terça-feira, 30 de maio de 2017

Aleksandr Bovdunov - Zbigniew Brzezinski: A Morte do Demiurgo

por Aleksandr Bovdunov



Brzezinski morreu, mas continuamos a viver no mundo que ele criou

Zbignew Brzezinski está morto. Um proeminente globalista e atlantista deixou este mundo em 27 de maio de 2017. A morte foi anunciada primeiro por sua filha, a famosa apresentadora americana de TV Mika Brzezinski. Nos obituários subsequentes, apesar das diferentes cores ideológicas, a maioria ressaltou as notáveis habilidades intelectuais do morto, seu papel como conselheiro do presidente Carter de 1977 a 1981, e também sua contribuição significativa para o estudo das relações internacionais. Porém, Brzezinski não era apenas um cientista político ou estadista talentoso. Ele foi um dos arquitetos da ordem mundial existente em todos os seus aspectos: das estruturas globalistas influentes ao terrorismo internacional, do conceito de "totalitarismo" enfiado na mente de todo graduado nas faculdades de ciência política ao bloco sino-americano que pôs fim ao projeto soviético. Brzezinski foi de soldado a un dos generais da Guerra Fria, vencida pelos EUA

Geopolítica como Destino

Zbignew Brzezinski era um atlantista consistente. A escolha geopolítica a favor das Potências Marítimas, Grã-Bretanha, e posteriormente EUA, se tornou a questão principal no destino desse filho da Polônia. Como atlantista, ele era bastante consciente de que a principal ameaça aos planos de dominação mundial dos EUA era o poder continental da Rússia, e posteriormente o soviético. A confronto com a Rússia se tornou o sentido de sua vida. E mesmo após o colapso da URSS e do comunismo, Brzezinski se opôs radicalmente a todos os intentos imperiais de Moscou. Ao mesmo tempo, Brzezinski era um liberal consistente no sentido de que, em contraste com realistas nas relações internacionais, ele tinha o fator ideológico em alta conta, acreditava na necessidade de promover valores liberal-democráticos por todo o mundo e acreditava em uma utopia globalista. Brzezinski fundiu uma profunda compreensão da geopolítica (a mais brilhante obra "geopolítica", "O Grande Tabuleiro de Xadrez") e a adesão à abordagem liberal nas relações internacionais. Neste sentido, a Rússia era para ele o inimigo ideal, já que sua oposição ao Ocidente era causado não só por razões geopolíticas, mas não raro estava pintada em cores ideológicas. Quando Brzezinski disse amar a Rússia, ele não mentiu: em seus conceitos, ele deixava um lugar para ela, mas essa seria uma outra Rússia, com outra configuração territorial e orientação ideológica.

Avô do Terror

No esquema da doutrina do confronto com a Rússia durante a Guerra do Afeganistão, Brzezinski fez o possível para ressuscitar o islamismo militante das cinzas e voltá-lo contra os soviéticos. Ele se encontrou pessoalmente com seus líderes, inclusive com o bilionário saudita Osama bin Laden, e persuadiu o presidente Carter a apoiar os mujahideen no Afeganistão. O processo inaugurado por Brzezinski levou à emergência de um novo fenômeno no mundo islâmico, o terrorismo global. Islamistas educados pelos EUA se tornaram um novo fator nas relações internacionais, ultrapassando os terroristas esquerdistas e nacionalistas dos anos 70 em todos os sentidos. Posteriormente, quando os próprios EUA entraram em rota de colisão com este inimigo, Brzezinski afirmou que ele não se arrependia da escolha feita na virada da década de 80. Os islamistas esmagaram o principal inimigo ideológico e geopolítico dos EUA, a Rússia soviética, apesar de eles próprios representarem uma ameaça, mas uma menos perigosa do seu ponto de vista. 

Pai da Trilateral

Brzezinski foi um dos que esteve nas origens da Comissão Trilateral. Junto a David Rockefeller em 1973, ele se tornou um dos fundadores da instituição globalista cujo objetivo era unificar as elites políticas e econômicas dos EUA, Europa e Japão. É claro, o objetivo imediato era fortalecer laços entre os centros do pólo pró-americano (o chamado "Mundo Livre") do sistema mundial bipolar. Mas nem o próprio Brzezinski, nem Rockefeller ocultavam que o objetivo final era um mundo unificado sob controle da elite global. Em sua obra dos anos 70 "Entre as Duas Eras: O Papel Americano na Era Tecnocrática", Brzezinski justificou a necessidade de criar tais centros de reconciliação e governança global. De 1973 a 1976 ele foi o presidente da Comissão Trilateral. Este famoso cientista político também se uniu ao Conselho de Relações Exteriores (CFR) e ao Clube Bilderberg.

A Teoria do Totalitarismo

Junto a outro cientista político americano, Carl Joachim Friedrich, Brzezinski promoveu a popularização da teoria do "totalitarismo". Desenvolvendo as ideias de Hannah Arendt, que uniu os regimes nazista e comunista em uma única categoria, Brzezinski e Friedrich não obstante desafiaram a tese de Arendt de que os regimes totalitários estão opostos, em suas origens, às autocracias tradicionais. Para Brzezinski, o totalitarismo é uma das formas de autocracia que é característica da era industrial. Assim, o totalitarismo soviético era para ele não algo novo, alienígena à história da Rússia, mas uma continuação do Estado autocrático histórico. Por outro lado, essa posição demonstra o rigorismo liberal de Brzezinski que essencialmente introduziu a classificação dicotômica de "regimes democráticos contra todos os outros".

Tudo que não fosse uma democracia liberal neste sistema, a qual, apesar de críticas, era usualmente tomada como garantida pelo pensamento ocidental comum, era situado na mesma categoria que o fascismo e, assim, ostracizado.

Escolha Chinesa

Um dos principais sucessos de Brzezinski em política externa foi a continuação da política de aproximação com a China, começada sob Henry Kissinger. Como resultado, foram estabelecidas relações diplomáticas entre EUA e China e a RPC se tornou um aliado de facto dos EUA na Guerra Fria contra a URSS. No caso da China, Brzezinski preferiu seguir a lógica geopolítica, como potência da Rimland (NT: a periferia da Eurásia, a região circundante da Heartland), a China podia ser tanto atlantista como eurasiana, mas diferentemente da Rússia ela não controlava territórios significativos do continente eurasiático, primariamente a Heartland. Posteriormente nos anos 2000, Brzezinski falou nos "Dois Grandes", um sistema mundial dominado pelas duas potências, EUA e China, como uma alternativa interessante à atual instabilidade. É graças a Brzezinski (mas não só a ele) que hoje vivemos em um mundo onde muito depende das relações entre EUA e RPC. Os dois vencedores e aliados inevitavelmente chegam a uma concorrência global tal como os aliados anglo-americanos e a URSS após a Segunda Guerra Mundial.

Fantoche Negro

A mais recente contribuição de Brzezinski à política mundial foi a presidência de Obama. O geopolítico foi um auxiliar ao candidato presidencial negro, e após a campanha eleitoral Brzezinski foi às vezes chamado "o cardinal cinzento de Obama". Parece que este definitivamente tentou seguir as recomendações de um idoso cientista político, como expressadas por ele no livro "Segunda Chance: Três Presidentes e a Crise da Superpotência Americana". Em particular, a "Primavera Árabe" pode ser explicada pelas tentativas americanas de adotar o conceito de "despertar democrático global" de Brzezinski. Os EUa tentaram reorientar forças no mundo árabe que estavam insatisfeitas com o déficit de democracia em seus países na direção dos EUA e seus ideais liberais, apesar de esse déficit geralmente estar organizado por regimes pró-americanos. Em relação à Rússia nessa obra, Brzezinski propunha aplicar a estratégia de engagamento, integração em projetos ocidentais, que se tornou base do famoso "reset". Mas algo deu errado.

A reunificação russa com a Crimeia foi um ponto de virada, quando todos perceberam que não haveria engajamento real no futuro próximo. A Primavera Árabe terminou com uma nova onda de terror. Terroristas islâmicos sempre foram uns dos principais beneficiários das ideias de Brzezinski. A ascensão de Trump ao poder supostamente arruinou o velho homem. Segundo suas próprias palavras, ele não acreditava que isso poderia ocorrer. A China, apesar do encontro entre Trump e Xi Jinping organizado por seu amigo e adversário Henry Kissinger, é mais um competidor que um parceiro na divisão do mundo. Brzezinski morreu, deixando o mundo criado por ele em uma condição enfraquecida.

Morte do Pensamento

Com sua morte, toda uma era e estilo de pensamento se vão. Não. A russofobia e a abordagem geopolítica continuarão presentes por um longo tempo na política externa americana. É algo mais. Na segunda metade do século XX, pelo menos no que concerne a política externa, imigrantes europeus pensavam no lugar dos americanos: fossem pessoas nascidas na Europa e migradas para os EUA, como Kissinger ou Morgenthau, ou o próprio Brzezinski, ou com raras mas importantes exceções, como Samuel Huntington, eles eram representantes da diáspora judaico-americana, filhos de emigrantes da Europa, criados na cultura europeia. Isso se aplica a neoconservadores, adeptos do judeu alemão Leo Strauss. Mesmo Francis Fukuyama e seu "Fim da História" não poderiam existir sem a influência do estudante de Strauss Alan Bloom. Em outras palavras, o sucesso intelectual da velha e não-americanizada Europa, paradoxalmente, serviu para o sucesso americano. Com a partida de dinossauros como Brzezinski e Kissinger, este recurso se exaurirá. A velha geração de neocons também morre, e a nova só aprendeu com eles a amar Israel e odiar a Rússia, mas não a pensar. Se a América será capaz de começar a pensar com sua própria cabeça após a partida de sua elite intelectual em política externa de origem europeia é uma grande questão. 

sábado, 27 de maio de 2017

Forças Armadas Peronistas - Por que Somos Peronistas?

por Forças Armadas Peronistas



Em 1945 o país estava em um período de progresso e ascensão econômica. Estava crescendo internamente, à medida que os centros industriais cresciam no interior do país e o governo podia contar com grandes reservas monetárias externamente. Esta situação geral tornou possível o aparecimento do fenômeno peronista, principalmente devido a três fatores:

1 - O aparecimento da indústria nacional, fruto da prosperidade geral, das condições do mercado internacional do pós-guerra e das condições do mercado interno devido à escassez de material manufaturado.
2 - Os inícios da penetração dos ianques como consequência do enfraquecimento do Império Britânico e da expansão da América do Norte.
3 - Migração interna. Como consequência do crescimento da indústria surgiu um novo proletariado urbano proveniente do interior do país de origem crioula, não politizado e numa situação de desorientação total. No entanto, apesar da prosperidade econômica florescente, a situação da classe trabalhadora era de exploração, condições de trabalho precárias e ausência de regulamentações trabalhistas, aposentadorias e proteção social.

O coronel Perón colocou-se à frente do movimento nacionalista - unido por setores da burguesia nacional e do exército - e a classe operária organizada com este novo proletariado urbano, tomando como bandeiras a defesa da indústria nacional nascente, a luta contra a penetração ianque e as exigências sociais da classe trabalhadora.

O 17 de outubro de 1945 foi a primeira ação de massas da classe operária argentina, foi o despertar político dos descamisados, foi o encontro do Povo com seu líder, que o elevou para que atingisse seu mais alto nível de consciência: a consciência de sua missão e destino históricos. Centenas de milhares de homens e mulheres foram mobilizados em massa para impor sua vontade e reconquistar o poder. Tivemos aqui a poderosa e nova força dos trabalhadores contra os valores obsoletos da oligarquia imperialista e exploradora.

O peronismo deve seu nascimento à erupção dos trabalhadores na vida nacional como co-participantes na construção da nova Argentina. No campo internacional significou o avanço dos países do Terceiro Mundo, que buscavam seu próprio caminho fora das duas potências hegemônicas.

A partir de 1945, o peronismo, como movimento antiimperialista, popular e nacionalista, iniciou o processo democrático burguês no país. No campo econômico representou a defesa da riqueza do país contra mãos estrangeiras. A dívida externa foi reembolsada (somando 40% de nossos recursos e reservas). Os transportes, gás, telefone e eletricidade foram nacionalizados. A nacionalização do Banco Central permitiu o uso da poupança nacional para o desenvolvimento do país. O preço dos materiais primários exportados e importados foi assegurado através do IAPI.

No entanto, as estruturas de poder oligárquico não foram modificadas em seus aspectos econômicos.

Uma série de reivindicações sociais autênticas foram expressas: os direitos dos trabalhadores, da família, dos idosos e o direito à educação foram regulamentados. A participação no governo foi concedida ao povo, concedendo o voto às mulheres e aos povos indígenas; A classe trabalhadora participava diretamente no poder político e havia ministros, governadores, deputados, senadores e diplomatas operários; A distribuição da renda nacional permitiu a melhoria das condições de vida da classe trabalhadora. As proporções foram revertidas em favor dos trabalhadores, que recebiam 66% da renda nacional.

Politicamente, o proletariado recebeu consciência de classe e consciência de seu poder, e graças a isso a possibilidade de participar da liderança do país.

Os confrontos começaram com o desaparecimento das prósperas condições do pós-guerra. Houve luta de classes dentro do movimento peronista. O exército participou da industrialização, mas não com uma política socialmente progressista. A burguesia queria aumentar ainda mais seus próprios lucros, negociando com o imperialismo, e os burocratas não fizeram nada além de paralisar o processo. Diante deles, as "pequenas cabeças negras" e os "gordurosos" - como eles chamavam o povo - tendiam a radicalizar a política social. O aumento da consciência política exigiu o aprofundamento dos slogans e políticas nacionais revolucionários, bem como a participação dos trabalhadores nas decisões da liderança.

No entanto, a liderança do movimento permaneceu nas mãos da burguesia nacional todo-poderosa e da burocracia sindical e política. Sem combatividade de classe, sem a presença revolucionária de Evita, abundaram as conquistas fáceis. O Povo viveu a euforia do progresso ilimitado, não tomando consciência da necessidade de destruir as estruturas que sustentam a oligarquia e seus interesses, a fim de conseguir uma distribuição efetiva dos bens de produção. A democracia do movimento estava paralisada.

Foi assim que o processo foi paralisado e as forças anteriormente unidas em uma ampla frente anti-imperialista se dispensaram e se acabaram com um choque: a frente foi rompida.

Desde 1955 14 anos se passaram nos quais a minoria oligárquica assumiu o poder, espoliando o povo e Perón do governo. Neste 14 anos o peronismo instituiu uma luta nas frentes mais diversas para reconquistar o poder. Durante estes 14 anos os caminhos tomados não estiveram no ápice de sua condição revolucionária e tiveram em comum seu espontaneísmo. Eles foram: golpismo, eleitoralismo, burocracia reformista ou traidora usualmente em contato com comandantes militares, terrorismo e sabotagem, que só levaram a becos-sem-saída. As sucessivas crises militares, o triunfo militar, o massivo e popular triunfo do peronismo em 18 de março de 1962, a derrubada de Frondizi, a nova crise militar demonstraram isso.

O 18 de março demonstrou que a oligarquia não estava disposta a render o governo ou o poder por uma questão de mais ou menos votos. O golpe de 28 de junho de 1966 representou a continuação genuína da oligarquia, despida hoje de falsas máscaras pelas forças armadas que, nessa conjuntura, são a única estrutura capaz de defender efetivamente os interesses da oligarquia e do imperialismo.

A falta de uma ideologia coerente e de uma estratégia revolucionária que fornecesse um esquema, os distintos métodos separadamente empregados provocaram a dispersão atual do peronismo, e o levou à derrota várias vezes.

Mas estes anos de luta permitiram que ele aprendesse, permitiram ver que a situação da Argentina e do peronismo é aprte de um processo de libertação da América Latina. Estes anos de luta e rebelião permitiram a formação de um novo peronismo que tenta integrar todas as suas derrotas, todas as suas experiências.

Hoje, quando a burguesia é incapaz de liderar qualquer processo histórico revolucionário; hoje quando o processo se apresenta em termos inseparáveis da Revolução Social e da Libertação Nacional, a força histórica do peronismo como expressão da classe trabalhadora não pode ser igualada.

SOMOS PERONISTAS porque, crendo na força do peronismo, devemos continuar e aprofundar suas atividades segundo as novas demandas históricas e as novas conjunturas nacionais e internacionais.

SOMOS PERONISTAS porque existe uma continuidade clara entre a grandeza nacional iniciada pelo peronismo no governo e aquela que reaparecerá com novas e superiores formas de luta, tudo enquanto integramos estas com os estandartes de nossos primeiros dias. À estratégia contrarrevolucionária de opressão e miséria, de vergonha e privilégio do regime que existiu desde 1955, oporemos a estratégia revolucionária de tomar o poder pela luta armada.

Aqueles que veem em Perón um obstáculo para levar à frente a luta armada carecem da clareza de ver a continuidade histórica que existe entre o processo de 1945-1955, a busca pela estrada que leva ao poder nos últimos 14 anos, e o novo caminho através da luta revolucionária que o peronismo está iniciando e que é a culminação das duas fases anteriores.

SOMOS PERONISTAS e afirmamos o estandarte do retorno de Perón, porque esta é uma autêntica demanda popular. Porque para além da forma e da aparência, o povo não pede pelo retorno de um homem, mas do que ele encarna e é; sua participação na lidernaça do país.

Pois Perón é um fenômeno que não pode ser contido em qualquer sistema. A possibilidade de negociação entre Perón e o regime não tem existência real, e o significado de Perón na Argentina são os milhares e milhares de descamisados nas ruas. Por isso Perón e o peronismo são uma oposição inassimilável ao regime, e essa realidade é independente do próprio Perón.

SOMOS PERONISTAS e lutamos pelo retorno de Perón porque temos confiança no povo, sentimos com ele e não o consideramos como algo que possa ser conquistado por uma seita de iluminados. Só podemos ter um método: tomar as demandas do povo como nossa bandeira e aspirar a outras ainda maiores junto ao povo.

Che disse que não se deve se afastar demais do povo, nem se misturar totalmente com ele, deixando assim de ser a vanguarda. Fazer isso significaria não ver as necessidades reais do povo e assumir outras que até agora foram pura teoria e que o povo não sente ser suas. A segunda seria aceitar que Perón deve vir para fazer a revolução, sem explicar que apenas uma revolução em marcha pode trazer Perón.

SOMOS PERONISTAS e por causa disso afirmamos que da tuba do peronismo deve vir a Vanguarda Revolucionária capaz de liderar o Povo à única solução para o país e para a classe trabalhadora, A TOMADA POLÍTICA E ECONÔMICA DO PODER, para a criação de uma Argentina Justa, Livre e Soberana.

FORÇAS ARMADAS PERONISTAS
Argentina 1969

terça-feira, 23 de maio de 2017

Winston Wu - Oito razões pelas quais os americanos modernos parecem desalmados e inumanos

por Winston Wu



Você já notou (mas nunca ousou contar a ninguém sobre isso) que os americanos modernos parecem desalmados e inumanos, como se eles carecessem de calor e sentimento? Bem, não é coisa de sua cabeça. Até programas de TV e filmes refletem isso. 

Você pode ter notado que os programas de TV e filmes dos anos 60 e 70 tinham personagens muito diferentes de hoje. Os personagens daqueles dias exalavam bondade, calor, sentimento e uma moral forte. Os personagens principais nunca eram idiotas, mesmo que fossem heróis de ação. Eles cuidavam dos outros, e eram simpáticos e amigáveis, como pessoas que você ficaria feliz em sair com. E eles tinham um ar de familiaridade, como se fossem parte de sua família. Os espectadores sentiam um apego emocional a eles. Cenas de amor e drama estavam cheias de emoção e sentimento genuíno. Até mesmo a música em antigos programas de TV e filmes eram muito românticas. 

Mas os modernos programas de TV e filmes têm personagens frios, indiferentes, arenosos que parecem sem alma, desumano e desprovido de sentimento ou calor. Todos eles se preocupam é atuar duro e mal. Sem investimento emocional neles, você nem se importa se eles vivem ou morrem. Infelizmente, eu acho que isso reflete a atitude dos jovens americanos modernos (ou é suposto). 

É como um filme de terror de ficção científica de 1978, "Vampiros de Almas", com Donald Sutherland. Nesse grande filme clássico, vagens alienígenas replicam seres humanos na Terra em clones alienígenas que estão desprovidos de qualquer emoção ou sentimento. No final, todos na cidade de São Francisco se transformaram em clones desalmados e desumanos. É preciso se perguntar se os cineastas estavam tentando nos dizer algo, já que o cenário do filme tão frio descreve com precisão a América moderna. Além disso, os seres humanos só obtêm replicas quando eles "vão dormir", que foi um grande trocadilho, intencional ou não

Muitos estrangeiros conscientes têm observado que os americanos parecem ser desalmados e só têm olhos para o dinheiro. É como se a "força vital" tivesse sido drenada ou sugada para fora deles. Agora, eu não vejo como seria até possível sugar a alma ou a força vital de uma nação inteira, então só posso me perguntar se algo "fora deste mundo" está acontecendo em um nível mais alto ou mais profundo da realidade. (A realidade é multi-camadas, afinal, com camadas físicas e não-físicas). É como se forças extra-dimensionais invisíveis estivessem funcionando. 

No entanto, uma vez que eu não posso especular sobre coisas invisíveis, Só posso tentar encontrar razões e causas físicas mais terrenas. Então, aqui estão alguns pontos que eu ofereço com base na minha especulação e suposições educadas.

1. Os americanos são condicionados a ter um único objetivo de vida, que é ganhar dinheiro. Eles são ensinados que a vida e tudo é tudo negócio. Um estilo de vida workaholic é considerado a norma que se esforçam. Um foco tão estreito sobre a vida suprime a sua criatividade e imaginação, e torna-os aborrecido também.

Na América, a busca do dinheiro SUBSTITUIU a alma humana. Assim, os olhos dos americanos parecem vazios e plásticos, sem alma nem paixão. Seus olhos também parecem deprimidos também, como se estivessem sobrecarregados de trabalho e estivessem consumindo demais com nada mais para viver.

Além disso, o custo cada vez maior de vida na América (devido à inflação e as práticas ilegais da Reserva Federal e da elite bancária), que tem saído do controle, tem perpetuado a necessidade de viver um estilo de vida workaholic para manter-se.

A maioria dos americanos não percebe o quão insano é viver em uma tarefa monótona e árdua. Eles nunca param para se perguntar esta questão esclarecedora: Qual é a razão de ganhar a vida se tudo que você faz todos os dias é trabalhar para ganhar a vida? Afinal, não há "viver" para fazer se não há tempo ou liberdade para "viver" e fazer o que quiser certo? Assim, a frase "fazer a vida" torna-se uma autocontradição e oxímoro.

2. Os americanos são condicionados a serem materialistas e derivam felicidade do consumismo e das posses materiais. Assim, seu foco está no externo e não no interno. Como resultado, eles não cultivam seu eu interior ou alma e, assim, tornam-se sem alma. Isto explica porquê as pessoas que são altamente materialistas parecem ter olhos vazios sem alma, sem interior próprio ou espírito irradiando dentro, e falta verdadeira paixão também.

Os americanos também trocam a felicidade pelo conforto, seguindo o sistema em vez de sua alma. Este é um grande erro, porque quando você se concentra no conforto do corpo e negligencia os desejos de sua alma, coração ou espírito, você se nega e vive uma vida muito falsa e inautêntica.

3. Os americanos são condicionados a viver com medo e paranóia. Alguém me disse uma vez: "Os carros funcionam com combustível, os americanos funcionam com medo". A típica mentalidade, personalidade e atitude americana está em um estado de consciência de medo. Você pode ver em sua personalidade, linguagem corporal e vibração. Sua mídia perpetua o medo alimentando-os de más notícias e tragédias todos os dias. Estudos mostram que quanto mais você assiste à notícia, mais paranóico você se torna, o que não é surpresa.

Mas mesmo se eles ouvirem os meios alternativos, eles ainda serão temerosos, porque a mídia alternativa lhes diz que seu inimigo é seu próprio governo e as mentiras, corrupções e conspirações dos poderes que estão. Assim, eles são sempre mantidos com medo de alguma coisa, seja por fontes do establishment ou fontes alternativas.

A coisa é, ter medo quando há perigo real envolvido é normal e necessário para a sobrevivência. Mas os americanos estão em um modo de medo sobre tudo, até o ponto onde ele domina seu estado de mente e consciência, tornando-se excessivo e além da razão. Eles até começam a temer coisas que não existem. Como resultado, eles vêem cada estranho como um potencial psicopata, criminoso ou terrorista.

O que é irônico é que em países estrangeiros onde há um nível mais alto de perigo e crime, as pessoas não são tão paranóicas. Por exemplo, a Rússia, o México e as Filipinas têm crimes mais elevados nas suas ruas do que os EUA, mas ainda assim as pessoas não são paranóicas ou estão em constante estado de medo. Nesses países, você pode caminhar até estranhos (incluindo mulheres) e falar com eles e eles ficaram relaxados e confortáveis. Ao contrário dos americanos, eles não têm medos imaginários. Em vez disso, eles estão mais em contato com a realidade e suas personalidades são mais pé-no-chão.

Eu até me arriscaria a supor que os americanos projetam seus medos e falta de liberdade para outras nações. Eles vêem as pessoas em outras nações como vivendo com medo, sendo indelicado e sem liberdade, enquanto eles mesmos são amigáveis, calorosos e abertos, mesmo que a verdade seja exatamente o oposto.

O problema de estar em um estado perpétuo de medo, ou de estar em consciência de medo, é que ele diminui seus níveis de energia e chakra para uma vibração lenta, o que o torna menos consciente e prejudica sua capacidade de pensar claramente. Inibe o seu potencial de crescimento, criatividade, abertura, aventura e novas idéias. Como resultado, sua alma/espírito torna-se de baixa densidade e menos vibrante. Ao invés de estar no fogo, você se sente fraco e impotente.

A conseqüência é que o medo restringe sua mente. Quanto mais temeroso você é, mais estreita sua mentalidade é. Mas, quanto menos medo você tem, mais mente aberta você é e, juntamente com ela, sua imaginação, criatividade e alma irão florescer e se expandir também.

4. Os americanos não são curiosos nem são atraídos pela novidade. Eles preferem a familiaridade com a novidade, e falta de curiosidade. Assim, eles não são atraídos por novas idéias, novas pessoas e coisas novas. Em vez disso, procuram o familiar e a rotina, nas pessoas e nas coisas, e não confiam no desconhecido.

Isso explica o motivo dos americanos não estarem à vontade para conhecer novas pessoas e porque não gostam de conversar com estranhos, a menos que seja apenas para negócios. A vida social americana é altamente exclusivista, o que significa que é limitado a dentro de grupos que são fechados e EXCLUSIVO. Preferindo familiaridade, os americanos só se socializam com amigos estabelecidos em sua camarilha social, e não estão abertos com estranhos. Para estranhos, eles tendem a ser distante, como se todo mundo fosse esperado para ocupar-se de seus próprios negócios.

O problema com a vida social sendo limitado a camarilhas é que camarilhas por natureza são fechadas e exclusivas. Assim, as pessoas dentro delas vão ter uma atitude e mentalidade que é "fechada e exclusiva" também (ou esnobe e preso em outras palavras). Portanto, para entrar em um camarilha , é preciso ser "fechado e exclusivo" você mesmo. Caso contrário, você terá um tempo difícil de quebrar, pois você não estará no mesmo comprimento de onda que as pessoas neles.

(O que é interessante notar é que quando dois estranhos americanos se encontram num país estrangeiro, eles são muito mais propensos a iniciar uma conversa e fazer perguntas sobre si, do que se tivessem se conhecido na América, o que fala muito sobre o assunto)

Este é especialmente o caso com as mulheres na América. Estudos mostram que as mulheres preferem a familiaridade, enquanto os homens são mais atraídos pela novidade. Veja aqui

Assim, as mulheres na América são mais exclusivista e socialmente fechadas quando se trata de conhecer novas pessoas e socializar com estranhos, do que os homens são. Este é um padrão consistente que eu vi uma e outra vez. Não há dúvida. 

