terça-feira, 13 de junho de 2017

Stefano Beccardi - Entrevista com Aleksandr Dugin: "Precisamos fazer explodir o sistema liberal"

Entrevista de Stefano Beccardi para a revista Il Primato Nazionale



Aleksandr Gelyevich Dugin (1962) é um politólogo e filósofo russo, cuja fama está mais difundida fora dos confins nacionais do que dentro deles, onde permanece circunscrita aos círculos políticos e militares. Isso contribuiu para distorcer, para o bem ou para o mal, sua imagem, principalmente por parte dos meios de comunicação ocidentais que o elevaram a "o ideólogo de Putin" ou mesmo a "o Rasputin de Putin", mais além de qualquer influência real nas decisões do presidente russo, entre outras coisas, nunca mencionada pelo interessado direto. Dugin também figura na lista de personalidades russas sancionadas pelo governo americano, considerado como um inimigo público. Estudioso da tradição (entre suas referências se destacam Guénon e Evola, tendo supervisionado a tradução ao russo de vários volumes deles) e da Revolução Conservadora, é o ideólogo do eurasianismo, ou seja, da ideia de uma integração política, econômica e cultural entre os países do espaço pós-soviético, e de uma ordem mundial multipolar que não esteja homologada culturalmente ao liberalismo ocidental, e da Quarta Teoria Política, com a qual propõe a superação dos esquemas políticos clássicos para que se esteja à altura dos desafios impostos pela pós-modernidade, ou seja, pelo totalitarismo do século XIX.

Impulsionados pelo desejo de aprofundar estes temas sem o filtro da inclinação favorável ou desfavorável de outros meios, quisemos debater com Dugin em pessoa, o qual nos acolheu há uns dias em seu escritório moscovita nos saudando em um ótimo italiano.

SB - Prof. Dugin, a QTP enunciada pelo senhor se propõe hoje como um dique contra a pós-modernidade na qual estão empapados o pensamento e práxis políticas ocidentais, em uma época na qual o modelo liberal é imposto a nível mundial sobre os escombros das doutrinas marxistas e fascistas. Neste contexto, como se propõe a QTP como uma alternativa às teorias políticas já experimentadas?

Dugin - A QTP se considera como antiliberalismo porque identifica no liberalismo a essência da modernidade. A modernidade não estava politicamente definida antes da vitória total do liberalismo (primeira teoria política) sobre as outras versões da política moderna. Também o comunismo (segunda teoria política) e o fascismo (terceira teoria política) eram ideologias políticas modernas baseadas no conceito filosófico do "sujeito" cartesiano. Todas as aplicações desse "sujeito" criaram as três formas gerais da filosofia política: o sujeito, como indivíduo, é o centro ideológico do liberalismo; o sujeito, como classe, o do marxismo; finalmente, o sujeito como Estado ou como nação, era a essência do fascismo.

O liberalismo, no final do século passado, se impôs como a ideologia que melhor representa toda a modernidade. O século passado foi totalmente idealista, porque foi o choque entre as três ideologias políticas; assistimos primeiro a duas guerras mundiais para definir qual ideologia política representava a essência política e filosófica da modernidade, e aqui o fascismo, perdendo a guerra, perdeu a oportunidade de sê-lo. Logo veio o contexto da Guerra Fria que foi o choque entre liberalismo e socialismo. Depois de 1991, o liberalismo venceu totalmente e se afirmou como a única possível ideologia política em escala mundial: hoje temos um sistema econômico e político liberal, e um sistema cultural e filosófico baseado no individualismo. Como disse Fukuyama, "a história do mundo acabou", porque o liberalismo venceu, já não há alternativa e ele pode, portanto, mostrar sua natureza totalitária: trata-se da pós-modernidade. O liberalismo se afirma, então, dentro de um "sistema fechado", como a emancipação do indivíduo de todos os vínculos com a identidade e com a coletividade: é um processo que começou com a "liberação" das religiões, continuou com a "liberação" da nação e logo do gênero sexual e, por último, virá a emancipação da humanidade mesma (trans-humanismo pós-moderno). O liberalismo não é apenas ideologia, mas também é a essência dos "objetos", o centro da realidade, a ausência de qualquer transcendência.

Este é o ponto de partida da QTP, que não aceita o liberalismo como destino inevitável, quer negar a individualidade, mas sem voltar às ideologias do passado que eram modernas e, enquanto tais, representantes do estado mais puro do liberalismo. Reconhecemos este resultado da história ideológica da modernidade, reconhecemos que o liberalismo venceu e os motivos. Queremos, então, opôr ao liberalismo vitorioso algo que vá mais além da modernidade, auspiciando o retorno à pré-modernidade, ao mundo tradicional. Não obstante, devemos compreender que este não deve ser um "retorno ao passado", mas aos princípios eternos da Tradição que pertencem a toda época. Quando falamos de "tradição" temos a ideia do passado, do velho, da reação; a Quarta Teoria Política, não obstante, não é conservadorismo, mas sim uma chamada à eternidade, em cujo contexto podemos encontrar a dimensão do homem presente e futuro. Essa eternidade é justamente aquilo que é negado pela modernidade e pelo liberalismo. Neste retorno à pré-modernidade pode ser de ajuda Heidegger, com sua crítica do logos ocidental, moderno e pré-moderno; a pré-modernidade por si só não basta, porque quando ela é concebida apenas formalmente, e a Tradição perde seu sentido eterno, ela está destinada a se fazer superar pela modernidade, como já ocorreu quando perdeu seu caráter existencial, vivente, reduzida a uma pura forma vazia sem conteúdo sagrado. O retorno ao sagrado deve ser concebido, no contexto heideggeriano, como um novo começo, a ser construído em torno ao conceito do Dasein: isto é, a destruição do conceito individual em favor do fato humano, concreto, pensante.

SB - A propósito da Tradição, você nunca ocultou ter sido influenciado em sua trajetória teórica pela obra de dois grandes europeus, René Guénon e Julius Evola. Qual é a contribuição que o mundo russo pode dar para a recuperação de uma visão tradicional da vida?

Dugin - Creio que temos que fazer o sistema liberal "explodir" para chegar à alternativa, porque nada do presente corresponde ao que devemos construir; talvez esta seja a razão pela qual, para alguns meios de comunicação de massa ocidentais, eu sou "o homem mais perigoso do mundo". Essa é a potencialidade revolucionária do tradicionalismo de Evola e de Guénon, que eram verdadeiros revolucionários; marxistas e socialistas são "crianças" em relação à grande revolução espiritual, social, política e econômica que temos que realizar os representantes da QTP.

A validade do pensamento de Guénon e Evola consiste na formalidade da oposição entre modernidade e Tradição. Sua intuição mais grandiosa é a de concebê-la como duas formas, não como duas fases; duas formas coexistentes, que podem ser escolhidas como modelo de sociedade e de vida. Para a Rússia, essa possibilidade de escolha é importante, porque como russos conservamos muitos aspectos da sociedade tradicional: religião, família, coletivismo orgânico. A Tradição é a forma que podemos escolher hoje para defender estes nossos valores.

Podemos aplicar estes princípios à política, à cultura, à história, conciliando-os com o tradicionalismo russo. Na luta pela defesa de nossa tradição somos solidários com outros povos que lutam por sua tradição, porque temos o mesmo inimigo e o mesmo opressor: a modernidade, que destroi toda sociedade, a nossa, tal como a ocidental, a islâmica, a hindu ou a chinesa. É uma luta comum ainda que com valores distintos.

Sempre é possível opor a Tradição, enquanto forma, à modernidade. Essa escolha se traduz também na realidade política, e Putin joga precisamente com isso. Quando há possibilidade de escolher, a maioria do povo russo, mas também creio que do povo europeu, escolhe a Tradição. Os liberais, não obstante, com sua maneira totalitária de atuar, impõem a modernidade não como opção, mas como destino: não se pode não ser moderno.

SB - A crescente insatisfação para com os diversos aspectos da pós-modernidade se traduz, a nível político, na emergência de movimentos chamados "populistas" contra as elites liberais que ditam a agenda política liberal (que você chama de "pântano"). Pelo que você pode observar, estes "populismos" expressam efetivamente uma crítica radical do sistema liberal, pelo que se pode esperar uma mudança de paradigma real e efetiva, ou estão de toda forma imersos nele e se resolvem simplesmente como instâncias de correção marginais, mas sem um questionamento geral?

Dugin - O populismo, como fenômeno pós-moderno, é o rechaço do liberalismo, mas se trata de uma reação visceral, "das tripas", não intelectual. Como um órgão vivo reage ao que atenta contra sua vida, o populismo é a reação imediata da sociedade ainda viva contra a imposição do liberalismo que mata toda a vida. Também neste fenômeno podemos encontrar uma demonstração do Dasein. Heidegger escreveu: "Dasein existiert völkisch". O homem não pode existir sem o povo: sem a língua, sem a cultura e sem a tradição, porque o homem é um elemento do povo e o povo é a natureza do homem. Todo o conteúdo do homem é popular. Devemos compreender, então, o populismo como o despertar do povo que existe e que se opõe à metafísica da modernidade, contra os conceitos liberais do indivíduo e da sociedade civil.

A oposição ao liberalismo explica também por que o populismo declina facilmente para o "populismo de esquerda", pseudo-socialismo (Syriza na Grécia, Podemos na Espanha, Movimento 5 Estrelas na Itália), ou para o "populismo de direita", pseudo-fascismo (como Le Pen na França, a AfD na Alemanha, a Liga Norte na Itália). Não obstante, creio que o populismo não deve ser interpretado nem a partir da esquerda, nem a partir da direita, porque do contrário se cai na armadilha da modernidade e se reestabelece o círculo vicioso da história: outra vez se criaria uma sociedade "fechada" com o socialismo ou o fascismo, e o liberalismo novamente se converteria em uma alternativa atraente. É necessário evitar isso, portanto o populismo deve ser entendido em um sentido puro, sem intromissões de "direita" ou de "esquerda", como se tratasse de uma reação orgânica que deve ser cultivada intelectualmente. O populismo é a forma tosca, primitiva, da criação da cultura da Quarta Teoria Política, da qual ela representa o argumento mais importante de sua validade; deve ser entendido no sentido da superação do liberalismo e de suas outras formas críticas modernas, e só neste sentido pode ser considerado um instrumento para afirmar uma alternativa total ao liberalismo e à globalização. Nessa luta, os inimigos do populismo são as ideias manipuladas pelo próprio liberalismo: o neofascismo (como no caso ucraniano), e o neo-socialismo (como os movimentos financiados por Soros); o populismo deve se opôr então a essas interpretações distorcidas de "direita" ou de "esquerda", porque por aqui passa a diferença entre ser um obstáculo para o liberalismo ou ser um instrumento do próprio liberalismo. Não é suficiente, portanto, com a captação do dissenso ou do "voto de protesto": é necessário estar muito claro, na visão dos líderes políticos, a função histórica do populismo.

Com Macron vemos a situação muito mais clara da pós-modernidade: ele representa o liberalismo puro, globalista, mais além da direita e da esquerda, é o Anticristo político. Quem se opõe a ele é de direita (Le Pen) ou de esquerda (Mélenchon); mas o pólo do populismo puro, que é o centro da Quarta Teoria Política, se encontra entre Le Pen e Mélenchon. Também na Itália há que encontrar uma "quarta posição"; pessoalmente, creio que Salvini vai nessa direção, ainda que por razões de conveniência de propaganda política, para não perder o apoio dos liberais de direita do norte da Itália, este aspecto não esteja acentuado.

SB - A propósito do "populismo", não se pode deixar de mencionar o caso Trump. ainda que sua eleição tenha estado caracterizada por proclamações claras contra os dogmas liberais e mundialistas, os desenvolvimentos mais recentes de seu mandato parecem sugerir uma "normalização" política em ato. Nos enfrentamos à consumação de uma traição às expectativas, ou é na verdade um preço que Trump deve necessariamente pagar no curto prazo para poder trabalhar "em profundidade" na direção por ele indicada desde sua candidatura?

Dugin - Trump, inclusive se comportando muitas vezes de maneira irracional, não pode ser interpretado como um perfeito liberal, nem como comunista, nem como fascista. Sua visão sincrética e caótica do mundo denota populismo; mas o "trumpismo" é mais importante do que Trump, porque é a isso que o povo americano aspira e quis, o Trump "trumpista", não o Trump manipulado pelo Deep State, pelas estruturas liberais e globalistas.

Trump declarou na campanha eleitoral que deseja mudar o sistema, mas sem vontade revolucionária é impensável vencer contra o Pântano liberal. O sistema existente não pode ser melhorado modificando os procedimentos ou as elites, ele deve ser destruído em seus princípios. Isso só é possível através da revisão total da modernidade, impondo outra filosofia da política, da ciência e da sociedade. O caminho é de todo modo muito longo e pouco evidente. Talvez Trump subestime o desafio dessa revolução total e é por isso que há que trabalha para que outros líderes contem com os meios que faltem a ele.

SB - No âmbito europeu, o destino traçado imediatamente depois do fim da Segunda Guerra Mundial está marcado pela subordinação, política e ideológica, e pela incapacidade (ou mesmo pela renúncia) a expressar uma dimensão própria. Um longo "crepúsculo" que todavia parece em pleno devir. Quais são os imperativos que os europeus deveriam se propor, a nível político e pré-político, para se reapropriarem da história ao invés de padecê-la? Por onde passa, em outras palavras, um novo amanhecer europeu?

Dugin - É necessário concentrar-se sobre o conceito de logos europeu, como eu escrevi em Noomaquia. Há um logos da Europa que é apolíneo e dionisíaco ao mesmo tempo; é patriarcal e solar em seu conjunto e é o eixo da civilização europeia tradicional, presente na cultura da civilização grecorromana e indo-europeia. Hoje em dia, este eixo está dominado pelo logos de Cibele, do matriarcado e da forma ctônica. A mãe investe contra o pai, o princípio apolíneo, e contra o filho, o princípio dionisíaco; este logos liberal titânico expressa a modernidade europeia, que é anti-europeia. Essa luta pelo logos europeu é questão de vida ou morte; não é possível a paz entre o Diabo e Cristo, entre o Céu e a Terra, como disse Heidegger. É necessária uma revolução apolínea total, política, cultural e econômica contra as estruturas liberais. 

Creio que chegará um momento em que o sistema globalista produzirá transformações tão brutais a ponto de implodir. Nesse momento, o núcleo do logos europeu terá que voltar a emergir, sob pena do niilismo mais absoluto, o mundo das máquinas. Portanto, é necessário ter em vista este momento, que marcará a possibilidade de um novo começo: há que conservar a própria identidade contra todas as forças destrutivas. A educação alternativa é o caminho a seguir: pensem nos escritos do autor essencialmente europeu Dumézil, mas também nos da Nova Direita francesa, sem esquecer o patrimônio literário italiano. A romanidade deve ser salva contra todas as forças que não permitem que ela se manifeste. 


domingo, 11 de junho de 2017

Sebastian J. Lorenz - Sorel: O Primeiro Conservador Revolucionário

por Sebastian J. Lorenz



De Georges Sorel se diz ter sido o primeiro conservador revolucionário, ou pelo menos um dos primeiros pais fundadores da chamada Revolução Conservadora. Assim o expressaram corretamente Julien Freund, Armin Mohler e Karlheinz Weissmann, estes dois últimos co-autores do manual Die Konservative Revolution in Deutschland, 1918-1932. Por isso dedicamos a ele este volume monográfico, que contém não só estudos sobre os aspectos mais conhecidos de seu pensamento, como podem ser o "mito revolucionário", a violência e o sindicalismo, como também outras abordagens divergentes, por exemplo, em relação com a liberdade e a religião. E para terminar, um fantástico artigo do dr. Weissmann sobre a recepção por Armin Mohler do pensamento soreliano.

Robert Steuckers sempre recorda, como uma referência constante, os conselhos de Armin Mohler convidando-o a reler Georges Sorel e a explorar o contexto de seu tempo. Segundo Steuckers, "Sorel, que às vezes foi chamado de 'tertuliano da revolução', era alérgico ao racionalismo estreito, aos pequenos cálculos políticos que realizava a social-democracia. A este espírito de lojista, guiado por uma ética eudemonista da convicção e por uma vontade de excluir da memória todos os grandes impulsos do passado e de apagar seus rastros, Sorel opunha o 'mito', a fé no mito da revolução proletária. A ética burguesa, apesar de sua pretensão de ser racional, conduziu à desorganização e inclusive à desagregação das sociedades. Nenhuma continuidade histórica e oficial é possível sem uma dose de fé, sem um impulso vital (Bergson). Basicamente, quando Sorel desafia os socialistas aburguesados de seu tempo, sugere uma antropologia distinta: o racionalismo corta o real, o que é nefasto, enquanto o mito fecha os fluxos. O mito, indiferente a todo 'final' tomado como definitivo ou criado como ídolo, é o núcleo da cultura (de toda cultura). Seu desaparecimento, seu rechaço, sua inutilização, conduzem a uma entropia perigosa, à decadência. Uma sociedade obstruída pelo filtro racionalista resulta incapaz de se regenerar, de desenhar e despertar suas próprias forças em seu relato fundador. A definição soreliana do mito proíbe pensar na história como um determinismo; a história está feita por raras personalidades que a impulsionam em certas direções, em períodos axiais (Armin Mohler reutiliza a terminologia de Karl Jaspers, que Raymond Ruyer utilizará por sua vez na França). A visão mítica das personalidades que a impulsionam e dos períodos axiais é a concepção 'esférica' da história, própria da Nouvelle Droite". 

Georges Sorel: Uma Biobibliografia

(Cherbourg, 1847 - Boulogne-sur-Seine, 1922) 

Filósofo e teórico político francês. Filho de uma família da burguesia provincial normanda, recebeu dela a fixação com o trabalho e os sentimentos morais e religiosos, que manteve sempre vivos e profundos, ainda depois da perda da fé. Realizados os estudos secundários na cidade natal, foi enviado ao Colégio Rollin de Paris; logo ingressou na École Polytechnique. Chegando em 1870 a engenheiro de estradas e pontes, viveu no território provincial durante vinte e cinco anos; finalmente, nomeado engenheir-chefe, abandonou o cargo sem nem mesmo pedir a licença correspondente e se entregou com plena liberdade à atividade meramente intelectual.

