se pode ser pagão?] (1981), e talvez ainda mais em meu diálogo com o filósofo cristão Thomas Molnar em L'éclipse du sacré [O Eclipse do Sagrado] (1986).

Eu não gosto daqueles que não crêem em nada. Eu acredito que para que se possa dar o melhor de si, para que se possa alcançar o próprio telos, o homem deve apelar a algo que o ultrapassa. Mas eu não creio em qualquer "pós-mundo", em qualquer além-mundo. Eu não creio na distinção teológica entre ser criado e ser não-criado. É por isso que eu me sinto mais em casa submergindo nos épicos homéricos ou na Canção dos Nibelungos, praticando Heráclito, Aristóteles, Sêneca ou Marco Aurélio, do que lendo Sâo Paulo ou Santo Agostinho. Eu estudei as origens do cristianismo por mais de 40 anos. Não vejo nada de crível ou atrativo ali. Eu reprovo o universalismo do cristianismo (o "povo de Deus" não corresponde a qualquer povo), que o impede, quando deixado por conta própria, de assumir uma dimensão identitária. Eu o reprovo por ter introduzido o universalismo individualista no espaço mental europeu, por ter esvaziado o mundo de toda sua sacralidade intrínseca, por ter propagado uma concepção vetorial e linear da história a partir da qual todos os historicismos modernos surgiram, e por ter disseminado essas "verdades cristãs tornadas loucas" (Chesterton) as quais, uma vez secularizadas, se tornam o pedestal do mundo desencantado, esvaziado de sentido, em que vivemos hoje.

Ao mesmo tempo, se você ler minhas memórias (Mémoire vive), que foram publicadas 4 anos atrás, você sabe o que eu devo a autores como Charles Péguy e Georges Bernanos [autores católicos]. Eu também me recordo calorosamente de Gustave Thibon e Jean-Marie Paupert, com quem eu mantive relações bastante afetuosas, que eram correspondidas ao que parece (foi no La Nef, em outubro de 2003, que Paupert teve a gentileza de se referir a mim como seu "alter ego"!). Eu acrescento que não sou um daqueles que não gosta da encíclica Laudato sí, e que o "ecossocialismo" do Papa Francisco me agrada bastante. Sobre a condenação do dinheiro, este "pasto do diabo"; a rejeição da ganância e da crematística; a proteção dos ecossistemas; e a condenação da "comercialização" da vida (que os católicos costumam esquecer que principia com a venda da força-trabalho), pode indubitavelmente haver concordância. Discussões religiosas são discussões intermináveis. Mesmo os crentes são ateus na religião dos outros! A simples experiência humana me mostrou por um longo tempo que entre cristãos, pagãos, ateus ou agnósticos há a mesma proporção de homens bons e espíritos livres, bem como de sectários medíocres e verdadeiros canalhas. Ideias são uma coisa, homens são outra. Eu julgo os homens fundamentalmente com base no que eles valorizam (ou parecem valorizar aos meus olhos), não no que eles dizem. É o que me distingue tanto das santas víboras, os defensores do "politicamente correto", e dos inquisidores do momento.

P: Que temas importantes dirigem seu pensamento político ou filosófico hoje, e quais são os principais perigos que nos ameaçam aos seus olhos?

R: Os perigos são de todo tipo, já que nunca vivemos em um mundo tão incerto. Entre aqueles que eu considero mais preocupantes: a ilimitação global do comércio, o desaparecimento de culturas populares e modos de vida enraizados, a possível substituição do homem pela máquina, a exaustão de grandes projetos coletivos, a ascensão do tecnomorfismo, e muitas outras. Estes são alguns dos temas sobre os quais eu reflito. Mas eu também trabalho sobre temas tão diferentes quanto a importância decrescente do político ou as realizações da exegese contemporânea. É difícil fazer tudo junto!