O significado aqui é que as pessoas que são mais curiosas, mais abertas, procuram novas experiências e são atraídas para a novidade, tendem a ser mais apaixonadas, criativas e imaginativas do que aqueles que não são. Assim eles parecerão mais vivos e com alma também.

5. Os americanos são ensinados a cuidar apenas de si mesmos, ser independente e não precisar de outros. Como resultado, eles são socialmente desconectados e distantes dos outros. Como se costuma dizer, todo homem é uma ilha. Por padrão, há uma "barreira de gelo" entre estranhos, daí o termo "quebrar o gelo". Os americanos não falam com estranhos, a menos que seus negócios  estejam relacionados.

A maioria das amizades são fachadas e mais de uma relação de amizade do que uma verdadeira amizade. A verdadeira amizade, conexão, camaradagem, amor, romance, comunidade e valores familiares, não existem na sua forma natural na América moderna.

Internamente, os americanos são frios e insensíveis, embora com falsos sorrisos de plástico, bem como arrogante e babacas. Na verdade, a televisão americana moderna e os filmes idolatram personagens que são assassinos impiedosos sem sentimentos, que refletem a típica personalidade americana moderna, infelizmente. Em contraste, programas de televisão no passado (antes da década de 1990) apresentavam personagens que eram calorosos e atenciosos. Os  americanos acreditam que para ser verdadeiramente independente e não precisar de outros, é preciso ficar frio e indiferente. Isso os faz parecer sem alma também.

6. Nas escolas públicas americanas, a imaginação e a criatividade são suprimidas, não cultivadas. As crianças são condicionadas a utilizar a parte esquerda do cérebro por etapas conseguintes, memorizando dados e repetindo-o em testes. Isso os torna o cérebro esquerdo dominante, ignorando o cérebro direito, que controla a criatividade, imaginação e pensamentos livros. Como resultado, eles se tornam robóticos, zumbis e maçantes. Eles também se tornam rígidos e não tão abertos a novas idéias. Esse é o objetivo do sistema americano, infelizmente, que trata tudo como um negócio, incluindo as pessoas.

No fundo, as pessoas podem sentir intuitivamente que foram suprimidas e controladas em uma existência inautêntica. É por isso que seus rostos parecem deprimidos, vazios e mal-humorados. Sua "força vital" foi suprimida e morta. Eles podem sentir que algo está errado, mas não podem conscientemente entender o por quê. Então eles sentem esta insatisfação e vazio constante. Mas ao invés de se envolver na introspecção, eles se envolvem no consumismo e ganhar dinheiro. Mas, em última análise, nada disso leva à verdadeira felicidade, alegria ou satisfação.

7. Alimentos na América contém mais ingredientes processados do que em qualquer outro país. Basta olhar para as etiquetas de alimentos no supermercado na América e você verá o que quero dizer. Há tantos ingredientes processados e aditivos listados que você não pode sequer pronunciar. Não é assim em outros países. E quem sabe o que esses OGMs (organismos geneticamente modificados) da Monsanto, que agora estão na maioria dos alimentos americanos, estão nos fazendo geneticamente.

Você conhece o provérbio, "você é o que você come". Bem, se a maioria do que você come todos os dias contém uma grande quantidade de ingredientes artificiais processados, então a lógica seria seguir que você vai se tornar "artificial e processado", não é? Assim, quanto mais "artificial e processado" você se tornar, menos você parecerá estar vivo e com alma.

8. A arquitetura na América é maçante e sem alma. Os edifícios na maior parte da América, como o projeto arquitetônico dos subúrbios, shoppings e escritórios corporativos, não têm estilo ou criatividade. Eles parecem sem alma, vazio, deprimente, rígido e conformista, especialmente em comparação com a rica arquitetura colorida e criativa na Europa. Como resultado, a arquitetura sem alma que envolve os americanos deve desempenhar um papel em torná-los desalmados também, uma vez que o ambiente externo exerce influencia sobre as pessoas.

As conseqüências solitárias da não conformidade

No que diz respeito a estas prováveis ​​razões pelas quais os americanos parecem tão sem alma, a triste implicação é que se você não compartilha essas mesmas qualidades, e se você é um pensador livre com uma alma, então você estará em um comprimento de onda diferente e não será capaz de se conectar com outros.

Como conseqüência, você pode ser ostracizado da vida social, deixando sentir-se só, alienado e isolado. Será difícil para você fazer amigos, sair ou se divertir. Você vai ter dificuldade em quebrar a camarilhas, que são obrigatórios para ter uma vida social na América, porque como mencionado anteriormente, as pessoas (especialmente as mulheres) são apenas sociais dentro de camarilhas exclusivistas, eles não saem e conhecem novas pessoas.

Como resultado, a vida vai se entediante, vazia e deprimente. Você não terá nenhuma ação em sua vida. E você será ignorado e ficará perguntando: "O que aconteceu com o mito da América aberta e selvagem mostrada na mídia?" Porque a realidade é que todo mundo está fechado e reservado, especialmente as mulheres.

No entanto, você não pode simplesmente "fingir" para se encaixar. Como percebeu, se você estiver em um comprimento de onda ou freqüência diferente do que outros, eles vão sentir isso e SENTIR também. Eles ficarão estranhos por você sem saber por quê. Se você estiver no comprimento de onda polar oposto a eles, começarão a temê-lo. Você vai agir como um "espelho" para eles que lhes mostra o que eles realmente se tornaram, o que os torna desconfortáveis. Afinal, a escuridão teme a luz.

Os países do noroeste da Ásia compartilham os mesmos traços desalmados

Mas os traços dominantes acima não se aplicam apenas aos norteamericanos. Eu descobri que eles se aplicam a países do noroeste da Ásia também. Por isso quero dizer pessoas de Taiwan, Japão, Coréia e Singapura. Esses países também suprimem as almas de seus povos para que eles possam se tornar workaholics. Como os americanos, eles são reprimidos, vivem em medo e paranóia, e limitam sua vida social dentro de grupos fechados.

Assim, eles não estão abertos, não fazem contato visual com estranhos, e não ficam relaxados. Eles preferem a familiaridade invés da novidade, e são altamente conformistas também. Sua mentalidade é um pensamento de grupo. (Mas como Aaron Russo disse, "pensamento grupal" é não pensar.") Nestas maneiras, os asiáticos do Norte são muito semelhantes aos americanos.

(O que é engraçado é que o Noroeste da Ásia é enganado por Hollywood em pensar que a América é muito aberta e selvagem, mas é tudo ilusão, é claro.)

Assim, se você é um pensador de mente aberta, você não se encaixará lá e não se conectará com qualquer pessoa de lá, deixando o sentimento de estar alienado, isolado e só também. Vai ser difícil de fazer amigos, participar de redes sociais, se divertir, ou conseguir encontros lá desde que sua vibe e comprimento de onda será diferente dos outros. Então, eu evitaria os países asiáticos do noroeste também, se você não se encaixasse em tais culturas conformistas reprimidas. Caso contrário, você vai se sentir ostracizado e entediado lá.

Por exemplo, no meu país natal de Taiwan, percebo a mesma correlação que na América. Os taiwaneses vivem em um alto grau de medo e paranóia, e são condicionados a ser workaholics com muito poucos interesses. Eles estão focados em coisas materialistas externas e só se preocupam com questões práticas. Não há foco no interno, e nenhum cultivo da alma. Assim eles parecem desalmados também.

Portanto, eu também não posso me conectar com taiwaneses e me sinto excluído dos grupos sociais. Seu comprimento de onda é bem diferente do meu. Além disso, sua vida social é confinada dentro de grupos exclusivos fechados também, e as mulheres não falam com estranhos.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Jorge Cuello - A Terceira Posição de Perón na Era da Quarta Teoria Política de Dugin

por Jorge Cuello



Corria o mesmo de agosto de 1945 quando uma das operações militares mais crueis de que se tem memória se concretiza sobre Hiroshima e Nagasaki, cidades do Japão. Ambas foram arrasadas com bombas atômicas, armas espantosas usadas pela primeira vez na história humana.

Os intensos reflexos dos átomos se decompondo, como luzes de um novo amanhecer nos tempos dos homens, anunciavam o nascimento da Era Atômica. E sobre suas cinzas radiativas, assinaram os vencedores as Atas que punham fim à Segunda Guerra Mundial. Com ela chegava também ao fim de seu ciclo histórico a Modernidade. Desde então, a tecnologia e seus sacerdotes tecnotrônicos se encarregariam de substituir os grandes poetas e músicos, estrategistas, estadistas, Papas, filósofos e notáveis artistas de todas as disciplinas que aquela época deu à humanidade. A nova Escola de Frankfurt, transferida aos EUA, se encarregaria de assentar as bases teórico-práticas para a dissolução definitiva daquele mundo e preparar os povos para o novo sistema que sucederia, o Governo Mundial neoliberal e sua ala cultural, o progressismo mundialista neomarxista, gramsciano. Ambos configuram a nova era, a era pós-moderna.

Daquele novo mundo que nascia iluminado pelo fogo atômico, assomavam duas potências formidáveis, impetosos como leões famintos por territórios: Rússia e Estados Unidos da América do Norte, duas superpotências extra-europeias. Uma eurasiática, e outra americana. Com os anos fomos dando conta que, na realidade, começaram neste então a montar algo inimaginável, um espetáculo mundial, nunca visto: dividir artificialmente o Mundo em duas esferas de influência para que, como dois pólos dialéticos, montassem um cenário de um confronto que nunca existiu na cúspide e que, nos níveis inferiores da pirâmide do Poder Mundial o originavam somente para espartilhar as nações que cada um submetia em sua zona exclusiva. Ainda que sendo novos impérios realizavam comércio entre si e se punham de acordo nas cúspides para seguir com a farsa dialética engana-trouxas e dominar caprichosamente o mundo. Assim, diz Perón, "os russos invadiram a Tchecoslováquia com o okay dos ianques e estes invadiram o Panamá com o okay dos russos".

Primeira conclusão: é também evidente que se analisamos sem ideologismos nem preconceitos os fatos aos quais fazemos referência, a derrotada na Segunda Guerra Mundial foi, na verdade, a Europa, toda a Europa. E não só os países centrais e sua vanguarda, a Alemanha.

Este foi realmente um retrocesso ou, se preferirem, um desvio da evolução histórica da humanidade, que até 1939 tinha na Europa sua locomotora universal.

Porque a Europa estava em uma fase de transformação da ordem demoliberal. Novos Estados tradicionalistas que, fundados em tradições milenares de seus povos, na religião que unia seus homens, nas hierarquizações sociais novas, haviam criado uma nova organização naiconal com novas instituições segundo as características de cada um deles. Assim, uma nova ordem europeia, estruturada por Estados fortes, e a novidade, planificadores da economia nacional, estava nascendo pujante e realizadora. Os movimentos, multitudinários, nacionalistas e populares nos quais se baseavam, rechaçavam por igual tanto o liberalismo como o marxismo. Refundar os Estados implica a existência de um Poder fundador interno na nação em questão, independente, soberano, capaz de realizar exitosamente a obra. Este conjunto de poderes nacionais europeus, se tornaram assim perigosos para as potências dominantes, liberais e marxistas. Para meu modesto entendimento, este foi, considerando hoje aqueles fatos, o verdadeiro quid Político daquela questão. Porque a Política é sempre uma luta de Poderes em primeiro termo. Difiro que seja uma luta ideológica. A ideologia está a serviço das estretégias de Poder, não ao contrário.

Tudo isso foi aniquilado pelos vencedores da guerra. Arrasaram povos e culturas, Estados, instituições, classes sociais, etnias e tradições. Aquela Europa de antes da guerra foi literalmente arrasada.

Perón faz referência a essa realidade em "A Hora dos Povos" (1). Nessa obra dizia o General que tanto o comunismo, como o fascismo, como o nacional-socialismo, o nacional-sindicalismo espanhol, os socialismos e comunismos nacionais de diversas cores, eram todas manifestações de uma nova concepção da organização política e consequentemente econômica e social dos Povos que, forçados pelo liberalismo a viver competindo uns contra os outros, todos contra todos buscavam recuperar a felicidade perdida de viver em comunidade, todos com todos e respeitando o pessoal.

O General Perón, que era militar de carreira especializado em Estratégia, viveu pessoalmente, como agregado militar em embaixadas argentinas na Europa, parte dessa rica experiência do Velho Mundo. Evidentemente, ao regressar a nossa Pátria em 1942, o fez decidido a procurar enquadrar a Argentina no mundo que já em 1943 se avizinhava de forma irremediável. Mas, tal como o constata sua atuação posterior, concebeu uma proteção política e institucional que salvaguardasse nossa nação das possíveis tensões e lutas entre a URSS comandada pela Rússia e o mundo demoliberal partidocrático comandado pelos EUA. A Terceira Posição aborda e resolve essa ameaça, colocando ideologicamente a Argentina por sobre o socialismo marxista e o liberalismo capitalista que essas potências impunham como necessários em suas respectivas zonas de influência e ocupação.

Diz o General Perón, "é evidente que nenhuma dessas duas soluções, nem a liberal, nem a marxista, nos levaria à conquista da felicidade que ansiamos para nosso povo. Assim foi que nos decidimos a criar as novas bases de uma Terceira Posição que nos permitiu oferecer a nosso povo outro caminho que não conduzisse à exploração e à miséria. Em uma palavra, uma posição completamente argentina, para os argentinos, o que nos permitiu seguir em corpo e alma a rota da liberdade e da justiça que sempre nos assinalou a bandeira de nossas glórias tradicionais"(2).

Perón desenvolve as concepções sobre as quais se funda a Nova Argentina que, a partir de 1947, ele preside. Aquelas experiências europeias, o conhecimento, compreensão e amor que chegou a ter pela população argentina graças às vivências em sua passagem pelos quarteis da Pátria e a inspiração e guia espiritual da Doutrina de Jesus Cristo, encontram na inteligência de Perón a cristalização cabal de uma nova filosofia política autenticamente argentina, distanciada "dos dois pólos, o liberal e o marxista", e que deverá desembocar irremediavelmente na criação de uma nova organização institucional. Caso contrário, o peronismo nunca poderá concretizar seu ciclo. Isso é vital para o Justicialismo. Mas também, advertimos, para a Quarta Teoria Política de Dugin.

Aleksandr Dugin, filósofo russo de enorme influência nestes momentos sobre dirigentes, pensadores e analistas políticos tanto europeus como eurasiáticos, homem próximo às mais altas esferas de poder da Rússia de Putin, é hoje o mais importante referencial da Quarta Teoria Política que ele deu a conhecer ao mundo inteiro.

Esta Quarta Teoria parte de um "não", como gosta de dizer Dugin: não ao liberalismo e não à modernidade.

E eis aqui que não só o liberalismo é rechaçado enfaticamente, mas fundamentalmente, sua causa e origem: a Modernidade e suas criações,principalmente as nações e seus Estados, o materialismo e o distanciamento de Deus, enfim, o esquecimento da Tradição.

Aqui os americanos temos um problema de fundo, então. Porque a Argentina e as nações da América nasceram para a vida política independente na modernidade, e por tanto como um Estado nacional. E não podem se conceber de outra maneira senão como nação. Se um ser nasceu leão, deve ser concebido e apreciado como leão, por mais que não nos agrade o lugar e o tempo em que nasceu. Por essa razão a nossa Terceira Posição Justicialista se dirige às nações. É propícia para a Argentina e seu espaço continental sulamericano. As nações irmãs do continente podem tornar sua essa Terceira Posição, mas sempre "desde sua nação", para sua grandeza, felicidade e liberdade.

A nação, para Perón, não é só uma consequência da modernidade. É uma etapa na evolução da organização humana que começa com o homem isolado e sua família, o clã, a tribo, a fraternidade, a cidade, o Estado, o Continentalismo e desembocará no universalismo.

E este é um dos principais aspectos que Aleksandr Dugin observa criticamente no Justicialismo.

O assinala como "Moderno", seguindo a divisão clássica dos tempos históricos. E diz isso posto que "a modernidade" é o tempo dos Estados-nações, surgidos após a decadência dos Impérios tradicionais em um processo que toma força decisiva com a Paz de Vestfália de 1648, o Justicialismo também é um fruto da modernidade. Por isso não seria útil para superar o liberalismo e o marxismo.

Mas aceitemos analisar Dugin em si mesmo, como corresponde.

Antes, devemos saudar o filósofo russo. O mundo necessita urgentemente de filósofos desse calibre e os russos parecem estar na ponta.

Dugin lança sua Quarta Teoria Política como a superação da modernidade e de suas excrecências, entre elas, como dizia acima, as nações. Mas também sua teoria se apresenta como uma superação do homem moderno e dos sistemas que se fundam neste homem: a Primeira Teoria Política, ou liberalismo, a Segunda Teoria Política, o marxismo, e a Terceira Teoria Política, o fascismo. O fascismo é derrotado definitivamente na Segunda Guerra Mundial, o marxismo em 1991 com a queda da URSS e só fica vigente como único triunfador o liberalismo. Fortalecido e expandido a nível mundial, está hoje correndo sua nova etapa, chamada neoliberalismo, em consonância à nova era pós-moderna.

Dugin crê que nenhuma dessas teorias políticas pode superar à modernidade, pois são filhas dela mesma e possuem os mesmos fundamentos: o homem-sujeito de Descartes.

Portanto, a Quarta Teoria Política deve desconstruir a modernidade e fundar uma nova era baseada nas tradições, nas sociedades hierárquicas, nas castas, na fé religiosa, nos sãos e milenares costumes comunitários, enfim, voltar à sociedade Tradicional(3). A forma política seria a organização de vastos territórios, não já nacionais, mas civilizatórios. E a Rússia, segundo Dugin, é um espaço geopolítico civilizatório. Outro seria o Islã, outro a Europa, e assim segue.

Suas expressões deixam entrever uma impressão favorávei para os Impérios pré-modernos, posto que estes foram, fundamentalmente, "espaços político-culturais".

Assim, podemos concluir que a Quarta Teoria Política está fundamentalmente orientada para estruturar a reorganização do espaço geopolítico eurasiático e com ele o papel de liderança da Rússia. Acompanhada ou não pela China. Isso veremos. Tenho minhas dúvidas pessoais. Mas seja a Rússia com ou sem a China, deverá necessariamente adotar algo semelhante a uma política imperial centralista ao estilo pré-moderno. O mesmo para a China. E essa futura possível realidade, é definida por duas condições geopolíticas de enorme envergadura: os infinitos espaços geográficos russos e o enorme espaço chinês, povoado por uma demografia excepcional de um bilhão e quatrocentos milhões de seres humanos. Não se pode governar essas situações geopolíticas senão por um Estado centralizado ao estilo imperial pré-moderno. Sempre foi assim. Depois de tudo, o Czar foi substituído não por seu herdeiro dinástico, mas por uma nova estirpe de Czares provenientes do Partido único, dono do Estado russo. No fundo, Dugin viu com absoluta clareza e sem preconceitos ideológicos a realidade concreta das possibilidades geopolíticas russas, isto é, a forma que deve ocupar politicamente o espaço geográfico russo.

A Terceira Posição do Nacional-Justicialismo é fruto de outra realidade. Está orientada essencialmente para a organização política da comunidade nacional argentina e exposta como fonte de inspiração para a América do Sul. Mas sempre partindo das situações integrais nacionais.

Essa Terceira Posição é nacional porque "nacional" é o espaço geopolítico que se ocupa e ordena. E está baseada na soberania política, mãe da independência econômica e da justiça social. Três objetivos estratégicos que o Justicialismo busca concretizar através do Novo Estado e da Comunidade Organizada.

A primeira impressão ao considerar ambas as teorias é positiva. Consiste em que a Quarta Teoria de Dugin é para a Europa e para a Eurásia o mesmo que a Terceira Posição de Perón é para a América Hispânica. Não pode a Quarta Teoria inspirar a América mais que em conceitos aos quais abaixo faço referência, porque a Europa foi outro mundo, que os americanos não vivemos. Dugin pensa como um eurasiático. Do mesmo modo, a Terceira Posição de Perón pode orientar, aportar conceitos, também apenas em aspectos daquela nova teoria. Me refiro às concepções e realizações justicialistas em relação à Justiça Social, à organização interior como Comunidade Organizada e, inclusive, às instituições políticas criadas pelo Justicialismo e expostas no modelo argentino.

Mas não devemos perder de vista que o fundamental no que estamos tratando, é que a questão do conflito político em nosso continente passa pela consolidação das nações herdeiras do Império Espanhol.

Hoje em nossos dias, nos inícios do mundo pentapolar (segundo meu entender) e de modificações profundas nas geopolíticas das potências mundiais, é de valer, portanto, para a América a conformação de blocos defensivo-produtivos entre nações-irmãs soberanas. Oxalá possamos criar as formas institucionais para organizar o espaço comum civilizatório, como o chama Dugin e o assinala nosso Alberto Buela: a América Hispana e seus vice-reinados(4). Mas para isso se torna fundamental e decisivo, e até urgente, a reorganização institucional interna das nações americanas com o objetivo de superar o demoliberalismo partidocrático, econômico e institucional, e o marxismo gramsciano progressista, plataforma cultural na qual se assenta o neoliberalismo mundialista, enquistados hoje em nossas sociedades. A tão cacarejada "integração" e suas formas e instituições, desde que caiu em mãos dos organismos transnacionais do mundialismo e operado pelas corporações multinacionais, passou a ser uma farsa. Uma trágica farsa. Um disfarce mais para seguir explorando os povos e roubando suas riquezas.

Há outra diferença originada na história e composição das sociedades eurasiáticas e americanas. As teorias eurasiáticas, no fundo, necessitam de uma lúcida e responsável aristocracia nobre, valente e prudente, sadia, de uma honestidade religiosa profunda, de grande temperamento e inteligência, capazes de governar e conduzir desde um Estado centralista, espaços com populações que superam os bilhões de seres humanoas e vastos e intermináveis territórios de milhões e milhões de quilômetros quadrados. Essa é sua tradição milenar.

A Terceira Posição Justicialista e o Modelo Argentina, por sua vez, estão concebidos para organizar os Povos dessas latitudes americanas, em instituições virtuosas que frutifiquem necessariamente na Comunidade Organizada e tornem realidade a Soberania Nacional, a Independência Econômica e a Justiça Social, único caminho que vemos na América para alcançar a felicidade e grandeza de nossos povos. Creio que a Terceira Posição de Perón e a Quarta Teoria Política de Dugin não se exluem, ao contrário, convergem na criação de sistemas político-culturais que superem de forma definitiva tanto o marxismo em todas as suas variantes, incluído o pérfido progressismo, como o liberalismo em todas as suas manifestações.

_______________________________________

(1) Diz Perón: "O século XX se inicia com o signo das grandes lutas e como tal impulsiona o desenvolvimento frenético da ciência e da evolução. Por isso, a primeira metade desse século com suas duas grandes guerras e as revoluções do comunismo, do fascismo e do nacional-socialismo, iniciaram tanto a era atômica como impulsionaram a 'hora dos Povos'." - Juan D. Perón, La Hora de los Pueblos, Ed. Norte, Buenos Aires, 1968

(2) Juan D. Perón, Mensagem à IV Conferência de Países Não-Alinhados, setembro de 1973, em Diego Mazzieri, Nem Ianques, Nem Marxistas, Peronistas!, Ed. del Oeste, Buenos Aires, 2003

(3) Aleksandr Dugin, entrevistado por Anatoly Kizichef para Tsargrad TV, Moscou, 22 de janeiro de 2017

"Se rechaçamos as leis da modernidade tais como o progresso, o desenvolvimento, a igualdade, a justiça, a liberdade, o nacionalismo e todo este legado de três séculos de filosofia e história política, então há uma escolha. .... Esta é a sociedade tradicional. Um dos movimentos mais simples em direção à Quarta Teoria Política é a reabilitação global da Tradição, do sagrado, do religioso, o relacionado com a casta, se se prefere, do hierárquico e não da igualdade, da justiça ou da liberdade. Rechaçamos tudo isso junto com a modernidade e reelaboraremos tudo isso completamente..."

Deixo claro que não se nega a justiça, a liberdade, etc., mas sim que se propõe reelaborar estes conceitos a partir da Tradição.

(4) Alsina Calvés, José, La Razón Histórica, nº27, Murcia, 2014.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Eduardo Velasco - Roma contra Judeia, Judeia contra Roma

por Eduardo Velasco

"Os judeus têm estado há muito tempo em rebelião, não só contra Roma, mas contra toda a humanidade". - (Eufrates).

"Os judeus pertencem a uma força escura e repulsiva. Eu sei quão numeroso é este grupo, como eles permanecem unidos e que poder eles exercem através de seus sindicatos. Eles são uma nação de mentirosos e enganadores". - (Cícero).

"Os temores dos judeus parecem ter sido confinados ao estreito âmbito da vida presente. A obstinada hostilidade com que mantinham seus ritos peculiares e costumes sociais parecia marcá-los como uma espécie distinta de homens que insolentemente professavam ou que apenas disfarçavam seu ódio implacável ao resto da humanidade". - (Edward Gibbon).


ÍNDICE

PRIMEIRA PARTE
- CONTEXTO GEOPOLÍTICO, ANTROPOLÓGICO E ÉTNICO
- ROMA
- JUDEIA
- ANTISSEMITISMO ROMANO: UM CONFLITO ESPIRITUAL
- O LEGADO HELENÍSTICO
- O ANTISSEMITISMO GREGO
- HERODES
- SOBRE JESUS ​​CRISTO E O NASCIMENTO DO CRISTIANISMO
- CALÍGULA
- CLÁUDIO E NERO

SEGUNDA PARTE
- PRIMEIRA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A GRANDE REVOLTA JUDAICA (66-73 EC)
- DISTÚRBIOS ÉTNICOS NO EGITO
- CERCO E QUEDA DE JERUSALÉM ― A DESTRUIÇÃO DO SEGUNDO TEMPO
- QUEDA DE MASSADA
- CONSEQUÊNCIAS DA GRANDE REVOLTA JUDAICA
- SEGUNDA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A REBELIÃO DA DIÁSPORA OU REVOLTA DOS KITOS (115-117)
- TERCEIRA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A REVOLTA PALESTINA OU REBELIÃO DE BAR KOKHBA (132-135)
- CONSEQUÊNCIAS DA REVOLTA PALESTINA
- ALGUMAS CONCLUSÕES
- ANEXO: NIETZSCHE SOBRE O CONFLITO "ROMA CONTRA JUDEIA"

TERCEIRA PARTE
- SITUEMOS
- APARECE "A SEITA JUDAICA"
- O CASO DE NERO COMO EXEMPLO DE DISTORÇÃO HISTÓRICA
- DESTRUIÇÃO DE JERUSALÉM: O CRISTIANISMO CRIA FORÇAS FORA DE JUDEIA
- OS CRISTÃOS DEIXAM DE SER PERSEGUIDOS
- NO ALTO DA PIRÂMIDE... HÁ SÓ ESCRAVOS: GENOCÍDIO ANTIPAGÃO
- O IMPERADOR JULIANO COMO ÚLTIMO SUSTENTÁCULO ROMANO
- O GENOCÍDIO ANTIPAGÃO CONTINUA COM MAIS VIRULÊNCIA
- O MARTÍRIO DE HIPÁTIA COMO EXEMPLO DO TERRORISMO CRISTÃO
- CONCLUSÃO
- NIETZSCHE SOBRE O CRISTIANISMO
- VERSÃO NIETZSCHIANA DO SERMÃO DA MONTANHA


PRIMEIRA PARTE

Na terceira parte veremos os processos que marcaram o primeiro desenvolvimento do cristianismo, essa estranha síntese entre a mentalidade judaica e greco-decadente que, do Oriente, devorou ​​o mundo clássico até os ossos, minando as instituições romanas e a mentalidade romana para propiciar seu colapso total. Sem embargo, começaremos por focalizar nas províncias romanas do Oriente, especialmente a Judeia, que foram tomadas de Roma pelos herdeiros de Alexandre Magno. Como foram as relações entre gregos e judeus? Que papel desempenharam os romanos na Ásia Menor e na gestão do problema judaico? Quais são as verdadeiras raízes de Israel e a atual instabilidade no Oriente Próximo? Vale a pena se estender sobre o assunto para nos familiarizar com as bases do que atualmente é o maior conflito geopolítico do planeta: o Estado de Israel. Também será bom ver a impossibilidade de coexistência a longo prazo entre duas culturas radicalmente diferentes — neste caso a greco-romana e judaica.