A partir de 1892 não conservou mais funções que as de adminsitrador da École des Hautes Études Sociales. Em 1895, junto com Bonnet e Deville, fundou Le Devenir Social, revista que persistiu até 1897; colaborou em Mouvement Socialiste, de Lagardelle; Ére Nouvelle, Revue de Metaphisique et de Morale, e várias publicações italianas e alemães. Em 1897 se retirou, com seu sobrinho e a esposa dele, à pequena casa de Boulogne-sur-Seine, onde permaneceu até o fim de seus dias.

Ainda conservador em 1889, passou ao socialismo democrático em 1893; logo aceitou o marxismo, com todas as suas perspectivas revolucionárias, e mais tarde, desenganado do proletariado, se aproximou, em 1911, aos nacionalistas da Action Française; finalmente, a Primeira Guerra Mundial reanimou sua oposição às democracias, o que o induziu a considerar a revolução russa como a aurora de uma nova era em Matériaux d'Une Théorie du Proletariat (1919) e Plaidoyer pour Lénine (1921).

O "caso" Dreyfus exerceu notável influência na orientação de seu pensamento. Partidário do célebre militar francês durante a discussão do caso, ou seja quando parecia que o processo de revisão haveria de tornar possível na França condições que permitiriam a instauração de uma nova forma de vida e um movimento de renovação, sofreu um grande desengano ao comprovar a degeneração de todos os chefes do socialismo chegados ao poder e de quantos políticos de suas mesmas ideias tendiam unicamente à exploração das massas trabalhadoras e à defesa de seus interesses pessoais; desiludido por tal experiência, condenou para sempre qualquer sistema político de caráter "reformador" e se inclinou para uma concepção revolucionária da política do proletariado.

Aos quarenta anos começou a escrever sobre os problemas sociais. Antes de sua notoriedade como aficionado ao estudo da Filosofia, devido a sua colaboração na Revue de Metaphisique et de Morale e na Revue Philosophique, e de sua fama como teórico do sindicalismo, era já, desde 1889, célebre como historiador, graças ao Procès de Socrate, complexo exame da sociedade ateniense e crítica do racionalismo socrático. Filósofo da técnica e da moral, afrontou questões e temas da civilização em Ruine du Monde Antique (1898) e Ilusions du Progrès (1908), e estudou o cristianismo em Système Historique de Renan (1906), que, sob a influência de Vico, julgou como um princípio.

Estabeleceu as bases da nova economia concreta em Introduction à l'Économie Moderne (1903), e estudou, meritoriamente, o aspecto jurídico do sindicato como nova forma de instituição em Reflexões sobre a Violência (1906), sua obra mais célebre, na qual propunha a formação de um sindicalismo operário forte, consciente e preparado para enfrentar-se com a sociedade burguesa, destruí-la e criar sobre suas ruínas uma nova sociedade baseada na produção livre das hierarquias e instituições do passado.

Grande importância apresenta sua aplicação da filosofia de Bergson aos problemas sociais; em 1889 havia sido já um dos primeiros que chamaram a atenção para o Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, desse famoso pensador, a quem julgou "árvore vigorosa elevada em meio às desoladas estepes da filosofia contemporânea". Ao filósofo do sindicalismo correspondeu o mérito da transposição ao terreno social e econômico, em oposição ao critério meramente evolutivo do socialismo, da teoria bergsoniana do movimento único ao longo de uma linha ideológica de tendência antirracionalista.

Foi Sorel quem assinalou com eficácia, antes do desenvolvimento de novas orientações fenomenológicas e existencialistas, o caminho seguido por Bergson: a revalidação da ideia de instinto e mistério às quais este filósofo chegara através de reflexões sobre os fenômenos biológicos e as inclinações naturalistas. Em sua opinião, é possível deduzir variações e transformações da sociedade a partir de sinais ínfimos e pouco visíveis, contrariamente à afirmação de Darwin segundo a qual as modificações muito pequenas não podem assegurar o triunfo de espécies novas sobre as antigas.

Notável é também a atitude de Sorel na valoração das atividades espirituais mais elevadas e livres, como a ciência e a religião, das quais exclui, em franca oposição a Marx, todo caráter pragmático. Considera o hegelianismo transição entre a era do dogmatismo filosófico e a da filosofia que se propõe a oferecer ao espírito uma orientação suscetível de facilitar as descobertas, e atribui a Bergson a função de fevelador das forças jovens.

Confirma, ademais, uma das intuições mais originais de Hegel ao estabelecer uma correspondência entre mistério-misticismo-ciência e arte-religião-filosofia, ponto culminante do espírito; segundo ele, tais formas se renovam e decaem conjuntamente.

Sorel introduziu algumas dúvidas sobre vários pontos dos ensinamentos oficiais do marxismo: negligência dos fatores morais, confiança excessiva na ciência (que define como "pequena ciência"), e interpretação insuficiente ou errônea da evolução social e do movimento operário. Sob a influência de Vico aplicou seus cânones históricos ao cristianismo. Com elevada consciência reivindicou os valores do mesmo, e chegou, por isso, a ser julgado autor da revolução extrema do espírito cristão.

Considera o cristianismo como não destinado a perecer, tendo difundido no mundo três grandes princípios: a dignidade da pureza, os valores infinitos do homem e o sacrifício estabelecido sobre o amor. Condenou todas as formas de religião social, já enquanto falta de um verdadeiro mérito religioso ou por sua tendência à mediocridade, ao cálculo e ao utilitarismo.

As polêmicas e os estudos de Sorel acerca do marxismo foram reunidos por V. Racca nos Ensaios de Crítica do Marxismo (1903), que limitam o determinismo econômico das correntes ortodoxas marxistas e revelam alguns elementos éticos da filosofia do movimento operário. Nosso autor considera as reformas sociais como uma corrupção da classe trabalhadora em Décomposition du Marxisme (1908), e da evolução do sindicalismo operário em L'Avenir Socialiste des Syndicats (1898), Ensinamentos Sociais da Economia Contemporânea (texto publicado também por V. Racca, 1907), e nos artigos aparecidos no mesmo ano em Mouvement Socialiste.

Entre as numerosas obras restantes cabe mencionar Contribution a l'Étude de la Bible (1889), Essai sur l'Église et l'État (1902), La Révolution Dreyfusienne (1909), La Rivoluzione d'Oggi (Lanciano, 1909), Le Confessioni (come divenni sindicalista) (Roma, 1911) e De l'Utilité du Pragmatisme (1921).


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Jack London - O que a vida significa para mim

por Jack London



Nasci na classe trabalhadora. Cedo descobri o entusiasmo, a ambição e os ideais; e satisfazê-los tornou-se o problema da minha infância. Meu ambiente era cru, áspero e rude. Não via nenhuma perspectiva ao meu redor, por isso, o melhor era olhar para cima. Meu lugar na sociedade era nos fundos. Aqui a vida não oferecia nada, além de sordidez e miséria, tanto para o corpo como para o espírito. Por aqui corpo e espírito andavam famintos e atormentados.

Acima de mim se erguia o imenso edifício da sociedade e, em minha mente, a única saída era para cima. Logo resolvi subir. Lá em cima, os homens vestiam ternos pretos e camisas engomadas e as mulheres usavam vestidos lindos. Havia também coisas boas para comer e muita fartura. Abundância para o corpo. Depois havia as coisas do espírito. Acima de mim, eu sabia, havia despojamento do espírito, pensamentos puros e nobres e uma vida intelectual intensa. Eu conhecia tudo isto porque lera romances na biblioteca Seaside, nos quais, com exceção dos vilões e dos aventureiros, todos os homens e mulheres tinham pensamentos puros, falavam uma linguagem bonita e realizavam ações generosas. Em resumo, assim como eu aceitava o nascer do Sol, aceitava que acima de mim estava tudo o que era fino, nobre e belo, tudo o que dá decência e dignidade à vida, tudo o que faz a vida valer a pena e recompensa um homem por seu sofrimento e esforço.

Mas não é muito fácil para um homem ascender e sair da classe trabalhadora - especialmente se está cheio de ambições e ideais. Eu vivia num rancho na Califórnia, e era duro descobrir o caminho para subir. Cedo quis saber qual a taxa de juros do dinheiro aplicado, e preocupava meu cérebro de criança a compreensão das virtudes e excelências desta notável invenção do homem, os juros compostos. Mais tarde conheci os níveis de salário praticados para trabalhadores de todas as idades, e o custo de vida. Com todos estes dados, conclui que, se começasse imediatamente, trabalhasse e poupasse até os cinquenta anos, poderia parar de trabalhar e desfrutar de uma pequena porção das delícias e maravilhas que estariam a meu alcance um pouco acima na sociedade. E, claro, decidi não me casar, ao mesmo tempo em que me esquecia inteiramente de considerar esta grande causa da catástrofe no universo da classe trabalhadora - a doença.

Mas a vida que havia em mim exigia mais que uma pobre existência de restos e de escassez. Aos dez anos de idade, tornei-me jornaleiro nas ruas da cidade e descobri uma nova perspectiva. Tudo ao meu redor estava impregnado da mesma sordidez e desgraça, e acima de mim existia ainda o mesmo paraíso, esperando para ser conquistado. Mas o caminho para subir era diferente. Era o mundo dos negócios. Por que poupar meus ganhos e investir em papéis do governo quando, comprando dois jornais por cinco centavos, num piscar de olhos, podia vendê-los por dez e dobrar meu capital? O mundo dos negócios era para mim o meio de subir na vida, e eu me via como negociante quadrado e bem-sucedido.

Ai das visões! Quando tinha dezesseis anos me chamavam de “príncipe”. Este título me foi dado por uma gangue de assassinos e ladrões, que me chamavam de “O príncipe dos piratas de água doce”.

Naquele tempo eu tinha galgado o primeiro degrau no mundo dos negócios. Era um capitalista. Possuía um barco e uma tripulação completa de piratas de água doce. Tinha começado a explorar meus semelhantes. Toda uma equipe estava sob meu comando. Como capitão e dono, ficava com dois terços do dinheiro e dava à tripulação o outro terço, embora eles trabalhassem tão duro quanto eu e arriscassem tanto quanto eu suas vidas e sua liberdade.

Este degrau foi o último que subi no mundo dos negócios. Uma noite, participei de um assalto a pescadores chineses. Suas linhas e redes valiam dólares e centavos. Era um roubo, claro, mas era este precisamente o espírito do capitalista. O capitalismo toma os bens de seus semelhantes a título de reembolso, traindo a confiança ou comprando senadores e juizes de tribunais superiores. Eu era apenas mais grosseiro. Essa era a única diferença. Eu usava um revólver.

Mas, naquela noite, minha equipe agiu como aqueles incompetentes que o capitalista está acostumado a fulminar, sem dúvida porque estes incompetentes aumentam os custos e reduzem os lucros. Minha quadrilha fez as duas coisas. Por falta de cuidado, tocou fogo na vela principal, destruindo-a totalmente. Não houve lucro aquela noite, e os pescadores chineses ficaram mais ricos pelas redes e linhas que não pagamos. Eu estava arruinado, sem condições sequer de pagar sessenta e cinco dólares por uma nova vela principal. Deixei meu barco ancorado e saí num barco de piratas na baía para uma viagem de saques pelo rio Sacramento. Enquanto estava fora, outro bando de piratas da baía saqueou meu barco. Roubaram tudo, até mesmo as âncoras; e mais tarde, quando recuperei o casco abandonado, obtive apenas vinte dólares por ele. Tinha descido o primeiro degrau galgado, e nunca mais tentei o caminho dos negócios.

Desde então fui implacavelmente explorado por outros capitalistas. Tinha força física, e eles faziam dinheiro com isso enquanto que, apesar do meu esforço, eu levava uma vida banal. Fui marinheiro, estivador e grumete. Trabalhei em fábricas de enlatados, indústrias e lavanderias. Cortei grama, limpei tapetes e lavei janelas. E não ganhava nunca o produto inteiro do meu trabalho. Olhava para a filha do dono da fábrica de enlatados, em sua carruagem, e sabia que eram meus músculos que ajudavam a empurrar aquela carruagem em seus pneus de borracha. Via o filho do industrial indo para a escola e sabia que era em parte a minha força que ajudava a pagar seu vinho e suas boas amizades.

Mas não ficava ressentido com isso. Fazia parte do jogo. Eles eram a força. Muito bem, eu era forte. Podia cavar um lugar entre eles e fazer dinheiro com a força de outros homens. Não tinha medo do trabalho. E quanto mais duro, melhor, mais me agradava. Gostaria de me entregar ao trabalho, trabalhar mais do que nunca e, eventualmente, me tornar um pilar da sociedade.

E a essa altura, com a sorte que eu gostaria de ter, descobri um patrão com a mesma mentalidade. Eu estava querendo trabalhar, e ele estava mais que querendo que eu trabalhasse. Pensei que estava aprendendo um ofício. Na realidade, havia substituído dois homens. Pensei que ele estava fazendo de mim um eletricista; de fato, estava ganhando, comigo, cinquenta dólares a mais por mês. Os dois homens que eu substituíra recebiam quarenta dólares por mês cada um, enquanto eu fazia o trabalho dos dois por trinta dólares.

Este patrão me fez trabalhar até a morte. Um homem pode adorar ostras, mas ostras demais vão deixá-lo enfastiado. E assim foi comigo. O excesso de trabalho me deixou doente. Eu não queria mais ver trabalho. Abandonei o emprego. Tornei-me um vagabundo, mendigando de porta em porta, perambulando pelos EUA e suando sangue em favelas e prisões.

Eu nascera na classe operária, e agora, aos dezoito anos, estava abaixo do ponto em que tinha começado. Caíra nos porões da sociedade, jogado no subterrâneo da miséria sobre o qual não é agradável nem digno falar: estava no fosso, no abismo, no esgoto humano, no matadouro, na capela mortuária da nossa civilização. Esta é a parte do edifício social que a sociedade prefere esquecer. A falta de espaço me leva aqui a ignorá-la, e devo dizer apenas que as coisas que vi lá me deram um medo terrível.

Estava apavorado até a alma. Vi a nu a complicada civilização em que vivia. A vida era uma questão de abrigo e de comida. Para conseguir abrigo e comida os homens vendem coisas. O comerciante vende seus sapatos, o político vende seu humanismo e o representante do povo, com exceções, é claro, vende sua credibilidade, enquanto quase todos vendem sua honra. As mulheres também, nas ruas ou na sagrada relação do casamento, estão prontas a vender seus corpos. Todas as coisas são mercadorias, todas as pessoas são compradas e vendidas. A primeira coisa que o trabalhador tem para vender é a força física. A honra do operariado não tem preço no mercado. O operariado tem músculos e somente músculos para vender.

Mas há uma diferença, uma diferença vital. Sapatos, credibilidade e honra têm como se renovar. Constituem estoques imperecíveis. Mas os músculos, estes não se renovam. Quando um comerciante vende seus sapatos, repõe o estoque. Mas não há como repor o estoque de energia do trabalhador. Quanto mais vende sua força, menos sobra para si. A força física é sua única mercadoria, e a cada dia seu estoque diminui. No fim, se não morreu antes, vendeu tudo e fechou as portas. Está arruinado fisicamente e nada lhe restou senão descer aos porões da sociedade e morrer na miséria.

Aprendi, ainda, que o cérebro também é uma mercadoria, ainda que diferente dos músculos. Um vendedor do cérebro está apenas no começo quando tem cinquenta ou sessenta anos, e seus produtos atingem preços mais altos do que nunca. Mas um operário está esgotado e alquebrado com quarenta e cinco ou cinquenta anos. Eu tinha estado nos porões da sociedade e não gostava do lugar para morar. Os canos e bueiros eram insalubres e o ar, ruim para respirar. Se não podia morar no andar de luxo da sociedade, podia, pelo menos, tentar a mansarda. Ela existia, a comida lá era escassa, mas pelo menos o ar era puro. Assim, resolvi não vender mais meus músculos e me tornar um vendedor de cérebro.

Começou então uma frenética perseguição ao conhecimento. Voltei para a Califórnia e mergulhei nos livros. Como me preparava para ser um mercador da inteligência, achei que devia me aprofundar em Sociologia. Assim, eu descobri, num certo tipo de livros, formulados cientificamente, os conceitos sociológicos simples que eu tinha tentado descobrir por mim mesmo. Outras grandes mentes, antes que eu tivesse nascido, tinham elaborado tudo que eu havia pensado e muitas coisas mais. Eu descobri que era um socialista.

Os socialistas eram revolucionários, porque lutavam para derrubar a sociedade do presente e tirar dela material para construir a sociedade do futuro. Eu, também, era um socialista e revolucionário. Liguei-me a grupos de trabalhadores e intelectuais revolucionários, e pela primeira vez entrei na vida intelectual. Aí descobri mentes aguçadas e cabeças brilhantes. Encontrei cérebros fortes e atentos, além de trabalhadores calejados; pregadores de mente muito aberta em seu cristianismo para pertencer a qualquer congregação de adoradores do dinheiro; professores torturados na roda da subserviência universitária à classe dominante e dispensados porque eram ágeis com o conhecimento que se esforçavam por aplicar às questões maiores da Humanidade.

Descobri, também, uma fé calorosa no ser humano, um idealismo apaixonante, a suavidade do despojamento, renúncia e martírio - todas as esplêndidas e comoventes qualidades do espírito. Naquele meio, a vida era honesta, nobre e intensa. Naquele meio, a vida se reabilitava, tornava-se maravilhosa. E eu estava alegre por estar vivo. Mantinha contato com grandes almas que punham o corpo e o espírito acima de dólares e centavos, e para quem o gemido fraco de crianças famintas das favelas vale mais do que toda a pompa e circunstância da expansão do comércio e do império mundial. Tudo à minha volta era nobreza de propósitos e heroísmo; meus dias e noites eram de sol e de estrelas brilhantes; tudo calor e frescor, como o Santo

Graal, o próprio Graal do Cristo, o ser humano caloroso, conformado e maltratado, mas pronto para ser resgatado e salvo no final, sempre ardente e resplandecente, diante de meus olhos.