Por enquanto, na primeira parte, os romanos encontrarão um povo que toma a tradição com a mesma seriedade que eles, mas substituindo esse toque olímpico, artístico, atlético e aristocrático por uma faísca de fanatismo e dogmatismo e mudando o patriotismo romano por uma espécie de pacto selado as costas do resto da humanidade. Um povo, acima de tudo, com um sentimento de identidade ferozmente enraizado — na verdade, muito mais do que qualquer outro povo — e que também se consideravam não mais nem menos do que o "povo escolhido"...

CONTEXTO GEOPOLÍTICO, ANTROPOLÓGICO E ÉTNICO

O Oriente Próximo ou o Levante — que é agora a Turquia, Líbano, Síria, Iraque, Israel, Palestina, Jordânia e Egito — tem sido uma importante zona geoestratégica de confrontos entre a Europa das florestas, rios neves e nevoeiros, e o profundo Oriente do seco, ciumento, estéril e inóspito espírito do deserto. Nesta área tem havido, desde tempos imemoriais, fluxos e refluxos da Europa e Ásia e África, e cristalizado na aparição do Neolítico e as primeiras civilizações do mundo.

Citando Nietzsche, diríamos que "se você olhar muito tempo para o deserto, o deserto olhará para você". Se há um ambiente de seleção natural radicalmente diferente do das glaciações, é sem dúvida o ambiente desértico, monótono e infinito, como os lamentos dos cânticos agora predicados desde minaretes das mesquitas. Tendo sido imerso nesse tipo de paisagem por um longo tempo, é fácil para um homem ter visões, ver miragens e reflexões distorcidas, ouvir vozes que, segundo o folclore oriental, vêm de espíritos malignos e, finalmente, perder seu caminho, afundar-se em desespero e loucura, e deixar sua mente partir em uma jornada para a escuridão, da qual nunca mais voltará. Os desertos são os lugares onde a ausência total do poder fecundante do céu (representado pela chuva e relâmpagos, e por deuses tipicamente europeus como Zeus ou Júpiter) favoreceu o triunfo da Terra e, portanto, a morte da Natureza e a nivelação, a devastação, a equalização dos horizontes e a falta de permanência do mesmo terreno que é pisado. É imprudente pensar que todos esses elementos não deixam uma marca profunda na idiossincrasia e no imaginário coletivo de um povo.

É traduzido no assunto que tratamos um confronto que, em última instância, se reduz a uma insurreição evolutiva do Oriente para não desaparecer numa competição desigual com as variedades humanas européias. Em 56 AEC, em um discurso intitulado "De provinciis consularibus" ou "Sobre as províncias consulares", dado no Senado de Roma, o próprio Cícero descreve os judeus, juntamente com os sírios como "uma raça nascida para ser escrava". Sírios e judeus eram comunidades étnicas em que a raça armênida estava fortemente representada, e que são abrangidos como culturas semitas. As ondas semitas têm sido, durante milhares de anos, uma fonte de dor, mal-estar, violência e tragédia para a Europa, dos cartagineses aos otomanos. Este artigo abordará particularmente os judeus, mas sem esquecer doutros grupos, incluindo os árabes, persas e sírios, que fizeram causa comum com eles em muitas ocasiões, inclusive durante a ascensão do cristianismo.

Embora hoje tentem endossar um multiculturalismo irreal na Europa, a realidade cotidiana e histórica é que a coexistência entre raças diferentes tem apenas dois resultados: a terceiromundização e/ou balcanização (conflitos étnicos e rupturas territoriais). O que vamos ver neste artigo, é claro, não tem nada de multi-culti e nada de "coexistência pacífica", pois durante séculos e séculos a coexistência entre gregos e judeus foi marcada por grandes ondas de violência sanguinária e, portanto, não funcionou.

Longe, portanto, da fantasia politicamente correta de "coexistência de culturas", vamos investigar o início de uma série de limpezas étnicas em todo o Mediterrâneo Oriental, culminando no Baixo Império Romano com a erradicação, no Norte de África e no Oriente Próximo, das comunidades greco-romanas, e a maior parte do legado clássico, nas mãos do Oriente.

ROMA

É incrível o quanto de adulterações e desinformações que são derramadas sobre a história de Roma e a biografia de seus imperadores, mas não tanto se pensarmos que o Império Romano foi confrontado diretamente com o que seria mais tarde duas forças muito poderosas: o judaísmo e o cristianismo. Roma representou durante séculos (como os macedônios haviam representado antes) a encarnação armada e conquistadora da vontade européia e o veículo do sangue indo-europeu no Oriente Próximo, no meio do mundo semita, do judaísmo, do neolítico e do matriarcado.

Em sua "Anábase de Alexandre Magno", Arriano nos diz como, enquanto Alexandre estava em Babilônia, ele recebeu embaixadas de inúmeros reinos do mundo conhecido. Uma dessas embaixadas veio de Roma, que na época era uma humilde república liderada por um conselho de patrícios anciãos, chamados senadores. Alexandre viu os costumes e o comportamento dos embaixadores romanos e, sem hesitação, previu que se seu povo continuasse fiel a esse modo de vida sóbrio e reto, Roma se tornaria uma cidade poderosa. Antes de sua morte, Alexandre deixou em seu testamento que uma imensa frota tinha que ser construída, algum dia no futuro, para enfrentar a ameaça cartaginesa, que começava a aparecer no horizonte.  Roma, como herdeira da missão alexandrina, também herdou a tarefa geopolítica de acabar com os cartagineses, um povo de origem fenícia (atual Síria, Líbano e Israel) que tinha se estabelecido no que é hoje a Tunísia. Roma destruiu Cartago em 146 AEC, mas ficou com fortes sequelas e más lembranças daquele confronto do Ocidente contra Oriente, e nunca mais seria a mesma novamente.

O que  impressionou Alexandre Magno dos embaixadores romanos, e o que os fez distinguir imediatamente do resto dos embaixadores? Que os romanos eram um povo extremamente tradicional e militarizado, cuja vida era regida a severo ritualismo religioso e disciplinada austeridade. A religião romana e os costumes romanos estavam presentes em todos os momentos da vida do cidadão. O mundo, aos olhos de um romano, era um lugar mágico e santo, onde os deuses antigos, os numinas, manes, lares, penates, gênios e incontáveis ​​espíritos folclóricos, tomavam seu curso em influenciar a vida dos mortais, mesmo em seu quotidiano ("A cidade de Deus" de Santo Agostinho, apesar de atacar a religião romana, fornece informações valiosas sobre sua complexidade). Quando uma criança nascia, havia uma frase para invocar um numina. Quando a criança chorava no berço, outro era invocado. E o mesmo rezava para quando a criança aprendia a andar, ou tudo relacionado ao movimento (agir), até para quando, já sendo homem, recebia seu batismo de armas, em seu casamento, antes de entrar em combate, ao cair ferido, ao triunfar sobre o inimigo, à voltar para casa vitorioso, adoecer, engendrar seu primeiro filho, antes de comer e beber, ao semear o campo... Um numina era responsável por fazer crescer as douradas colheitas, outro numina (nesse caso um numina de Júpiter) produzia a chuva do céu, outro estava ocupado de agitar a grama com o vento, outro, em tempos imemoriais, tornou vermelha a barba de uma linhagem familiar masculina... [NT: referindo-se ao mito de Lúcio Domício Enobarbo, patriarca dos enobarbos (barba vermelha), a mesma família do imperador Nero, que teve sua barba transformada em ruiva por dois gêmeos divinos, Castor e Póluxa, após a batalha do lago Regilo]. Todas as qualidades, todas as coisas e todos os acontecimentos, de acordo com a mentalidade romana, mostravam a marca da intervenção criativa das forças abençoadas do mundo, os espíritos dos rios, árvores, florestas, montanhas, campos... As famílias reverenciavam ao pater familias e o antepassado do clã, enquanto todos os homens orgulhavam-se de ter virtus, uma qualidade divina associada à habilidade militar, ao treinamento e ao espírito combativo, e que só os jovens podiam possuir. Somente a carne de animais sacrificados aos deuses era consumida em rituais de liturgia intransigente e, nas cerimônias religiosas, a simples gagueira de um sacerdote era mais do que suficiente para invalidar uma consagração ou ter que começar de novo.

O espírito romano: Vesta, equivalente à Héstia helênica, era uma deusa virginal associada à casa e ao fogo, simbolizando o centro da casa, em torno do qual a família estava agrupada. Suas sacerdotisas, as vestais, eram virgens que, dentro de seu templo circular, vigiavam o fogo sagrado para nunca ser extinguido. Havia uma lei segundo a qual, só de "ver" uma vestal um condenado à morte ficava absolvido. Quando uma delas não cumpria seus deveres, era chicoteada e, se alguma violava o voto de castidade, era enterrada viva. Este é apenas um exemplo da imensa seriedade religiosa que reinou nas origens de Roma, longe da famosa "decadência do império".

Apesar da subsequente influência da Grécia sobre eles, a seriedade com que os romanos tomavam o ritualismo e o folclore era tão extremo, e o seu patriotismo tão inacreditável que poderia ser seriamente pensado que a fidelidade (o que eles chamavam de pietas, o cumprimento de seu dever para com os deuses em seu cotidiano), que professavam seus costumes e tradições ancestrais, era o segredo de seu imenso sucesso como povo. Eles desenvolveram tecnologia avançada e, através da disciplina de seus soldados, a capacidade de seus comandantes e uma maneira superior de "fazer coisas", conquistou todo o Mediterrâneo, protegendo o sul da Europa.

Se tivéssemos de colocar mais exemplos de povos em que a fidelidade às tradições foi tomada com a extrema gravidade com que foi tomada em Roma, apenas três seriam encontrados. Dois deles são a Índia Védica e China Han.

O outro é o povo judeu.

JUDÉIA

Os judeus, em muitos aspectos, eram exatamente a antítese dos romanos, mas tinham algo em comum com eles: a rigidez ritual e lealdade aos costumes. No caso judaico, o caráter estava tingido de certo fanatismo, dogmatismo e intransigência. Os romanos consideravam essa religiosidade sinistra: o fundo religioso bíblico, que é a matriz do judaísmo (também do cristianismo e do islamismo), vem de uma antiga tradição síria-fenícia-cananeita-semita que, entre outras coisas, sancionava o sacrifício humano, incluindo dos filhos primogênitos.

A judiaria, que tinha uma longa história de nomadismo, escravidão, perseguições e expulsões do Egito e das civilizações da Mesopotâmia, havia mantido, apesar de seus grandes balanços através de mil desertos e mil cidades estrangeiras, sua idiossincrasia essencialmente imperturbada. Desde a mais remota antiguidade, os judeus provaram ser um povo inassimilável e altamente conflituoso, dotado de uma inaudita capacidade de subir nas posições sociais de civilizações alienígenas, minar suas instituições e destruir suas tradições e costumes de uma posição parasitária e avantajada, enriquecer com o processo, tomar o que era útil, tornar-se cada vez mais sofisticados e, finalmente, sobreviver à queda da civilização a que devoraram, levando uma bagagem de experiência e símbolos roubados para a próxima civilização destinada a sofrer a repetição do ciclo. Em todos os países que os acolheram, os judeus foram acusados ​​de apropriar-se da riqueza dos demais sem trabalhar (usura), exercerem o vampirismo sobre a economia, bajularem a nobreza, serem abertamente hostis com o povo, endividarem aos Estados e de odiarem mortalmente, em segredo, toda humanidade não-judaica.

Aqueles que tinham poder entre os judeus eram os rabinos, sacerdotes que passaram suas vidas aprendendo a Torá e que exerciam firme controle psicológico sobre seu povo a base de ameaças perante a ira de Yahweh ou Javé e manipular os medos e sentimentos do indivíduo como culpa ou pecado. O historiador grego Estrabão acabaria por descrever os sacerdotes judeus como "supersticiosos e com temperamento de tiranos".

Esta é a representação do primeiro templo de Jerusalém, também chamado de templo de Salomão ou Sião, construído na esplanada do Monte Moriá, por volta de 960 AEC. Foi destruído pelos babilônios em 586 AEC e reconstruído 70 anos mais tarde por aqueles judeus que, liderados por Zorobabel, Esdras e Neemias, retornaram da deportação do chamado "cativeiro babilônico". É uma estrutura um tanto modesta e, naturalmente, seguindo a tradição semítica fundamentalista, carecia de imagens ou representações da figura humana: literalmente, o judaísmo era uma religião sem ídolos. O estilo do templo estava em sintonia com a tradição sírio-fenício-cananeita, considerada sinistra pelos romanos por admitir o sacrifício humano, incluindo o infanticídio ritual do primogênito. Os cartagineses, que haviam sido esmagados por Roma no curso das guerras púnicas, também foram herdeiros dessa tradição fenícia, associada à presença dos haplogrupos J.

Mas apesar de ser um povo "bárbaro" e "terceiromundista", desprezado e considerado destinado à escravidão, os judeus tinham uma taxa de alfabetização muito alta e, por causa de sua experiência, saiam-se muito bem em ambientes urbanos, já que de todo mundo, eles eram o povo que levava mais tempo vivendo em condições civilizada. Entre eles estavam, indubitavelmente, homens extremamente inteligentes e astutos, bons médicos, contadores, adivinhos, comerciantes e escribas, e seu monoteísmo radical, quase sofisticado em sua total ruptura com todo o resto, os distinguia bem de qualquer outro povo.

ANTISSEMITISMO ROMANO: UM CONFLITO ESPIRITUAL

O que aconteceu após a irrupção das tropas romanas na Judéia foi um confronto espiritual sem precedentes na história da humanidade. 4 milhões de judeus agora estavam compartilhando fronteiras com os outros 65 milhões de súditos do Império Romano.

É impossível escrever um artigo sobre este assunto sem mencionar as citações profundamente antijudaicas escritas por grandes escritores romanos da época. Eles perceberam um conflito real entre dois sistemas de valores exatamente opostos um ao outro. O choque entre a rigidez romana e o dogmatismo do deserto provocou em Roma um verdadeiro movimento de rejeição ao judaísmo. Embora o antissemitismo remonta às próprias origens da judiaria, os romanos, herdeiros dos gregos e de uma disciplina militar superior, eram até então, os que expressaram mais hostilidade contra os judeus.

Cícero (106-43 AEC), como veremos mais adiante, condena hostilmente à judiaria, considerando que sua mentalidade de trapaça e covardia é incompatível com a mentalidade altruísta dos melhores de Roma.

Horácio (65-8 AEC), no Livro I de suas "Sátiras" zomba do Shabat, enquanto Petrônio (morto em 66 EC), em seu "Satíricon" ridiculariza a circuncisão.

Plínio, o Velho (23-79 EC) em sua "História Natural", fala da "impiedade judaica", e refere-se aos "judeus, bem conhecidos por seu desprezo pelos deuses". 

Séneca (4-65 EC) chamou a judiaria de "a nação mais má, cujo desperdício de um sétimo da vida [se refere ao Shabat] vai contra a utilidade da mesma (...) Este povo perverso chegou a estender seus costumes no mundo inteiro; os vencidos deram leis aos vencedores ".

Quintiliano (30-100 EC) diz em seu "Institutos de oratória" que os judeus são um desprezo pelo resto dos homens, e que sua religião é a encarnação da superstição.

Marcial (40-105), em seu "Epigramas", acredita que os judeus seguidores de um culto cuja verdadeira natureza é secreta para ocultá-la aos olhos do resto do mundo, e ataca a circuncisão, o Shabat (ou Sábado, ou seja, não fazer nada no sétimo dia da semana, o que lhes dava uma aparência preguiçosa) e sua abstinência de carne de porco.

Tácito (56-120), o famoso historiador que elogiou os germanos, também falou sobre os judeus, mas em termos muito diferentes. Diz que descem de leprosos expulsos do Egito e que sob os assírios, medos e persas eram os mais desprezados e humilhados. Entre os termos com que ele descreve à judiaria, temos "perversos, abomináveis, cruéis, supersticiosos, alheios a toda a lei da religião, malvados e facinorosos" entre muitos outros:

"Os costumes judeus são tristes, sujos, vis e abomináveis, e se eles sobreviveram é graças à sua perversidade. De todos os povos escravizados, os judeus são os mais desprezíveis e repugnantes"

"Para os judeus, é profano tudo o que consideramos sagrado; por outro lado, lhes parece permissível tudo o que, para nós, é imoral".

"Os judeus revelam um vínculo teimoso um com o outro, o que contrasta com seu ódio pelo resto da humanidade... Entre eles, nada é lícito. Aqueles que abraçam sua religião praticam o mesmo, e a primeira coisa que lhes ensinam é desprezar os deuses, esquecer o patriotismo e negar seus pais, filhos e irmãos".

"Os judeus são uma raça que odeia os deuses e a raça humana. Suas leis são opostas às dos mortais. Eles desprezam o que é sagrado para nós. Suas leis incitam-nos a cometer atos que nos horrorizam".

("História", capítulos 4 e 5).

Juvenal (55-130), nas "Sátiras", critica os judeus pelo Shabat, por não adorarem imagens, pela circuncisão, por não comerem carne de porco, por serem escrupulosos com suas leis, desprezando as de Roma, e que somente aos "iniciados" revelam a verdadeira natureza do judaísmo. Além disso, ele culpa os orientais em geral e os judeus em particular pela degeneração do ambiente na própria Roma.

Marco Aurélio (121-180) passou pela Judéia em sua jornada para o Egito, sendo surpreendido pelos modos da população judaica local. Parafraseando "eu acho esse povo pior do que os marcomanos, os cadetes e os sármatas" ("Histórias", Amiano Marcelino).

Estas citações resumem como os romanos, um povo indo-europeu marcial, viril e disciplinado, viam o judaísmo. Pode-se dizer que, até o triunfo dos romanos, nenhum povo tinha sido tão consciente do desafio colocado pelo judaísmo.

Todas estas citações apontam para um inflexível confronto ideológico, bem como militar, em que tanto Roma e Judéia iam enfrentar. Um conflito que influenciaria de maneira extraordinária na História e que, portanto, não pode ser ignorado sob qualquer pretexto. Este artigo pretende dar uma idéia do que implicou o choque do Oriente contra o Ocidente.

O LEGADO HELENÍSTICO

"Quando os macedônios tomaram o poder [na Judéia], o rei Antíoco tentou extirpar suas superstições e introduzir os hábitos gregos para transformar essa raça inferior". - (Tácito, "História")

Para entender os conflitos étnicos virulentos que ocorreram durante a dominação romana, é necessário voltar alguns anos e colocar-nos no tempo da dominação macedônia, uma vez que os estratos sociais gregos legados pela conquista de Alexandre Magno tinham muita relação com as revoltas dos judeus e na longa história de ódio, tensões, represálias e contra-represálias que se seguiram a partir daí.

Quando Alexandre estava a caminho de conquistar o Egito, ele passou pela Judéia, e a comunidade judaica, temendo que isso destruísse Jerusalém, fez com os macedônios o que eles costumavam fazer sempre que vinha um novo invasor triunfante: trair seus antigos senhores e dar boas-vindas ao invasor com braços abertos. Assim, da mesma forma como traíram os babilônios com os persas, eles traíram os persas com os macedônios. Agradecido, Alexandre lhes concedeu amplos privilégios, por exemplo, em Alexandria, ele os equiparou legalmente com a mesma população grega. Este ponto é importante porque o status legal dos judeus alexandrinos (que constituiriam quase metade da população da cidade) supôs depois amargos receios por parte da comunidade grega, levando a tumultos, o que veremos posteriormente.

Quando Alexandre morreu em 323 AEC, deixou um vasto legado. Toda a área que dominara, do Egito ao Afeganistão, recebeu uma forte helenização, que produziu o chamado período helenístico, para diferenciá-lo do helênico clássico. Os generais macedônios, os chamados diádocos, lutaram tolamente entre si para estabelecer seus próprios impérios, e neste caso estaremos interessados ​​no império ptolemaicos (centrado no Egito) e no dos selêucidas (centrados na Síria), porque Israel permaneceria entre eles, passaria a formar parte do primeiro e finalmente, em 198 AEC, foi anexado pelos selêucidas.

Sob o amparo da proteção alexandrina, os judeus se espalharam não só na Palestina e no Oriente Próximo, mas em toda Roma, Grécia e África do Norte. Nessas áreas já havia guetos judaicos bem organizados, ricos e poderosos, todos ligados à Judéia, o núcleo do judaísmo. Na sociedade judaica, alguns setores sociais absorveriam a helenização, que, com o fermento dos séculos, produziu um campo de cultivo cosmopolita que levaria ao nascimento do cristianismo. Outros setores judeus, os mais numerosos, agarraram-se à sua tradicional xenofobia e começaram a reagir contra aqueles que, como Alexandre, haviam recebido como salvadores. Embora o Oriente Próximo fosse uma colméia de egípcios, sírios (também chamados caldeus ou arameus, cujo idioma era língua franca na área, sendo falada regularmente pelos judeus), árabes e outros, os judeus tradicionalistas viam com grande desgosto que a Ásia Menor e Alexandria estivessem enchendo de gregos que, naturalmente, eram pagãos e, portanto, no pensamento judaico, infiéis, ímpios e idólatras, como haviam sido os odiados egípcios, babilônios e persas antes deles.

Ao longo do tempo, ao mal-estar desses setores da judiaria, ao contrário de assimilar a cultura grega, foi acrescentada uma série de medidas decretadas por Antíoco IV Epifânio, o rei selêucida. Em Dezembro de 168 AEC, Antíoco literalmente proíbe o judaísmo, tentando extirpar a adoração de Javé ou Jeová, suprimindo qualquer manifestação religiosa judaica, colocando a circuncisão fora da lei e até forçando os judeus a comerem comida considerada religiosamente "impura". Os gregos impuseram um edital pelo qual um altar aos deuses gregos deveria ser construído em cada cidade na área, e os oficiais macedônios seriam distribuídos para assegurar que em cada família judaica os deuses gregos fossem adorados. Aqui, os macedônios simplesmente se mostraram desajeitados e não conhecer o povo judeu. Segundo o Antigo Testamento (II Macabeus e IV Macabeus), aqueles que permaneceram fiéis à lei mosaica, Antíoco os fará queimar vivos, e os judeus ortodoxos que escaparam para o deserto perseguiu-os e massacrou-os. Estas declarações devem ser tomadas com cautela, mas o que está claro é que houve repressão antijudaica em geral.

A que se devem estas medidas? Devemos ter em mente que o mundo pagão era um mundo de tolerância religiosa, no qual as religiões não eram perseguidas assim. No entanto, no judaísmo, os soberanos gregos deveriam ter visto uma doutrina política que tenderia a voltar os judeus subversivos contra os Estados pagãos pelos quais eles eram dominados, hostis aos demais povos do planeta e, portanto, uma ameaça. Neste contexto, é possível que as primeiras manifestações de intransigência religiosa vieram da judiaria (entre outras coisas, porque, como eu disse, os antigos gregos pagãos nunca foram religiosamente intransigentes ou intolerantes), e que os macedônios, que consideravam seus deuses como símbolos de seu próprio povo, isso não lhes fazia muita graça.

O caso é que, naquele ano de 168 AEC, Antíoco sacrifica nada mais e nada menos que um porco no altar do templo de Jerusalém, em homenagem a Zeus. Este ato foi considerado uma dupla profanação, por um lado porque era um porco (animal profano dos credos semitas como no judaísmo e islamismo), e por outro lado porque isso supunha o primeiro passo de consagrar todo o templo ao Zeus olímpico e para converter Jerusalém em uma cidade grega.

Antíoco IV Epifânio, rei selêucida e descendente de Seleuco I Nicator, que é talvez o mais brilhante dos generais de Alexandre Magno. De acordo com a tradição judaica, este rei macedônio, ao profanar o altar do templo de Jerusalém derramando sangue de porco, foi possuído por um demônio, o mesmo que possuirá o Anti-Messias ou o "príncipe que há de vir" falado no Antigo Testamento (Daniel, 9:26).

Esse ato sacrílego trouxe uma forte reação dos setores fundamentalistas da judiaria. Os rabinos mais zelosos começaram a pregar uma espécie de guerra santa contra a ocupação grega, instando os judeus a se rebelarem, e quando o primeiro judeu timidamente decidiu fazer uma oferenda ao Zeus grego, um rabino, Matatias Macabeu, o matou. Os tumultos étnicos que se seguiram levaram ao período conhecido como guerras macabéias (anos 167-141 AEC), muito do qual é falado no Antigo Testamento (Macabeus). Realizando, com os hassidim (os "judeus piedosos", também chamados chassídicos) uma guerra de guerrilha contra as tropas macedônias cercadas por todos os lados, os "macabeus" foram finalmente salvos de serem esmagados quando uma rebelião antigrega estourou em Antioquia, e esmagou a influência dos judeus helenizados. Judas Macabeu, que sucedeu a Matatias, renovando o ciclo de traição, incluso iria negociar com os romanos para garantir seu apoio. De fato, o Senado romano reconheceria formalmente a dinastia asmoneu em 139 AEC, sem suspeitar das dores de cabeça que esta remota terra daria em um futuro próximo.

Judá, sob a dinastia asmoneu. Posteriormente, sob Herodes, a Torre de Straton seria reconstruída como Cesaréia. Não é o propósito deste artigo tratar o período asmoneu, mas basta dizer que as guerras macabéias, que coincidiram com o declínio dos selêucidas, levaram a um período de autonomia e expansão judaica sob o reinado dos asmoneus, que teve inúmeras campanhas internas, guerras fratricidas e combates entre facções religiosas, e durou até a invasão romana em 63 AEC. [NT: mapa mantido no idioma original, tal como os que seguem].

Durante este período, além dos judeus helenizados, haveriam outras duas facções judaicas importantes, também em amarga disputa: por um lado, os fariseus, um setor integralista que tinha o apoio das multidões e, por outro, o saduceus, um grupo de sacerdotes mais "progressistas", mais "burgueses", em melhores relações com os gregos e que no futuro seriam vítimas da "revolução cultural" que os fariseus realizaram contra eles após a queda da judiaria em mãos de Roma. Seus escritos foram destruídos pelos romanos, de modo que a visão que temos atualmente do panorama é, antes, graças aos fariseus, do qual viriam as linhagens de rabinos ortodoxos que completariam o Talmude. A dinastia asmoneu, apesar de muitos altos e baixos, seria essencialmente prósaduceu.

O ANTISSEMITISMO GREGO

Aqui tem especial relevância a Escola de Alexandria, que, por ter a mais importante população judaica (quase metade do total), também tinha a mais importante tradição "antissemita" (porque os sírios, os babilônios e os árabes eram semitas e os alexandrinos não tinham nada contra eles). Como uma parte importante da história judaica tinha ocorrido no Egito, esses escritores egípcios helenizados atacaram-na duramente. Além disso, os gregos do Oriente Médio tinham vivido juntos no passado com os judeus, e durante esse tempo uma verdadeira animosidade tinha se desenvolvido entre os dois povos.

Hecateu de Abdera (cerca de 320 AEC, não era alexandrino) foi provavelmente o primeiro pagão a escrever sobre a história judaica, e não o fez em bons termos:

"Por causa de uma praga, os egípcios expulsaram-nos... A maioria fugiu para a Judéia desabitada, e seu líder Moisés estabeleceu um culto diferente de todos os outros. Os judeus adotaram uma vida misantrópica e inóspita".

Mâneton (século III AEC), sacerdote  e historiador egípcio, em sua "História do Egito" (a primeira vez que alguém escreveu a história do Egito em grego) diz que, no tempo do rei Amenófis, os judeus deixaram Heliópolis com uma colônia de leprosos comandados por um renegado sacerdote de Osíris chamado Osarsif, a quem ele identifica com Moisés, que lhes ensinou costumes contrários aos dos egípcios, que lhes ordenou não se associarem com o resto dos povos e os fez queimar e pilhar muitos povoados egípcios do vale do Nilo antes de sair do Egito à Ásia Menor. Os posteriores estóicos Posidônio (filósofo e historiador, 135-51 AEC) e Cheremon (tutor do Imperador Nero), complementaram o que foi dito por Mâneton.

Mnaseas de Patara (século III AEC), discípulo de Eratóstenes, foi o primeiro a dizer algo que mais tarde seria recorrente no antissemitismo grego e também romano: que os judeus, no templo de Jerusalém, adoravam uma cabeça de asno feita de ouro (isso é chamado de "ontologia").

Lisímaco de Alexandria (época desconhecida) disse que Moisés foi uma espécie de mago negro e um impostor, que suas leis, equivalentes às registradas no Talmude, eram imorais e que os judeus eram doentes:

"Os judeus, doentes de lepra e escorbuto, se refugiaram nos templos até que o rei Bojeris afogasse os leprosos e enviasse os outros cem mil para perecer no deserto. Um tal de Moisés conduziu-os e instruiu-os a não mostrarem boa vontade a qualquer pessoa e a destruir todos os templos que encontraram. Eles vieram à Judéia e construíram Hierosila (cidade dos saqueadores de templo)".

Agatárquides de Cnido (século II AEC), em "História da Ásia", zomba da Lei Mosaica e suas práticas, especialmente o descanso sabático.

Posidônio de Apamea (cerca de 135-51 AEC) diz que os judeus são "um povo ímpio, odiado pelos deuses".

Apolônio Mólon (cerca de 70 AEC), de Creta, gramático, retórico, orador e professor de César e Cícero numa academia de Rodes, no século I AEC, dedicou toda uma obra ao judaísmo, chamando-os de ateus disfarçados de monoteístas (quiçá ele não podia conceber uma religião sem ídolos) e de misantropos:

"Eles são os piores entre os bárbaros, eles não têm qualquer talento criativo, eles nada fizeram para o bem da humanidade, eles não acreditam em nenhum deus... Moisés foi um impostor".

Estrabão (64 AEC-25 EC), geógrafo grego, em sua "Geografia," admira a figura de Moisés, mas pensa que os sacerdotes posteriores distorceram sua história e impuseram aos judeus um estilo de vida antinatural. Nesta citação está claro que os judeus, já na época, constituíam uma poderosa máfia internacional.

"Os judeus têm penetrado em todos os países, por isso é difícil encontrar qualquer lugar no mundo onde sua tribo não entrou e onde eles não são poderosamente estabelecidos".

Diodoro Sículo (cerca de 50 AEC), historiador grego da Sicília, diz em "Biblioteca Histórica":

"Os judeus tratavam os outros como inimigos e inferiores. A 'usura' é a sua prática de emprestar dinheiro com taxas de juros excessivos. Isto tem causado durante séculos a miséria e a pobreza dos gentios, e tem sido uma forte condenação para os judeus.

Os conselheiros do rei Antíoco disseram-lhe para exterminar completamente a nação judaica, porque os judeus como povo único no mundo resistiram a misturar-se com outras nações. Eles julgaram todas as outras nações como seus inimigos e passaram essa inimizade como uma herança para as gerações futuras. Seus livros sagrados contêm regras aberrantes e inscrições hostis a toda a humanidade".

Demócrito (século I AEC): "A cada sete anos eles levam um não-judeu e o assassinam no templo..." Talvez aqui começou a espalhar a acusação mais séria contra a judiaria, isto é, que sacrificavam os não-judeus a Javé. Esta acusação, chamada "libelo de sangue", foi recorrente durante a Idade Média na Europa como na Ásia, e também mais tarde na Alemanha nazista.

Apião (cerca de 30-48 EC), escritor egípcio e principal promotor do pogrom de Alexandria do ano 38 EC, que culminou em um massacre de 50 mil judeus nas mãos do exército romano. Ele disse que os judeus estavam vinculados por um pacto mútuo para nunca ajudar qualquer estrangeiro, especialmente se fosse grego.

"Os princípios do judaísmo obrigam a odiar o resto da humanidade. Uma vez por ano eles levam um não-judeu, o assassinam e provam suas vísceras, jurando durante a refeição que eles vão odiar a nação donde provinha a vítima. Na Sancta Sanctorum do templo sagrado de Jerusalém há uma cabeça de asno feita de ouro que os judeus idolatram. O Shabat se originou porque uma doença pélvica que os judeus contraíram quando fugiram do Egito, forçou-os a descansar no sétimo dia".

Plutarco (cerca de 50-120 EC) foi iniciado nos mistérios de Apolo em Queroneia, e exerceu como sacerdote no santuário de Delfos. É uma das fontes favoritas de informação sobre o estilo de vida de Esparta. Ele diz em sua "Conversas à mesa" que os judeus não matam nem comem porco ou asno porque eles os adoram religiosamente, e que no Shabat, eles ficam bêbados.

Filo de Biblos (cerca de 64-141 EC), fenício helenizado que escreveu sobre a história fenícia, a religião fenícia e os judeus, fala de sacrifícios humanos dos primogênitos (lembre-se a passagem de Abraão e seu filho Isaac).

Filóstrato (170-250 EC), sofista do século II EC:

"Os judeus há muito tempo estão em revolta não apenas contra os romanos, mas contra a humanidade; é uma raça que construiu a própria vida à parte e irreconciliável, que não pode partilhar com o restante da humanidade os prazeres da mesa, nem juntar-se a eles em suas libações, preces ou sacrifícios, são separados de nós por um golfo maior do que aquele que nos divide de Sura ou Bactra, das Índias mais distantes".

Celso (século II EC) foi um filósofo grego, especialmente conhecido por sua "A palavra verdadeira", no qual ele ataca o cristianismo e também o judaísmo, que inicialmente estava associado a ele. São Orígenes de Alexandria (cerca de 185-253 EC), um dos "pais da Igreja" que tinha cortado seus testículos inspirados por um versículo do Evangelho de Mateus, acabaria escrevendo o "Contra Celso". Celso escreve: "Os judeus são fugitivos do Egito que nunca fizeram nada de valor e nunca os tiveram estima ou tiveram boa reputação".

A CONQUISTA DE POMPEU

Esta seção tratará da primeira intervenção direta da autoridade romana em solo judaico.

Em Israel, a morte de Alexandre Janeu (rei da dinastia asmoneu, descendente dos macabeus) em 76 AEC, sua esposa Salomé Alexandra reinou como sucessora. Ao contrário de seu marido, que, como bom prósaduceu, havia reprimido severamente os fariseus —, Salomé compreendeu bem com a facção farisaica. Quando ela morreu, seus dois filhos, Hircano II (associado aos fariseus e apoiado pelo xeique árabe Aretas de Petra) e Aristóbulo II (apoiado pelos saduceus) lutaram pelo poder. Em 63 AEC, ambos os asmoneus pediram apoio ao caudilho romano Pompeu, cujas legiões vitoriosas já estavam em Damasco depois de ter deposto o último rei macedônio da Síria (o selêucida Antíoco XIII Asiático) e agora procuravam conquistar Fenícia e Judéia, talvez para incorporar a nova província romana da Síria. Pompeu, que recebeu dinheiro de ambas as facções, finalmente decidiu a favor de Hircano II — talvez porque os fariseus representavam a maioria das massas da Judéia. Aristóbulo II, recusando-se a aceitar a decisão do general, entrincheirou-se em Jerusalém com seus homens.

Os romanos, portanto, cercaram a capital. Aristóbulo II e seus seguidores suportaram três meses, enquanto os sacerdotes saduceus no templo oravam e ofereciam sacrifícios a Javé. Aproveitando-se de que no Shabat os judeus não combatiam, os romanos minaram os muros de Jerusalém, após o que entraram rapidamente na cidade, capturando Aristóbulo II e matando 12.000 judeus. [1]

O próprio Pompeu entrou no templo de Jerusalém, curioso para ver o deus dos judeus. Acostumado a ver numerosos templos de muitos povos diferentes, e educado na mentalidade européia segundo a qual um deus tinha que ser representado com forma humana para receber o culto dos mortais, ficou perplexo quando não viu nenhuma estátua, nenhum ídolo, nenhuma imagem... apenas um castiçal, vasos, uma mesa de ouro, dois mil talentos de "dinheiro sagrado", especiarias e montanhas de pergaminhos da Torá [2]. Eles não tinham deus? Os judeus eram ateus? Eles não adoravam nada? O dinheiro? O ouro? Um simples livro, como se a alma, os sentimentos e a vontade de um povo dependesse de um rolo de papel inerte? A reação do general, de acordo com Flavio ​​Josefo, foi confusa. O romano encontrou um deus abstrato.

Para a mentalidade judaica, Pompeu cometeu um sacrilégio, pois penetrou no mais sagrado recinto do templo, que só o sumo sacerdote podia ver. Além disso, os legionários fizeram um sacrifício aos seus estandartes, "contaminando" a área novamente.

Após a queda de Jerusalém, todo o território conquistado pela dinastia asmoneu ou macabeu foi anexado pelo Império Romano. Hircano II tornou-se rei de Roma sob o título de "etnarca" (algo como "líder nacional"), dominando tudo o que Roma não anexava, isto é, os territórios da Galiléia e da Judéia, que de agora em diante iria tributar Roma mas manteria sua independência. Ele também foi feito sumo sacerdote, mas na prática, o poder da Judéia foi parar nas mãos de Antípatro de Idumeia (Edom), como uma recompensa por ajudar os romanos.

Pompeu anexou a Roma as áreas mais helenizadas do território judeu, enquanto Hircano II permaneceu como rei cliente de Roma até sua morte.

Do ponto de vista étnico e cultural, a conquista romana previu novas e profundas mudanças naquela área problemática que é o Oriente Próximo. Em primeiro lugar, aos estratos étnicos judeus, sírios, árabes e gregos, uma aristocracia romana ocupadora de um caráter militar seria adicionada. Para os gregos, isso era uma fonte de alegria: o declínio do Império Selêucida os deixara de lado, e eles tinham literalmente Roma na palma da mão, já que os romanos sentiam uma profunda e sincera admiração pela cultura helenística, para não mencionar que muitos de seus imperadores tiveram uma educação grega que os predispôs a serem especialmente indulgentes com as colônias macedônias. Além disso, em Alexandria, era de se esperar que, diante dos distúrbios com judiaria, os romanos roubassem aos judeus os direitos que Alexandre Magno lhes concedeu e assim deixariam de ser cidadãos em pé de igualdade com os gregos e a influência que exercem através do comércio e da acumulação de dinheiro, seria erradicada. Por estas razões, não é surpreendente que a Decápole (um conjunto de cidades helenizadas nas fronteiras do deserto que também mantinha uma considerável autonomia, incluindo a Filadélfia, atual capital da Jordânia, Amã), cercado por tribos sírias, judias e árabes consideradas bárbaras, acolheram os romanos de braços abertos e começaram a contar os anos desde a conquista de Pompeu.

Em 62-61 BCE, o procônsul Lúcio Valério Flaco (filho do cônsul do mesmo nome e irmão do cônsul Caio Valério Flaco) confiscou o tributo de "dinheiro sagrado" que os judeus enviaram ao templo de Jerusalém. Quando isso aconteceu, os judeus de Roma levantaram o povo contra Flaco. O conhecido patriota romano Cícero defendeu Flaco contra o acusador D. Laélio (um tribuno da plebe que mais tarde apoiaria Pompeu contra Júlio César) e se referiu aos judeus de Roma em algumas frases de 59 AEC, que foram expressas em seu "Pró Flaco", XVIII:

"Agora chegamos à questão de ouro dos judeus e essa imputação tão odiosa. É por causa desta acusação particular que você procurou por este lugar, Laélio, e esta multidão de judeus ao nosso redor. Você sabe seu número, sua união e seu poder em nossas assembléias. Falarei baixo para não ser ouvido além pelos juízes. Como não há indivíduos entre aqueles que agem contra mim e contra os melhores cidadãos que você protege, eu não quero fornecer novas armas aqui para o seu mal. Havia sabedoria para acabar com uma superstição bárbara, e firmeza em varrer, para o bem da República, essa multidão de judeus que perturbam nossas assembleias".

Cícero. Considerava a usura como a mais desprezível das ocupações.

Destas frases podemos deduzir que já no século I AEC, os judeus tinham grande poder político na mesma Roma, e que tinham uma importante capacidade de mobilização social contra seus adversários políticos, que abaixavam a voz por medo: a pressão dos lobbies.

Por volta de 55 AEC, a República, que, grande demais e militarizada, exige uma nova forma de governo, é governada de facto pelo chamado Triunvirato — uma aliança de três grandes comandantes militares: Marco Licínio Crasso (que esmagou a revolta de Espártaco em 74 AEC), Cneu Pompeu Magno (o conquistador da Síria) e Caio Júlio César (conquistador da Gália). Em 54 AEC, Crasso, então governador romano da província da Síria, ao passar o inverno na Judéia, decretou um "imposto de guerra" sobre a população para financiar seu exército, e também saqueou o templo de Jerusalém, roubando seus tesouros (no valor de dez mil talentos) e causando grande agitação na judiaria. Crasso e a imensa maior parte de seu exército seriam massacrados pelos partas na infeliz Batalha de Carras do ano 53 AEC. [3]


Marco Licínio Crasso

Lúcio Cássio Longino, um dos líderes de Crasso que conseguiu escapar do massacre de Carras com seus 500 cavaleiros, retornou à Síria para preparar-se para um contra-ataque parta e restabelecer o prestígio romano afundado na província. Depois de expulsar os partas, Cássio teve de enfrentar uma rebelião da judiaria, que tinha surgido assim que soube que o odiado Crasso tinha sido morto. Ele aliou-se a Antípatro de Idumeia e Hircano II, e depois de tomar Tariquéia e executar Pitolau (um dos cabeças da rebelião, que tinha sido entendido com Aristóbulo), Cássio capturou 30.000 judeus e, em 52 AEC, vendeu-os como escravos em Roma. Pode-se dizer que este é o verdadeiro início da subversão dentro da própria Roma, uma vez que esses 30.000 judeus, mais tarde libertados por Marco Antônio, e seus descendentes, dispersos pelo Império, não cessariam de promover agitação contra a odiada autoridade romana, e teria um papel importante na construção das catacumbas e sinagogas subterrâneas, que foram mais tarde o primeiro campo de pregação do cristianismo. Cássio seria mais tarde nomeado governador da Síria.

A situação do Império Romano em 50 AEC. César conquistou a Gália, Pompeu conquistou Síria e Fenícia, e a Judéia, no extremo sudeste do Império, é um território que tributa Roma e está sob órbita romana, apesar de manter sua autonomia.

Em 49 AEC, quando Crasso estava morto e, portanto, o Triunvirato desfeito, a guerra civil estourou entre Pompeu e César, um dos quais, inevitavelmente, iria tornar-se o ditador autocrático de todo o Império. Antípatro de Idumeia e Hircano II decidiram tomar partido por César, mas este colocou Antípatro de regente. Júlio César logo seria o mestre da situação, e Pompeu foi assassinado no Egito por conspiradores.

Rivais, mas não inimigos: os generais Pompeu (à esquerda) e Júlio César (à direita). A honra que mediava ambos ficou evidente quando o próprio César, lamentando a maneira suja e traiçoeira com que Pompeu foi assassinado no Egito, mandou executar seus assassinos e erigiu um templo para honrar seu respeitado adversário.

Em 48 AEC, enquanto as frotas romana e ptolemaica estavam envolvidas em uma batalha naval, ocorreu um evento para estreitar ainda mais as relações entre judeus, gregos e egípcios: a queima da biblioteca de Alexandria. Simplificando, de todos os grupos étnicos da cidade, ninguém poderia ter nada contra a biblioteca. Os gregos a tinham fundado, os egípcios haviam contribuído muito nela, e os romanos admiravam sinceramente este legado helenístico. Os judeus, no entanto, viram na biblioteca um conjunto de sabedoria "profana" e "pagã", de modo que, se houve um grupo suspeito da primeira queima da biblioteca, logicamente era a judiaria, ou os setores mais ortodoxos e fundamentalistas da mesma. Pelo menos devem ter pensado assim os habitantes de Alexandria.

No mesmo ano de 43 AEC, os partas, um povo iraniano que lutava contra Roma naquela época, invadiram a área, conquistando a Judéia. Antígono II, o último asmoneu, como rei da Judéia, era um fantoche dos partas, e cortou as orelhas de Hircano II (para ser um sumo sacerdote não podia ter imperfeições físicas) e enviou-o para a Babilônia acorrentado. Assim, os judeus voltaram a cair sob o domínio de um povo iraniano. Mas a situação foi breve. Marco Antônio, cujo exército foi apoiado pela rainha do Egito, Cleópatra (descendente do macedônico Ptolemeu I Sóter, general de Alexandre Magno), reconquistou Jerusalém em 37 AEC, estabelecendo como marionete de Roma ao rei Herodes, antes de lançar uma campanha contra o Império Parta. Antígono II foi executado (crucificado de acordo com Dião Cássio, decapitado de acordo com Plutarco) por ordem de Marco Antônio.

Em 31 AEC, o ano de um forte terremoto em Israel que matou 30.000 pessoas, Cleópatra e Marco Antônio cometem suicídio antes de sua queda em desgraça. Um ano depois, Herodes, que jurou lealdade a Otávio Augusto (aliás, César Augusto), é reconhecido por ele como rei (um fantoche de Roma, é claro) de Israel.

A história de Cleópatra e Marco Antônio nunca cessou de alimentar a imaginação de gerações inteiras. Compelido em um complô contra Otávio Augusto, que os derrotou, ambos se suicidaram.

Flávio Josefo menciona durante o reinado de Augusto uma queixa judicial em que 8.000 judeus apoiaram uma das partes. Esses judeus deviam ser todos adultos do sexo masculino, e uma vez que uma família nuclear costumava ser de 4 ou 5 pessoas, podemos concluir que no tempo de Augusto havia em Roma cerca de 35.000 judeus.

César Otávio Augusto, o primeiro imperador romano, era "louro" (subflavum), de acordo com Suetônio, e tinha os "olhos azuis" (glauci), de acordo com Plínio ("História Natural", XI, CXLIII). Segundo Suetônio ele "tinha olhos claros e brilhantes, nos quais gostava de pensar que havia algum tipo de poder divino, e lhe agradava muito, quando olhava intensamente para alguém, deixar a pessoa se hipnotizar diante do esplendor do Sol" ("Sobre as vidas dos césares: Augusto", LXXIX).

HERODES, O GRANDE

Como vimos, César Otávio Augusto, sucessor de Júlio César à frente do Império Romano, nomeou Herodes, filho de Antípatro, rei da Judéia, e financiou seu exército com dinheiro romano. Herodes era um líder capaz, brutal, competente e inescrupuloso (foi acusado de praticamente toda a sua família), além de excelente guerreiro, caçador e arqueiro. Ele expulsou os partas de Judéia, protegendo Jerusalém do saque, perseguiu bandidos e ladrões de estradas, e também os judeus que haviam apoiado o regime títere dos partas também foram executados, consolidando-se em 37 AEC como rei da Judéia.

Embora retratado pela história como um rei implacável, cruel e egoísta, a realidade é que, por mais difícil que poderia ser, como um soberano, ele foi um dos melhores que a terra jamais teve. Mesmo no ano 25 AEC, ele sacrificou importantes riquezas pessoais para importar grandes quantidades de grãos do Egito, com o objetivo de combater uma fome que estava espalhando miséria para seu país. Apesar disso e tudo o que fez por Israel, Herodes é visto com antipatia pelos judeus, por ter sido um soberano próromano, prógrego e, sobretudo, porque questionava o judaísmo: Herodes descendia do lado paterno de Antípatro (que apoiou Cássio), que por sua vez descendia de edomitas forçados a converter ao judaísmo quando João Hircano, um rei hasmoneus, conquistou Idumeia (ou Edom) por volta de 135 AEC. Por parte materna descendia de árabes, quando a transmissão da condição judaica era matrilinear. Por isso, embora Herodes se identificasse como judeu e fosse considerado judeu pela maioria das autoridades, as massas do povo judeu, especialmente as mais ortodoxas, desconfiavam sistematicamente do rei, especialmente em vista do opulento e luxuoso estilo de vida que ele impôs em sua corte, e guardaram por ele um desprezo talvez comparável ao que os espanhóis do século XVI sentiam pelos marranos ou judeus convertidos ao cristianismo. Por sua educação e suas inclinações grecoromanas, este rei provavelmente se sentia pouco judeu, embora ele sem dúvida queria agradar a judiaria e ser um governante eficaz por conta do relato que trazia. Mais racional que seus súditos fundamentalistas, ele percebeu que enfurecer Roma não era um bom negócio.

Herodes deu a Israel um esplendor que nunca havia conhecido, mesmo sob Davi ou Salomão. Embelezou Jerusalém com arquitetura e escultura helenística, realizou um ambicioso programa de obras públicas e em 19 AEC demoliu e reconstruiu o mesmo templo em Jerusalém, considerando-o muito pequeno e medíocre. Isso irritou os judeus, que odiavam Herodes por ser um protegido dos romanos, a quem eles odiavam ainda mais cordialmente. Sem dúvida, os setores mais ortodoxos da judiaria estavam felizes com o templo tal e como era, e eles devem ter entendido mal sua conversão em um edifício de aparência mais romana (especialmente quando o rei mandou decorar a entrada com uma águia imperial dourada). [4]

Este mapa do reinado de Herodes dá uma idéia sobre a magnitude de suas obras. Destacam-se a construção de Cesaréia, Séforis (perto de Nazaré) e as fortalezas de Massada (em frente ao Mar Morto) e Heródio (perto de Belém), bem como a reconstrução de Samaria sob o nome de Sebaste, num gesto claro de homenagem ao Imperador (Sebastos significa Augusto em grego). Também construiu pontes, aquedutos e outras novidades de origem romana. Para financiar tudo isso, ele aumentou os impostos, o que o tornou antipático aos olhos do povo judeu, relutantes em ver como seu país estava melhorando.

Herodes estava continuamente envolvido em conspirações por sua família, muitas das quais (incluindo sua própria esposa e dois de seus filhos) foi executada por sua própria ordem. À medida que foi amadurecendo, a doença apoderou-se do soberano, que sofria de úlceras e convulsões. Morreu em 4 AEC, na idade de 69 anos. Com o tempo, foi dito que ele "ascendeu ao trono como uma raposa, governou como um tigre e morreu como um cão".

O primeiro templo em Jerusalém era uma estrutura modesta, como vimos no início. O segundo, semelhante ao primeiro, foi construído sob a proteção do imperador persa Ciro II em 515 AEC [5]. No ano 19 AEC, Herodes propôs renová-lo e ampliá-lo, pelo qual demoliu o templo, erigindo, sob proteção romana, um novo grandioso, embora continuasse a ser chamado de "segundo templo" (templo de Herodes precisamente). Embora os judeus odiassem Herodes, a verdade é que ele deu ao templo um tamanho e um esplendor que nem Salomão nem Zorobabel poderiam ter imaginado.

No mesmo ano de 4 AEC, dois fariseus judeus chamado Zadoque e Judas de Gamala fizeram uma apelação para não pagarem tributo a Roma. Houve uma revolta farisaica, e os rabinos ordenaram a destruir a imagem "idólatra" da águia imperial que Herodes tinha colocado na entrada do templo de Jerusalém. Herodes Arquelau (filho de Herodes) e Varo (militar romano) sufocaram a revolta duramente, e fizeram crucificar quase 3.000 judeus. Pensa-se que talvez esta primeira revolta seja a origem do movimento zelote, do qual falaremos em breve. Arquelau, apesar de ter sido proclamado rei por seu exército, não assume o título até que, em Roma, depois de ter apresentado seus respeitos a César Augusto, é feito etnarca da Judéia, Samaria e Idumeia, apesar dos judeus romanos, que o temiam pela crueldade com que ele tinha suprimido o a revolta farisaica. 

Arquelau é mencionado no Evangelho de Mateus, dado que Yosef, Miriam e Yeshua (conhecidos como José, Maria e Jesus, respectivamente) tinham fugido para o Egito para evitar o Massacre dos Inocentes (supostamente, Herodes Arquelau ordenou naquele ano a execução de todos os primogênitos dos Belém, uma vez que profetizou que tinha nascido em Belém para ser declarado faria Messias dos judeus), e eles estavam com medo de voltar para a Judéia quando perceberam que Arquelau tinha acontecido a seu pai.

Arquelau é mencionado no Evangelho de Mateus, já que Yosef, Miriam e Yeshua (conhecidos como José, Maria e Jesus, respectivamente) tinham escapado para o Egito para evitar o Massacre dos Inocentes (supostamente, Herodes Arquelau ordenou naquele ano a execução de todos os primogênitos de Belém, uma vez que tinha sido profetizado que um nascido em Belém se declararia Messias dos judeus), e tinham medo de voltar para a Judéia quando souberam que Arquelau tinha sucedido seu pai.

O Império Romano no ano do nascimento de Jesus Cristo. Herodes Arquelau é o governante da Judéia, um fantoche de Roma. Cinco anos depois, a Judéia se tornaria uma província romana. A cidade de Roma tem 1,3 milhões de habitantes, dos quais mais da metade são escravos.

Em 6 AEC, após as queixas dos judeus, Augusto despacha Arquelau, enviando-o para a Gália. Samaria, Judéia e Idumeia são formalmente anexadas como uma província do Império Romano, com o nome Judéia. Os judeus passaram a ser governados por procuradores romanos, uma espécie de governadores que tinham de manter a paz, romanizar a zona e exercer a política fiscal de Roma cobrando impostos. O direito de nomear o sumo sacerdote de sua escolha também se arrogou.

Os judeus odiavam os reis títeres, embora impusessem ordem, desenvolvessem a área e, em suma, civilizassem o país. Paradoxalmente, desde o início, a judiaria também foi altamente hostil aos romanos, cuja intervenção praticamente havia implorado. Agora, além do tributo ao templo, eles também tinham de prestar homenagem a César — e, pela tradição, o dinheiro não era algo que os judeus de dessem de bom grado. Nesse mesmo ano 6, o cônsul Quirino chega à Síria para fazer um censo em nome de Roma, com o objetivo de estabelecer impostos. Dado que Judéia tinha sido anexada à Síria, Quirino incluiu os judeus no censo. Como resultado disto e da nova irrupção da cultura européia na área, floresceu o movimento terrorista fundamentalista dos zelotes. Josefo considera os zelotes como a quarta seita judaica além (de menor a maior extremismo religioso) dos essênios, saduceus e fariseus. Os zelotes eram os mais fundamentalistas de todos, recusavam-se a pagar impostos ao Império Romano, e para eles todas as outras facções judaicas eram heréticas; qualquer judeu que colaborasse minimamente com as autoridades romanas era culpado de traição e devia ser executado. A luta armada, a militarização do povo judeu e a expulsão dos romanos, foram o único caminho para alcançar a redenção de Sião. O apóstolo Simão, um dos discípulos de Jesus Cristo, pertencia a esta facção de acordo com a Bíblia (Novo Testamento, Evangelho de Lucas, 6:15).