E eu, pobre tolo, julgava ser aquilo apenas uma amostra das delícias de viver que eu deveria descobrir acima de mim na sociedade. Tinha perdido muitas ilusões desde os dias em que lera os romances da biblioteca Seaside, no rancho da Califórnia. E estava destinado a perder muitas das ilusões que me restavam.

Como mercador da inteligência, fui um sucesso. A sociedade abriu suas portas para mim. Entrei direto no andar de luxo; mas meu desencanto foi rápido. Sentei-me para jantar com os senhores da sociedade e com as esposas e mulheres dos donos da sociedade. As mulheres se vestiam muito bem, admito; mas para minha ingênua surpresa percebi que eram feitas do mesmo barro que todas as outras mulheres que eu tinha conhecido lá embaixo, nos porões. A esposa do coronel e Judy O’Grady eram irmãs sob suas peles e seus vestidos.

Não foi isto, porém, mas seu materialismo, o que mais me chocou. É verdade que estas mulheres lindas, ricamente vestidas tagarelavam sobre singelos ideais e pequenos moralismos; mas, ao contrário do teor de sua conversa mole, a tônica da vida que levavam era materialista. E como eram egoístas sentimentalmente. Contribuíam de todas as formas para pequenas caridades e se informavam sobre a realidade, mas, o tempo todo, os alimentos que comiam e as belas roupas que vestiam eram comprados com os lucros manchados pelo sangue do trabalho infantil, do trabalho exaustivo e mesmo da prostituição. Quando mencionei tais fatos, esperando em minha inocência que aquelas irmãs de Judy O’Grady arrancassem fora de uma vez suas sedas e joias tingidas de sangue, ficaram furiosas e excitadas, e leram para mim pregações sobre o desperdício, a bebida e a depravação inata que causavam toda a miséria nos porões da sociedade. Quando disse que não podia perceber bem qual era a falta de economia, a intemperança e a depravação de crianças quase famintas de seis anos que faziam trabalhar doze horas por noite numa fiação de algodão sulista, aquelas irmãs de Judy O’Grady atacaram minha vida pessoal e me chamaram de “agitador” - embora isto, na verdade, reforçasse meus argumentos.

Não me dei melhor com os senhores da sociedade. Esperava encontrar homens honestos, nobres e vivos cujos ideais fossem honestos, nobres e vivos. Andei com homens que estavam nos lugares mais altos - os pregadores, os políticos, os homens de negócios, professores e editores. Comi carne com eles, tomei vinho com eles, andei de automóvel com eles e estudei com eles. É verdade, encontrei muitos que eram honestos e nobres; mas, com raras exceções, não estavam vivos. Realmente acredito que poderia contar as exceções com os dedos das minhas mãos. Quando não estavam mortos pela podridão moral, atolados na vida suja, eram apenas a morte insepulta - como múmias bem preservadas, mas não vivas. Neste sentido, poderia especialmente citar professores que conheci, homens que vivem de acordo com o decadente ideal universitário, “a perseguição sem paixão da inteligência sem paixão”.

Conheci homens que invocavam o nome do Príncipe da Paz em seus discursos contra a guerra e que botaram nas mãos dos Pinkertons rifles que abateram grevistas em suas próprias fábricas. Encontrei homens incoerentes, indignados com a brutalidade de lutas de boxe e pugilismo, e que, ao mesmo tempo, participavam da adulteração de alimentos que a cada ano matam mais bebês do que qualquer Herodes de mãos rubras jamais havia matado.

Em hotéis, clubes, casas e vagões de luxo, em cadeiras de navios a vapor, conversei com capitães de indústria e me espantou como eram pouco viajados nos domínios do intelecto. Por outro lado, descobri que sua inteligência para negócios era excepcionalmente desenvolvida. Descobri também que sua moralidade, quando há negócios envolvidos, nada vale.

O delicado, destacado e aristocrático cavalheiro era um testa de ferro de corporações que secretamente roubavam viúvas e órfãos. Este cavalheiro, que colecionava edições de luxo e era patrocinador especial da literatura, pagou chantagem a um chefão político de queixo duro e sobrancelhas escuras da máquina municipal. Este editor, que publicou propaganda de medicamentos licenciados e não ousou divulgar a verdade em seu jornal sobre os mesmos medicamentos, com medo de perder o anunciante, me chamou de canalha demagogo porque lhe disse que sua economia política era antiquada e sua biologia, contemporânea de Plínio.

Este senador fora a ferramenta e escravo, o pequeno fantoche de uma máquina indecente e ignorante de um chefão político; assim eram o governador e seu juiz no Tribunal de Justiça; e todos os três tinham passes para viajar de graça na estrada de ferro. Este homem, falando seriamente sobre as belezas do idealismo e a bondade de Deus, acabara de trair seus camaradas numa questão de negócios. Aquele outro, pilar da igreja e grande contribuinte de missões no exterior, obrigava as garotas de suas lojas a trabalhar dez horas por dia por um salário de fome e, portanto, encorajava diretamente a prostituição. Este homem, que dá dinheiro à universidade, comete perjúrio em tribunais por causa de dólares e centavos. E o grande magnata da estrada de ferro quebrou sua palavra de cavalheiro e cristão quando admitiu abatimentos secretos para um de dois capitães de indústria empenhados numa luta de morte.

Era a mesma coisa em todo lugar, crime e traição, traição e crime - homens que estavam vivos não eram honestos nem nobres; homens que eram honestos e nobres não estavam vivos. E havia uma grande massa sem esperanças, nem nobre nem viva, mas simplesmente honesta. Esta não podia errar, positiva ou deliberadamente; mas errava de maneira passiva e ignorante ao concordar com a imoralidade generalizada e com os lucros que ela produz. Se fosse nobre e viva, não seria ignorante, e teria se recusado a dividir os lucros do crime e da traição.

Percebi que não gostava de viver no andar de luxo da sociedade. Intelectualmente era aborrecido. Moralmente e espiritualmente, eu me sentia enojado. Lembrava-me de meus intelectuais e idealistas, meus pregadores sem hábito, professores desempregados e trabalhadores honestos com consciência de classe. Lembrava meus dias e noites de sol e estrelas brilhando, quando a vida era uma maravilha doce e selvagem, um paraíso espiritual de aventuras não-egoístas e um romance ético. E diante de mim, sempre resplandecente e excitante, vislumbrava o Sagrado.

Então, voltei à classe operária, na qual havia nascido e à qual pertencia. Não me preocupava mais em subir. O imponente edifício da sociedade não reserva delícias para mim acima da minha cabeça. São os alicerces do edifício que me interessam. Lá, contente de trabalhar, de ferramenta na mão, ombro a ombro com intelectuais, idealistas e operários com consciência de classe, reunindo uma força sólida agora para fazer mais uma vez o edifício inteiro balançar. Algum dia, quando tivermos mais mãos e alavancas para trabalhar, vamos derrubá-lo, com toda sua vida podre e sua morte insepulta, seu egoísmo monstruoso e seu materialismo estúpido. Então vamos limpar os porões e construir uma nova moradia para a espécie humana, onde não haverá andar de luxo, na qual todos os quartos serão claros e arejados, e onde o ar para respirar será limpo, nobre e vivo.

Esta é a minha perspectiva. Vejo à frente um tempo em que o homem deverá caminhar para alguma coisa mais valiosa e mais elevada que seu estômago, quando haverá maiores estímulos para levar os homens à ação do que o incentivo de hoje, que é o incentivo do estômago. Conservo minha crença na nobreza e na excelência da Humanidade. Acredito que a doçura e o despojamento espiritual vão superar a gula grosseira dos dias de hoje. E, no fim de tudo, minha fé está na classe trabalhadora. Como diz um francês: “A escada do tempo está sempre ecoando com um tamanco subindo e uma bota engraxada descendo”.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Wan Fayhsal - A Ascensão do Precariado

por Wan Fayhsal



Foi um pesadelo para muitos liberais, tanto nos EUA como no mundo, ver uma figura controversa como Donald Trump vencer as eleições presidenciais e ser posto no leme do país mais poderoso do planeta (1). Apesar da barragem de exercícios difamatórios organizada pela mídia de massas durante a corrida presidencial, Trump venceu e causou enorme incômodo ao conseguir arrebanhar os votos cruciais do público americano: o proletariado e a classe média dos estados do Cinturão da Ferrugem, o centro pelo qual a América se fez conhecer como uma grande nação industrial e manufatureira(2).

Muitos analistas políticos entenderam tudo errado, mas os sinais já estavam no horizonte há anos indicando a possível reviravolta social que levou à vitória de Trump. Se pudéssemos classificar os eleitores, como poderíamos descrevê-los melhor? Talvez a resposta esteja na nova classe social chamada de "precariado".

O que é e quem são o precariado?

Nas palavras do economista britânico Guy Standing, "precariado", derivado da palavra 'precário', é uma nova classe surgindo na força de trabalho que passa por privação, raiva, ansiedade e alienação constantes em seu trabalho. Há três importantes dimensões do trabalho que definem tais qualidades: relações de produção, distribuição e o Estado(3).

Em termos de suas relações de produção, o precariado está em um estado instabilidade laboral que vai de contratos flexíveis, trabalhos casuais, freelance, trabalho a tempo parcial até ter emprego intermitente. Todas essas relações resultam em uma identidade ocupacional insegura e uma narrativa pouco clara no que concerne sua carreira.

Do ponto de vista das relações de distribuição, o precariado se apoia apenas em salário monetário, privado de pensões, abonos de custos e benefícios médicos. Eles também perdem o que o proletariado usualmente possuía: os benefícios baseados em direitos segundo o modelo do Estado de bem-estar social. Conforme os salários ficam estagnados, o precariado normalmente recorre a pegar dinheiro emprestado de bancos ou quaisquer outras instituições financeiras informais para continuarem vivendo. Tamanho desespero só aprofunda seu problema e exacerba a desigualdade social ainda mais.

Em relação às relações do precariado com o Estado, seu modo de vida é similar ao de moradores mais do que ao de cidadãos portando direitos civis, culturais, políticos sociais e econômicos claros. Na verdade, segundo o professor Standing, eles estão rapidamente se tornando suplicantes do Estado demandando benefícios ou serviços prestados pelos burocratas.

O que os separa da classe trabalhadora comum chamada proletariado é que o precariado usualmente tem mais educação do que seu trabalho exige. Eles foram criados para fazer algo ligado a seu conhecimento e habilidades adquiridos de suas iniciativas educacionais, mas acabam fritando hamburguer em um restaurante de fast food ou se tornando mão-de-obra na economia informal, dirigindo Uber, por exemplo(4).

O Precariado e o Tsunami Político Antiglobalização

É seguro assumir que aqueles que votaram por Trump e pelo Brexit são em sua maioria do precariado. Eles possuem valores conservadores no sentido de ansiar pelos "bons e velhos tempos" quando seus países eram prósperos e possuíam empregos estáveis e benefícios sociais que estão agora desaparecendo cada vez mais rápido graças ao envio de empregos para o exterior e um número cada vez maior de imigrantes competindo no mercado de trabalho.

Por exemplo, nos EUA, a The Economist reportou que os impactos negativos da NAFTA sobre os empregos americanos são bem claros: entre 1999 e 2011, a América perdeu algo por volta de 6 milhões de empregos na indústria(5). Somado à ascensão da China na arena comercial global após se tornar membro da OMC, uma pesquisa feita por David Autor, David Dorn e Gordon Hanson concluiu que até 2.4 milhões de empregos na América podem ter se perdido, diretamente ou não, graças a importações mais baratas da China(6).

Todos esses trabalhadores que perderam seus empregos por causa dos fatores acima formam o grosso dos eleitores do Cinturão da Ferrugem cujas opiniões ressoavam com o chamado de Trump de tornar a América grande de novo trazendo empregos de volta para o antigo coração industrial americano.

Os mais jovens do precariado podem ter valores diferentes do precariado do Cinturão de Ferro de Trump, mas seu apoio a Bernie Sanders, que perdeu para Hillary Clinton as primárias presidenciais do Partido Democrata, indicou uma precariedade similar em relação a questões econômicas e laborais(7).

Uma das maiores preocupações entre o precariado jovem são os empréstimos estudantis. Segundo estatísticas oficiais dos EUA, quase 40 milhões de americanos estão em débito estudantil, o que equivale a 1.2 trilhão de dólares. Esse é o segundo nível de dívida mais alto depois das hipotecas.

O Movimento Occupy que emergiu em 2011 foi impulsionado por este tipo de ressentimento do precariado mais jovem que demandava maior responsabilidade e uma melhor distribuição de riqueza. O movimento afirmava representar os 99% do povo em seu protesto contra o 1%, consistindo nos banqueiros e capitalistas de Wall Street, normalmente culpados pela crise econômica cíclica, especialmente na recente questão de 2008 dos subprime.

O Precariado e Bilderberg

A noção de precariado não é mero discurso acadêmico, nem um fenômeno isolado ocorrendo apenas no Ocidente. Sua presença entre nós até virou as cabeças das elites que governam e moldam a direção de nossa política e economia globais.

A 64ª Conferência Bilderberg, uma reunião elitista de líderes globais e capitães corporativos realizada em Dresden, Alemanha de 9 a 12 de junho de 2016 colocou a questão do "precariado e classe média" na agenda do ano. Chamada por alguns de a "Davos secreta" graças à natureza de seu encontro envolto em mistério e exclusividade, a conferência é um duro contraste a sua contraparte mais ilustre e espalhafatosa no Fórum Econômico Mundial(8).

A conferência de Bilderberg é conhecida por abordar grandes questões que moldam as tendências da política e economia internacionais. Uma reunião anual iniciada em 1964 ela foi projetada para fomentar diálogo entre Europa e América do Norte reunindo líderes nacionais, especialistas da indústria, das finanças, da academia e da mídia para participarem de discussões sobre grandes questões giados pela Regra da Casa Chatham(9).

O resultado das conferências não era relatado e só recentemente passou a se emitir um press release sobre a agenda das conferências e sua lista de participantes. Com o precariado posto na agenda desse ano da Bilderberg, o problema agora está sendo devidamente reconhecido pelos membros que consistem fundamentalmente no topo dos 1% possuem influência maciça em nosso mundo hoje(10).

Como a economia mundial permanece em crise e a desigualdade de renda aumenta globalmente, como relatado pelo Relatório de 2016 da Credit Suisse(11), a ascensão do precariado não estará mais confinada ao hemisfério norte. Ao contrário, ela será contagiosa para outras partes do mundo, especialmente entre economias emergentes já que seu modelo de desenvolvimento permanece similar ao das nações desenvolvidas onde o precariado primeiro emergiu.

Já é hora de cada governo na Eurásia prestar mais atenção a essa classe emergente, do contrário a estabilidade política das nações vai se reduzir dia após dia, tal como a do precariado o qual, caso não gerenciado, se tornará uma força política a se ter em conta, como demonstrado recentemente nos EUA e Grã-Bretanha.

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1 Zakaria, Fareed. From Wealth to Power: The Unusual Origins of America's World Role. Princeton, N.J: Princeton University Press, 1998.

2 Brownstein, Ronald. “How the Rustbelt Paved Trump's Road to Victory”. The Atlantic. http://www.theatlantic.com/politics/archive/2016/11/trumps-road-to-victory/507203/ (accessed January 1st 2017); Tão cedo quanto julho de 2016, Michael Moore, o cineasta americana renomado por sua crítica às políticas doméstica e externa dos EUA previu a vitória de Trump e apontou o fator do Cinturão da Ferrugem como uma de suas principais razões. Ver Rosenmann, Alexandra. “Michael Moore Gives 5 Scary Reasons Why Trump Will Win”. Alternet. http://www.alternet.org/election-2016/michael-moores-5-reasons-why-trump-will-win (accessed January 1st 2017); ver também Mellon, Steve. After the Smoke Clears: Struggling to Get by in Rustbelt America. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2002.

3 Standing, Guy. The Precariat: The New Dangerous Class. London: Bloomsbury Academic, 2016. p11-40.

4 Standing, The Precariat. p159. Para uma projeção geral da natureza cambiante do trabalho na era da revolução tecnológica e especialmente da automação, pesquisar também em Avent, Ryan. The Wealth of Humans: Work, Power, and Status in the Twenty-First Century. New York: St. Martin’s Press, 2016.

5 The Economist. “Free Trade in America: Open Argument”. The Economist. http://www.economist.com/news/leaders/21695879-case-free-trade-overwhelming-losers-need-more-help-open-argument. (accessed 1st January 2017)

6 David, H., David Dorn, and Gordon H. Hanson. "The China syndrome: Local labor market effects of import competition in the United States." The American Economic Review 103, no. 6 (2013): 2121-2168.

7 O candidato presidencial democrata derrotado Bernie Sanders era apontado por muitos como o melhor candidato para enfrentar Trump na disputa pelos corações e mentes dos eleitores do Cinturão da Ferrugem graças à natureza e foco da campanha de Sanders, bem como de seu ativismo de longa data. Ver Gabatt, Adam. “Former Occupy Wall Street protesters rally around Bernie Sanders campaign”. The Guardian. https://www.theguardian.com/us-news/2015/sep/17/occupy-wall-street-protesters-bernie-sanders. (accessed 1st January 2017).

8 Em seu press release oficial, o 64º Encontro Bilderberg delineou o “precariado e a classe média” como parte de sua agenda de discussão. Ver Bilderberg, “Press Release”, Bilderbergmeeting.org.http://www.bilderbergmeetings.org/press-release.html (accessed 1st January 2017)

9 Para um tratamento acadêmico de Bilderberg, ver Richardson, Ian, Andrew Kakabadse, and Nada Kakabadse. Bilderberg People: Elite Power and Consensus in World Affairs. Abingdon, Oxon: Routledge, 2011.

10 Ver Jeffers, H P. The Bilderberg Conspiracy: Inside the World's Most Powerful Secret Society. New York: Citadel Press, 2009. Estulin, Daniel. The True Story of the Bilderberg Group. Walterville, OR: TrineDay, 2009.