Dentro dos zelotes distinguiram-se os sicários, uma facção ainda mais fanática, sectária e radicalizada, assim chamados pela sica, um punhal que poderia ser facilmente escondido e usado para assassinar seus inimigos. Os zelotes e os sicários formarão o núcleo rígido da Grande Revolta Judaica, que veremos na segunda parte. Eles eram também o elemento mais ativo do judaísmo na época, já que naquela época era provável que a maioria dos judeus, embora detestassem cordialmente os gregos e os romanos, simplesmente gostariam de viver e enriquecer em paz, concordando com que fosse necessário para isso.

Como não poderia ser de outra forma, os sicários e zelotes também lutaram muitas vezes. E é que havia um total de 24 facções judaicas que geralmente lutavam umas contra as outras, num quadro muito representativo do que os rabinos denominavam sinat chinam (isto é, "ódio gratuito", de judeu contra judeu — talvez porque já se sabe que odiar não-judeus faz sentido) — e que talvez tenha sido melhor caricaturado no filme "A vida de Brian" (1979).

Em 1919, quando a judiaria estava em processo de escalada para ganhar influência na própria Roma, Tibério expulsou os judeus da cidade, instigados pelo Senado. Preocupado com a popularidade do judaísmo entre os escravos libertados, ele proibiu os ritos judaicos na capital do Império, considerando os judeus como "um perigo para Roma" e "indignos de permanecer entre os muros da urbe (cidade)" (de acordo com Suetônio). Naquele ano, por ocasião de uma fome na província do Egito, Tibério nega as reservas de grãos aos judeus alexandrinos, já que não os considera seus cidadãos.

Tibério lançou medidas antijudaicas em seu reinado, durante o qual Jesus Cristo foi executado. Tibério tinha olhos "azuis-acinzentados" (caesii) de acordo com Plínio, ("História Natural", XI, CXLII).

SOBRE JESUS ​​CRISTO E O NASCIMENTO DO CRISTIANISMO

"Pois assim o Senhor nos ordenou: 'Eu fiz de você luz para os gentios, para que você leve a salvação até aos confins da terra'." - (Bíblia, Novo Testamento, Atos 13:47).

"Vocês, samaritanos, adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus". - (Bíblia, Novo Testamento, Evangelho de João, 4:22).

"Mas tu, Belém, da terra de Judá, de forma alguma és a menor entre as principais cidades de Judá; pois de ti virá o líder que, como pastor, conduzirá Israel, o meu povo". - (Bíblia, Novo Testamento, Evangelho de Mateus, 2:6).

"Chrestus, o fundador do nome, sofreu pena de morte no reinado de Tibério, por intermédio de um dos nossos procuradores, Pôncio Pilatos, e a superstição perniciosa parou momentaneamente, mas surgiu novamente, não só na Judéia, a raiz da doença, mas na própria Roma". - (Tácito, "Anais", livro 15, 44, sobre a perseguição anti-judaico-cristã decretada pelo Imperador Nero).

Vimos na seção anterior a fuga de alguns judeus, tal como Yosef e Miriam com seu filho Yeshua para escapar do massacre ordenado por Herodes Arquelau. Quem eram essas pessoas? Yosef (vulgo José), o pai, era um judeu da Casa de Davi, mas como José supostamente não interveio na gravidez da Virgem, examinaremos a linhagem de Miriam (vulgo Maria). De acordo com o Evangelho de Lucas [6] (1: 5,36), esta mulher era da família de Davi e da tribo de Judá, e o anjo que apareceu a ela previu um filho que Javé "lhe dará o trono de seu pai Davi, e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó". Jesus enfim nasce em Bethlehem (Belém). No Evangelho de Mateus [7] (1:1) está associado a Abraão e Davi, e nesse mesmo evangelho (21:9) descreve como as multidões judaicas de Jerusalém aclamam Jesus gritando "Hosana ao Filho de Davi!", sem mencionar, é claro, os "magos do Oriente" que visitaram o Messias seguindo uma estrela e perguntaram: "Onde está o recém-nascido rei dos judeus?" (Mateus 2: 1-2).

Jesus, que nunca pretendeu fundar uma nova religião, mas sim preservar o puro judaísmo ortodoxo, deixou claro que "Não pensem que vim abolir a Lei (de Moisés, a Torá) ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir" (Mateus 5:17), e enfurecido ao ver que o templo de Jerusalém estava sendo profanado por mercadores, expulsou-os. Esse agitador judeu, como aiatolá, não hesitou em confrontar — com a autoridade que lhe foi dada por ser chamado de rabino — o resto das facções judaicas de seu tempo, especialmente os fariseus, dizendo que "Aquele que não está comigo, está contra mim" (Mateus 12:30). Jesus cercou-se de um círculo de discípulos, entre os quais podíamos destacar o mencionado São Simão, São Bartolomeu (do qual o próprio Jesus diz no Evangelho de João, 1:47, "Aí está um verdadeiro israelita"), o mencionado Mateus (ver a nota sete), Judas Iscariotes (que o traiu aos fariseus por dinheiro), e embora dos demais não haja tantos sinais, deve ser lembrado que até a jornada de São Paulo (também um judeu), tempo após a morte de Jesus, para ser cristão era imprescindível ser judeu circuncidado, ortodoxo e observador. Que a doutrina de Jesus estava dirigida aos judeus é manifestada no Evangelho de Mateus, 10, quando ele diz aos 12 apóstolos: "Não se dirijam aos gentios, nem entrem em cidade alguma dos samaritanos. Antes, dirijam-se às ovelhas perdidas de Israel". A frase implica recolher no colo ortodoxo aqueles judeus que se desviaram da Lei de Moisés — e é que, "Se vocês cressem em Moisés, creriam em mim" (João 5:46).

No ano 26, Tibério, que havia expulsado os judeus de Roma sete anos antes e estava em plena época antissemita de seu reinado, nomeia Pôncio Pilatos (um hispano nascido em Tarragona ou em Astorga) como procurador da Judéia, e única pessoa decente do Novo Testamento de acordo com Nietzsche). Depois do incidente com os estandartes de Pompeu, os judeus tinham conseguido de imperadores anteriores que não entrassem em Jerusalém com estandartes desdobrados, mas Pilatos entra desfilando na cidade, exibindo muito alto os estandartes com a imagem do imperador. Isto, junto com os escudos de ouro colocados na residência do governador e o uso do dinheiro do templo para construir um aqueduto para Jerusalém (que transportava água a uma distância de 40 km) provocou uma irada reação judaica. Para reprimir a insurreição, Pilatos infiltrou soldados entre a multidão e, quando visitou a cidade, deu um sinal para que os legionários infiltrados sacassem as espadas e começassem uma carnificina.

No ano 33, depois de várias escaramuças dos ortodoxos de Jesus Cristo com facções rivais — particularmente com os fariseus, que naquela época detinham o poder religioso e viram com desconforto como surgiu uma nova e vigorosa facção —, Pôncio Pilatos ordena a punição de Jesus Cristo, a pedido dos fariseus. Jesus é chicoteado, e os legionários romanos, que deviam ter um senso de humor um tanto macabro e que sabiam que Yeshua se proclamava Messias e o filho de Javé, colocou uma coroa de espinhos e um caniço em sua mão direita e gritaram zombeteiramente "Salve, rei dos judeus" (Mateus 27:26-31 e Marcos 15:15-20). Quando o crucificaram, colocaram na cabeça da cruz a inscrição INRI (IESVS NAZARENVS REX IVDAEORVM: Jesus Nazareno, Rei dos Judeus).

Yeshua de Nazaré, conhecido pela posteridade como Jesus Cristo, foi um dos muitos agitadores judeus que houve em Judéia durante a convulsa ocupação romana. Executado por volta do ano 33 durante o reinado de Tibério, sua figura seria tomada por Saulo de Tarso (vulgo São Paulo), ironicamente, um judeu fariseu, maravilhado com o poder da subversão envolvendo a seita fundada por Jesus

Jesus foi, portanto, um dos muitos pregadores judeus que, antes dele e depois dele, se proclamou Messias, exceto que, em seu caso, o judeu fariseu Saulo de Tarso (atual Turquia) não tardaria em chamá-lo, em vez de Meshjah, Kristos, que vem a ser o equivalente grego a "Messias". Depois de mudar seu nome para Paulo, ele pregou a figura de "Cristo", indissoluvelmente unido à rebelião contra Roma, em todo o Império, decidindo que o cristianismo deveria ser difundido fora de seu estreito círculo judaico e introduzido em Roma como uma doutrina de agitação e subversão contra a autoridade do imperador.

CALÍGULA

Em 38 Calígula, o sucessor de Tibério, envia à agitada cidade de Alexandria a seu amigo Herodes Agripa I, para vigiar a Aulo Avílio Flaco, o prefeito do Egito, que não gozava precisamente da confiança do imperador e que — de acordo com o filósofo judeu Fílon de Alexandria ("Contra Flaco") — era um autêntico vilão. A chegada de Agripa a Alexandria foi acolhida com grandes protestos pela comunidade grega, já que pensavam que veio a proclamar-se rei dos judeus. Ele foi insultado por uma multidão, e Flaco não fez nada para punir os ofensores, embora o ofendido era um enviado do imperador. Isso encorajou os gregos a exigir que as estátuas de Calígula fossem colocadas nas sinagogas, como uma provocação para com a judiaria. Para apaziguar os ânimos dos gregos e dos egípcios, e satisfazer o imperador — um dos seus emissários acabava de ser insultado —, Flaco colocou estátuas de Calígula nas sinagogas da área, que não eram poucas.

Este simples ato parecia ser o sinal de uma revolta: os gregos e egípcios atacaram as sinagogas e incendiaram-nas. Os judeus foram expulsos de suas casas, que foram saqueadas, e depois disso foram segregados em um gueto do qual não podiam sair, posto que eram apedrejados, espancados ou queimados vivos, enquanto outros acabavam na arena para servir como alimento para as feras, naqueles macabros espetáculos de pão e circo tão comuns no mundo romano. De acordo com Fílon, Flaco também não fez nada para impedir esses tumultos e assassinatos, e até os apoiou, como o egípcio Apião, que vimos criticando a judiaria na seção dedicada ao antissemitismo helenístico. Para celebrar o aniversário do Imperador (31 de Agosto, um Shabat), membros do conselho judaico foram presos e espancados no teatro; outros foram crucificados. Ao reagir à judiaria, os soldados romanos retaliam saqueando e queimando milhares de casas judaicas, profanando sinagogas e passando a faca em mais de 50 mil judeus. Quando ordenados a cessar o massacre, a população grega local, inflamada por Apião (não surpreendentemente, Flávio ​​Josefo tem uma obra chamada "Contra Apião") continuou os distúrbios. Desesperados, os judeus ordenaram a Fílon de Alexandria que argumentasse com as autoridades romanas. O filósofo judeu escreveu um texto intitulado "Contra Flaco" e, juntamente com o relatório certamente negativo que Agripa tinha dado a Calígula, o governador foi executado.

Após esses eventos, as coisas se acalmaram e os judeus não sofriam violência enquanto permanecessem dentro dos limites do seu gueto. No entanto, embora o sucessor de Flaco permitiu que a judiaria alexandrina desse sua versão dos fatos, no ano 40 houve novamente tumultos entre os judeus (que estavam indignados com a construção de um altar) e os gregos, que acusaram os judeus de recusar a render culto ao imperador. Os religiosos judeus ordenaram que o altar fosse destruído e, em represália, Calígula tomou uma decisão que realmente evidenciou o pouco que sabia sobre o judaísmo: ordenou colocar uma estátua no templo de Jerusalém. E é que, de acordo com Filo, Calígula "considerava a maioria dos judeus suspeitos, como se fossem as únicas pessoas que quisessem opor-se a ele" ("Da embaixada a Caio e Flaco"). Públio Petrônio, governador da Síria, que conhecia bem os judeus e temia a possibilidade de uma guerra civil, tentou adiar tanto quanto possível a colocação da estátua, até que Agripa convenceu Calígula de que era uma má decisão.

Em 41, Calígula, que já prometia ser um imperador antijudaico [8], foi assassinado em Roma, o que desencadeou a violência de seus guarda-costas germânicos, que não tinham sido capazes de evitar sua morte e que, por seu peculiar sentido de fidelidade, intentaram vingá-lo matando inúmeros conspiradores, senadores e até mesmo transeuntes inocentes que tiveram a desgraça de estar no lugar errado na hora errada. Claudio, tio de Calígula, conseguiu tornar-se dono da situação e, depois de ser nomeado imperador pela Guarda Pretoriana, ordenou a execução dos assassinos de seu sobrinho, muitos dos quais eram magistrados políticos que queriam reintegrar à República.

Calígula, tinha a "barba loira" (aurea barba) de acordo com Suetônio ("Sobre as vidas dos césares: Calígula", LII).

CLÁUDIO E NERO

No ano 49, Cláudio, que estava farto do conflito do lobby judaico alexandrino, proibiu "de introduzir ou convidar judeus que navegam para Alexandria da Síria ou Egito, assim, obrigando-me a ter a maior suspeita; mas certamente vou me vingar deles por fomentar uma praga geral [desordem] em todo o mundo".

Cláudio, tinha o cabelo "grisalho" (canitieque) de acordo com Suetênio ("Sobre as vidas dos césares: Cláudio", XXX), e os "olhos cinzas" (γλαυκόφθαλμος) de acordo com João Malalas ("Cronografia", X, CCXLVI)

Claudio também expulsou todos os judeus de Roma no ano 50 (aparentemente, segundo Suetônio, "agiu sem cessar sob a instigação de Chrestus") e, como pontífice máximo, tentou conter a expansão dos cultos orientais, incluindo o cristianismo e o judaísmo, no Império.

Ano 50. Judéia já faz parte do Império Romano, mas sua romanização nunca se estabelecerá, pelo contrário,  antes se estabelecerá a judaização da própria Roma.

De Nero falaremos na terceira parte. Sua esposa, uma meretriz ociosa chamada Popeia Sabina, era abertamente simpatizante dos judeus e cristãos, e conspirou nas costas do imperador para favorecê-los. Assim, por exemplo, por intermédio de Popeia, foi libertado o próprio Flavio Josefo, que fora enviado a Roma para negociar melhores condições para seu povo. O ministro romano Sexto Afrânio Burro foi assassinado no ano 62 por ordens de Popeia, ou quiçá por judeus, depois de negar-lhes a cidadania romana na Grécia. O imperador, cansado de ter a conspiração perto dele, executou sua esposa. A versão "oficial" é que ele chutou-a na barriga enquanto ela estava grávida, o problema é que aqueles que relataram dita versão tinham uma forte inimizade com o imperador, por isso deve ser levado com cautela. Isto seguiu uma sangrenta repressão romana contra judeus e cristãos, na qual judeus "revolucionários" como São Paulo ou São Pedro caíram. Esta execução de figuras-chave no movimento estratégico judaico para apodrecer as fundações romanas, juntamente com alguns outros fatores, seria o gatilho de uma revolta judaica maciça, que discutiremos na segunda parte.

Nero, era "loiro ou ruivo" (subflavo), e tinha os olhos "azuis-cinzento" (caesis) de acordo com Suetônio ("Sobre as vidas dos césares: Nero", LI), e descendia da família dos enobarbos (barba vermelha). 

SEGUNDA PARTE

Na primeira parte focamos na repressão antissemita (antijudaica e anticristã) que o imperador romano Nero ordenou no ano 62. Na segunda parte veremos como todos os eventos anteriores supuseram uma escalada de violência étnica, culminando nesta parte com o desencadeamento de três guerras imensas em que, pela primeira vez, vamos ver a erradicação das comunidades étnicas gregas da Ásia Menor e África do Norte nas mãos dos levantes judaicos.

Em 64, Nero envia Géssio Floro como procurador para a província da Judéia. O historiador Flávio Josefo culpa Floro por absolutamente todos os tumultos que aconteceram na área, mas a verdade é que, como vimos, eles não começaram com ele — e, como judeu e saduceu, as obras de Flávio Josefo devem sempre ser lidas com cautela (por exemplo, tem uma escrita chamada "Contra os gregos", em que faz apologia do judaísmo).

Em Cesaréia (ver o mapa mapa do reino de Herodes, na primeira parte), um judeu simpatizante do helenismo sacrificou vários pássaros na frente da sinagoga, que na mentalidade tradicional judaica "contaminou" o edifício, como vimos várias vezes antes. Com este precedente, mas com uma longa história de hostilidade anterior, as comunidades grega e judaicas de Cesaréia envolveram-se em uma disputa legal na qual, com a mediação romana, os gregos ganharam. Sob o conselho de Géssio Floro, Nero revogou a cidadania dos judeus da cidade — o que os deixou à mercê da própria população grega antijudaica.

Os gregos logo começaram um massivo pogrom durante o qual massacraram milhares de judeus. Floro e os militares romanos (que evidentemente se identificavam antes com os gregos do que com os judeus e talvez até planejavam usar os gregos como a vanguarda da limpeza étnica na área) não intervieram para proteger os judeus ou pacificar a cidade, permitindo que os judeus fossem assassinados e sinagogas profanadas a porto e estibordo. De acordo com Josefo, quando os rabinos levaram os pergaminhos sagrados para salvá-los de serem pegos nas chamas, Floro ordenou que fossem jogados em masmorras. Isso foi demais para um grupo tão coeso quanto os judeus, e eles reagiram com mais violência, o que só intensificou o pogrom e espalhou-o para outras populações, com conseqüentes represálias romanas.

Jerusalém, portanto, começou a se encher de refugiados judeus de Cesaréia e outras áreas cujas casas tinham sido queimadas e cujas posses haviam sido confiscadas pelos romanos, clamando vingança e exalando ressentimento através de cada poro. O massacre de judeus em Cesaréia provou ser o gatilho de uma grande guerra que, de qualquer forma, estava gestando por algum tempo.

PRIMEIRA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A GRANDE REVOLTA JUDAICA (66-73 EC)

"O Oriente quer se revoltar e Judas quer tomar posse da dominação mundial". - (Tácito).

Em 66, Floro chegou a Jerusalém, onde exigiu um tributo de dezessete talentos do tesouro do templo. Eleazar ben Ananias, filho do sumo sacerdote, reagiu por cessar as orações e sacrifícios em honra do imperador de Roma, e ordenou atacar a guarnição romana. Ele respondeu matando cerca de 3.600 judeus, saqueando o mercado, entrando em casas, prendendo muitos dos líderes judeus, fazendo com que fossem açoitados em público e crucificados.

No dia seguinte, no entanto, a concentração de judeus havia aumentado. O barril de pólvora estava prestes a explodir.

Em 8 de Agosto de 66 EC, os zelotes e sicários deram um golpe surpresa em Jerusalém: eles assassinaram o destacamento romano e abateram todos os gregos. De forma sincronizada, surgiram os judeus de todas as províncias e colônias romanas. Em Jerusalém formou-se um conselho que enviou 60 emissários por todo o Império, com o trabalho de levantar às diversas judiarias. Cada um desses emissários declarou-se o Messias e proclamou o início de uma espécie de "nova ordem". Herodes Agripa II, o etnólogo da Judéia, em vista das massas populares estava em plena ebulição, optou por fazer as malas e deixar a província em uma boa temporada.

O efeito disso foi o retorno das revoltas judaicas e, como reação, mais pogroms antijudaicos em Cesaréia, Damasco e Alexandria, sem contar a intervenção das legiões romanas, que reprimiram duramente a judiaria das cidades mencionadas e também em Ascalã, Hipos, Tiro e Tolomaida (ver mapas da primeira parte). Os setores judeus mais moderados e sensatos aconselharam-se a apressar-se a chegar a um acordo com Roma, mas o critério que prevaleceria na direção da judiaria era o dos zelotes e sicários que, fanáticos, juraram lutar até a morte, entrincheirando-se nas fortalezas inexpugnáveis ​​de Jerusalém, fortificando os muros da cidade e mobilizando toda a população.

Sob as ordens de Nero, Céstio Galo, o legado romano na Síria, concentrou tropas no Acre (um lugar que seria muitos séculos mais tarde um importante centro estratégico dos cruzados europeus) para marchar em Jerusalém, devastar as populações judaicas que encontrasse em seu caminho e esmagar a revolta. Galo tomou a cidade de Jope (atual Jafa), matando 8.400 judeus (mais tarde os refugiados se reagrupariam na cidade e eles dedicaram-se ao banditismo e à pirataria, atraindo sobre si uma segunda intervenção romana, na qual a cidade seria definitivamente devastada e seriam mortos outros 2.400 judeus). Depois de encontrar as sólidas fortificações de Jerusalém, as forças de Galo se retiraram e foram interceptadas pelos fanáticos judeus em uma emboscada liderada por elementos dos zelotes e sicários, que massacraram 6.000 romanos no mesmo lugar que os macabeus derrotaram os macedônios séculos antes. Os judeus, excitados pela repetição simbólica do evento, formaram um governo liderado pelos elementos mais fundamentalistas e cunharam moedas com a inscrição "liberdade de Sião".

Este trágico desastre inicial indubitavelmente levou as autoridades romanas a levar mais a sério as operações de extinção da rebelião. Nero colocou o general Vespasiano no comando da repressão. Com quatro legiões (a Legio V Macedonica, Legio X Fretensis, Legio XII Fulminata e Legio XV Apollinaris, um total de 70.000 soldados, isto é, uma força formidável, apesar de enfrentar um inimigo muito superior em número), Vespasiano sufocou a revolta judaica no norte da província, reconquistando a Galiléia em 67 (capturando Flávio Josefo lá, o famoso historiador) e Samaria e Idumea (atual Edom) em 68. Os líderes judaicos Juan de Giscala (zelote) e Simon bar Giora (sicário) fugiram para a fortificada Jerusalém.

Vespasiano, tinha o cabelo "grisalho" (πολιός) e "os olhos da cor do vinho" (οινοπαης τους οφθαλμούς), embora não saiba se o vinho descrito é o vivo tito (castanho) ou vivo branco (verde), de acordo com João Malalas ("Cronografia", X, CCLIX).

DISTÚRBIOS ÉTNICOS NO EGITO

Em Alexandria, os gregos organizaram no anfiteatro uma assembléia pública para enviar uma embaixada ao imperador. Os judeus, que estavam interessados ​​em falar com Nero, vieram em grandes multidões, e assim que os gregos os viram, começaram a gritar, chamaram de seus inimigos, os acusaram de serem espiões, correram até eles e os atacaram (a versão de Flávio Josefo). Outros judeus foram mortos enquanto fugiam, e três foram capturados e queimados vivos. O resto dos judeus logo chegaram para defender seus correligionários, começando a atirar pedras contra os gregos e ameaçando queimar o anfiteatro.

Tibério Júlio Alexandre, o governador da cidade, tentou persuadir os judeus a não provocar o Exército romano, mas este conselho foi tomado como uma ameaça: os tumultos continuaram, e como resultado, o governador, sem paciência, introduziu duas legiões na cidade (a Legio III Cyrenaica e Legio XXII Deiotariana) para punir as judiarias. As legiões foram dadas carta branca para matar os judeus e também para saquear suas propriedades, pelo qual os soldados entraram no gueto e, segundo fontes judaicas, queimaram casas com judeus dentro, matando também mulheres, crianças e idosos até que todo o bairro estava cheio de sangue e 50 mil pessoas estavam mortas.

Os sobreviventes, desesperados, imploraram por misericórdia a Alexandre, e o governador teve piedade deles. Ele ordenou às legiões que parassem o massacre, e eles obedeceram imediatamente. Alexandre participaria mais tarde do cerco de Jerusalém.

CERCO E QUEDA DE JERUSALÉM ― A DESTRUIÇÃO DO SEGUNDO TEMPO

No mesmo ano 68, Nero foi assassinado em Roma e uma guerra civil eclodiu. Todo o Império Romano estava sob controle. Por um lado, as numerosas massas judaicas, em pleno calor, desafiavam o seu poder na Judéia, e por outro, o fizeram dentro da mesma Roma. Se o poder romano no Oriente vacilasse, os partas teriam sido capazes de aproveitar rapidamente para conquistar a Ásia Menor e fortalecer-se na área, o que teria sido uma enorme catástrofe para Roma. O governo estava cambaleando suavemente, mas Vespasiano voltou a Roma e lutou contra Vitélio, que alegou ser o sucessor de Nero. Depois de derrotá-lo, Vespasiano foi nomeado imperador e confiou a seu filho Tito as operações militares de repressão e o cerco da capital judaica.

O filho de Vespasiano era o general Tito. Quando seu pai foi a Roma tomar o trono de um gordo, ele, na idade de 26 anos, ficou responsável da repressão antissemítica em Judéia.

Tito cercou Jerusalém com as quatro legiões, cortando suprimentos de água e comida. Também aumentou as pressões sobre as necessidades da cidade, permitindo aos peregrinos que entrassem para celebrarem a Pessach (Páscoa judaica) e, em seguida, impedi-los de sair. Na Jerusalém sob cerco, a fome e as epidemias mataram milhares e milhares de vidas. Os judeus que constituíam o núcleo duro da rebelião — zelotes e sicários — derrubavam muros de pacifistas ou "contra-revolucionários" suspeitos de não se comunicarem com a causa sionista, ou procurarem um entendimento com Roma para conseguir condições favoráveis ​​para seu povo. De acordo com algumas passagens do mesmo Talmude, os sicários e zelotes (líderes como Menahem ben Jair, Eleazar ben Jair e Simon bar Giora) cometiam atrocidades contra a população civil judaica, incluso impedindo a chegada de alimentos, para forçá-los a serem obedientes e comprometer-se com sua causa.

Os defensores que constituíram o elemento ativo da resistência deveriam ser de cerca de 60.000 homens, divididos em zelotes (comandados por Eleazar ben Simon, ocuparam a fortaleza Antônia e o templo) os sicários (ao controle de Simon bar Giora, centrado na cidade alta), os idumeus e outros (ao controle de Juan de Giscala). Havia uma clara rivalidade entre as facções de combate, que irromperam de tempos em tempos em combates abertos. A população da fortificada Jerusalém excedeu três milhões de pessoas, a maioria das quais estava pronta para lutar, esperando que seu deus lhe desse uma mão contra os infiéis.

Como os romanos atacavam repetidamente as fortificações com imensas baixas, os zelotes ocasionalmente deixavam as muralhas para fazer incursões, nas quais conseguiam assassinar soldados romanos despreparados. Depois de uma dessas ações, Tito, numa tática de intimidação muito ambivalente, fez exibir, no sopé da cidade, seu exército em sua totalidade, com o objetivo de intimidar e desesperar os sitiados, e apelou a Flavio Josefo, que gritou para os sitiados coisas bastante razoáveis, como "Deus, que faz o Império passar de uma nação para outra, está agora com a Itália" ou "Nosso povo não recebeu o dom de armas, e para ele, fazer guerra vai inevitavelmente implicar em ser vencido nela". Aparentemente, aos ouvidos dos resistentes judeus, dominados por suas superstições e certamente esperando a qualquer momento para uma intervenção do próprio Javé, só conseguiu fazê-los mais irritados, e atiraram-no uma flecha, ferindo-o no braço.

Flávio Josefo descendia de uma longa linhagem de sacerdotais saduceus relacionado com a dinastia dos asmoneus dos tempos préromanos. Durante a Grande Revolta Judaica, o Sinédrio o fez governador da Galiléia. Depois de defender durante três semanas o cerco de Jotapata ou Yodfat, ele se rendeu aos romanos, que mataram quase todos os seus homens. Ele, que se escondeu em uma cisterna com outro judeu, foi salvo demonstrando seu grande treinamento e inteligência, e previu ao general Vespasiano sua futura nomeação como imperador de Roma. Mais tarde, acompanharia Tito e os romanos, que o usaram para tentar negociar com o Sinédrio.

Depois disso, os judeus lançaram outra súbita incursão na qual quase conseguiram capturar Tito. Os romanos foram treinados para enfrentamentos frontais com exércitos inimigos, mas não estavam acostumados à luta suja da guerra de guerrilha, em que o cavalheirismo de combate quase inexistia. Em Maio de 70, os romanos abriram com seus aríetes uma brecha na terceira muralha de Jerusalém, após o que também quebraram a segunda e penetraram como um enxame de vespas na cidade. A intenção de Tito era ir à fortaleza de Antônia, que ficava ao lado do templo e era um ponto estratégico vital da defesa judaica, mas assim que as tropas romanas superaram a segunda muralha, estavam envolvidas em violentas lutas de rua contra os zelotes e a população civil mobilizada por eles, e apesar de perder milhares de homens para a superioridade do treinamento legionário na luta corpo a corpo, continuaram a atacar, até que foram ordenados a se retirar ao templo para evitar baixas inúteis. Josefo tentou, mais uma vez sem êxito, negociar com as autoridades sitiadas para impedir que o rio de sangue crescesse.

A fortaleza de Antônia tinha sido construída por Herodes em homenagem a Marco Antônio, que o havia apoiado. As legiões de Tito, diante de um edifício construído com eficiência romana, tiveram que exceder mil calamidades para tomá-la. A imagem acima mostra como a fortaleza foi anexada ao templo.

Os romanos tentaram várias vezes quebrar ou escalar as muralhas da fortaleza sem sucesso. Finalmente, eles conseguiram tomá-la em um assalto secreto, durante o qual um pequeno partido romano silenciosamente assassinou os guardas zelotes, que estavam dormindo. A fortaleza estava cheia de legionários. Embora Tito planejasse usar a fortaleza como base para abrir uma abertura nas paredes do templo e tomá-lo, um soldado romano (de acordo com Josefo, os romanos estavam enfurecidos com os judeus por seus ataques traiçoeiros) lançou uma tocha que ateou fogo na parede. O Segundo Templo foi devastado, e para o colmo da judiaria, as chamas se espalharam rapidamente para outras áreas residenciais de Jerusalém. Quando viram o seu templo como um campo de fogo, muitos judeus suicidaram-se, pensando que Javé tinha ficado zangado com eles, abandonando-os e enviando-lhes uma espécie de apocalipse.

"Destruição do templo de Jerusalém", por Francesco Hayez.

Neste momento, as legiões rapidamente esmagaram a resistência, enquanto alguns judeus escaparam através de túneis subterrâneos, e outros, os mais fanáticos, entrincheiraram-se na cidade alta e na cidadela de Herodes. Depois de construir torres de cerco, o que restava do elemento de combate foi massacrado pelas pilos e gládios romanas, e a cidade estava sob efetivo controle romano em 8 de Setembro.

QUEDA DE MASSADA

Na primavera de 71, com Jerusalém assegurada, Tito marchou para Roma, deixando a Legio X Fretensis (sob o novo governador da Judéia, Lúcio Flávio Silva) encarregado de dar o toque de graça à resistência judaica. O último bastião de toda a rebelião foi a cidade fortificada de Massada, que tinha sido erguida pelos macabeus em uma área estratégica. Herodes havia melhorado em seu intento de manter a judiaria feliz, mas quando ele morreu, seu comércio caiu, e ficou desocupado. Agora abrigava o que restava do núcleo duro sionista: zelotes e sicários liderados por Eleazar ben Ya'ir.


No ano 72, Silva estava no sopé de Massada. Quando, após um doloroso cerco, entraram na fortaleza no ano seguinte, descobriram que os 953 defensores haviam cometido suicídio.

CONSEQÜENCIAS DA GRANDE REVOLTA JUDAICA

No ano 73, depois de sete longos anos de uma incrivelmente feroz e sangrenta guerra contra o maior poder militar do planeta, a Judéia foi devastada, Jerusalém reduzida a ruínas cínicas e o templo totalmente destruído, com exceção de um muro que permaneceu — o Muro das Lamentações. A Judéia tornou-se uma província separada, e a Legio X Fretensis ficou acampada permanentemente na capital judaica.

Sempre de acordo com fontes antigas, 1.100.000 judeus morreram durante o cerco e durante a irrupção das legiões, e outros 97.000 (incluindo os líderes Simon bar Giora e Juan de Giscala) foram capturados e vendidos como escravos em todo o Império Romano. Os vestígios de independência e unidade política dos judeus foram pulverizados, e os judeus voltaram a ser um povo sem país.

Reconquistada toda a província da Judéia, Roma cunhou moedas comemorativas nas quais apareceu o perfil do imperador Vespasiano e, na coroa, a inscrição IVDEA CAPTA (Judéia conquistada), sob a qual a Judéia era representada por uma mulher chorando.

Esta rebelião judaica estava condenada a ser uma ação kamikaze desde o início. O Império Romano era simplesmente uma força muito irresistível, e somente o fanatismo fundamentalista, pregado pelos setores sociais minoritários dentro da mesma Judéia, conseguiu arrastar todos os judeus a lutar tão teimosamente e tenazmente contra um inimigo que, afinal, era portador de uma cultura infinitamente superior e, acima de tudo, uma forma melhor e mais eficaz de fazer as coisas. Sem dúvida, a vontade e a fé movem montanhas — mas neste caso, eles não conseguiram milagres, mas a destruição de sua terra santa e o fortalecimento da ocupação romana.

A data da queda de Jerusalém no ano 70 é o início do chamado golus ou diáspora, ou seja, a dispersão dos judeus em todo o mundo. De fato, os judeus já eram mais numerosos fora da Judéia do que na Judéia (a maior população judaica do mundo estava em Alexandria), mas a destruição de sua capital decapitou o centralismo judeu e propiciou ainda mais esse processo, favorecendo desenvolvimentos autônomos, o típico sentimento apatridia e a ascensão do cosmopolitismo tão característico. Vespasiano tinha os judeus da Judéia dispersos por toda a Itália, Grécia e, sobretudo, o Norte da África e a Ásia Menor, acreditando que isso acabou com o perigo judaico para o Império.

Voltando a Roma, o triunfal Tito rejeitou formalmente a coroa de louros oferecida pelo povo romano, alegando que ele cumpriu a vontade divina e que "não há mérito em derrotar um povo que foi abandonado por seu próprio deus". Pouco tempo depois, ergueram um arco de triunfo, sob o qual nenhum judeu (pelo menos nenhum judeu tradicionalista) passou até hoje.

O arco de Tito, erguido em Roma para comemorar a tomada de Jerusalém, mostra os legionários romanos carregando os frutos da pilhagem do templo, enfatizando sem dúvida o menorá.

Este é um momento-chave na história judaica. Os judeus viram como suas conquistas foram esmagadas por um império europeu orgulhoso, como suas relíquias foram pisoteadas pelas sandálias romanas, e como seu sacrossanto templo foi um campo de chamas. Vê-lo queimando e destruído foi um grande choque na psicologia coletiva da judiaria, enchendo os judeus com ressentimento e vingança contra o que eles conheciam da Europa, que eram as comunidades grega e romana.

Roma poderia facilmente ter sido capaz de exterminar todos os judeus de Judéia se quisesse, mas não o fez: parecia-lhe que o poder judeu estava acabado. Os judeus haviam sido traumatizados, e seu orgulho tribal foi quebrado. Longe de neutralizá-los, no entanto, esse choque psicológico para seu inconsciente coletivo alimentou-os com desejos cruéis de vingança.

Os romanos haviam deixado de pé um muro do templo de Sião.

SEGUNDA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A REBELIÃO DA DIÁSPORA OU REVOLTA DOS KITOS (115-117)

"Os judeus, dominados por um espírito de rebelião, se levantam contra seus concidadãos gregos". - (Eusébio de Cesareia, "História Eclesiástica").

Esta seção tratará da vingança judaica sobre os gregos e romanos pela destruição do Segundo Templo. Com Israel ainda exausta e sob forte ocupação militar, veremos uma tentativa de estabelecer "comunas" ou Estados judeus no exterior, de secessões em Chipre, Egito, Mesopotâmia e Cirenaica. A constituição desses territórios judaicos foram exterminando as comunidades gregas locais.

A Primeira Guerra Judaico-Romana deixou muito claro que a judiaria, sob a "coexistência" com os gregos e com a autoridade dos romanos, não tinha absolutamente nenhuma chance de prosperar ou alcançar o poder, como havia feito no passado no Egito, Babilônia e na Pérsia. A situação "guetoizada" dos judeus submetidos a Roma contrastava radicalmente com a dos judeus que, na Mesopotâmia, eram súditos do Império Parta. Havia numerosas comunidades judaicas antigas, especialmente Babilônia e Susa, que se viam como grupos prósperos, ricos, poderosos e de longa data. Passaram seis séculos desfrutando de ampla liberdade, e ficaram horrorizados com a situação de seus correligionários do Império Romano. Portanto, não é surpreendente que o "judaísmo internacional" tenha apoiado incondicionalmente o Império Parta durante este tempo, em parte porque os tratou muito melhor e porque era o único inimigo realmente sério que espreitava as fronteiras do Império Romano no Leste. Eram o único poder capaz de libertar Jerusalém. Afinal, os partas mataram o odiado saqueador Crasso durante a Batalha de Carras, e se os romanos eram antijudaicos e os partas eram inimigos dos romanos, a estratégia oportunista do momento considerava o Império Parta como um regime prójudeu. Nessa época, nada teria satisfeito mais a judiaria do que uma campanha militar para conquistar a Judéia, a Síria, a Ásia Menor em geral e, se possível, também o Egito, como os persas haviam feito.

A situação em torno do ano 100. Os territórios sombreados em verde correspondem às áreas cobiçadas por Roma e acabariam por cair em seu poder, embora por razões logísticas e geopolíticas não seria capaz de sustentá-las por muito tempo.

Em 113, Trajano, que tinha como modelo Alexandre Magno, estava prestes a iniciar uma série de campanhas contra o Império Parta, com o objetivo de conquistar a Mesopotâmia. Para levar a cabo tal ação, concentrou tropas nas fronteiras orientais, à custa de deixar desprotegidas numerosas praças mais ocidentais. Conhecendo o conflito da província da Judéia, Trajano proibiu os judeus de estudar a Torá e seguir o Shabat, o que, na prática, só provocou a irritação da judiaria.

Trajano, o primeiro imperador de origem hispânica, teve a honra de ter governado o Império Romano quando suas fronteiras eram mais extensas. Sob o seu reinado, Mesopotâmia foi anexada, mas logo ficou claro que a cada passo de Roma para o Leste resultaria como reação uma revolta da judiaria. Trajano tinha o "cabelo dourado" (caesaries) de acordo com Wilhelm Sieglin ("Die blonden Haare der indogermanischen Völker des Altertums", 109),

Em 115, o Exército romano conquista toda a Mesopotâmia, incluindo cidades partas que eram importantes centros judaicos. Em toda a Mesopotâmia, os judeus, horrorizados ao ver-se cair nas mãos de seus mortais inimigos, alinharam-se com os partas e lutaram contra os romanos com ferocidade. Esta hostilidade aberta, que imediatamente recebeu notícias em todo o Império, causou uma onda de indignação e proporcionou a desculpa perfeita para as comunidades étnicas gregas das províncias de Cirenaica (atual costa da Líbia) e Chipre, com uma forte tradição antijudaica, para iniciar tumultos contra os guetos, aproveitando a ausência das legiões romanas, que poderiam apaziguar a situação.

Vários líderes extremistas judaicos voltaram a pregar a agitação contra Roma, proclamando o fim do Império, percorrendo todas as províncias romanas da Ásia Menor e do Norte da África e exortando os judeus locais a se revoltarem e a lutarem contra a ocupação européia. Os judeus, já irritados pelos tumultos com a população grega, aproveitaram a ausência de soldados romanos para iniciar, no mesmo ano 115, uma insurreição sanguinária.

Esta rebelião começou em Cirenaica, liderada por Lucuas, autoproclamado Messias. Os judeus, em um rápido ataque surpresa que lembra sua rebelião em Jerusalém meio século antes, atacaram bairros e assentamentos gregos, destruíram estátuas e templos gregos dedicados a Júpiter, Ártemis, Ísis e Apolo, bem como numerosos edifícios oficiais romanos (essas ações foram apenas um presságio do que os cristãos fariam mais tarde numa escala maciça em todo o Império). O famoso historiador romano Dião Cássio, em sua "História de Roma", descreve o terrível massacre que foi desencadeado, referindo-se a Lucuas como "André", provavelmente seu nome greco-romano:

"Naquela época, os judeus que viviam em Cirenaica, tendo como capitão um certo André, mataram todos os gregos e romanos. Eles comeram suas carnes e vísceras, banharam-se em seu sangue e vestiram-se com suas peles. Mataram muitos deles com extrema crueldade, cortando seus corpos em dois; lançaram aos animais da selva, enquanto outros os forçaram a lutar entre eles, de modo que eles levaram à morte duzentos e vinte mil".

Ele também nos conta como "os judeus destruíram os gregos e os romanos, comeram a carne de suas vítimas, fizeram cinturões de suas entranhas e se ungiram com seu sangue". Estes testemunhos, embora não devam ser levados ao pé da letra, são certamente interessantes para ver a imagem negativa que a judiaria tinha na Europa, como um povo odioso e misantrópico. Também é notável o caráter de limpeza étnica implícito nas ações judaicas na Cirenaica: pensamos que naquele tempo, muito menos povoado do que agora, duzentos mil mortos (embora possa ser um número exagerado) era um número monstruoso, a tal ponto que, de acordo com Eusébio de Cesareia, a Líbia foi totalmente despovoada e Roma teve que fundar novas colônias lá para recuperar a população.

Depois do genocídio em Cirenaica, as massas de Lucuas foram para uma cidade indefesa que há muito tempo era o centro mundial da sabedoria e antijudaísmo: Alexandria. Lá, incendiaram vários bairros gregos, destruíram os templos pagãos e profanaram o túmulo de Pompeu.

Mas a Rebelião da Diáspora não se limitava apenas ao Norte da África. O terrorismo judaico em Cirenaica e Alexandria enalteceu os judeus em todo o Mediterrâneo, que, vendo a ausência de soldados romanos, sentiram o chamado do levante contra Roma. Enquanto Trajano já estava no Golfo Pérsico lutando contra os partas, multidões de judeus, fanatizados por rabinos, subiram a Rodes, Sicília, Síria, Judéia, Mesopotâmia e do resto do Norte da África para realizar a limpeza étnica contra populações européias. Em Chipre ocorreu o pior massacre de toda a rebelião: 240.000 europeus foram massacrados e a capital da ilha, Salamina, foi totalmente devastada. De acordo com Dião Cássio:

"Uma crueldade semelhante se manifestou no Egito e na ilha de Chipre sob um tal de Artêmio, seu chefe na barbárie. Em Chipre abateram duzentas e quarenta mil pessoas, para que não pudessem mais pôr os pés na ilha".

Este mapa mostra as fronteiras do Império Romano por volta de 115, quando a Revolta da Diáspora eclodiu. As províncias problemáticas por sua população judaica são indicadas no mapa junto com as cidades importantes da zona. As áreas verdes correspondem às províncias da Arábia Pétrea, Mesopotâmia, Assíria e Armênia (todas com importantes populações judaicas), que foram anexadas a Roma após a derrota dos partas, bem como novos territórios para as províncias da Judéia e da Síria

Para reprimir a rebelião em Chipre, na Síria e nos territórios recentemente conquistados da Mesopotâmia, Trajano enviou a Legio VII Claudia às ordens de um príncipe berbere, o general Lúsio Quieto (Kito). A repressão de Quieto na Mesopotâmia foi tão implacável que os rabinos posteriormente proibiram o estudo da literatura grega (!) e eliminaram o costume de que as noivas se adornavam com guirlandas no dia de seu casamento. Em Chipre, Quieto exterminou toda a população judaica da ilha e proibiu por lei, sob pena de morte, que nenhum judeu pisasse em Chipre — mesmo que fosse um náufrago que aparecesse na praia, ele seria executado no mar local. E é que esses fatos deixaram uma marca profunda na memória dos europeus desses lugares. Como recompensa por seus serviços, Quieto foi feito governador da Judéia.

Para a pacificação de Alexandria, Trajano retirou tropas da Mesopotâmia sob o comando de Quinto Marcio Turbo, que em 117 já havia suprimido a rebelião. Para reconstruir os danos causados ​​pela revolta, os romanos expropriaram os judeus e confiscaram todos os seus bens e riquezas. Turbo permaneceu como governador do Egito durante um período de reconstituição da autoridade romana. Lucuas, que estava em Alexandria naquele tempo, provavelmente fugiu para a Judéia.

Durante toda a Rebelião da Diáspora, mais de meio milhão de europeus foram massacrados, principalmente os pertencentes às mais nobres camadas sociais de Cirenaica, Chipre, Egito e Babilônia, isto é, o povo europeu desses lugares, homens, mulheres e crianças que eram na época, a aristocracia do Mediterrâneo Oriental. Muitos foram mortos depois de sofrer tortura atroz. E embora a rebelião tenha sido impiedosamente esmagada por Trajano, Quieto e Turbo, e milhares de judeus foram mortos, Akiva ben Josef nunca foi capturado.

Esta nova derrota, mais uma vez, só aumentou o ódio, o ressentimento e a sede de sangue e vingança dos judeus, que em breve iria ressurgir, animado pelo fato de que a Rebelião da Diáspora quase derrubou a autoridade do Império Romano na mais judaizada província, pondo em perigo a situação estratégica no Oriente e a própria Roma. De fato, o judeu Heinrich Graetz (século XIX) se alegrou em seu "Geschichte der Juden von Ältesten Zeiten" [em tradução livre, "A história dos judeus dos tempos antigos ao presente"] que "somente se os numerosos centros de rebelião tivessem cooperado, então talvez eles poderiam ter sido capazes de propiciar ao colosso romano seu golpe de morte já naquele tempo".

Após a morte de Trajano em 118, o imperador Adriano chegou ao poder. Nesse mesmo ano, as revoltas se mudaram para a Judéia. Quieto, que permaneceu como governador da província, capturou e executou os irmãos Juliano e Papo, que tinham sido a alma da rebelião na Judéia... mas então assassinaram o próprio Quieto, supõem que talvez Adriano o viu como um possível adversário político. Adriano tentou acalmar a situação na Judéia concordando em permitir a reconstrução do templo de Jerusalém.

TERCEIRA GUERRA JUDAICO-ROMANA: A REVOLTA PALESTINA OU REBELIÃO DE BAR KOKHBA (132-135)

"Apesar de jurarem tornar-se bons cidadãos romanos e adorar a Júpiter e nossos outros deuses, mate-os, se você não quer que eles destruam Roma ou conquiste-a, pelos meios secretos e covardes que costumam fazer". - (Imperador Adriano, para suas legiões).

Adriano no início tinha sido minimamente conciliatório com a província da Judéia. Ele permitiu que os judeus voltassem a Jerusalém, começou a reconstrução da cidade como um presente de Roma e até mesmo lhes deu permissão para reconstruir o templo. No entanto, depois de uma visita a "terra santa", ele fez uma súbita mudança de opinião e começou novamente a fazer sentir a autoridade romana na província conflitiva. Enquanto os judeus estavam fazendo os preparativos para a construção do templo, Adriano ordenou que fosse construído em um lugar diferente do original, e então começou a depor os judeus para o norte da África. Planeando (de uma maneira míope, devo dizer) a transformação completa da Judéia, sua disjunção, sua repovoação com os legionários romanos e sua impregnação da cultura greco-romana, ordenou a fundação, em Jerusalém, de uma nova cidade romana chamada Aelia Capitolina (Élia Capitolina). Isto implicava a irrupção maciça da arte clássica, extremamente odiada pelos judeus, além da construção de numerosos edifícios romanos ― e a construção de um edifício romano necessariamente passava por uma cerimônia de consagração de um caráter religioso por augures romanos e que, de acordo com a mentalidade talmúdica, "contaminava" a "terra santa" como um ritual pagão. Jerusalém, diante dos olhos nervosos da judiaria, ia tornar-se o cenário de coisas altamente "profanas", "impuras" e "pagãs" para sua mentalidade, como ruas decoradas com estátuas nuas... e com prepúcio.

Os judeus, novamente indignados, prepararam-se para uma rebelião, mas o rabino Joshua ben Hananiah (ou Joshua ben Ananias) os acalmou, de modo que se contentaram em se preparar clandestinamente no caso de terem de se rebelar no futuro, o que parecia cada vez mais provável. Eles construíram esconderijos em cavernas e começaram a acumular armas e provisões. Embora não realizassem uma rebelião aberta, no ano 123 começaram a ter lugar atos terroristas contra as forças de ocupação romanas

A educação helenística de Adriano é evidente em sua barba. Os romanos, uma povo de soldados, como os macedônios, tinham o hábito enraizado de fazer a barba. Embora Nero teve barba parcial em alguns momentos de sua vida, foi Adriano o primeiro imperador a deixá-la permanentemente. Tal homem seria naturalmente mais propensos a tomar partido pelas populações etnicamente gregas do Mediterrâneo Oriental do que seus principais rivais: os judeus, especialmente alexandrinos. Na foto uma estátua dourada de Adriano (antigamente as representação eram fidedignas). De uma família nobre romana estabelecida na Hispânia, tinha o cabelo "castanho" (κυανοχαιτα) de acordo com Wilhelm Sieglin ("Die blonden Haare der indogermanischen Völker des Altertums", 112), e os "olhos azuis ou cinzas" (γλαυκόφθαλμος) de acordo com João Malalas ("Cronografia", XI, CCLXXVII).

Adriano, que cada vez mais se arrependia de sua indulgência anterior com a judiaria, trouxe a Legio VI Ferrata para atuar como uma força policial. Para piorar as coisas, o imperador era um homem de educação helenística. Além do antijudaísmo tradicionalmente associado a ele, a formação grega considerava a circuncisão (o Brit milá) como um ato de mutilação bárbaro. De fato, embora admirassem a nudez de um belo corpo humano, os gregos, que formavam o setor social mais influente na Judéia depois dos romanos (para não mencionar a forte influência que eles tinham sobre a própria cultura romana), consideravam como um ato de extrema má educação mostrar a glande em público, pelo qual aqueles que tinham o prepúcio muito curto de nascimento, tinham que cobrir a glande com algum acessório. Em vez disso, de acordo com a tradição judaica, Adão e Moisés nasceram sem prepúcio, e o Messias também nascerá circuncidado. Os judeus não eram os únicos a praticar a circuncisão, na verdade também era praticados por outros povos semitas, como os sírios e árabes — mas no caso dos judeus, era um caso religioso, um sinal de uma aliança entre eles e Javé. Não posso resistir a citar um trecho do Midrash Tanjuma, um escrito da tradição judaica que relata uma discussão entre o Rabi Akiva ben Yosef (o governante do Sinédrio judeu) e Turno Rufo (nomeado governador da Judéia por Adriano nesta época):

Certa vez Turno Rufo perguntou: "A obra de quem é mais bela, a do Santo, louvado seja, ou do homem, de carne e osso?"

Akiva respondeu: "A obra do homem".

Rufo replicou: "Mas olhe para o céu e para a terra! O homem pode fazer algo assim?

Akiva contestou: "Não me traga por argumento algo que está além do alcance das criaturas humanas; algo que eles não podem controlar, mas argumente com o que está ao alcance do homem".

Rufo perguntou: "Por que vocês circuncidam?"

Akiva respondeu: "Eu temia que você perguntasse sobre isso, então eu antecipei para lhe dizer que a obra humana é melhor do que a do Santo, bendito seja".

O Rabi Akiva trouxe-lhe grãos de trigo e um bolo, e disse-lhe: "Isso é obra divina e isso é obra humana. O bolo não é melhor do que os grãos de trigo?"

Rufo questionou: "Se Sua vontade é que a circuncisão seja realizada, por que então o menino não sai circuncidado do ventre de sua mãe?"

Akiva respondeu: "Por que o cordão umbilical sai com a criança, e está suspenso em seu umbigo, e sua mãe precisa cortá-lo? Com respeito ao que pergunta, por que nasce incircunciso? Te direi, que o Santo, louvado seja, não promulgou os preceitos para outro propósito senão para acrisolar com eles aos israelitas. Por isso Davi diz: 'A palavra do Senhor é comprovadamente genuína'." - (Tehilim 18: 30).

Para piorar as coisas, Adriano também decidiu proibir seguir o Shabat, que forçava os judeus a não trabalharem e praticamente não fazerem nada aos sábados.

No ano 131, depois de uma cerimônia de inauguração a cargo do governador Rufo, começaram as obras de Élia Capitolina, e no ano seguinte as moedas foram cunhadas com o novo nome da cidade e começaram as obras de um templo dedicado a Júpiter no sítio do antigo templo de Jerusalém. O Rabi Akiva ben Josef convenceu o Sinédrio a proclamar como Messias e comandante da rebelião vindoura a Simão bar Kokhba ("filho de uma estrela"), um líder astuto, sanguinário e sagaz. Bar Kokhba deve ter cuidadosamente elaborado planos, observando os pontos em que as rebeliões anteriores tinham falhado. Imediatamente, assim que Adriano deixou Judéia, nesse mesmo ano de 132, os judeus se levantaram, atacaram os destacamentos romanos e aniquilaram a Legio X (a VI estava acampada em Layun, observando Megido). Judeus de todas as províncias do Império e além começaram a se reunir, e eles também ganharam o apoio de muitas tribos sírias e árabes.


Com suas hordas fundamentalistas semitas (supostamente 400.000 homens, que se diziam ter feito a iniciação ou cortando um dedo ou arrancado um cedro da raiz) que invadiram 50 lugares fortificados e 985 populações indefesas (incluindo Jerusalém) exterminando as comunidades gregas, os destacamentos romanos e todos os oponentes que encontraram, sendo comum as atrocidades. Depois, dedicaram-se à construção de paredes e passagens subterrâneas e, em suma, para se enraizarem em cada praça.

Após estas fugazes vitórias, o Estado judeu foi reorganizado na zona. Em Betir, uma poderosa fortaleza nas montanhas, Bar Kokhba foi coroado Messias em uma solene cerimônia. Durante os anos da revolta, Ben Yosef e Bar Kokhba reinaram juntos, um como ditador e outro como um "pontífice" religioso, proclamando a "era da redenção de Israel" e até mesmo cunhando suas próprias moedas.

Na "cara" (representação proibida da figura humana "blasfema"), uma imagem da fachada do templo de Jerusalém, com uma estrela. Na coroa, uma lulav ou folha de tamareira, e a inscrição "“Ano um da redenção de Israel".

O general Públio Marcelo, governador da Síria, foi enviado para apoiar Rufo, mas ambos os romanos foram derrotados por forças muito superiores em número, que também invadiram as zonas da costa, forçando os romanos a lutar com eles em batalhas navais.

Neste tempo muito preocupante para Roma, Adriano chamou Sexto Júlio Severo, que naquele tempo era o regulador da província de Britânia. Também requiriu um ex-governador da Germânia, Quinto Lólio Úrbico. Com eles, ele reuniu um exército maior do que Tito havia reunido no século passado (um total de talvez doze legiões, um terço da metade de todos os efetivos militares do Império). Em vista do grande número de inimigos e do desespero com que agiam, ele evitou as batalhas abertas, limitando-se a atacar grupos dispersos e a destruir populações onde poderiam encontrar sustento, numa tática de guerra antipartidária. Os judeus tinham-se enraizado em cerca de 50 cidades fortificadas, muitas delas verdadeiras complexidades inexpugnáveis ​​nas montanhas, de modo que os romanos avançavam lentamente, sitiando as praças, cortando os suprimentos e entrando quando os defensores eram fracos. Esta tática dolorosa, que também exigia longas viagens por zonas hostis, lhes custou inúmeras mortes — de fato, parece que os judeus aniquilaram, ou pelo menos causaram perdas muito pesadas, a Legio XXII Deiotariana, que viera do Egito. Para confirmar as dificuldades passadas pelas legiões, Adriano retirou de seus relatórios militares ao Senado e ao Povo de Roma a fórmula tradicional de abertura "Eu e as legiões estamos bem" — pela simples razão de que as legiões... não estavam bem.