11 Suisse, Credit. Global Wealth Report 2016. Zurich, Switzerland: Credit Suisse AG, Research Institute, 2016.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

José Alsina Calvés - A Dimensão Coletiva do "Dasein"

por José Alsina Calvés



O Dasein é, segundo Heidegger, o ser humano entendido como "ser-aí"

O que para o liberalismo é o indivíduo, para o marxismo é a classe social e para o neoliberalismo o "pós-indivíduo", quer dizer, o sujeito sobre o qual se assenta uma teoria política, para a Quarta Teoria Política (daqui para a frente QTP) é o Dasein. O Dasein é, segundo Heidegger, o ser humano entendido como "ser-aí", como único ente capaz de "perguntar pelo ser" e que é ao mesmo tempo ser-no-mundo, ser-no-tempo e ser-com-os-outros. Neste artigo nos concentraremos no Dasein e em explicitar sua dimensão coletiva e suas características existenciais que o diferenciam do sujeito cartesiano, que é o correlato metafísico do indivíduo como sujeito do liberalismo, primeira teoria política da modernidade.

Para tentar entender a ideia de Dasein devemos fazer um percurso pelo pensamento de Heidegger, desde o pressuposto "esquecimento do ser", que se produz nos albores da filosofia grega, a "pergunta pelo ser" e a analítica existencial do ser humano como preparação para o estudo da essência do ser ou ontologia.

Intuição e o "Esquecimento do Ser"

Para Heidegger, nos primórdios da filosofia grega (séculos VI a V a.C.), surge uma nova maneira do homem estar no mundo: pensar que as coisas são [1]. Estas primeiras respostas dadas a este problema contém gérmens de solução verdadeira [2], mas estas não se desenvolveram normalmente. Na exegese do ser, especialmente a partir de Platão, se desenvolveu um dogma que, não somente declarava supérflua a pergunta que interroga sobre o ser, mas sancionou a omissão da pergunta [3]. A filosofia tradicional, quer dizer, a tradição filosófica ocidental desde Platão, considerou o ser da totalidade das coisas que são, isto é, dos entes, e dessa maneira oblíqua de pensar o ser nasceu a metafísica. A essa entidade dos entes se deu diversas interpretações: ideia platônica, enteléquia aristotélica, cogitatio cartesiana, etc.

Mas o Ser não é somente o ser dos entes. Para poder pensar o Ser, segundo Heidegger, há que inverter tudo que foi pensado até agora, há que voltar À fonte originária e entender que o Ser não é uma propriedade dos entes, mas sim que estes são o que são no Ser e graças ao Ser.

A Metafísica, a partir de seu olhar oblíquo do Ser, se ocupou do ser dos entes. A tradução do termo grego Alétheia (desocultamento) para o latim veritas (verdade) foi o início da "falta de fundamento" do pensar ocidental. Porque Alétheia nomeia a experiência grega inicial do Ser: o estar aberto, em brilho, luz e esplendor, luzindo cada coisa a sua maneira. Junto a ela está Physis, o brotar do Ser, o surgir. A tradução de Physis simplesmente por natureza (daí Física e Fisiologia) e as interpretações das ciências nos arrancaram de nosso lugar na "natureza natural" e nos levaram a uma natureza "tecnicamente domesticada".

Heidegger interpreta a história da filosofia ocidental como uma história de decadência; mas não é uma decadência "clássica": origem, desenvolvimento, esplendor e decadência, mas sim uma decadência que está nas próprias origens, que é consubstancial. Essa ideia conecta Heidegger com os autores da chamada "Revolução Conservadora", que também interpretaram a história ocidental como a história da decadência, mas de uma decadência que já se apontava em suas próprias origens.

A tarefa que propõe Heidegger é uma tarefa autenticamente revolucionária. A crítica a toda a metafísica ocidental e a volta às origens para reconstruí-la. Essa tarefa tem um nome: a pergunta pelo Ser.

A Pergunta pelo Ser. O Ser e o Tempo

Em 1927, quando ainda é um jovem professor de filosofia praticamente desconhecido, publica Heidegger sua obra principal, Sein und Zeit (O Ser e o Tempo) onde desenvolve a "pergunta pelo Ser". Mas O Ser e o Tempo é uma obra inacabada: depois de denunciar o "esquecimento do Ser" e apresentar a "pergunta" Heidegger recorre ao método fenomenológico [4], desenvolvido por seu mestre Husserl, e nos diz que antes de desenvolver uma ontologia (o estudo do Ser) há que começar previamente por uma analítica existencial do ser humano, pois este é o único ente capaz de se perguntar pelo Ser, e, portanto, o que vive na proximidade do Ser.

O ser humano é Dasein (ser-aí) e Heidegger dedica à analítica desse Dasein a maior parte de seu livro, que termina justamente onde deveria começar a tratar propriamente de ontologia.

Na Introdução de O Ser e o Tempo Heidegger apresenta sua "pergunta pelo Ser" e trata de redefinir os três preconceitos que ocultaram as respostas a tal pergunta. A seu entender são três:

1 - O Ser é o mais universal dos conceitos [5]. Mas essa universalidade não é a do "gênero". O Ser é um "transcendente" e Aristóteles já o identificou como a unidade da analogia. A ontologia medieval discutiu o problema e finalmente Hegel definiu o Ser como "imediato indeterminado". A universalidade do conceito não significa que ele seja o mais claro, mas sim que ele é o mais obscuro.

2 - O conceito de Ser é indefinível. O Ser não pode ser concebido como um ente, não é suscetível a uma definição que o derive de conceitos mais elevados ou que o explique por mais baixos. Mas a indefinibilidade do Ser não dispensa da pergunta que interroga por seu sentido, ao contrário, ela o empurra justamente à ela.

3 - O Ser é o mais compreensível de todos os conceitos. Em todo conhecer de um ente se faz uso do termo "ser", e o termo é compreensível sem mais. Todo o mundo nos entende se falamos "o céu é azul". Mas essa suposta compreensibilidade de fato, revela incompreensibilidade: em todo ser de um ente há, na verdade, um enigma. O fato de vivermos uma certa compreensão do Ser e ao mesmo tempo que este esteja oculto na obscuridade prova a necessidade fundamental de formular a pergunta que interroga pelo sentido do Ser.

Superados estes três preconceitos Heidegger reitera sua pergunta pelo sentido do Ser. O primeiro progresso filosófico é entender que o Ser dos entes não é ele mesmo um ente. Faz-se necessário, portanto, uma forma peculiar de demonstrá-lo, que se diferencia do descobrimento dos entes [6]. Para prosseguir, Heidegger propõe um método: a fenomenologia.

Fenomenologia e Analítica Existencial

O termo "fenomenologia" remete a Husserl e a sua máxima "às coisas mesmas", mas não há que entendê-lo como uma divisa destinada a restaurar o realismo ingênuo [7]. Enuncia a vontade de excluir da filosofia os conceitos mal fundados e as construções gratuitas. Mas Heidegger não admite a ideia de Husserl de uma "filosofia sem pressupostos" e de alguma maneira "toma emprestado" seu método sem aceitar suas conclusões finais.

Para Heidegger a fenomenologia não designa o objeto da investigação, senão se limita a indicar como mostrar e tratar o que estamos estudando [8]. Fenomenologia é, pois, leitura ou ciência dos fenômenos [9], e por fenômeno entendemos tudo que de alguma maneira se manifesta. Manifestar-se um fenômeno não equivale forçosamente à aparição sensível: uma cultura, uma instituição política ou uma doutrina filosófica se "manifestam" de modo tão real quanto uma cor, mas de maneira distinta. O sentido kantiano de fenômeno como oposto ao "noumenon" ou "coisa-em-si" é rechaçado, pois não se considera o fenômeno como expressão deformada de algo oculto.

A fenomenologia é, para Heidegger, um método, é a forma de aceder ao que deve ser tema da ontologia, de tal modo que esta só é possível como fenomenologia [10]. Agora bem, este exame fenomenológico como propedêutico ao estudo do Ser deve fazer-se sobre um objeto determinado. Toda ontologia geral (o estudo do Ser) deve inaugurar-se como exame fenomenológico da existência humana, do Dasein.

O ser humano é o único ente capaz de se perguntar pelo Ser. O ser humano, para Heidegger, vive na proximidade do Ser. O ser humano se distingue da pedra, que "não tem mundo" e do animal, que é "pobre de mundo", na medida em que é "ser-no-mundo".

O Dasein não é um existente fixo, mas se caracteriza em seu ser pela relação permanente de instabilidade que mantém em si. O ser da existência humana nunca é coisa feita (salvo quando morre e deixa de ser). O Dasein é um existente cujo ser esta sempre posto em jogo [12], é fundamentalmente poder-ser.

Assentadas as premissas, Heidegger avança para a analítica existencial do ser humano como Dasein [13] ou Ser-aí.

O Dasein como Ser-no-Mundo

A primeira característica existencial que nos oferece o ser humano é sua característica de Ser-no-Mundo. As três características desse existencial são: o existir-em, o ser desse existente, e o mundo no qual este ser existe [14].

Normalmente, o termo 'em' designa uma relação de pertença. A águal está 'no' copo ou o banco está 'na' aula designam uma relação da coisa material e espacial. O livro está 'na' biblioteca, mas posto 'em' outro lugar, segue sendo livro. Mas no caso que nos ocupa o termo 'em' toma um significado distinto, uma relação que no estilo clássico chamaríamos transcendente. Quando se afirma que o Dasein está 'no' mundo se ultrapassa a simples situação de fato [15], pois não pode haver um 'eu' senão por e em uma relação com algo distinto do 'eu'. Falar de existência humana, quer dizer, de Dasein, implica falar em esforço, em conquista e em luta contra uma resistência que é ao mesmo tempo inimiga e aliada de nossa ipsiedade.

Este ser-em próprio do Dasein não deve ser visto como um atributo mais, porque não há nenhum momento em que se possa dizer que ainda não está no mundo [16]. Portanto, o ser-em é um constituinte fundamental e irredutível de nossa existência.

Tudo isso tem consequências imediatas. Não existe o ser humano "anterior" ao social. De fato, a própria ideia de "sociedade" como associação voluntária de indivíduos fica impugnada. O ser humano vive em "comunidade", anterior a qualquer existência individual. Ademais o ser-no-mundo implica comunidade com as coisas, mas também, e acima de tudo, com os outros Dasein. Tal como assinala Gil [17], Heidegger, a partir de 1933 e sem explicação prévia, começa a falar de Dasein do povo. Em realidade, o Dasein sempre teve um sentido coletivo e comunitário do ser-com-os-outros enquanto ser-no-mundo.

O Dasein não tem nada a ver com o indivíduo cartesiano ou com o "bom selvagem" de Rousseau. Em primeiro lugar, o Dasein não é uma "coisa" que pensa, não é um ser dado e concluso, mas sim um processo, existência, drama. Parafraseando Ortega ele "não tem natureza (mais que a biológica), mas história". Mas ao ser ser-no-mundo está enraizado em uma família, em uma comunidade, em um território, em uma tradição, em uma história. Não é anterior a essas realidades, ao contrário estas formam parte do mundo, e o Dasein é ser-no-mundo.

Ocupemo-nos agora do ser do existente. O verdadeiro existencial do ser-em é a preocupação [18], o que significa que a ligação fundamental do Dasein com o mundo se traduz no fato de que o Dasein não exite senão enquanto preocupado. Não deve, portanto, nos estranhar que o conhecimento que o Dasein trata de obter dos objetos e do mundo seja, em princípio, profundamente interessado. O saber começa por ser o útil do obrar.

Tudo isso leva o perigo de uma deformação. A preocupação com as coisas e com o mundo leva o Dasein a uma falsa interpretação de si mesmo: em lugar de fazê-lo a partir de sua existência no mundo, o faz a partir dos objetos que seu mundo contém. Daí a tendência ao coisismo, a interpretar a si mesmo como uma realidade conclusa, fechada. O Dasein se esquece do ser-no-mundo para centrar-se em seu mundo. O que é fundamental se dissipa na banalidade do dia-a-dia, e se acabamos sendo o que fazemos [19].

Vamos nos ocupar finalmente do que é este mundo no qual estamos [20]. O mundo não pode ser concebido pela soma dos objetos que contém, ao contrário é necessário explicar os objetos pelo mundo, e não o mundo por seus objetos. O objeto, como o Dasein, mas de maneira distinta, também é ser-no-mundo.

Em qualquer caso, o mundo não é apenas um mundo de objetos, mas é acima de tudo um mundo do Dasein, porque somente o ser humano enquanto Dasein é configurador do mundo [21]. Não há, pois, um ponto de partida absoluta para o estudo do mundo, além de que para conhecer o mundo há que partir do Dasein.

A Temporalidade do Dasein

A análise da temporalidade do Dasein leva a analítica existencial a seu ponto de culminação [22]. O ser do Dasein só pode ser entendido se contemplado como um drama que se desdobra pelo tempo (e não 'no' tempo), e é constituído por este tempo, tal como o tempo é constituído pelo Dasein [23]. A temporalização se manifesta na diversidade dos modos de ser. Inversamente, a diversidade no Dasein e os modos de ser. Inversamente, a diversidade no Dasein e nos modos de ser entranha uma diversidade nos modos de temporalização. 

A temporalidade é um fenômeno complexo. Há um tempo físico, um tempo biológico e um tempo histórico, e este último é o que nos interessa, pois é o que corresponde ao Dasein, que faz a história, e ao mesmo tempo se faz na história. O Dasein está na temporalidade, mas essa temporalidade depende do modo de ser o Dasein.

Na Modernidade domina um conceito do tempo linear, progressista e que tende a um "fim da história". Neste fim da história se acabarão as contradições e a "natureza" humana se revelará em toda sua plenitude. A história se vê como uma sem-razão, mas no fim dos tempos a razão prevalecerá sobre a história, e o ser humano, como "coisa", poderá manifestar suas verdadeiras essências, livre de limitações. É o último homem do qual falam Nietzsche e Fukuyama. Essa teoria do tempo resulta da combinação do tempo absoluto de Newton com a secularização da seta do tempo da escatologia cristã [24].

Mas há outras visões da temporalidade. Ela pode ser interpretada como involução ou decadência, pode ser concebida como ciclos que se repetem, ou pode ser entendida como uma esfera, na qual o tempo pode fluir em qualquer direção. De fato, não nenhuma evidência da linearidade da história, e menos ainda do suposto "progresso", e a própria história se encarregou de desbaratar as supostas "profecias" sobre seu fim.

Aprisionados no conceito moderno do tempo entendemos um evento histórico como algo que ocorre no tempo, e nós mesmos seríamos pontos que ocorrem no contínuo espaço-temporal. Mas a história é criada pela liberdade, o tempo da história não é o tempo da física e a produção humana não está 'na' história, senão é a história [25]. Fazemos a história a partir das decisões, e levamos a cabo projetos de futuro a partir do que já somos no passado, quer dizer, a partir de uma tradição.

Os Modos de ser do Dasein

Vimos que o Dasein é ser-no-mundo (o que implica ser-com-os-outros) e ser-no-tempo, o que implica sua historicidade e que sua "essência" coincida com sua "existência". Mas nos falta um elemento fundamental para entender o Dasein: sua possibilidade de existir de forma inautêntica e de forma autêntica.

A existência inautêntica do Dasein vem dada por sua submissão ao impessoal. Na vida quotidiana sofremos uma dependência radical em relação ao "outro". Mas quando nos perguntamos a quem estamos submetidos não sabemos responder. Este inominado tirano é o sujeito neutro, impessoal, o 'se' do "diz-se...", "fala-se...", "veste-se agora assim". O verdadeiro sujeito dessa existência quotidiana é este 'se' impessoal (em alemão Man) [26].

O impessoal rende culto à banalidade média. O nivelamento universal é procurado encarniçadamente e a propósito de tudo. O segredo e a personalidade são combatidos sem trégua; fomenta-se a instauração de uma existência "aberta", completamente difundida e exposta a "todos os ventos". Cada um se dissolve em todos os outros. 

Frente a este modo de ser inautêntico (mas totalmente real) se levanta o Dasein autêntico. A passagem do Dasein inautêntico ao autêntico vem dado pela angústia. A angústia desperta no Dasein quando este toma consciência de sua finitude, de ser um Ser-para-a-morte. O Dasein autêntico despreza o impessial e o palavrório quotidiano que o acompanha. Não se aparta do mundo nem da vida quotidiana, mas contempla esta desde outra perspectiva, pois desde sua consciência de ser-para-a-morte vê a vida quotidiana em sua radical insignificância.

Para que o Dasein possa "antecipar" sua morte ele deve ser capaz de "dirigir-se à" seu porvir, deve ser futuro. Não se coloca na situação de sua existência, senão torna presentes, dominando-os, os diversos elementos que determinam suas possibilidades em cada instante determinado, quer dizer, seu presente, seu porvir e seu passado. Não pode existir autenticamente senão aceitando o levar sobre si o peso de seu passado: deve reconhecer-se seu herdeiro [27].

Portanto, a existência é a que assume a dupla herança de seu abandono no mundo, e do que fez no mundo, quer dizer, seu passado mundano. A autenticidade é herdeira, sob pena de abdicar de sua resolução.

Na medida em que o Dasein está mais resoluto em sua existência e seja mais dono de seu patrimônio, tanto menos aparecerá o que faz ou o que suceda como efeito do azar. Se esquece seu passado abandonará as rédeas de seu destino.

O Dasein inautêntico, que esqueceu seu passado, renuncia ao exercício de sua liberdade real. Enredado ao longo de sua vida, deixa de ter um destino para se converter em uma "coisa" joguete das circunstâncias. 

Agora, sendo a existência humana existência em comum, que deriva do caráter de ser-no-mundo, tudo que podemos predicar do Dasein individual, é também aplicável ao Dasein coletivo, comunidade ou povo. Este também pode levar uma existência autêntica ou inautêntica. Assim o povo é para Heidegger "ser nós mesmos" [28].

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1 Soler, F. (1993) Prologo a Ciencia y Técnica de Martin Heidegger. Santiago de Chile, Editorial Universitaria.

2 De Waelhens, A. (1952) La filosofia de Martin Heidegger. Madrid, CSIC, Instituto “Luis Vives” de filosofía, p. 9.

3 Heidegger, M. (1998) El Ser y el Tiempo. Traducción de José Gaos. México, Madrid, Fondo de Cultura económica, p. 11-

4 La Fenomenología, desarrollada por Husserl, es un intento de filosofar sin presupuestos, de volver a “las cosas mismas”. Heidegger, aunque no acepta la posibilidad de filosofar si presupuestos, considera adecuado el método fenomenológico de reducción.

5 El Ser y el Tiempo, p. 12.

6 Idem, p. 16.

7 De Waelhens, obra citada, p. 18

8 El Ser y el Tiempo, p. 45.

9 De Waelhens, obra citada, p. 19.

10 El Ser y el Tiempo, p. 46.

11 Heidegger, M. (2007) Los conceptos fundamentales de la Metafísica: mundo, finitud, soledad. Madrid, Alianza Editorial, p. 251 i sig.

12 De Waelhels, obra citada, p. 30

13 El Ser y el Tiempo, p. 50.

14 De Waelhels, obra citada, p. 39. El Ser y el Tiempo, p. 65.

15 De Walhens, obra citada, p. 40. El Ser y el Tiempo, p. 66.

16 De Waelhens, obra citada, p. 41. El Ser y el Tiempo, p. 67.

17 Gil, E. (2014) Heidegger y la política. Madrid, Editorial Retorno, p. 121

18 De Waelhens, oba citda, p. 41.El Ser y el Tiempo, pp. 74-75

19 El Ser y el Tiempo, p. 75.

20 El Ser y el Tiempo, p. 76.

21 Heidegger, M. (2007) Los conceptos fundamentales de la metafísica: mundo, finitud, soledad. Madrid, Alianza Editorial, p. 332 (cap. Sexto)

22 De Walehens, obra citada, p. 189.

23 Dugin, A. (2013) La Cuarta Teoría Política. Barcelona, Ediciones Nueva República, p. 90

24 Alsina Calvés, J. (2015) Aportaciones a la Cuarta Teoría Política. Tarragona, Ediciones Fides, p. 31

25 Gil, obra citada, p. 45.

26 De Waelhens, obra citada, p. 75.

27 El Ser y el Tiempo, p. 414.

28 Heidegger, M. (1991) Lógica. Lecciones de Heidegger (semestre de verano de 1934) Legado de Heleb Weiss. Barcelona, Ed. Anthropos, p. 17.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Eduardo Velasco - Crise espanhola e os tabus do 15-M

por Eduardo Velasco

"Se o povo americano permitir um dia que os bancos privados controlem sua moeda, os bancos e todas as instituições que nascerem ao seu redor, privarão todos de tudo, primeiro por meio da inflação, depois pela recessão, até o dia em que seus filhos acordarão sem casa e sem teto, sobre a terra que seus pais conquistaram". - (Thomas Jefferson).

"Um poder imenso e uma despótica dominação econômica estão concentrados nas mãos de poucos. Esse poder se torna particularmente irresistível quando exercido por aqueles que, por meio do controle do dinheiro, governam o crédito e determinam sua concessão. Eles fornecem, por assim dizer, o sangue de todo o corpo econômico, e o retiram quando lhes convém: como si estivessem em suas mãos a alma da produção, de maneira que ninguém ouse respirar contra sua vontade". - (Papa Pio X).

A crise mundial em geral, e a bolha imobiliária no caso particular da Espanha, forçou muitas pessoas a se interessar por economia. As mensagens têm circulado, as pessoas debatem, a informação tem corrido e, pouco a pouco, uma série de conclusões estão se formando nas mentes de uma crescente massa humana. A ideia de que o Mercado (grandes empresas, grupos financeiros) está fazendo guerra total ao Estado (as pessoas, os contribuintes) está tomando forma, entre outros.

A primeira coisa que está ficando clara é que o mundo não é governado por políticos ou eleitores, mas por uma casta muito pequena de sociopatas e neuróticos, estabelecida em Nova York, Londres, Frankfurt e outros grandes centros de finanças e poluição. Esses senhores passam suas vidas entre paredes, carrocerias e fuselagens, pelo qual estão afundados na matéria e perderam o sentido natural da vida há muito tempo. O objetivo destes sapos é rebelar-se contra a ordem natural das coisas, abolir os povos e constituir um governo mundial, um banco mundial, uma moeda mundial, uma religião mundial e uma sociedade mundial. É lógico que, para isso, provocam a queda de governos, moedas, religiões e sociedades preexistentes e levem ao fim o processo de domesticação humana iniciado pela Revolução Neolítica.

A atual crise econômica (juntamente com as "revoltas" no mundo árabe e outros movimentos geoestratégicos) faz parte deste plano de dominação política e econômica do mundo por alguns. A abordagem é simples: os grandes financiadores se dedicam a inflar bolhas (dívida, inflação, construção, imigração, universidades, másteres, energias renováveis, clubes de futebol), que serão responsáveis ​​pela perfuração no momento certo que melhor convirja com seus propósitos. Estes predadores mercantis querem ser os únicos detentores de riqueza e poder no mundo. Para fazer isso, eles devem terceirizar o resto do planeta, e para isso eles devem, por sua vez, concentrar cada vez mais dinheiro, recursos e meios de produção em menos mãos. Os mais prejudicados neste processo são os membros da classe média ocidental, que serão proletarizados, e as classes mais baixas, que são praticamente escravizadas. Esta operação maciça de confisco de riqueza, tem sido chamado de "crise". Neste artigo, prestaremos atenção as várias cabeças desta hidra, sem perder de vista o fato de que os verdadeiros e absolutos inimigos de todos os povos e raças do planeta sem exceção são os mundialistas, os yankes do poder que fazem parte da plutocracia internacional. 

GLOBALIZAÇÃO

"Globalização" consiste que o conjunto de comerciantes das grandes cidades internacionalistas, decidem governar o mundo inteiro como se fosse uma empresa enorme. As exigências desta mega-empresa global são acabar com todos os tipos de fronteiras, restrições, particularidades territoriais, culturas tradicionais, soberanias nacionais ou identidades étnicas. Como uma seita, a globalização remove o indivíduo de seu quadro ancestral e territorial, plantando-o de repente em uma sociedade cinza, igualitária e mentalmente uniforme, e cuidando de lavar seu cérebro para que ele nunca vire a cabeça para trás: só pode aceitar a escravidão quem nunca conheceu outra coisa. 

A globalização exige que os aparelhos do Estado sejam cada vez mais fracos, corruptos, dependentes, decadentes e endividados, que os Estados careçam de autosuficiência, etnicidade e nacionalidade e que fiquem subordinados a organizações globalistas (Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, Banco Central Europeu, Unidas, União Europeia, vários bancos estrangeiros, lojas paramaçônicas, think-thanks etc.) para que não defendam seus próprios interesses, integrando sem restrições nas diretrizes quase ditatórias de Wall Street, City e Frankfurt.

A globalização também exige um fluxo livre de produtos, empresas, mão-de-obra, matérias-primas, informações e idéias. Quando esses recursos estão nas mãos de um Estado hermético e este não quer dar-lhes, mesmo sob suborno, às mega-empresas transnacionais, a maquinaria mundialista faz guerra a esse estado até que ele consiga liberalizar seus recursos e colocá-los em circulação pela rede global em vez de permitir que os benefícios para melhorar as condições de vida do povo. Na prática, os "mercados" sequestram o país da vez, abrem suas pernas, o violam em todas as posições do Kamasutra, o saqueiam e vendem seus recursos ao grande capitalista de plantão.

Por que há tropas espanholas estacionadas no Afeganistão e no Líbano e não no Sara Ocidental? Por que trazemos maçãs do Chile ou laranjas da Argélia, gastando um milhão de dólares em querosene e petróleo (e liquidando todo o nosso próprio setor primário), quando poderíamos cultivá-los aqui? Por que temos uma dependência total e absoluta do petróleo estrangeiro em vez de produzir nossa própria energia? Por que nossas empresas estão procurando por mão-de-obra mais barata no exterior, deixando-nos no desemprego? Por que nossas cidades estão se enchendo de negócios chineses? Por que permitem a entrada maciça de multinacionais e grandes empresas que estão sistematicamente pesando a outras PME e trabalhadores autônomos do bairro (uma média de 268 desaparecem todos os dias), criadores de 80% do emprego em Espanha? E por fim, por que o Ocidente se inundou de fura-greves terceiromundistas, disposto a trabalhar por um pequeno salário e em condições de escravidão, mergulhando o mercado de trabalho do Ocidente, destruindo os direitos trabalhistas que nossos antepassados ​​só conquistaram depois de décadas de duras lutas trabalhistas, e colonizando-nos para diluir nossa identidade popular? A globalização é a resposta a todas essas questões.

Os processos globalistas sempre vieram de corporações multinacionais, poderosas entidades apátridas que flutuam no éter abstrato de "mercados" como uma compressa com asas, acima do bem e do mal, e que ― apesar de provocar guerras, crises e coisas piores ― não estão sujeitos a qualquer lei, não respondem a ninguém, silenciam os presidentes, manipulam os povos, têm melhores informações do que os serviços de Inteligência e não devem lealdade a nenhum governo, ao contrário, é o governo que (nas economias neoliberais capitalistas) trabalham para eles.


A primeira multinacional não terrena, ou seja, não ligada a um povo ou nação, foi a Igreja, cuja estrela prosperou a medida que declinava o Estado mais forte da época (o Império Romano). A Igreja rapidamente se tornou uma poderosa empresa econômica, mediática, diplomática e de Inteligência, na medida em que influenciou fortemente a geopolítica medieval, chegando a lidar com outros poderes mais estatais (como o Sacro Império). Sua estrela começou a declinar com o surgimento do liberalismo e a formação de novos estados fortes e centralizados. Hoje, os grandes consórcios comerciais e financeiros são tão poderosos que estão em posição de pressionar, comprar ou derrubar governos que não gostam, simplesmente desligando a torneira de petróleo, gás, cacau, grãos ou dinheiro, ou quando isso falha, difamando nos média, manipulando a opinião pública e usando a força de armas mercenárias (pois os exércitos modernos não defendem mais os interesses nacionais de seus povos, mas os interesses comerciais das multinacionais) para defender seus interesses.

DESLOCAÇÃO EMPRESARIAL 

A deslocação corporativa é um dos efeitos diretos da globalização. Na prática, é reduzido a "fuga de capital e meios de produção de países com mão-de-obra barata e submissa".

E "globalização" implica liberalização do mercado, permitindo qualquer coisa para obter produtos baratos que se produzam e consumam numa velocidade mais e mais rápida. O efeito desta política neoliberal foi que milhares de empresas sem escrúpulos deixaram seus locais de origem no Ocidente para se estabelecerem em países orientais (China, Índia, Indonésia, Malásia, Bangladesh etc.), onde o a mão-de-obra é muito mais abundante, barata e submissa que no Primeiro Mundo.

O atual sistema instintivamente procura um veio geológico a explodir, e quando o veio está acabado ou "fora de moda", ele vai para o próximo como um eremita. Durante muito tempo, o Ocidente foi o veio a explodir. Agora, o slogan é o trabalho opressivo e as empresas totalmente livre de qualquer regulamentação do Estado: o novo veio é a Ásia Oriental. Assim, o capitalismo selvagem, despojado de correntes, é diretamente responsável pela ascensão da China como superpotência. Se em vez de uma economia global enorme e interdependente existirem muitas economias independentes, protecionistas e de "circuito fechado", a China nunca teria ido além da categoria de poder regional.

Em Espanha, para esconder o desemprego provocado pelas deslocações da empresa e pelo desmantelamento da nossa potência agrícola e industrial, o Governo (sempre pressionado pelos "mercados") tem subsidiado o turismo massivo, a hotelaria, a bolha imobiliária e a bolha estudantil, do qual falaremos posteriormente. Com isso, o partido da vez conseguiu colocar sob as designações de "trabalhador da construção civil" e "estudante" um monte de pessoas que não tinham perspectivas reais de trabalho, pela ausência de uma economia verdadeiramente produtiva. Era óbvio que esse cenário não poderia continuar indefinidamente, mas isso não importa muito em um sistema onde os governantes só pensam em quatro anos no máximo.

Arte por David Dees. Os empregos e, portanto, a riqueza da Civilização Ocidental estão sendo massivamente transferidos para países que abusam de uma força de trabalho praticamente escrava, sem imaginação, dócil e que se conforma com muito pouco.

O ESTADO DAS AUTONOMIAS E A ORGANIZAÇÃO TERRITORIAL

O caciquismo (ver aqui e aqui) é um dos problemas atávicos da Espanha, que ressurge repetidamente em sua História. A Espanha também teve tempos centralistas, mas a atual organização, totalmente obsoleta, do território do Estado espanhol, parece especificamente concebida para evitar a formação de um Estado forte e centralizado.

Atualmente, em Espanha não há um estado, há 17 estados em toda regra. Cada um destes mini-estados centrífugos tem o seu próprio aparelho labiríntico burocrático, delegações, conselheiros, empregados, formulários, "assessores", "vice-secretários adjuntos", canais de televisão, polícia autonômica, parlamentares autonômicos, carros oficiais, sistema educativo, particularidades legislativas e embaixadas no exterior. Nos últimos anos, têm vindo a aumentar em complexidade e tamanho (ver o caso da Generalidade da Catalunha). O trabalhador espanhol mantém com seu suor uma administração estatal, 17 autonômicas e infinidades de administrações provinciais e locais. Provavelmente os cidadãos espanhóis de 1975 não tinham idéia de quão caro a "democracia" ia sair.

Para manter essa riqueza, baseada no endividamento público, é obviamente necessário operar nas costas do povo, o que envolve o recrutamento de toda uma casta de políticos profissionais, redes clientelistas, burocratas e outros parasitas a nível cacique-regional. Muitos desses criminosos do colarinho branco só podem perpetuar-se no poder pregando o separatismo, para o qual, por sua vez, precisam promover a ignorância histórica, a manipulação e a criação de uma tenda independentista inteira. Como regra geral, existem três tipos de separatistas: os subsidiados que vivem do negócio separatista, aqueles que acreditam nas mentiras dos subsidiados e aqueles que professam à Espanha um ódio irracional e quase religioso por qualquer motivo. Todos eles estão, de uma forma ou de outra, relacionados com as oligarquias capitalistas de Barcelona e Bilbau, que juntamente com a oligarquia de Madri, são as que realmente governam o país.

Esta gambiarra territorial tem soluções muito simples, o que também daria uma boa apunhalada nas costas de nossa desprezível classe política, boa parte da qual teria que deixar de mamar nas tetas do Estado (isto é, o povo trabalhador):

• Abolir o Estado das autonomias. O que, aliás, não significa abolir as identidades regionais, porque o que está sendo questionado não é a identidade de uma região, nem mesmo o seu status de "nação", "etnia", ou seja qual for, mas a viabilidade ou conveniência que tais regiões, nações, grupos étnicos ou como você os chama, são traduzidos em mini-estados. As Comunidades Autônomas devem ser recicladas em regiões subordinadas ao Estado e dar-lhe a maior parte dos seus poderes e competências, ou delegar suas competências nas delegações. Tudo isso incluiria a administração centralizadora, a saúde, a educação (exceto para as línguas regionais), os regulamentos, as leis, os órgãos ambientais etc. O sistema alemão de organização territorial (Länder) seria um bom modelo. Um Estado centralizado e não centralista é necessário.

• As deputações, dos quais existem 48 em Espanha, são outro encargo desnecessário para o Estado, e, portanto, para os trabalhadores que mantêm o estado com impostos. As delegações devem dissolver-se ou suplantar as autonomias. Além disso, há várias províncias que devem desaparecer para se fundir em grandes, como Ceuta, Melilla, os dois canários ou os três bascos.

• As comarcas. Outra instituição inútil, cara e não escolhida pelo povo. Suas competências devem ser reduzidas ou excluídas diretamente.

• Os municípios são outra carga tributária, uma vez que cada município precisa de uma prefeitura, cada uma das quais com seu prefeito, vereadores e burocratas de várias pele e todos com seus carros oficiais, guarda-costas, "assessores", viagens oficiais pagas, banquetes oficiais pagos, prostituas de luxo oficiais pagas, dívidas banqueiras não pagas e o resto da panóplia que estamos acostumados. É claro que a proliferação de municípios desnecessários deve ser evitada tanto quanto possível. Bem, a Espanha tem 8.116 municípios, 8.166 prefeituras, 8.116 prefeitos, 65.000 conselheiros, 500.000 técnicos municipais e 100.000 assessores, todos mantidos pela classe trabalhadora espanhola. Há quase 4.000 municípios com menos de 500 habitantes, e 60% do total de municípios não ultrapassam os 1.000 habitantes. Nesses buracos burocráticos, todos os tipos de corrupção, nepotismo, especulação, amiguismo, apropriação indébita e roubo podem prosperar e prosperam.

Para impor um mínimo de sanidade neste desastre bananeiro, a maioria dos municípios, especialmente de cidades muito pequenas ou na periferia de cidades maiores, devem ser dissolvidos e mesclados com os municípios mais próximos. Um total de mil municípios é mais do que suficiente para garantir uma vertebração adequada das populações do território espanhol. Além disso, os poderes dos municípios devem ser severamente reduzidos em áreas como a reclassificação de terras, o que deve ser uma questão para o governo regional, com a aprovação prévia do governo central.

A Espanha não seria o primeiro país a conter a proliferação de caciques. Em 2007, a Dinamarca passou de 271 municípios para 98, enquanto entre 1958 e 1974, a Suécia reduziu drasticamente os seus municípios de um total de 2.281 para 278. Em 2010, devido a cortes fiscais, a Grécia foi forçada a reduzir seus municípios de 1.034 para 335, enquanto em Agosto de 2011, a Itália fez o mesmo, suprimindo 1.500 municípios e 36 províncias. Tendo em conta que a situação econômica espanhola não é foguete, e que o risco de intervenção da nossa economia é alta, alguém deve antecipar, dar o passo dado pelos gregos e (isso é realmente amargo para a casta política) deixar na rua milhares de parasitas políticos (50.000 empregos foram suprimidos em Itália). Tudo isso significaria um imenso alívio fiscal para os trabalhadores espanhóis, e um golpe duro para uma casta política que tem sido esquecida. 