Depois de enormes sacrifícios e desperdício de disciplina e sentimento de dever, os romanos estavam triunfando pouco a pouco. Em 134, havia a fortaleza de Betir (Bettar), onde Bar Kokhba se tornara forte com o Sinédrio, seus seguidores mais leais e milhares de judeus que haviam vindo como refugiados. No próprio dia do aniversário da queda do templo de Jerusalém, a fortaleza caiu nas mãos dos soldados romanos, que mataram toda a população e não permitiram que os mortos fossem enterrados até que passassem seis dias. Essa deve ter sido a chacina, que a tradição judaica — conhecida, como se sabe, por inflar artificialmente as estatísticas de suas vítimas —, incorporada no Talmude (Guittin, 57-B), estabeleceu que "os romanos mataram quatro bilhões (sic) de judeus na cidade de Betar" (!).

O que restou das hordas fundamentalistas de Bar Kokhba fugiram e se fizeram fortes nas cavernas ao sul de Jerusalém, não muito longe da antiga fortaleza de Massada. Os soldados romanos cercaram as cavernas e, consumidos pela fome, sede e fadiga, Bar Kokhba e seus seguidores morreram, certamente sem ter cedido um centímetro em seu fanatismo.

Quanto a Ben Yosef, ele foi capturado vivo quando as tropas romanas exterminaram os últimos fragmentos da rebelião nas margens do Mar Morto. Ele foi enviado a Cesárea, onde foi executado na idade de 120 anos. Diz-se que os romanos, enfurecidos pelas perdas humanas infligidas a eles, o esfolavam vivo, mas era mais provável que morressem por crucificação, que era o método de execução reservados para aqueles que se rebelavam contra a autoridade de Roma.

CONSEQÜENCIAS DA REVOLTA PALESTINA 

Esta revolta teve conseqüências muito mais definitivas e muito mais rotundas, tanto para Roma como especialmente para a judiaria. Para começar, as perdas romanas eram tais que, além da recusa de Adriano em dizer no envio militar ao Senado que tudo estava bem, ele foi o único líder romano da história que, depois de uma grande vitória, se recusou a voltar a Roma celebrando o triunfo. Tito Vespasiano só havia rejeitado uma coroa de louros em seu tempo, Adriano levou isso para o próximo nível.

No entanto, se as perdas romanas foram grandes, as perdas judaicas foram enormes. De acordo com Dião Cássio, 580.000 judeus foram mortos, 50 cidades e 985 aldeias judaicas arrasadas completamente (e não reconstruídas) e centenas de milhares de judeus vendidos como escravos em todo o Império. Não é de surpreender que o Talmude chamasse este processo de "guerra de extermínio" e até fizesse declarações exorbitantes para mitificar o conflito, como "Dezesseis milhões de judeus foram enrolados em rolos e queimados vivos pelos romanos" (Guittin, 58-A) . Em todo caso, os judeus foram finalmente levados de Roma pela força das armas. Em troca, a ameaça judaica, que tantas dores de cabeça tinha dado a Roma, ia aumentar em todo o Mediterrâneo, devido à disseminação ainda maior da diáspora, e o terreno fértil que isso significou para a expansão daquela outra rebelião antiromana que era o cristianismo.

As condições da derrota impostas aos judeus eram ainda mais duras do que o triunfo de Tito em 70. Como medidas contra a religião judaica, Adriano proíbe tribunais judaicos, reuniões em sinagogas, calendário judaico, estudar os escritos religiosos e o judaísmo em si como religião (!). Fez executar numerosos rabinos e queimar massas de pergaminhos sagrados em uma cerimônia no Monte do Templo. Ele tenta erradicar a própria identidade judaica e o próprio Judaísmo, enviando-os para o exílio, escravizando-os e dispersando-os da Judéia. Esta perseguição contra todas as formas de religiosidade judaica, incluindo o cristianismo, continuaria até a morte do imperador em 138.

Além disso, em outra tentativa de arrancar definitivamente a identidade judaica e de afastar seu centro de poder, as províncias orientais foram reestruturadas, formando três províncias sírias: a Síria Palestina (assim chamada em honra dos filisteus, um povo de origem européia inimigo dos judeus e que habitou a área após a invasão dos povos do mar), que coincidia com a antiga Judéia, a Síria Fenícia e a Celessíris.

Na nova ordem territorial decretada por Adriano, a Judéia tornou-se a Síria Palestina, e Jerusalém tornou-se Élia Capitolina, uma cidade grega e romana da qual os judeus eram proscritos. As três sírias formam o Levante, uma faixa extremamente ativa e conflituosa na história até hoje. Daí vieram o Neolítico, os fenícios, o Judaísmo e o Cristianismo, e através dele praticamente todas as civilizações da antiguidade, criando um caos étnico que sempre acabou levando a conflitos. Séculos mais tarde, estas áreas veriam o estabelecimento de Estados europeus cruzados.

Quanto à cidade de Jerusalém, Adriano levou a cabo com ela os planos que haviam desencadeado a revolta: a capital judaica foi demolida e destruída, e os romanos araram sobre as ruínas para simbolizar a sua "purificação" e seu retorno à terra. Adriano finalmente construiu a projetada Élia Capitolina sobre as ruínas, introduzindo um novo planeamento urbano, de tal forma que mesmo hoje em dia a parte antiga de Jerusalém coincide com a construída pelos romanos. No centro da cidade foi estabelecido um fórum, que incluiu, entre outras coisas, um templo consagrado a Vênus. No lugar do templo, Adriano erigiu duas estátuas, uma de Júpiter e uma de si mesmo — embora respeitasse o Muro das Lamentações. Da mesma forma, ao lado do Calvário ou Gólgota, onde Jesus Cristo foi crucificado, ele colocou uma estátua de Afrodite. Isto pretendia simbolizar o triunfo de Roma sobre o judaísmo ortodoxo e o cristianismo, considerado uma seita judaica de tantas, e que em Roma era perseguido sem distingui-lo do judaísmo "oficial". Para os gregos e romanos, as estátuas de seus deuses eram representativas do espírito divino, solar, luminoso e olímpico sobre a Terra, enquanto os judeus (inclusive os cristãos) nada revirava mais seu estômago do que uma estátua desnuda, bela, com características européias e aparência invencível. Para eliminar a desjudaização da cidade, Adriano proibiu qualquer judeu de pôr pé em Élia Capitolina, sob pena de morte.

Esta lei só seria derrubada dois séculos mais tarde pelo Imperador Constantino, o primeiro imperador cristão, que foi o que cristianizou o Império Romano. Em 330, permitiu que os judeus fossem ao muro que ficava no templo de Jerusalém, para rezar uma vez por ano, no Tishá BeAv. Estas sessões de adoração, cheias de pranto, orações, resos, salmos e lamentações, deram ao muro o nome que ele carrega: o Muro das Lamentações. Lá os judeus choram amargamente até hoje pelo símbolo de um suposto esplendor que nunca existiu nem pertencia a eles ― porque não foram eles que construíram o templo de Sião, mas foi o fenício Hirão, depois os persas de Ciro e Dario, E depois os romanos sob Herodes. O símbolo do templo seria muito importante no misticismo judeu dos estágios posteriores, impregnando completamente a Maçonaria, tão adepta do Antigo Testamento e de tudo o que é hebraico no mundo.

A decisão prójudaica do primeiro imperador cristão foi motivada pela importante influência judaica que, através do cristianismo, chegou ao coração de Roma. Mas isso é outra história, que será discutida na terceira parte.

ALGUMAS CONCLUSÕES

• Os gregos e os romanos, de sua ingenuidade olímpica (e digo isto porque só um ingênuo poderia proibir a Torá, o Shabat ou o Brit milá sem perceber que os judeus preferiam morrer inteiramente a renunciar a suas tradições), foram demasiado míope e muito superficial no tratamento do problema judaico. Eles também mostraram que não conheciam as peculiaridades que diferenciavam os judeus do resto dos povos semitas do Oriente Próximo e pensavam que poderiam colocar seus templos e suas estátuas lá como se isso fosse nada mais do que uma outra província árabe ou síria bem helenizada e bem persistida. A persistência de identidade que a judiaria demonstrou não fez com que os romanos despreocupados pensassem o suficiente.

• A convicção de que os clássicos deviam ser portadores de uma cultura superior, fez com que caíssem em um erro fatídico: pensar que uma cultura pode ser válida para toda a humanidade e exportada para povos de etnia diferente. A helenização e a romanização do Oriente e do Norte da África só tiveram um efeito: o caos étnico, a balcanização da própria Roma, as lutas e, finalmente, o aparecimento do cristianismo.

• Mesmo com a força bruta de suas legiões, Roma demorava em perceber que os judeus, em seu ressentimento e desejo de vingança, não se importavam em sacrificar ondas e ondas de indivíduos se pudessem destruir um único destacamento romano. Este fanatismo fundamentalista, que ultrapassou o racional, deve ter assombrado os romanos, que não estavam acostumados a ver um povo mal equipado militarmente imolar-se de uma maneira tão convencida, com a mente cheia de fé cega em um deus ciumento, vingativo, abstrato e tirânico. O que os judeus chamam Javé e na Europa era conhecido como Jeová é, sem dúvida, uma vontade extremamente real, e também uma força claramente oposta aos deuses olímpicos e solares dos povos europeus, cuja ápice era o Zeus-Júpiter greco-romano.

• A vocação revolucionária e agitadora dos judeus nasceu aqui. Os judeus perceberam o poder primitivo e dominador de uma multidão ressentida, fanática e ignorante, e a usaram habilmente no cristianismo e depois no bolchevismo. A mesma vontade cega de sacrificar ondas e ondas foi vista no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, sendo os alemães a reencarnação do espírito romano nessa época, enquanto o comissariado soviético, que era mais de 90% judeu, representava sem dúvida a vontade de Israel.

• Os judeus em geral, enfrentavam extinção e limpeza étnica. Os gregos, que tinham mais poder e influência do que em Roma, iriam eventualmente erradicá-los pouco a pouco da Ásia Menor, enquanto Roma, sob influência germânica, poderia ter durado para sempre: a cidade simplesmente teria se tornado parte do mundo germânico graças à crescente influência política dos germanos nas legiões e à progressiva colonização do Império pelos germânicos federados.

• Tanto o judaísmo como o cristianismo são o produto de um caos cultural. Não é por acaso que o judaísmo nasceu na área de maior confusão étnica do planeta, terra de ninguém entre egípcios, assírios, babilônios, acádios, caldeus, persas, hititas, medos, partas, macedônios e romanos, sem mencionar os povoados como os amorreus, os filisteus, os amonitas, os moabitas, os edomitas e as doze tribos de Israel, que habitavam a mesma área que nos interesse e que, juntos, aniquilaram a identidade de povos inteiros num maremagnum genético.

• O caráter direto e marcial dos romanos, que apesar de não terem compreendido a essência judaica, satisfizesse bem a ânsia de poder e seu caráter problemático, obrigou os judeus a agir, a exercer sua força de vontade como povo, quebrar a cabeça para sair com a invenção cristã, e também deu-lhes a desculpa perfeita para gastar os próximos dois milênios se tornando vítimas e lamentando no único muro restante do templo em Jerusalém. É provável que sem a existência de Roma, a judiaria teria acabado descansando sobre seus louros e esquecendo seus interesses.

• A Diáspora e a erradicação da Judéia como centro judaico não conduziram de modo algum à dissolução da identidade judaica. O judaísmo rabínico, depois de vagar pelo Egito e pela Babilônia, estava mais do que acostumado ao nomadismo, e a diáspora realmente veio muito mais cedo, embora as guerras na Judéia o aumentassem com ondas de refugiados.

• Os judeus, mostrando grande inteligência, perceberam que não poderia derrotar Roma em uma guerra convencional, e que rebeliões, lutas e guerras abertas fracassaram porque os romanos eram soldados mais fortes, mais corajosos, mais poderosos e melhores por natureza, apesar de serem inferiores numericamente. No entanto, a rebelião secreta e subterrânea que os judeus secretamente incutiram em Roma iriam florescer como se fosse a semente da discórdia, "pelos meios secretos e covardes", que Adriano imaginou que usaria a judiaria para finalmente triunfar sobre Roma. Esta clandestina rebelião antieuropeia, em geral, e antiromana em particular, também tinha um nome: era chamado cristianismo ou, em palavras de Tácito, essa "superstição conflituosa" que "não só estourou na Judéia, a primeira fonte do mal, mas incluso em Roma, onde todas as coisas horrendas e vergonhosas de qualquer parte do mundo encontram seu centro e se tornam populares ".

• A longo prazo, o efeito dos confrontos entre judeus de um lado e greco-romanos do outro foi a consolidação do cristianismo como a única opção para a conquista semítica de Roma, que, por sua vez, teve o efeito da limpeza étnica da minoria européia no Mediterrâneo Oriental (especialmente a odiada comunidade grega, que tinha seu centro em Alexandria), principalmente a partir do século IV. Parece-me óbvio que, após a invenção do cristianismo, havia um intelecto enormemente desenvolvido, com grande capacidade psicológica e geosocial de todo o Império, aglutinador de redes de Inteligência de todos os tipos e especificamente concebido para destruir o Império Romano, a Europa e o legado do mundo clássico.

• A importação de cultos orientais nada mais foi do que a adaptação ritual às mudanças genéticas da própria Roma e a lenta ascensão do substrato étnico que existia no nível mais baixo da Roma originária.

Embora a base racial da casta governante romana fosse nórdico-vemelha, temos vários bustos de espécimes com forte influência armênida, além de Catão. Estes três bustos são de patrícios da República com uma armenização patente.

• Judéia era uma província especial e os romanos precisavam de uma política igualmente especial, consistindo em proteger Roma contra a influência judaica (e, de fato, contra toda a influência oriental, incluindo a que havia entre sua plebe), deixar os judeus na Judéia, não dar cidadania romana sob qualquer circunstância, não profanar suas tradições e, claro, não civilizar-los, porque foi precisamente a (mal feita) helenização de certos setores sociais judeus que levaram ao surgimento do cristianismo, a sinistra esquizofrenia judaica e o greco-decadente que é muito evidente no próprio nome de Jesus Cristo, que vem de Yehoshua (um nome judeu) e Kristos ("iluminado" em grego).

• Para exemplificar os prejuízos da insensata romanização da Judéia, Herodes, um soberano da Judéia próromana, tentou romanizar a província construindo cidades que causariam discórdia (como Cesaréia), fortes que seriam usados ​​pelos judeus contra os próprios romanos (como a fortaleza de Antônia e Massada) e também engrandeceu o Segundo Templo, ao qual os judeus agora lamentam, embora abominem seu construtor. Se Roma tivesse desejado triunfar mais firmemente sobre a Judéia, não teria permitido a romanização e deveria ter mantido a helenização ao mínimo. E é que impor uma cultura a um povo não significa que é capaz de partilhar. Um judeu que poderia falar grego, por causa de sua herança genética e cultural, nunca iria compartilhar ou realmente entender a cultura helênica, porque a cultura é o resultado do acervo genético, e a genética judaica era radicalmente diferente da helênica. Forçar a imposição de uma cultura a outra que provém de uma cepa genética diferente leva apenas a uma coisa: à mestiçassem, que acabará se manifestando através da corrupção total da cultura originária.

• Os judeus, que apanharam por todos os lados, gradualmente se tornaram como aquela figura típica da ficção, que recebeu muitos golpes e torna-se, ao longo da história, um supervilão misantropo e ressentido contra o mundo.

• De acordo com as tradições judaicas, durante a vindoura Era do Messias um Terceiro Templo será construído.

• Manter os judeus em Roma, mesmo que fossem escravizados, era suicida.

• A romanização forçada, a helenização forçada, a escravidão, a deportação e tudo o que tende a aumentar o desordem étnica são elementos extremamente negativos na história de qualquer nação, e o primeiro inconveniente de qualquer império é precisamente isso: que é cosmopolita por definição.

ANEXO: NIETZSCHE SOBRE O CONFLITO "ROMA CONTRA JUDÉIA"

Vamos concluir. Os dois valores contrapostos, “bom e ruim”, “bom e mau”, travaram na terra uma luta terrível, milenar. (...)

O dístico dessa luta, escrito em caracteres legíveis através de toda a história humana, é “Roma contra Judéia, Judéia contra Roma”: — não houve, até agora, acontecimento maior do que essa luta, essa questão, essa oposição moral. Roma enxergou no judeu algo como a própria antinatureza, como que seu monstro antípoda; em Roma os judeus eram tidos por “culpados de ódio a todo o gênero humano”: com razão, na medida em que se tenha razão ao vincular a salvação e o futuro do gênero humano ao primado absoluto dos valores aristocráticos, dos valores romanos. (...)

Os romanos eram os fortes e nobres, como jamais existiram mais fortes e nobres, e nem foram sonhados sequer: cada vestígio, cada inscrição deles encanta, se apenas se percebe o que escreve aquilo. Os judeus, ao contrário, foram o povo sacerdotal do ressentimento par excellence, possuído de um gênio moral-popular absolutamente sem igual: basta comparar os judeus com outros povos similarmente dotados, como os chineses ou os alemães, para sentir o que é de primeira e o que é de quinta ordem. Quem venceu temporariamente, Roma ou a Judeia? Mas não pode haver dúvida: considere-se diante de quem os homens se inclinam atualmente na própria Roma, como a quintessência dos mais altos valores — não só em Roma, mas em quase metade do mundo, em toda parte onde o homem foi ou quer ser domado —, diante de três judeus, como todos sabem, e de uma judia (Jesus de Nazaré, o pescador Pedro, o tapeceiro Paulo e a mãe do dito Jesus, de nome Maria). Isto é muito curioso: Roma sucumbiu, não há sombra de dúvida. (...)

Então acabou? O maior entre os conflitos de ideais foi então relegado ad acta [aos arquivos] por todos os tempos? Ou apenas adiado, indefinidamente adiado?... Não deveria o antigo fogo se reacender algum dia, ainda mais terrível, após um período ainda mais longo de preparação? Mais: não seria isto algo a se esperar? mesmo a se querer? a se promover?... (...)

"Genealogia da moral", Primeira Dissertação, 16 e 17.



TERCEIRA PARTE

"Quando o Senhor, o seu Deus, os fizer entrar na terra, para a qual vocês estão indo para dela tomar posse, ele expulsará de diante de vocês muitas nações: os hititas, os girgaseus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. São sete nações maiores e mais fortes do que vocês; e quando o Senhor seu Deus as tiver entregue a vocês, e vocês as tiverem derrotado, então vocês as destruirão totalmente. Não façam com elas tratado algum, e não tenham piedade delas. Não se casem com pessoas de lá. Não dêem suas filhas aos filhos delas, nem tomem as filhas delas para os seus filhos, pois elas desviariam seus filhos de seguir-me para servir a outros deuses e, por causa disso, a ira do Senhor se acenderia contra vocês e rapidamente os destruiria. Assim vocês tratarão essas nações: Derrubem os seus altares, quebrem as suas colunas sagradas, cortem os seus postes sagrados e queimem os seus ídolos. Pois vocês são um povo santo para o Senhor, o seu Deus. O Senhor, o seu Deus, os escolheu dentre todos os povos da face da terra para ser o seu povo, o seu tesouro pessoal. O Senhor não se afeiçoou a vocês nem os escolheu por serem mais numerosos do que os outros povos, pois vocês eram o menor de todos os povos". - (Bíblia, Antigo Testamento, Deuteronômio 7:1-7).

"Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? Acaso não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por meio da sabedoria humana, agradou a Deus salvar aqueles que crêem por meio da loucura da pregação. Os judeus pedem sinais miraculosos, e os gregos procuram sabedoria; nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo para os judeus e loucura para os gentios mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria humana, e a fraqueza de Deus é mais forte que a força do homem. Irmãos, pensem no que vocês eram quando foram chamados. Poucos eram sábios segundo os padrões humanos; poucos eram poderosos; poucos eram de nobre nascimento. Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes. Ele escolheu as coisas insignificantes do mundo, as desprezadas e as que nada são, para reduzir a nada as que são, para que ninguém se vanglorie diante dele". - (Bíblia, Novo Testamento, Paulo, 1 Coríntios 1:20-29).

"Alguns são eunucos porque nasceram assim; outros foram feitos assim pelos homens; outros ainda se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem puder aceitar isso, aceite". - (Bíblia, Novo Testamento, Mateus 19:12, justificando-se com esta frase, Orígenes de Alexandria, um dos pais da Igreja, se castrou).

"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia". - (Bíblia, Novo Testamento, Mateus 5:3-7).

"Os judeus, aglomerados num canto da Palestina, que, ignorantes em letras, nunca tinham ouvido dizer que tais coisas haviam sido ditas por Hesíodo e por muitos poetas divinamente inspirados, imaginavam uma história muito crível e muito rude. Deus teria feito um homem com suas próprias mãos, teria soprado sobre ele, teria tirado uma mulher de suas costelas, teria dado alguns mandamentos, e uma serpente que teria se levantado contra os mesmos, triunfou sobre eles: uma boa fábula para as velhas, onde, contra toda a piedade, Deus é tão pobre desde o princípio, que se mostra incapaz de ser obedecido pelo único homem que ele mesmo criou". - (Celso, "A palavra verdadeira").

Nessa terceira parte o propósito é dar uma idéia do que aconteceu com o mundo antigo, como a Europa caiu na Idade Média e, especialmente, em que medida o que aconteceu em Roma há 1.600 anos é exatamente o que está acontecendo atualmente no Ocidente, mas magnificado mil vezes pela globalização, a tecnologia e, sobretudo, a purificação do conhecimento psicosociológico e propagandístico pelo sistema.

O que será discutido nesta parte é a história de uma tragédia, um apocalipse. É o fim não só do Império Romano e todas as suas realizações, mas também de séculos de sobrevivência dos ensinamentos egípcios, persas e gregos na Europa, em um processo sangrento, uma premonição da futura destruição das heranças celtas, germânicas, bálticas e eslavas, sempre acompanhados de seus respectivos genocídios. Esse processo teve um caráter marcadamente étnico: foi a rebelião dos escravos cristianizados (da Ásia Menor e do Norte de África) contra o paganismo indo-europeu, representando os costumes e tradições ancestrais das aristocracias romana e helênica, decadentes, minoritárias e suavizadas em comparação com uma população esmagadoramente grande e brutal, que detestava cordialmente o distante orgulho de seus senhores.

"O triunfo do cristianismo", ou "O triunfo da cruz", por Tommaso Laureti. A história de como um messias oriental, anoréxico e masoquista, veio a substituir os fortes deuses pagãos

Com base no que aconteceu durante esta fase sangrenta, há um laborioso processo de adulteração, falsificação e distorção de ensinamentos religiosos, primeiro muitos séculos antes de Jesus Cristo, nas mãos dos profetas, juízes e rabinos judeus, e depois nas mãos dos apóstolos e dos pais da Igreja (São Paulo, São Pedro, Santo Agostinho), geralmente da mesma etnia. Houve também uma base de conflitos étnicos, o que já vimos na primeira e segunda parte deste artigo.

SITUEMOS

O Mediterrâneo Oriental (Ásia Menor, Egeu, Cartago, Egito, Fenícia, Israel, Judéia, Babilônia, Síria, Jordânia etc.) era anteriormente um poço de fermentação para todos os produtos bons e maus do mundo antigo, a confluência de todos os escravos, saqueadores, criminosos, exilados, pisoteados e párias da Mesopotâmia, do Egito, do Império Hitita e do Império Persa. Esse poço repleto com diferentes personagens, estava nas bases e nas origens do judaísmo. E seus vapores também intoxicaram muitos gregos decadentes de Atenas, Corinto e outros estados helênicos, já séculos antes da era cristã.

Quando Alexandre Magno conquistou o Império Macedônio, que se estendeu da Grécia até as fronteiras do Afeganistão e do Cáucaso até o Egito, toda a área do Império Persa, o Mediterrâneo Oriental e África do Norte recebeu uma forte influência grega, influência que seria sentida fortemente sobre a Ásia Menor, na Síria (incluindo Judéia) e, acima de tudo, no Egito, com a cidade de Alexandria (fundada por Alexandre em 331 AEC) como o maior expoente. Isto inaugurou um estágio de hegemonia macedônica que se chama helenística, para diferenciá-la da helênica "clássica" (dórios, jônios, coríntios). Alexandre fomentou o conhecimento e a ciência em todo o seu império, patrocinou as várias escolas de sabedoria e, após sua morte, seus sucessores macedônios continuaram na mesma linha. Muitos séculos depois, no Baixo Império Romano, depois de uma terrível degeneração, poderíamos distinguir, dentro do helenismo, duas correntes:

A) Tradicional, de caráter elitista, baseada nas escolas egípcias, helenísticas e alexandrinas, que defendia a ciência e o conhecimento espiritual, e onde as artes e as ciências floresceram até um ponto nunca visto, sendo a cidade de Alexandria a maior expoente. Tal foi a importância e o "multiculturalismo" de Alexandria (bem como a sua abundância de judeus que nunca cessaram de se agitar contra o paganismo) como a maior cidade do mundo antes de Roma, que tem sido chamada de "Nova Iorque dos tempos antigos". A biblioteca de Alexandria, um feudo da gnose das altas castas vetada à plebe, encheu de sábios egípcios, persas, caldeus, hindus e gregos, bem como cientistas, arquitetos, engenheiros, matemáticos e astrônomos de todo o mundo, ficando orgulhosa de ter acumulado naquele lugar grande parte do conhecimento do mundo.

(B) Contracultural e de caráter mais popular, liberal e massivo, sofista e cínica (mais livremente estabelecida na Ásia Menor e Síria), que distorceu e misturou os cultos antigos e que, em uma mentalidade claramente humanista e suavizada, voltada às massas de escravos do Mediterrâneo Oriental, pregando as primeiras noções de "democracia livre para todos", "livre igualdade para todos" e "direitos livres para todos". Este aspecto caracterizou-se por um multiculturalismo e cosmopolitismo bem intencionados, mas finalmente fatal, que enfeitiçou a mente de muitos escravos instruídos e pela exportação da cosmovisão e da cultura gregas para povos não gregos, bem como pela exportação da cultura judaica para os povos não judeus. Esta última corrente era o fundo helenístico que, desfigurado, juntou-se ao judaísmo e à matéria babilônica em decomposição, formando o cristianismo — que, não nos esqueçamos, foi originalmente pregado exclusivamente na língua grega a massas de servos, pobres e plebeus nos bairros insalubres das cidades do Mediterrâneo Oriental. Os primeiros cristãos eram comunidades exclusivamente de sangue judeu, convertidos em cosmopolitas com sua diáspora forçada e o contato helenístico que supostamente e, até certo ponto, esses "judeus do gueto" (do qual São Paulo é o exemplo mais representativo) foram desprezados pelos círculos judaicos mais ortodoxos.

As Sete Igrejas das quais fala o Novo Testamento (Apocalipse 1:11): Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia. Todas localizados na Ásia Menor. Este núcleo geográfico é para o cristianismo o que a Baviera é para o nazismo: o centro em que o novo credo é fermentado e sua expansão é impulsionada. Esta área fortemente helenizada, densamente povoada culturalmente, onde existia um verdadeiro caos étnico, era onde os apóstolos, em idioma grego, inflaram-se a pregar, e aqui tiveram importantes conselhos teológicos cristãos (como Nicéia, Calcedônia ou Ancira). O cristianismo, que se expandiu para aproveitar a vantagem oferecida pela dispersão de escravos semitas em todo o Império Romano, representa um refluxo asiático derramado sobre a Europa.