MONOPOLISMO BIPARTIDARISTA

A dicotomia estéril de "direita versus esquerda" deve acabar. Isso há muito não é uma guerra entre partidos políticos, mas uma guerra entre as "duas Espanha". E agora essas "duas Espanha" já não têm nada a ver com os vermelhos e azuis, nem com os mouros e cristãos, nem com os partidos, nem com qualquer fronteira geográfica, mas com a confrontação de dois grupos sociais perfeitamente definidos e perfeitamente separados:

1 - Os trabalhadores espanhóis. Pessoas que religiosamente pagam seus impostos, que criam riqueza a partir do nada com seu suor, que muitas vezes vive cotidianamente sufocada por sérias preocupações e que, normalmente, só aspiram ter um lar, formar uma família, ser útil para a sociedade, desfrutar de modestas satisfações diárias, ver seus filhos crescerem e viver o resto de seus dias com dignidade, deixando para seus descendentes um mundo justo e digno de ser vivido. Muitas dessas pessoas nem sequer sabem os benefícios sociais a que poderiam ter direito. Essas pessoas não são perfeitas, mas com suas virtudes e defeitos, constituem a substância vital do país.

2 - Os parasitas que vivem do suor trabalhadores espanhóis. Minorias privilegiadas. Aqui está uma gama muito ampla de variedades de parasitas, de banqueiros, políticos, burocracias subsidiadas, trepas, carreiristas, empregadores e sindicatos, até mesmo criminosos, viciados em drogas, vagabundos, nepotistas, sub-celebridades, "artistas" com cartão de sócio do PPSOE , ONGs, okupas, empresas público-privadas, uma grande proporção de jornalistas, muitas mães solteiras/divorciadas e a maioria da imigração terceiromundista

No entanto, essa polarização social não se adéqua à casta política, econômica e midiática que esmaga os trabalhadores. O que convém para a casta é "dividir para conquistar": deixar o povo espanhol trabalhador em dois lados opostos para que eles nunca possam fazer causa comum contra os parasitas. A fim de manter as pessoas divididas em faixas artificiais que não correspondem à realidade, inúmeras táticas são usadas. As pessoas não podem ser massacradas mutuamente como tribos africanas ou cartéis mexicanos, mas você pode organizar um jogo de futebol Madrid-Barça, aquecer a atmosfera antes de uma visita do Papa, agitar a "guerra dos sexos" com "leis de gênero" anticonstitucionais, explorar a controvérsia das touradas ou provocar um coletivo de trabalhadores (ontem controladores aéreos, amanhã talvez médicos, professores, policiais, militares, caminhoneiros ou o que quer que seja), então provocar antipatia e inveja deles.

Em "Duelo a bordoadas", Francisco de Goya imortalizou um dos traços característicos da idiossincrasia espanhola: guerracivilismo. Neste momento, esse fenômeno beneficia a casta governante: enquanto o povo guerreia mutuamente com os do lado, não se apega ao que está acima.

Sem embargo, a tática mais eficaz da divisão social é o bipartidarismo, que recorre às memórias históricas e ao fantasma de um ditador que morreu há décadas, para provocar ambos os lados, para torná-los defensivos e para alcançar a tensão necessária para que o povo, eletrizado, vá em massa para as urnas. Os meios de comunicação aquecem a atmosfera de modo que os povos de ambos os lados estão permanentemente "mobilizados", ofendidos e prontos a votar para se autoafirmarem. Com isso, mantêm o atual ciclo político. Os mesmos políticos reconhecem até que ponto essa "tensão eleitoral" os beneficia, porque caso contrário, a participação cairia drasticamente e não teriam legitimidade para governar.

Em Espanha, os pilares gêmeos da ordem bipartidária são, por um lado, a esquerda iludida, hipster, progressista, demagógica e efeminada do PSOE; e do outro lado, a direita neoliberal, capitalista, hipócrita, rançosa e exploradora do PP. Ambas as colunas concordam que esta ordem deve ser perpetuada, ambas estão em conformidade com a globalização, ambas consideram que a Espanha deve ser preenchida com os imigrantes, que a carga fiscal sobre os trabalhadores deve aumentar e que temos de obedecer os banqueiros e os comerciantes, que financiam suas campanhas e em cujos manjedouras comem como porcos. Naturalmente, ambas as colunas estão totalmente de acordo em manter seus privilégios, e há muitas mais semelhanças socioeconômicas entre dois políticos opostos do que entre um político e seu eleitor médio.

Por tudo isso, aqueles que entram no jogo "direita vs esquerda", votando por um dos principais partidos "para que um ganhe", estão contribuindo para o fato de que a casta político-profissional que vem estrangulando este país desde 1978, permaneça no poder, perpetuando esta pantomima.

Algumas soluções para decapitar este monstro bicefálico:

• Não votar. Se somente 20-30% de participação em uma eleição é alcançada, muitas coisas vão mudar, porque os políticos não terão legitimidade para governar. A insistência de todos os políticos em que o povo vote, qualquer que seja o partido, mostra claramente o quão importante é para eles que as pessoas façam o gesto ridículo e apaziguado de colocar um pedaço de papel em uma urna, acreditando que com este gesto decidirá o futuro de um país inteiro.

• Votar em um partido minoritário, de preferência anti-globalização, anti-capitalista e anti-imigração. Isso destruiria a continuidade do circo burguês de direita vs esquerda, desestabilizaria o panorama político, desmantelaria as máfias partidárias que vêm vivendo há décadas no trono e favoreceria o surgimento de líderes conscientes de que estão lá graças ao povo e que devem-lhe autoridade e legitimidade.

• Listas abertas. Que qualquer cidadão honesto de qualquer profissão (incluindo o comando militar) e com os méritos necessários, pode apresentar-se para posições políticas, mesmo sem pertencer a uma máfia de políticos profissionais.

• Reforma da lei eleitoral. A lei eleitoral atual é projetada para favorecer o monopólio bipartidário e os partidos separatistas, uma vez que a composição do Congresso dos Deputados não é proporcional ao número de votos recebidos por cada partido. Uma reforma é necessária para que o voto de cada cidadão conte o mesmo não importa de onde ele vem, e para que o Congresso reflita realmente as escolhas dos eleitores.

"A CASTA", OU COSTRA NOSTRA ― PRIVILÉGIOS DA NOVA ARISTOCRACIA ESPANHOLA

Ficamos indignados quando lemos que no Antigo Regime havia uma sociedade estamental, com uma minoria privilegiada de talvez 3 ou 5% da população total. No entanto, atualmente também temos uma sociedade estamental com uma minoria privilegiada. A única diferença é que o critério atual para hierarquizar a sociedade é diferente ― e não necessariamente melhor do que o do Antigo Regime. A aristocracia de hoje é a aristocracia do dinheiro e do lucro. Aqui podemos incluir banqueiros, celebridades, grandes empresários, especuladores, comerciantes, traficantes, clubes de futebol etc., mas especialmente os políticos, uma vez que são os únicos que escolhemos, em sua mão poderia mudar o panorama político, e geralmente trazer consigo todo um ecossistema inteiro de amigos, família, conectados, favorecidos e outros (pagos sempre do nosso bolso).

Quando a Coalizão invadiu o Afeganistão em 2001, logo percebeu que precisava de um número de caciques locais que representassem adequadamente os interesses do atlantistas, atuando como intermediários entre os ocupantes e as tribos locais. Para formar uma casta obediente e dependente da OTAN, os serviços de Inteligência recrutaram vários caciques e deram-lhes casa, carro, móveis, polícia, ações empresarias, terras, guarda-costas e assim por diante. Esses privilégios forjaram uma classe social dependente das tropas de ocupação e permanentemente temerosos de perder seus benefícios, então eles colaboraram avidamente com o Pentágono. Os chefes dos "mercados" fizeram exatamente o mesmo em Espanha com a casta de 80.000 engravatados e gananciosos que formam nossa classe política. Vamos agora ver por que a casta política é um grupo de ladrões que, independentemente do partido, concordam em roubar o bolso do trabalhador.

• Senado. Uma câmera inútil e cara, cheio de sanguessugas que sangram os trabalhadores (por exemplo, com o trabalho dos tradutores de castelhano-catalão, a milhares de euros por sessão). Noruega, Suécia e Dinamarca não têm senado. A Alemanha, locomotiva econômica de mais de 80 milhões de habitantes, tem apenas 100 senadores, assim como os EUA. Na Espanha, um país com metade da população e uma economia calamitosa, mantemos um enorme número de 260 senadores, cada um dos quais goza de privilégios impensáveis ​​para políticos de outros países.

• Nepotismo. Cada político vai colocando membros que lhe são conhecidos, geralmente sem qualquer qualificação, em posições públicas com salários fabulosos pagos com o dinheiro dos contribuintes, inventando empregos fictícios e "posições de confiança" do tipo "secretário adjunto", "chefe de seção" ou "conselheiro". Rever, abolir e julgar cada cargo conforme apropriado.

• Despesas diplomatas. A Espanha tem mais gastos diplomáticos do que as superpotências da diplomacia como o Reino Unido. Isso inclui projetos como a embaixada da Catalunha em Cuba.

• Outros: viagens pagas, cursos pagos (tais como estudar o cultivo de bananas nas Canárias, num hotel cinco estrelas), regalos, frutos do mar, banquetes, escoltas cartões de crédito oficiais, carros oficiais (a Espanha tem mais carros oficiais dos EUA; a comitiva do ex-presidente da Galiza, Emilio Pérez Touriño, tinha mais carros do que George Bush durante o mesmo período), pensões vitalícias, salários, prebendas, propinas, subornos, corrupção, idiotas em postos de alta responsabilidade e um longo etc. 

Um dia devemos contar quanto a casta custa exatamente aos espanhóis e processar legalmente qualquer um que tenha aproveitado-se da bolha partidocratica. Uma revolução é necessária em cada regra, que coloca a idiocracia onde merece. Uma classe dominante real deve ser composta de indivíduos superdotados que renunciem a propriedade privada, interesses comerciais e acumular riqueza em privado. Indivíduos patrióticos, altruístas, austeros e imbuídos de justiça social, selecionados por seus méritos, zelo e vocação, sem ego, sem desejos e sem ganância, preocupados com o destino dos trabalhadores, e tendo feito votos de pobreza comparáveis ​​aos dos monges-soldados da Idade Média. Uma casta verdadeira deve ser fortemente regulamentada e ter uma disciplina muito mais rígida do que o cidadão comum, uma vez que as pessoas sempre atendem ao exemplo da classe dominante. Quando o aiatolá Ruhollah Khomeini morreu, descobriu-se que a única propriedade pessoal do homem mais poderoso do Irã eram suas túnicas e turbantes, uma casa modesta em sua cidade natal, um pomar e seus sapatos.

Algumas medidas que cortariam as asas dos parasitas da casta:

• Reorganização territorial no que diz respeito às autonomias, deputações, comarcas e municípios. Nós nos livraríamos de uma boa parte dos políticos, burocratas e outros sanguessugas que paralisam nossa administração.

• Abolir o Senado nos salvaria 3,5 bilhões de euros por ano, o suficiente para pagar os salários de 250.000 mileuristas.

• Reforma da lei do financiamento de partidos. Um partido ou um sindicato não deve viver mamando nas tetas do Estado, nem deve aceitar que as grandes corporações financiem suas campanhas eleitorais com o objetivo de influenciar a política. Um partido deve viver das quotas dos seus membros, das pequenas empresas e talvez de uma contribuição voluntária de cada trabalhador ao fazer a declaração à Fazenda, tal como acontece com a Igreja. Além disso, os partidos devem publicar suas receitas e despesas, para que sua gestão seja totalmente transparente, e um cargo político deve ser impedido de cobrar mais de um salário público (incluindo o que paga o partido a seus cargos). Além disso, todos os políticos devem ser investigados por irregularidades econômicas ou atividades empresariais paralelas à sua atividade política, e um político deve ser impedido de assumir cargos em empresas importantes após seu serviço, caso contrário a política se tornará um trampolim para catapultar os trepas para os cargos de gestão do mundo dos negócios.

• Lei sobre transparência e acesso à informação pública. A Espanha é um dos cinco países da UE que não garante o direito de seus cidadãos a saber o que diabos é feito com seus impostos.

BOLHA ESTUDANTIL 

Formar uma geração no ensino superior é essencial para um país. O que não tem nome é a situação atual da Espanha, onde parece que absolutamente todos os jovens devem ir para a faculdade, mesmo aqueles que claramente não têm vocação para o estudo. A casta convenceu-se em mandar para a universidade até verdadeiros cabeças-ocas, bem como, em vez de ser jovens vagos e entediados que gastam e consomem pouco, eles se tornam estudantes, ou seja, em consumidores satisfeitos que não fazem perguntas, que não conhecem a verdade realidade social do povo trabalhador e seguem mantendo o sistema atual. Os pais espanhóis, por sua vez, têm a noção de que se seu filho só trabalha, é um sinal de "desculturação" ou de baixo poder aquisitivo, e que para ser "gente de bem", o filho tem que ir para a faculdade, mesmo que se drogue no botellón e, em seguida, vá direto para o desemprego ou emprego precário

Os estudantes universitários têm um par de características que exigem a ser reconhecido pelos engenheiros sociais: por um lado, eles são jovens e têm ― ou pressupõe ― mais energia do que outros grupos etários. Por outro lado, eles têm ― ou pressupõe, novamente ― uma cultura acima da média. Esses dois fatores tornam os estudantes em um "grupo sensível" para desafiar a ordem estabelecida e de pensar criticamente, então eles devem atontar, satisfazer e afeminar. Com isso em vista, a cena universitária atual sustenta uma infra-estrutura inteira de pão e circo, destinadas a exprimir financeiramente as famílias dos estudantes, minar a força da juventude e retardar o inevitável momento quando os jovens percebem que o seu futuro não é tão brilhante como lhes venderam. Para todo esse processo, podemos chamá-lo de "bolha estudantil".

A bolha estudantil, como a imobiliária, serviu durante muito tempo para esconder os números reais de desemprego, e para manter um toda uma sub-economia de sindicatos, burocratas, funcionários, bolsas de estudo, cursinhos, taxas, vida noturna, moda, conferencistas, cursos de graduação, papelaria etc. Particularmente sangrante é o caso das bolsas, que pagas pelo povo espanhol trabalhador, são gastos principalmente em álcool (no caso dos estudantes), em roupas (no caso das estudantes) e em apartamentos alugados, boa parte dos quais se insere na economia submergida (ver aqui) ou de outros países, pelo qual estes investimentos astronômicos não resultaram em qualquer benefício para a Espanha. Hoje, um graduado da faculdade espera vários destinos possíveis:

• Desemprego.

• Mileurista amargurado ou empregado precário. Caixas de supermercado, balconistas, garçons, oficinistas, administrativos e semelhantes, muitas vezes em posições que não têm nada a ver com a carreira que escolheu.

• Trabalho brilhante no exterior. Este caso também é sangrante, uma vez que o Estado (isto é, o espanhol que paga impostos) investiu dinheiro na formação de um trabalhador qualificado, mas será outro país (Alemanha e países ibero-americanos em especial) que colherá os benefícios. O brain drain (fuga de cérebros ou fuga de capital humano) é devido ao nepotismo em nosso país, o modelo econômico baseado na construção, turismo e hotelaria, e na ignorância incapaz de reconhecer o verdadeiro talento. Infelizmente, estabelecemos uma nação que é o paraíso da ignorância e da vulgaridade, sendo a atmosfera demasiado hostil para que prosperem os cérebros avançados.

Outro aspecto da bolha estudantil é o grande número de centros educativos que foram construídos durante a escolarização da geração "baby boom", e todos os postos docentes que foram convocados. A consequência é que terá que fechar os centros, demitir professores e dizer àqueles que esperavam na fila para as oposições que "má sorte".

A solução para a bolha estudantil é que somente os jovens com vocação e nível acadêmico estudem o ensino superior, independentemente do poder de compra de sua família, e que somente os mais brilhantes deles podem receber bolsas de estudo. O resto dos jovens não deve ser excessivamente educado sobre o seu intelecto ― uma vez que isso produz indigestão do conhecimento e dá origem ao esnobismo e imbecilidade ― mas sim que deve estar preparado para trabalhar dentro de uma economia produtiva real, em que é inútil fazer a análise sintáticas, raízes quadradas e inúmeras complicações (que ao longo do tempo são esquecidas por mais de 90%), se nem sequer saber falar, ler, escrever, obedecer, comandar ou trabalhar com as mãos corretamente. A carreira sem futuro deve ser suspensa, pelo menos temporariamente, assim como as faculdades que os ensinam. As asas também devem ser cortadas de sindicatos e atividades de faculdades subsidiadas com dinheiro público.

A IMIGRAÇÃO É A PONTA DE LANÇA DA GLOBALIZAÇÃO PARA DESTRUIR O MERCADO DE TRABALHO, OS SERVIÇOS SOCIAIS E AS CLASSES TRABALHADORAS DO OCIDENTE

Se os atuais "progressistas de sofá" tivessem lido Marx, saberiam que o aumento na quantidade de mão-de-obra acarreta na queda nos salários (dumping): uma manifestação da lei da oferta e da procura. Tanto a produtividade econômica quanto o salário médio agora dependem do capital investido em cada trabalho. Quando milhões de pessoas que não trazem capitais são introduzidas na economia nacional, os salários são baixados automaticamente, assim como quando um xeique de um petro-regime árabe vai para uma cidade, os salários dessa cidade aumentam.

Por razões óbvias, é do interesse dos grandes predadores capitalistas ter uma força de trabalho muito abundante e muito barata. Para conseguir esse trabalho abundante e barato, eles promoveram três processos históricos:

1 - A emigração do campo para a cidade durante o estágio do capitalismo industrial. Para isso, foi necessário desmantelar (por meio de revoluções liberais, confiscos e expropriações) as estruturas econômicas e políticas do Antigo Regime, que eram eminentemente rurais. O efeito desse processo foi o surgimento do proletariado, o tremendo crescimento do mundo urbano, a perda de tradições ancestrais e a ascensão de doenças mentais.

2 - A entrada das mulheres no mercado de trabalho na fase do capitalismo comercial. Desde o tempo da "emancipação feminina" [1], a mão-de-obra duplicou, o consumo tem crescido exponencialmente, os custos de produção (portanto, os preços) foram reduzidos e os salários foram baixados pela metade de seu poder de compra ou mais. Como efeitos colaterais sociais, a taxa de natalidade despencou, as crianças estão nas mãos do sistema educativo e da mídia, e tanto a vida familiar quanto as identidades sexuais estão sendo desmanteladas.

3 - A imigração terceiromundista e a deslocalização empresarial durante a atual fase do capitalismo: a da globalização. Esta é uma última tentativa de encontrar mão-de-obra abundante e barata para poder manter o crescimento fictício de figuras abstratas que nunca resultam em um benefício real para o povo. Nesta seção, vamos nos concentrar em como a imigração beneficia os grandes empresários. 

O capitalismo não quer trabalhadores caros que exijam boas condições de trabalho e tendem a distribuir a riqueza do país de forma equitativa. O capitalismo quer trabalhadores dóceis, prontos a trabalhar até a morte por um escasso prato de arroz. Atualmente, os únicos lugares onde você pode encontrar mão-de-obra que pode ser encontrado em milhões está fora do Primeiro Mundo. A China tornou-se a terra prometida da deslocalização industrial, mas também o Ocidente tornou-se a terra prometida das massas do Terceiro Mundo, atraídas por multinacionais ávidas que são cobertas por benefícios à custa do povo nativo e por políticas "solidárias" completamente divorciadas da realidade.

Desde que os imigrantes chegaram, ficou claro que em seus países de origem não houve grandes lutas sociais, então eles aceitaram termos de emprego que seriam insultantes para qualquer europeu. Os imigrantes não solicitaram seguro de saúde, horas extras pagas, trinta dias de férias por ano, licença maternidade, excedências e outras "regalias" que aumentam o custo de contratação e, portanto, de produção. A consequência é que os salários caíram e o mercado de trabalho nativo afundou. Onde antes o empresário tinha que relutantemente aceitar um exigente trabalhador espanhol, agora pode dizer "700 euros por mês ou você vai para a rua, lá fora há quarenta equatorianos e cinquenta magrebes esperando". Dessa forma, como a vida tornou-se cada vez mais cara pela a inflação, os salários simplesmente não subiram. A consequência deste estado de coisas é que a imigração não foi uma partilha de riqueza, mas uma distribuição de pobreza. A riqueza perdida pelos trabalhadores nativos foi encaçapada por uma pequena elite de grandes empresários, usurários e especuladores.

A lei da oferta e da procura no mercado laboral capitalista, levada ao extremo.

Para dar um exemplo, digamos que a entrada de imigração significou que os salários não subissem para (sendo muito generoso) 100 euros mais por mês. Com quatorze pagamentos anuais, nós teríamos 1400 euros por ano que economizaram as empresas por trabalhador. Voltemos a ser generosos e suponhamos que o dumping "apenas" tenha afetado 10 milhões de trabalhadores: resulta que as empresas economizam 14 bilhões de euros por ano. Se multiplicarmos isso nos anos de 2000 a 2008, veríamos que os empresários economizaram 112 bilhões de euros em oito anos (e se tomarmos o período 1996-2012, já estaríamos falando sobre o dobro). Este número pode não dizer muito para aqueles que não estão acostumados a conceber esses números em termos econômicos. Para compreendê-lo, a produção anual de petróleo do Kuwait é de 90 bilhões de euros. A arrecadação do tesouro público espanhol em um ano é de 100 bilhões de euros. O Google pagou 12,4 bilhões pela Motorola. As despesas com pensões na Espanha são de 6,6 bilhões de euros, o orçamento de educação é de 3 bilhões e o subsídio de desemprego de 420 euros custa 1,3 bilhões de dólares por ano. Se pensarmos na quantidade de guerras que são travadas devido às receitas petrolíferas de alguns milhares de milhões de euros, entendemos o enorme interesse que o capitalismo tem em manter o enorme negócio da imigração e não deixar ninguém questioná-lo.

Na verdade, os interesses econômicos envolvidos na imigração são tão fortes que todo um aparato defensivo cultural foi adquirido: quem questiona esse estado de coisas é marcado com palavras inventadas artificialmente por políticos e magnatas da mídia como o chamado "xenofóbico". É a equivalência moderna do "herege" medieval: uma palavra-curinga para apelar ao lado instintivo-irracional e para remover um oponente discordante do meio quando faltam argumentos racionais. É preciso deixar uma retórica obsoleta, a realidade é que aqueles que são prejudicados pelo multiculturalismo são os trabalhadores nacionais, e os beneficiários foram os grandes oligarcas capitalistas, sendo eles que usam a palavra-totem "xenofobia" e aqueles que agitam o espantalho de "racismo" para que ninguém critique suas políticas econômicas criminosas.

Vemos a ação desses oligarcas na iniciativa de imigrações, na qual alguns grandes consórcios capitalistas (principalmente bancos, exploradores multinacionais, trabalhadores temporários e outras grandes fortunas) pediram mais imigração na Espanha. Estes consórcios foram: Bancaja, Banco Santander, Banesto, BBK, BBVA, Caja Navarra, Cajasol, Coca-Cola España, Corporación Grupo Norte, Correos, Deutsche Bank, El Corte Inglés, Grupo Banco Popular, Grupo Eulen, Grupo Redur, Grupo Vips, Iberia, La Caixa, Manpower, PeopleMatters, Prosegur, Randstad, Sol Meliá. Um ano depois, os parceiros se expandiram para 121 [2]. É este tipo de consórcio que está realmente por trás da imigração e regularização maciça na Europa, usando seus lobbies de pressão para importar hordas de trabalhadores do Terceiro Mundo como se fossem fura-greves, para afundar as condições de trabalho, dissolver as identidades étnicas europeias e apropriar-se de fundos sociais nas mãos do Estado (os imigrantes recebem auxílio estatal, mas esse dinheiro acaba nas mãos de mega-empresas privadas, que é de que se trata). Continuar a chamar mais imigrantes quando há 5 milhões de desempregados no nosso país só é explicável se estas máfias criminosas procuram criar um imenso "dumping social", ou seja, forjar uma sociedade em que o valor de cada indivíduo tende a zero.

Os custos da imigração (para o Estado, não para o Mercado) são outra questão. As leis de estrangeiros implantados pelos plutocratas são risíveis. A Espanha é o país europeu com a maior taxa de desemprego... mas também que mais imigrantes aceitou nos últimos anos, como se tivéssemos mais empregos. Somos o único país europeu onde os imigrantes podem registar-se num município sem carteira de residência e onde são automaticamente concedidos o acesso aos serviços básicos (educação, saúde e outros tipos de assistência) simplesmente porque estão lá. 

Os imigrantes são muitas vezes muito bem informados (ONGs e outras fundações através como Caritas, Cruz Vermelha, Secretariado Gitano etc.) e sabem muito bem como tirar proveito da assistência social com guias altamente informativos. Muitos deles são pagos automaticamente 1.000 por mês, um suplemento de 350 euros por cada criança, renda mínima de inserção, cheques-bebês, cartão de saúde, habitação oficial (na Catalunha 90% destas casas são concedidas aos imigrantes, e uma boa parte do restante 10% para os ciganos e imigrantes nacionalizados), creche gratuita para os seus filhos, um "assistente social" para levá-los para a creche se os pais não podem, licença de condução livre, um emprego fixo, conselhos para a abertura de um negócio, isenções fiscais, chegues alimentários, refeições escolares paras as crianças e a possibilidade de trazer de seu país toda sua família, o que provavelmente farão. O imigrante médio goza, em suma, de benefícios sociais que o espanhol médio não consegue conceber, simplesmente por causa da cor da sua pele ou da sua origem. Este racismo reverso é chamado de "discriminação positiva".

Estamos, portanto, com bolsas sociais de milhões de pessoas (e não apenas imigrantes, mas também ciganos e espanhóis) que não precisam se matar de estudar para se matar de trabalhar para ganhar um salário de miséria. É mais fácil viver de aluguéis, lidar com drogas, bater carteiras ou bolsas no ponto, trabalhar de vez em quando no mercado negro, se fazer de vítima, colocar toda culpa no "sistema" e o povo espanhol, lamentar-se pelos serviços sociais e andar por aí com tênis de marca, roupas de marca, celulares sofisticados e carros melhores do que os trabalhadores espanhóis que dividem em parcelas para pagá-los, e para o qual a Administração lhes diz que não há dinheiro e que eles têm que cortar seu salário e pensões. Outro problema óbvio de ter um setor social inteiro dependente de subsídios é que, quando for necessário cortar os subsídios (e o tempo virá), sérios conflitos ocorrerão. A situação é uma receita para o desastre, e o resultado traumático é 100% garantido.

Dos mais de 7 milhões de imigrantes que temos, apenas 1,8 milhões [3] contribuem para a Previdência Social. O resto não vive do seu trabalho, mas do trabalho do povo espanhol, desfrutando de saneamento pago, educação paga, uso de infra-estruturas públicas e inúmeros benefícios sociais. Na prática, o povo espanhol trabalha para eles e são seus escravos. Em termos mais escandalosos, podemos dizer que os trabalhadores espanhóis estão passando dificuldades sérias para pagar as pessoas que o estão agredindo, arrancando, roubando, estuprando, assassinando, insultando, desprezando, ameaçando e odiando. Mas, em última análise, os espanhóis trabalham para os banqueiros e empresários que trouxeram a imigração, uma vez que está em suas mãos onde termina a maior parte do dinheiro arrancado do povo e desperdiçado pelo Estado.

Obviamente, uma idéia que é um desastre social de pleno direito nunca toma raiz se ela não tem algum tipo de gancho. No caso da imigração, o gancho é voltado para empreendedores: mão-de-obra barata e submissa. Outros ganchos mais pequenos foram dirigidos ao público crédulo e buenista: os imigrantes vêm generosamente pagar-nos pensões (nós teríamos que perguntar que pensões paga um senegalês desempregado que não cotiza a Previdência Social, ou um romeno que recebe subsídios da Espanha mas vive na Romênia, ou um marroquino que não sabe ler ou escrever, trabalha seis meses em Espanha, fica desempregado e volta a seu país para trazer toda a sua família), para trabalhar nos trabalhos que não queremos (acontece que antes da imigração, os pisos eram lavados sozinhos, os nabos eram arrancados sozinhos do chão e os copos voltavam sozinhos para as mesas dos clientes) e para adicionar um toque de cor em nossa enfadonha e monolítica homogeneidade étnica (como se a identidade não fosse um fator de vertebração para qualquer país).

A imigração paga ao Estado, sendo generoso, 5 bilhões de euros em impostos, enquanto o Estado gasta 13 bilhões apenas em educação e saúde, sem contar problemas de segurança pública, ajuda social, mercado negro, atenção aos toxicodependentes, recorrência de doenças erradicados na Europa há muito tempo, empregos irregulares, criação de riqueza não qualificada e questionável (prostitutas, vendedores de pirataria, vendedor de flores ambulantes, vendedor de objetos falsificados e/ou roubados, flanelinhas, massagistas, empregados do McDonald's) e vários subsídios, que facilmente excederão 15 bilhões por ano. O truque, é claro, é que todos esses custos não são suportados pelas grandes empresas ou bancos, mas pelo Estado, ou seja, pelo contribuinte.

Nenhum partido de esquerda, nenhum sindicato, questionou ou denunciou essa injeção de trabalho do Terceiro Mundo como parte da globalização capitalista, como uma conspiração para degradar os serviços sociais (especialmente saúde, educação e pensões) a níveis quase terceiromundistas e para expropriar fundos e meios de produção do Estado, enquanto os especuladores são forrageiros. Nenhum partido esquerdista denunciou que a imigração faz parte da guerra que o Mercado (consórcios capitalistas) faz ao Estado (contribuintes, isto é, nós), já que os empregadores não subsidiam a imigração (mas terceirizam os custos da imigração para os trabalhadores), mas colhem os benefícios, enquanto o Estado subsidia a imigração e perde a maior parte do dinheiro. Os movimentos "alternativos" do tipo 15-M também não trouxeram novas idéias ao sério problema do multiculturalismo; ao contrário, os "indignados", que parecem ser porta-vozes da própria UNESCO, apenas repetem o habitual discurso batido ― que é precisamente o culpado de que estamos agora como estamos. Em toda a Europa, os únicos partidos que começaram denunciando a natureza econômica e social da imigração maciça terceiromundistas são alguns dos "extrema-direita", e estão sob uma forte campanha de descrédito, infiltração e silenciamento pela indústria de mídia e a segurança do Estado. É de esperar que, no futuro, as políticas de imigração constituam a principal linha de divisão ideológica entre partidos e tendências políticas na Europa e que provoquem uma nova polarização social quando os efeitos do multiculturalismo ultrapassarem o limiar da tolerabilidade.

A solução para o problema muito grave da imigração não é reagir infantilmente contra os imigrantes, mas processar legalmente os oligarcas capitalistas responsáveis ​​pela promoção da invasão. Por outro lado, os imigrantes vieram trabalhar em uma bolha econômica artificial. Agora não há bolha. Então, para começar, que não continuem vindo. E para continuar, que vão embora a maioria daqueles que já chegaram, pois neste país temos 5 milhões de desempregados e simplesmente não há trabalho ou barco para todos, então o lógico é deixar os últimos trabalhadores entrar. A lei sobre os estrangeiros deve ser alterada, os vistos e uma exigência de exames médicos e certificados de condenados devem ser introduzidos (como foi exigido dos espanhóis que migraram em outros tempos), acabar com a "discriminação positiva" no mercado de trabalho e deportar:

• Todos os imigrantes que cometeram um crime, incluindo os que estão na prisão. Detenção = deportação.

• Todos os ilegais e em situação irregular, que por sinal, poderiam ser incluídos na primeira categoria, já que violaram a lei. Nenhum ser humano é ilegal, mas violar a lei é, e de criminosos na Espanha já temos o suficiente muito antes da multiculturação imposta, tampouco importar mais. 

• Todos os que foram legalizados em regularizações maciças, suicidas e inconstitucionais.

• Todos aqueles que são alvo de desemprego.

• Todos aqueles que nem cotizam nem pagam impostos.

• Todos os que vêm sem um contrato de trabalho de origem, um registo criminal limpo ou um certificado sanitário.

• E, a partir daí, a todos os que são necessários para dar espaço para os trabalhadores nativos desempregados.

O custo de tal operação não deve ser demasiado pesado para uma Administração que pode atualmente ter recursos para distribuir imigrantes a Andaluzia e às Ilhas Canárias, com bilhetes de ônibus pagos pelos municípios, em toda a geografia nacional. Além disso, a deportação de imigrantes despedidos seria mais barata do que continuar a pagar-lhes subsídios, de modo que a deportação seria autofinanciada a curto prazo. Outra opção perfeitamente legítima é que os banqueiros, empresários, políticos e ONGs responsáveis ​​pela situação atual sejam obrigados por lei a pagar as despesas de repatriamento de seus próprios bolsos. Seria um exemplo que os oligarcas econômicos paguem os pratos que quebraram, como uma enorme multa. E, finalmente, se o próprio povo fosse solicitado para financiamento, muitos milhões de trabalhadores espanhóis estariam mais do que dispostos a contribuir com fundos de seus próprios bolsos. De uma forma ou de outra, as deportações acabariam saindo muito mais baratas do que continuar a sangrando com ajudas sociais.

OUTRAS VIAS POSSÍVEL PARA O ESTADO

Antes de prosseguir, é necessário deixar claro que a principal via aberta do Estado são os bancos privados, que emitem dinheiro e crédito a seu próprio critério e sem qualquer apoio, e que quando obtêm lucros, ficam com eles, e quando sofrem perdas, ficam com nós, menos a eles. Neste contexto, o Estado deve nos importar porque o mantemos com nossos impostos e em suas mãos está decidindo que formas é usado todo esse dinheiro.

• Funcionariado. Durante a ditadura de Franco, havia 600.000 funcionários. Agora, temos 3.500.000, um aumento de 6x, e não é por isso que a Administração "funciona" melhor, mas ao contrário: tornou-se obesa e maçante, mais mamantes para a mesma teta e mais organismos cujas competências são sobreposição e confundir. A Administração necessita de uma cura de desbaste; Muitos dos funcionários devem ser removidos de suas posições fictícias e colocados para trabalhar em setores produtivos de uma nova economia nacional.

• Terceira Idade. 9 milhões de aposentados não seriam um problema se tivéssemos uma pirâmide de população minimamente normal, mas nós não temos. E quando a geração do baby-boom se aposentar, a pirâmide sofrerá um sério desequilíbrio. As empresas e os seus escravos da casta querem que este problema seja resolvido com a importação de mais fura-greves terceiromundistas, mas na realidade apenas uma sólida política de promoção de fertilidade entre os setores sociais produtivos e rentáveis ​​pode remediar esta situação. Isso, e ajustar as pensões para os aposentados que, comprovadamente e manifestamente, têm capital abundante, pelo menos enquanto houver dificuldades econômicas.

• Economia submergida. Quase um terço do total da economia espanhola está submersa, ou seja, empregos, compras e vendas que são feitas no mercado negro e, portanto, não cotizam, não pagam impostos, não declaram à Fazenda etc., mas cujos beneficiários frequentemente desfrutam de serviços sociais (como o desemprego) que eles não deveriam desfrutar. É claro que toda economia terá sempre um setor negro, por mínimo que seja, mas a proporção da Espanha, um país de "golpes" e entrada maciça de drogas, prejudica nosso desenvolvimento nacional. É verdade que se a Espanha não se afundou há muito tempo, é em grande parte graças à economia submersa, mas esta situação não pode durar para sempre, e mais cedo ou mais tarde será necessário trazer à tona a maior parte da atividade econômica "negra", especialmente a mais rentável. Isso deve incluir, entre outras coisas, arrendamentos (e sub-arrendamentos), trabalhos do mundo da noite, operações econômicas com "arte moderna", transferências de dinheiro de "fundações", atividade de ONGs, remuneração do trabalho doméstico de donas de casa (que nunca deixa de ser um trabalho como qualquer outro) e talvez até a legalização de drogas para acabar rapidamente com o mundo do tráfico.

• Remessas ao exterior. Muitos imigrantes enviam parte do dinheiro que eles ganham na Espanha para seus parentes, governos ou empresas no exterior, de modo que, na prática, eles estão causando uma fuga de capital e um empobrecimento do país. Estima-se que o valor das remessas para o exterior exceda 7 bilhões de euros por ano.

• O Estado de bem-estar social e a "solidariedade". Uma coisa é ser solidário e outra muito diferente é ser bobo. O estado de bem-estar social é um conceito muito positivo e deve ser mantido, mas também deve ser repensado, pois quando é usado para subsidiar a pobreza, o crime, a invasão, a dependência e a mendicância, tudo o que é obtido é que essas coisas se multiplicam e se perpetuam. Portanto, o welfare state deve subsidiar, apoiar e defender de forma decidida os setores produtivos e qualificados da sociedade (solucionadores de problemas), não parasitas (causadores de problemas). Deve-se ter cuidado para garantir que a moral e a taxa de fertilidade desses setores sociais não sejam diminuídas por uma administração econômica que parece ser projetada especificamente para punir a honestidade e recompensar o crime. Há algo quase metafísico sobre a ajuda social, que parece inculcar uma mentalidade "porque eu valho" a todos aqueles que a percebem: uma mentalidade de minoria privilegiada. A questão, portanto, é decidir quem deve ser a minoria privilegiada, seja a substância viva do país, ou as mães solteiras que poliam a ajuda em álcool, roupas e drogas, ou ciganos que, com cheques alimentários, compram whisky, cerveja e vodka, que depois colocam no porta-malas de uma Mercedes. O auxílio deve ir apenas para as pessoas que a) vão rentabilizar, e b) realmente precisam. Portanto, entelequias como "caridade" e "solidariedade" devem ser abolidas e substituídas pela eterna ideia de Justiça, que é cega.

• Luta contra a fraude fiscal. As grandes empresas fraudam o Tesouro em mais de 42,7 bilhões de euros por ano. 60% da fraude fiscal vem de empresas da IBEX 35. Obviamente, isso é pago pelos trabalhadores, já que de algum lugar eles têm que retirar o dinheiro do Tesouro para cobrir o buraco fiscal. O Estado tem a obrigação de combater a prostituição ilegal, o tráfico de drogas, a lavagem de dinheiro (incluindo camuflados como auxílio a ONGs, fundações de caridade e operações de compra e venda de "arte" moderna), evasão de impostos, fuga de capitais para paraísos fiscais e grande parte das operações de construção e imobiliárias. A maior parte da casta política espanhola deve ser legalmente processada por corrupção, desfalque, fraude fiscal e comportamento antissocial, para não falar de alta traição. Do mesmo modo, deve-se ter em mente que a pressão fiscal excessiva tende a conduzir a fraude por parte do trabalhador humilde que luta para ter dinheiro no fim do mês. Portanto, a pressão fiscal sobre grandes fortunas deve ser aumentada e em rendimentos modestos abaixada.

• Bolha imobiliária. O dano que essa espiral fez no nosso país levará muito tempo para ser curado. Durante muitos anos, damos importância excessiva ao recipiente (edifícios, aparências), enquanto ignoramos a importância do conteúdo (atividades produtivas, vida familiar, crescimento pessoal, lazer). De acordo com a Constituição, todo cidadão espanhol tem direito a uma habitação decente. Agora, devido a anos de especulação, a habitação tornou-se um item de luxo em vez de um item básico, como alimentos ou roupas. A Espanha é, como já mencionado, um país de "casas sem pessoas e pessoas sem casas", mas os preços invulgarmente ainda são altos, porque ainda existem monopolistas, especuladores e imbecis que não sabem que as coisas mudaram e que esperam com esperança que os preços subam novamente. Essas casas, que permanecem acumuladas para que a oferta seja baixa e os preços altos, devem ser liberadas e colocadas em circulação a preços de crise. Deve ser criado um estoque de habitação pública ― expropriando, se necessário, as favelas fantasmas que foram usadas para especular e que estão nas mãos dos bancos privados ― e concedidas aos cidadãos espanhóis, especialmente aos casais de idade reprodutiva. Também devem ser tributados impostos sobre a segunda, terceira, quarta etc., habitação, uma vez que muitas pessoas possuem mais de uma casa, usando-as para especular e se recusando a vendê-las por seu valor real, restando habitações vagas e com o alto preço.

• Sistema sanitário. O maior problema do sistema de saúde é o lobby da indústria farmacológica, que está no negócio das doenças (com isso, não é preciso dizer muito). Se alguém passa por uma consulta a cada duas ou três vezes para obter uma receita, ou porque está entediado ou porque consome sete diferentes tipos de comprimidos em um único dia, é algo conveniente para multinacionais farmacêuticas, mas sangra o Estado, e mesmo para o indivíduo, que vê como suas doenças e misérias biológicas se tornam um negócio lucrativo. Não pode haver poupanças sérias na saúde enquanto não houvera "educação em saúde", enquanto o estilo de vida promovido como a panacéia for urbano e sedentário, enquanto os alimentos forem copados por multinacionais e enquanto as pessoas delegarem sua saúde em um produto químico, em um indivíduo da TV em vez de se envolver ativamente. Por outro lado, há no sistema de saúde uma série de "despesas psicotrópicas", promovidas pelos iluminados do último governo socialista: operações de mudança de sexo, abortos e pílulas do dia seguinte para menores, dentre outros. Essas questionáveis decisões pessoais ― que fazem pouco para resolver o grave problema da dissolução social sofrida pelo Ocidente ― não devem mais ser uma questão do bolso do contribuinte. Um trabalhador saudável não deveria ter que pagar do bolso a irresponsabilidade de alcoólatras, fumantes, obesos, viciados em barbitúricos, sedentários ou viciados em drogas, que ninguém os obriga a ter um estilo de vida insalubre. As negligências da própria saúde devem ser punidas com multas ou simplesmente mediante o pagamento da quantidade de tratamento. Também pode sujeitar a população a análises clínicas e exames médicos, a fim de subtrair impostos de indivíduos saudáveis e adicioná-los aos doentes irresponsáveis. Isso corresponderia muito mais à realidade de cada pessoa, e seria um incentivo à primeira ordem para que cada pessoa estivesse envolvida na cura de seus hábitos diários. Finalmente, muitas pessoas, especialmente as provenientes da pobreza, têm uma filosofia de "como é grátis, você tem que usá-lo", e vão ao hospital para obter assistência médica para qualquer coisa. Isso satura os serviços de saúde, até o pessoal médico e supõe uma grande despesa social.

• Privatizações. A privatização (ou, em outras palavras, a expropriação) dos meios de produção dos Estados e dos indivíduos, está na agenda do sistema capitalista. A Grécia vendeu uma grande parte de suas infra-estruturas públicas a entidades privadas, como as estradas, a terra, a água e as autoridades portuárias. Isso também está acontecendo em alguns estados dos EUA, como Wisconsin. Na Espanha, começou a acontecer com Felipe González, disparou com Aznar e agora é mantido com Zapatero, privatizando os aeroportos nacionais e vendendo as loterias do Estado ao Rothschild ― a privatização mais brutal da história espanhola. Na prática, o que está acontecendo é que as entidades privadas tentam retirar o Estado (isto é, dos contribuintes) de suas propriedades e meios de produção, o que equivale a um roubo de riqueza. No futuro, os benefícios de tais meios de produção não reverterão para a sociedade, mas para o grande empresário de plantão. O objetivo final é que tudo o que dá benefícios seja privado e tudo que dá prejuízo seja público.

• Multinacionais estrangeiras. As grandes empresas apátridas do tipo McDonald's vulgarizam o mercado de trabalho ― uma vez que só querem proletários baratos e sem cérebro ―, são máquinas de pedir imigrantes, afundam as pequenas e médias empresas dos trabalhadores independentes decentes (como mercearias e "lojas de 1,99") e também são um buraco negro na economia, já que a maioria de seus lucros não permanecem no bairro, mas sim vão aumentar os bolsos de algum capitalista estrangeiro. Se a presença de uma multinacional for permitida, deve ser ponderada se a atividade desta empresa resulta em um benefício real para as pessoas (para dar dois exemplos, nem o McDonald's nem a Coca-Cola são benéficos para as pessoas). Uma economia nacional e protecionista, e fritar com impostos as multinacionais, resolveria grande parte do problema.

Arte por David Dees. Grandes empresas como destruidoras dos negócios locais e autônomos.

• Negócio parasitários chineses. Para cada negócio chinês que abre, fecham 2,5 espanhóis. Esta concorrência desleal vem da mão-de-obra barata e do alívio fiscal privilegiado de que gozam, o que, por sua vez, é o resultado de acordos com o Governo chinês. A maioria dos benefícios desses "bazares orientais" (e, cada vez mais, centros comerciais, restaurantes e estabelecimentos de qualidade) são enviadas em suculentas remessas para a China, sangrando nossa economia.

• A casa real. Poderia ser uma figura tradicional e popular, um tipo de exemplo a ser seguido pelo resto da sociedade. Mas atualmente, não é. A Coroa defende os interesses da Coroa, não dos trabalhadores, e tornou-se um conglomerado de interesses empresariais privados, que estão na base de muitos problemas do Estado espanhol, incluindo a perda do Sara Ocidental e a nossa soberania nacional.

• Igreja e ONGs. Instituições altamente interessadas em ajudar os imigrantes, perpetuando a pobreza (isto é, subsidiá-la) para obter bolsas sociais dependentes e viciadas e deixar que os trabalhadores espanhóis apodram. A caixa bem conhecida da tributação da renda parece significar que somos obrigados a apoiar ― isto é, ser tolos e dar os frutos do nosso trabalho para aqueles que estão destruindo nosso país e inflando os bolsos de banqueiros e grandes empresários.

• A oligarquia capitalista espanhola. Um círculo fechado de empresários que existiam antes do regime franquista, existiu durante o mesmo, e continua e continuará a existir depois, a menos que uma autoridade determinada tenha pulso firme para colocá-los onde é devido. Se trata da maioria dos membros de conselhos administrativos das empresas do IBEX-35: 1.400 pessoas (0.0035% da população espanhola) que lidam com montantes equivalentes a 80% do PIB. A maior parte desse dinheiro deve ser arrancada das mãos dos oligarcas particulares que o acumulam e colocado nas mãos do Estado. Isso é impensável se a maioria das megacorporações espanholas não se nacionalização, especialmente nos setores mais estratégicos (bancos, petróleo, gás natural, eletricidade, mineração, imprensa, telecomunicações).

• Leis de gênero. Elas alcançaram pouco mais de duas mil condenações por meio milhão de denúncias (0,4%). Destas condenações, menos de um décimo são culpados: as prisões estão cheias de homens honestos que não quebraram um prato em suas vidas. Um número recorde de denúncias falsas, vidas arruinadas e abusos por mulheres que buscam um divórcio vantajoso, aproveitando esta lei que viola todos os direitos constitucionais. 400 homens denunciados todos os dias, 100.000 vão para o calabouço todos os anos, por causa desta lei. 75% das denúncias destituídas ou arquivadas, sem consequências para a denunciante, mas com muitas consequências para o denunciado (e para o erário público). Cada denúncia custa 3,200 euros para a UE (mais de 2 bilhões de euros desde 2004), que se destinam a tribunais, associações de advogados, psicólogos, associações de mulheres, subsídios e todos barracas de empregos estabelecido à sombra dos vários institutos de mulheres, comunidades autônomas, deputações, "fundações" etc. Os orçamentos estaduais para a "luta contra a violência de gênero" desde 2004 excedem os 12 bilhões de euros (!!). Esta superproteção para as mulheres, típica de uma sociedade decadente, criminaliza os homens pelo simples fato de serem homens e tira tudo o que eles tem, causando uma agitação social latente, que, a longo prazo, não levará a nada de bom. Mas a revogação desta lei não é útil se você não for a raiz do problema: o hembrismo ou feminismo financiado.

• Despesas psicotrópicas. Nesta categoria, incluo os investimentos surrealistas e a ajuda prestada por luminares do governo a causas peregrinas como os "gays e lésbicas" do Zimbabwe, os "direitos sexuais e reprodutivos" das mulheres na Bolívia, "relações comerciais" com Angola (7000 milhões de euros), o novo governo da Tunísia (300 milhões), mapas da sexualidade feminina, aeroportos fantasmas (Castellón, Cidade Real, Girona, Huesca, León, Lleida, Múrcia, alguns deles custaram 1 bilhão), os seis trens que comprou por 143 milhões o presidente das Baleares (apenas para descobrir que não se encaixam nas pistas), o apoio orçamentário direto a Moçambique (7 milhões), educação na Bolívia (4,6 milhões), programa pesqueiro no Sudeste Asiático (2 milhões), o "desenvolvimento rural do oriente cubano" (1,75 milhões) ou subsídios para festivais de cinema, filmes espanhóis, dias de orgulho gay e memória histórica. Esses abusos irresponsáveis, criminais e não lucrativos devem ser julgados como alta traição. Eu me recuso a acreditar que "os mercados" não permitiram e favoreceram esse tipo de movimentos de propósito para mergulhar a Espanha na miséria e empobrecer o povo espanhol. Esse dinheiro, desarraigado para o Estado, termina, mais cedo ou mais tarde, nas bolsas de valores dos bancos e das grandes empresas. Se houver dinheiro restante para despesas psicotrópicas, baixem os impostos e, se não houver o suficiente, que não desperdicem alegremente, é assim tão simples.

• Outras. Empresas público-privadas (4.700 em Espanha), sindicatos (206), empregadores (199), vários subsídios (63.000).

No entanto, todas essas despesas, aprovadas por uma casta político-econômica criminal e corrupta e que serve a si, são os que mais tardarão em suprimir-se. O que eles farão será seguir desperdiçando essas questões, aumentando a carga tributária (cortes nos salários, impostos, taxas, multas, portagens, pensões, pagamentos extras, ajudas, segurança social, descontos etc.) sobre o trabalhador espanhol.

O marxismo cultural (não econômico) dessa "esquerda caviar" é responsável por grande parte das despesas psicotrópicas do governo atual.

(Assim que traduzir a segunda e terceira parte desse artigo, postarei aqui).

NOTAS

[1] Patrocinado pela Fundação Rockefeller, Fundação Ford, Banco Mundial, UNESCO e outras organizações da globalização capitalista neoliberal da vida. Gloria Steinem, feminista americana relacionada aos serviços de Inteligência, reconheceu entre outras coisas que a revista "Miss" foi financiada pela CIA. Longe das nobres conotações que queriam atribuir, a "libertação da mulher" foi uma operação de engenharia social em benefício da elite capitalista.

[2] Accenture, Acciona, Accor Services, Adecco, Aeroportos espanhóis e navagação aérea, Aguirre Newman, Alcampo, American Nike, AT Kearney, Avon Cosmetics, Bancaja, Banco Urquijo, Banesto, Banco Santander, Bankinter, Barclays España, BBVA, Bilbao Bizkaia Kutxa-BBK, Booz & Company, BT España, Caja Madrid, Caja Navarra, Cajamar, Cajasol, Canal de Isabel II, Celer Soluciones, Citi, Clear Channel España, Coca-Cola España, Compass Group, Contrapunto, Correos, Cuatrecasas Abogados, Deloitte, Deutsche Bank, DKV Seguros, El Corte Inglés, Ericsson, Ernst & Young, Euroconsult, Europa Press, Ferrovial, Ford España, FREMAP, Freshfields Bruckhaus Deringer, Garrigues, General Electric, Genetsis, GMP, Gómez Acebo & Pombo Abogados, Grupo Arturo, Grupo Banco Popular, Grupo Caser, Grupo Cortefiel, Grupo Eulen, Grupo Fundosa, Grupo Hospitalario Quirón, Grupo Inforpress, Grupo Joly, Grupo Konecta, Grupo Lar, Grupo Norte, Grupo Redur, Grupo Siro, Grupo SOS, Grupo Vips, Hewlett-Packard Española, HOSS Intropia, Iberdrola, Iberia, Ibermutuamur, IBM España, Inditex, ING Direct, Instituto de Crédito Oficial, JPMorgan Chase, JT International Iberia, KPMG, La Caixa, Laboratorios Inas, L’Oréal España, MAPFRE, McKinse & Company, Media Responsable, Merrill Lynch, Microsoft España, MRW, Mutua Intercomarcal, ONCE, Penteo ICT Analyst, PeopleMatters, Pérez-Llorca, Phillip Morris Spain, Phillips Ibérica, PricewaterhouseCoopers, Probuilding, Prosegur, Randstad, Red Eléctrica Corporación, Renfe, Repsol, Rochefarma, Sanitas, Schindler, Sol Meliá, Supermercados Sabeco, Telecinco, Telefónica, The Boston Consulting Group, The Royal Bank of Scotland, TNS, TNT, Unidad Editorial, Unilever España, Unión Fenosa, Uría Menéndez, USP Hospitales, Vocento, Vodafone, Willis Iberia.

Essas empresas e outras são as que realmente controlam o Governo da Espanha. Deve-se acrescentar que nenhum dos executivos dessas empresas lidam com os efeitos da imigração em massa; esse é o trabalho dos trabalhadores comuns que vivem nos antigos bairros operários. 

[3] Para cada imigrante que trabalha, existem 3,9 que não trabalham. No nativos, a proporção, apesar da alta taxa de aposentados e desempregados, é de 1 por 2,6.