APARECE "A SEITA JUDAICA"

Começamos no ano 33, data em que foi crucificado nas mãos dos romanos um judeu rebelde chamado Yeshua ou Jesus que se proclamava o Messias dos judeus e rei de Israel. Nesta primeira fase expansiva do cristianismo é particularmente importante citar Paulo de Tarso (comumente conhecido como São Paulo), um judeu com cidadania romana, de educação helenística e cosmopolita, embora criado pelo fundamentalismo judaico mais recalcitrante. A princípio, este personagem se dedicou a perseguir os cristãos (que, não se esqueçam, eram todos judeus) em nome das autoridades do judaísmo "oficial". Em um ponto de sua vida ele "cai do cavalo" (literalmente, como é dito) e diz a si mesmo que uma doutrina que teve um efeito tão hippiesco entre os próprios judeus, causaria uma devastação terrível em Roma, odiava a morte tanto por ele como por quase todos os judeus de seu tempo, ressentidos pela sinistra ocupação das legiões, das graves guerras contra Roma e das deportações.

Depois de sua grande revelação, São Paulo decide que o cristianismo é uma doutrina válida a ser pregada aos gentios, isto é, aos não-judeus. Com esta habilidade diplomática inteligente para negócios e movimentos subversivos, São Paulo estabelece numerosas comunidades cristãs na Ásia Menor e no Egeu, a partir do qual a "boa nova" será pregada de forma hiperativa. Posteriormente, numerosos centros de pregação são fundados no Norte da África, Síria e Palestina, acontecendo inevitavelmente na Grécia e na mesma Roma. O cristianismo alastrou-se como um incêndio através das "mais camadas humildes" da população do Império, que eram as camadas mais orientalizadas etnicamente.

O cristianismo, então, passa para o Império Romano pelos judeus, liderados por São Paulo, São Pedro e outros pregadores. Sua natureza, baseada nos sinistros mistérios sírio-fenícios — que pressupunham a pecaminosidade e impureza do ser que os praticava — é atraente para as imensas massas de escravos mestiços de Roma. As primeiras reuniões cristãs em Roma são realizadas secretamente nas catacumbas judaicas subterrâneas e, nas mesmas sinagogas judaicas, são dados discursos e sermões cristãos, muito diferentes daqueles encontrados na Europa cristã posterior: os discursos de São Paulo, por exemplo, são gritos políticos; inteligentes, virulentos e fanáticas arenga para a rebelião contra todo o mundo europeu, e especialmente contra os seus máximos expoentes no Grande Oriente: a Grécia e Roma. Nos discursos, fórmulas incendiárias são misturadas como visões delirantes do Apocalipse, a queda de Roma ou Babilônia, a recuperação de Jerusalém, a reconstrução do templo de Salomão, a matança dos infiéis, a vinda do Reino dos Céus, a salvação eterna de Jesus Cristo, a horrível condenação dos pagãos pecadores e todas aquelas estranhas idéias orientais.

Outro ponto-chave a ser reconhecido pelos primeiros pregadores era tirar proveito da afinidade cristã pelos pobres, os despossuídos, os abandonados, os vagabundos e aqueles que não podem ajudar a si mesmos, estabelecer instituições de caridade, ajuda e assistência, claramente precursoras dessa "comprometida consciência social" que vemos hoje, e que nunca foi vista no mundo pagão antes. É fácil ver que essas medidas tiveram o efeito de atrair para si toda a escória que estava nas ruas de Roma, além de preservá-la e aumentá-la.

O cristianismo é imediatamente perseguido no Império de forma intermitente e esporádica, já que seus membros se recusam a servir nas legiões e a prestar homenagem ao imperador. Embora as perseguições romanas anti-cristãs tenham sido grandemente exageradas pelos vitimizadores, a opressão moderada sofrida pelos cristãos foi essencialmente por razões políticas e não religiosas: o Império Romano sempre tolerou diferentes religiões, mas suas autoridades viram no cristianismo uma seita subversiva, uma panela do judaísmo que lhes tinha dado tantas dores de cabeça no Oriente; um centro de pregação anti-romana, uma vez que, entre outras coisas, os bispos locais faziam líderes da mesma rebelião anti-romana. Os políticos romanos da época, além disso, nem sequer distinguiam os cristãos e os judeus — tão compenetrados como estavam —, e não sem razão viam no cristianismo um instrumento da vingança dos judeus contra Roma, sendo que eles tinham o cristianismo como um movimento religioso de tantos (saduceus, fariseus, zelotes) no coração da judiaria. Em muitos casos, as várias facções cristãs entravam em conflito umas com as outras com guerras de apunhaladas pelas costas e envenenamentos (algo não muito diferente das bandas étnicas atuais).

"A última oração dos mártires cristãos" por Jean-Léon Gérôme.

O CASO DE NERO COMO EXEMPLO DE DISTORÇÃO HISTÓRICA

O exemplo perfeito da vitimização cristã é encontrado na figura do Imperador Nero. Nero passou para a história como um psicopata cruel, tirano, pervertido, caprichoso e dado aos excessos, e é realmente incrível a quantidade de desinformações que os cristãos têm derramado em sua biografia, tanto que o nome de Nero já é sinônimo de tirania, capricho e depravação. O verdadeiro problema de Nero era que ele não suportava nem o judaísmo nem o cristianismo, e que não foram poucos judeus e cristãos deixaram seus ossos no Coliseu, nas mandíbulas de um leão, sob o estrondoso aplauso do povo de Roma, por mandato seu. A realidade deste imperador é outra: no ano 64, ocorre um grande incêndio em Roma que destrói numerosos distritos e deixa a cidade em estado de emergência. Nero acolhe as vítimas pelo fogo, abrindo as portas de seus palácios para que a cidade tenha onde ficar. Além disso, paga de seus próprios fundos privados a reconstrução da cidade.

O que o imperador fez foi agir contra os cristãos. Nas palavras do famoso historiador romano Tácito (55-120), "Nero colocou a culpa e infligiu as mais requintadas torturas em uma classe odiada por suas abominações, chamada cristão pelo populacho". Ele os ordenou "não tanto pelo incendiário como pelo seu ódio à raça humana". Nero, então, faz o seguinte com os cristãos capturados:

"Cobertos com peles de animais, eles foram rasgados por cães e pereceram, ou foram pregados em cruzes, ou foram condenados às chamas e queimados, para servir como iluminação noturna, quando o dia tinha expirado".


Outra questão à parte é a esposa de Nero, Popeia Sabina. Esta resulta ser uma figura interessante como uma mulher bonita, ambiciosa, sem escrúpulos ou moral, conspiradora, manipuladora e típica de uma sociedade muito civilizada — uma autêntica megera. Tendo-se casado duas vezes já, e pelas suas influências como amante, convence Nero a matar a sua própria mãe e divorciar-se de sua própria esposa — após o qual faz que exilem-a e forcem-a cortar suas veias, seu cadáver é decapitado e sua cabeça presentada para Popeia. Depois disso, já com o caminho livre, casa-se com Nero e irrompe na alta sociedade romana com excessos de coqueira, extravagâncias e várias prepotências. Precisamente a pedido de suas intrigas, o famoso filósofo hispânico Sêneca é levado ao suicídio.

Popeia, no entanto, simpatiza abertamente com os judeus e a causa cristã, favorecendo-os conspirando mediante conspirações nas costas do imperador. Este, já cansado de ter a conspiração perto dele, mata-a supostamente com um chute enquanto a mesma estava grávida. O ano é 65. Todos estes fatos seguem uma repressão antijudaica por Nero, em que os futuros santos cristãos como o judeu S o Pedro (ex-pescador e primeiro bispo de Roma — por isso considerado como o primeiro Papa) e o mesmo São Paulo, outro judeu que tinha sido tão rebelde. São Paulo é decapitado por ser cidadão romano. São Pedro, que não tem cidadania romana (um imigrante não regulamentado), é crucificado de ponta-cabeça. De acordo com a tradição cristã, ele pede para ser crucificado dessa maneira "não sendo digno de morrer como Jesus", mas de acordo com o historiador judeu Flávio Josefo, crucificar em posições desconfortáveis ​​é uma prática comum entre os soldados romanos para se divertir de uma maneira um tanto macabra.

Nero, apesar de ter mostrado ser magnânimo e generoso com o povo, passou para a história moderna como o Anticristo, um matador de cristãos implacável que assassinou sua própria esposa por um capricho, que por medo de conspirações rodeou-se por uma guarda pessoal de pretorianos de origem romana — os únicos que ele considerava leais — e que provocou o incêndio para então tocar lira diante das chamas, com o objetivo de culpar aos cristãos por algum ódio estranho e irracional, quando Nero sequer estava em Roma quando o incêndio começou.

DESTRUIÇÃO DE JERUSALÉM: O CRISTIANISMO CRIA FORÇAS FORA DE JUDÉIA

Assim que os judeus se inteiram dos acontecimentos em Roma com os cristãos, eles começam a planejar uma revolta e, perfeitamente coordenados, eles se revoltam por todo o Império Romano. Assim, no ano 66, em um golpe surpresa e bem planejado, todos os habitantes não-judeus de Jerusalém são abatidos, exceto pelos escravos que foram submetidos a eles. Nero usa suas legiões para esmagar a revolta duramente no resto do Império, mas em sua capital, os judeus se tornam fortes. No ano 68, assim como o general Vespasiano partiu para tomar Jerusalém, Nero é misteriosamente assassinado.

Vespasiano, então, torna-se imperador e envia seu filho Tito para a frente da Legio X Fretensis, com o objetivo de esmagar os judeus. No ano 70, Roma triunfa, Jerusalém é devastada e saqueada pelos legionários romanos e diz-se que no processo um milhão de judeus morreram sob as armas romanas (só em Jerusalém se acumulou, durante o cerco, 3 milhões de judeus). Este ano 70, fatídico, traumatizante, ultrajante e chave para a judiaria, vê a escravização e dispersão dos judeus em todo o Mediterrâneo (diáspora), favorecendo grandemente o crescimento do cristianismo.

Há sucessivos imperadores (Trajano, Adriano) bem conscientes do problema judeu, que não prestam muita atenção ao próprio cristianismo, mais do que qualquer outra coisa porque estão muito ocupados com o quebra-cabeça judaico na "Terra Santa", reprimindo os judeus e mais uma vez, sem destruí-los por completo. Nessa época, a nova religião estava gradualmente crescendo e ganhando apoio entre as massas de escravos graças a sua ideologia igualitária e também em altos cargos da administração, entre uma burocracia cada vez mais decadente e materialista. O cristianismo glorificava a desgraça em vez de glorificar o combate contra ela, considerava o sofrimento como um mérito que dignificava e proclamava que o Paraíso esperava a quem se comportasse bem (lembre-se como os pagãos ensinavam que só os lutadores entravam no Valhala). Se trata da religião dos escravos, e esses faziam sua de boa vontade. O cristianismo primitivo desempenhou um papel muito semelhante ao da posterior maçonaria: foi a estratégia judaica para disfarçar-se e usar personagens fracos e ambiciosos, fascinando-os com um ritualismo sinistro. O resultado é como um comunismo para o Império Romano, incluso favorecer a "emancipação" e a independência das mulheres de seus maridos, para capturá-las com a estranha e nova liturgia cristã, e exortá-los a doar seu próprio dinheiro para a causa, em uma fraude bastante semelhante em sua essência da atual New Age ou Nova Era.

Este mapa mostra a extensão do cristianismo em torno do ano 100. O Império Romano está representado em um tom mais claro do que os territórios bárbaros. Observe que as áreas de pregação cristã coincidem exatamente com as áreas de assentamento judaico mais denso.

É no início do século II que a figura dos peixes gordos cristãos chamados "bispos" começa a adquirir importância. São Inácio de Antioquia (é interessante prestar atenção aos sobrenomes dos pregadores, já que eles sempre vêm das áreas orientais mestiças e judaizadas — neste caso Síria) escreve no ano 107, da maneira mais brega: "É óbvio que devemos olhar para um bispo como o Senhor em pessoa. Seus clérigos estão em harmonia com o seu bispo como as cordas de uma harpa, e o resultado é um hino de louvor a Jesus Cristo de mentes que se sentem em uníssono". São Inácio é capturado pelas autoridades romanas e lançado aos leões em 107.


Por volta do ano 150, o grego Marcião de Sinope procura fazer uma espécie de purificação "desencarnada" no cristianismo, rejeitando o Antigo Testamento, dando importância preeminente ao Evangelho de São Lucas e adotando uma cosmovisão gnóstica com ar órficos e maniqueístas. Esta é a primeira tentativa de "reforma", de europeização, do cristianismo, intentando despojá-lo de sua óbvia origem judaica. Seus seguidores, os marcionitas, professores de um credo gnóstico, são classificados como hereges pelo cristianismo mainstream.

A situação do Império Romano no ano 150, quando a população total foi aumentar para 60 milhões, particularmente concentrado na colméia do Oriente Próximo. O vermelho aponta os territórios em que algumas cidades (lembre-se que é uma religião essencialmente urbana) têm uma população cristã importante.

Este mapa mostra a expansão geral do cristianismo em 185. Observe a grande diferença com o mapa anterior e note também que a área mais influenciada pelo cristianismo permanece o Mediterrâneo Oriental, uma área fortemente semitizada.

Algum tempo depois do ano 20, já que novas massas estavam sendo incorporadas ao cristianismo, que não falavam o grego, mas latim, uma tradução latina dos Evangelhos começou a circular nos centros cristãos mais ocidentais.

O Imperador Diocleciano (reinou 284-305) divide o Império em duas metades para torná-lo mais governável. Ele permanece com o lado oriental, e entrega o ocidental para Maximiano, um ex-camarada de armas dele. Ele institui uma burocracia rígida, e essas medidas já cheiram a decadência irrecuperável. Apesar disso, Diocleciano é um veterano realista e justo. Permite que seus legionários cristãos se ausentem das cerimônias pagãs, desde que mantenham sua disciplina militar. Mas essa era precisamente a coisa mais complicada, onde os bispos desafiavam desafiadoramente a autoridade do imperador. Ele, entretanto, é benevolente, e somente um pacifista cristão é executado. No entanto, ele insiste agora que os cristãos participem de cerimônias estatais de natureza religiosa, e a resposta cristã a esta decisão é uma arrogância crescente com numerosos tumultos e provocações. Mas mesmo neste ponto, o Imperador Diocleciano renuncia à pena de morte, contentando-se em fazer escravos dos rebeldes que ele capturou. A resposta a isso é mais perturbações e um incêndio no mesmo palácio imperial, e sucedem provocações cristãs e insolência em todo o Império. Mas o que Diocleciano faz é executar nove bispos desordeiros e oitenta rebeldes em Palestina, a área mais agitada por rebeliões cristãs.

O Imperador Diocleciano. Considera-se que, depois de seu reinado, Roma entrou em franca decadência.

Um desses rebeldes foi o franzino São Procópio. Para nos dar uma idéia da magreza de tais personagens, vejamos as palavras de um contemporâneo do bispo Eusébio de Cesaréia: "Ele tinha domado seu corpo até torná-lo, por assim dizer, em um cadáver, mas a força que sua alma encontrava na Palavra de Deus, fortaleceu seu corpo... Só estudava a palavra de Deus e tinha pouco conhecimento das ciências profanas". Ou seja, este sub-homem era um corpo doente e um espírito esmagado e ressentido, que se afastou de todo o "profano" (natural) que existe no mundo, e que só conhecia a Bíblia e os discursos dos bispos. O cristianismo é nutrido no início de homens semelhantes: judeus praticando um ascetismo semelhante ao sadomasoquista, que transformava seus corpos em pilastras e seus espíritos em pastores tirânicos e ressentidos.
Apesar da suavidade dessas perseguições, Diocleciano entra na história como um monstro sedento de sangue cristão. A história é escrita pelos vencedores.

OS CRISTÃOS DEIXAM DE SER PERSEGUIDOS

- Em 311, o posterior imperador Galério cessa a perseguição ao cristianismo através do Édito de Tolerância de Galério, e edifícios cristãos começam a ser construídos sem interferência do Estado. Quem sabe com quais métodos os cristãos conseguem se infiltrar nas altas cúpulas, exercer as pressões necessárias e colocar em movimento as fontes de que necessitam para que Roma ceda cada vez mais. Este imperador tem sido um defensor da perseguição medíocre que fez Diocleciano, mas não deve ter aprendido a lição e talvez pense que, cedendo e dando tolerância aos cristãos rebeldes, eles cessarão suas agitações. Ele estava errado. Há muito que os cristãos propuseram derrubar Roma.

O Imperador Galério.

Em 306, o Imperador Constantino I, "o Grande" (reinou entre 306-337) chega ao poder. Este imperador não é cristão, mas sua mãe Helena é, e logo declara-se um decidido partidário do cristianismo.

O Imperador Constantino I.

- Em 313, mediante o Édito de Milão, a "liberdade religiosa" é proclamada e a religião cristã é legalizada no Império Romano, por Constantino representando o Império Ocidental, e Licínio representando o Oriental. O império está em estado de decadência, pois não só o povo romano original se entregou ao luxo, a voluptuosidade e a opulência, recusando-se a servir nas legiões, mas o cristianismo infiltrou-se na elite burocrática, e já numerosas pessoas influentes praticam-o e defendem-o . O Édito de Milão, é importante, uma vez que termina de uma vez por todas com a clandestinidade em que o mundo cristão estava mergulhado.

Assim que são legalizados, os cristãos começam a atacar os pagãos sem piedade. O Concílio de Ancira de 314 denuncia o culto à deusa Ártemis (a deusa favorita e mais amada dos espartanos) e um edital do mesmo ano faz com que pela primeira vez populachos histéricos comecem a destruir templos pagãos, quebrar estátuas e assassinar os sacerdotes. Precisamos ter uma idéia do que a destruição de um templo significava antes. Um templo não era apenas um lugar de culto religioso para os sacerdotes, mas era um lugar de encontro e referência para todo o Povo. Em nossos dias, estádios de futebol ou casas noturnas [discotecas, baladas] são minimamente semelhante ao que o templo era para o povo. Destruí-lo equivalia a sabotar a unidade desse povo, a destruir o próprio povo. Quanto à quebra de estátuas, também é trágica. Os gregos (e isso foi herdado pelos romanos) acreditavam firmemente que seus melhores indivíduos eram semelhantes aos deuses, dos quais eles eram considerados descendentes. Isso é visto muito claramente na mitologia grega, onde havia mortais tão perfeitos e bonitos que muitos deuses (como Zeus) tomaram amantes mortais, e muitas deusas (como Afrodite) fizeram o mesmo. Além disso, muitos indivíduos particularmente perfeitos e corajosos poderiam alcançar a imortalidade olímpica como mais um deus. Somente um povo que se considera próximo dos deuses poderia ter idealizado isso, e para mostrar que tipo de ser humano era amado pelas forças divinas, os gregos estabeleceram um cânone de perfeição para corpo e rosto, em que era criado toda uma rede de complexas proporções matemáticas e números sagrados. Destruir uma estátua era destruir o ideal helênico humano, sabotar a habilidade do homem de alcançar a própria Divindade de onde procede e para o qual ele deve retornar um dia.

Enquanto a destruição antipagã ocorre, e como um lembrete de que o cristianismo primitivo foi sempre filo-judaico e anti-romano, Constantino permite aos judeus visitar Élia Capitolina (Jerusalém) para rezar no Muro da Lamentações, que é e continua a ser o único que permanece do templo de Salomão. Assim, Constantino rompe a proibição decretada aos judeus no ano 134, quando as legiões romanas aniquilaram a Revolta Palestina de Simão bar Kokhba durante a III Guerra Judaico-Romana.

- Desde 317, as legiões do Império — que não têm nada a ver com os antigos legionários de origem itálica, mas que são repletas de cristãos raivosos, por um lado, e germânicos leais ao Império, por outro — são acompanhados por bispos. Além disso, eles lutam sob o signo do Lábaro, as duas primeiras letras gregas do nome de Cristo, ou seja, X (Chi) e P (Rho), combinadas, e sob a cruz cristã, supostamente revelada a Constantino em um sonho em que se lhe transmite "In hoc signo vinces" ("Por este sinal conquistarás", latim).

Um lábaro ou cristograma, símbolo cristão adotado por Constantino e ordenado a inscrever nos escudos dos legionários. Observe as letras gregas X (Chi) e P (Rho) formando o lábaro propriamente dito, e as letras gregas alfa maiúscula e ômega minúscula em ambos os lados do abarum. Note-se também que o conjunto apresenta um aspecto claramente rúnico, em particular é semelhante à runa Hagal, cujo uso foi abusado extensamente pelos judeus. 

NO ALTO DA PIRÂMIDE... HÁ SÓ ESCRAVOS: GENOCÍDIO ANTIPAGÃO

- Em 325, após o Concílio de Nicéia, o cristianismo atinge uma uniformidade doutrinária que une as várias facções, e adquire um caráter jurídico administrativo, como um estado dentro do Estado. Nicéia, por sinal, é uma cidade na província de Bitínia, Ásia Menor (agora Turquia). Constantino reúne 318 bispos, cada um eleito por sua comunidade, para debater e estabelecer uma "normalização cristã", em vista das muitas facções e discrepâncias dentro da religião. O resultado é o chamado "credo niceno", o cristianismo para pregar. Por esta altura, o imperador necessita de uma força de união para o cadinho de raças que se impôs em Roma. Havia muitas "religiões da salvação" com ritos que eram praticados em segredo e que são, em sua maioria, parte dos cultos "subterrâneos" e "da salvação" que sempre surgem em tempos de decadência e degeneração. Existe o culto de Mitras (culto de origem iraniana e caráter militar, já corrompido pelas massas, ainda que durante um período ascendente era popular nas legiões romanas), o de Cibele e o de Até. O imperador escolhe o cristianismo para seu império, não por seu valor como religião, mas por sua intolerância semítica, seu fanatismo — famoso por todo o império — sua experiência de séculos como instrumento de intriga, suas redes de Inteligência e seu equalizador proselitista e "globalizador", tornam a "religião de emergência" perfeita, já que outras religiões, desprovidas de intolerância, não serão impostas pela violência aos relutantes, com esse efeito unificador, o rebanho, que proporcionará o cristianismo. E o que o inconsciente Constantino precisa é um rebanho, não uma combinação de pessoas diferentes, cada uma com sua própria identidade. O cristianismo, portanto, prolonga um pouco a agonia do Império Romano. As pessoas começam a se converter ao cristianismo por esnobismo e escalada, para alcançar posições altas — isto é, "fazer carreira".

De todos os cultos religiosos exóticos que proliferaram no Baixo Império Romano, o de Mitras é talvez o mais interessante. Vindo do Irã, era extremamente popular entre as legiões romanas, que lhe deram um caráter marcadamente militar. Este culto baseava-se na recriação do sacrifício do touro telúrico primordial para libertar a energia do Cosmos (a criação do mundo a partir da queda de seres primitivos "titânicos" é muito recorrente em praticamente qualquer mitologia pagã indo-européia, mas isso vimos no artigo sobre os bersekers) assemelhando o iniciado no herói que triunfa da besta com as armas na mão. O culto de Mitras foi duramente perseguido pelo cristianismo, e seus templos, os mitreum ou mitreus, foram destruídos.

Então, depois de mil intrigas, conspirações, lutas de facções, envenenamentos, manipulações e chantagem, o Édito de Milão dá ao cristianismo o status de religião "respeitável", dando-lhe caminho livre, desaparece o rastro humilde e surge a face cristã mais desagradável: os cristão exigem imediatamente que os "adoradores de ídolos" prescrevem-se os castigos bestiais descritos no Antigo Testamento. Em toda a Itália, com exceção de Roma, os templos de Júpiter foram fechados. Em Dídimos, na Ásia Menor, é saqueado o santuário do Oráculo de Delfos (ondo Apolo era cultuado), que, juntamente com os outros sacerdotes, é sadisticamente torturado até a morte. Constantino faz com que os pagãos sejam expulsos do Monte Atos (uma zona mística pagã na Grécia, que mais tarde se tornará um importante centro cristão-ortodoxo), destruindo todos os templos pagãos na área. Em 324, Constantino, com o cérebro lavado por sua mãe Helena, ordena destruir o templo do deus Asclépios em Cilicia, assim como os numerosos templos da deusa Afrodite em Jerusalém, Afaka (Líbano), Mambré, Fenícia, Baalbek e outros lugares.

Apolo segundo representação dos próprios gregos. Apolo, "o brilhante, luminoso", é descrito por Alceu como "Febo de cabelos loiros". Febo é Apolo. Por outro lado, Álcman de Esparta e Simónides (Hino a Delos, 84) chamam Apolo "de cabelos dourados", enquanto outro epíteto seu (de Góngora, autor espanhol do Renascimento, mas baseado em testemunhos literários clássicos) é "arquipoeta louro". A famosa Safo de Lesbos fala do "Febo de cabelos dourados" em seu hino a Ártemis.

- Em 326, Constantino muda a capital de seu império para Bizâncio, a que renomeia com Nova Roma. Isto, juntamente com a adoção do cristianismo, significa uma mudança radical dentro do Império Romano. Desde então, o foco romano da mudança cultural mudou de sua origem no norte da Europa e Grécia para a Ásia Menor, Síria, Palestina e Norte da África (o Mediterrâneo Oriental, a partir do qual a maioria dos habitantes do Império agora vêm), importação de modelos semita, impensável para os antigos romanos, que, como os gregos, tinham a beleza européia em alta estima como sinal de origem nobre e divina.

- Em 330, Constantino rouba estátuas e tesouros da Grécia para decorar a Nova Roma (posteriormente Constantinopla), a nova capital do seu império. Ao mesmo tempo, um bispo de Cesaréia, na Ásia Menor — mais tarde conhecido como São Basílio —, que é creditado com frases grandiosas como "Eu chorei sobre a minha vida miserável", lançou as bases do que mais tarde se tornaria a Igreja Ortodoxa.

- Em 337, em seu leito de morte, o Imperador Constantino I é batizado cristão, tornando-se o primeiro imperador romano cristão. Os aduladores judeu-cristãos, querendo deixar claro o que o imperador era para eles, o chamariam Constantino I "o Grande".

- Em 341, o imperador Flávio Júlio Constâncio (reinado 337-361), outro fanático cristão, proclama sua intenção de perseguir "todos os adivinhos e helenistas". Assim, muitos pagãos gregos são aprisionados, torturados e executados. Nessa época, líderes cristãos famosos como Marcos de Aretusa ou Cirilo de Heliópolis fazem sua própria vontade, particularmente demolindo templos pagãos, queimando escritos importantes e perseguindo os pagãos que de alguma forma ameaçam a expansão da Igreja incipiente.

O Imperador Constâncio II. Sua feição é patentemente mais suave e fraca do que a dos antigos imperadores pagãos.

Não podemos duvidar que, pelo menos em parte, o cristianismo usou a repugnância que sentia com a decadência romana para perseguir qualquer culto pagão, assim como o Islã atualmente rechaça o declínio da Civilização Ocidental. Essa era apenas a desculpa perfeita e fortuita de que o cristianismo devia justificar seus atos e exterminar o paganismo europeu. O que perseguia sistematicamente o cristianismo com desculpas lamentáveis se tratava dalgo puro e aristocrático: era o helenismo luminoso, amante da gnose, da arte, da filosofia, do livre debate e das ciências naturais. Era o conhecimento egípcio, grego e persa. O que o cristianismo estava fazendo com sua perseguição e extermínio estava literalmente apagando os rastros dos deuses.

- Em 346 há outra grande perseguição antipagã em Constantinopla. O famoso autor e orador anticristão Libânio é acusado de ser "mago" e exilado. Neste ponto, o que foi outrora foi Império Romano ficou louco, caótico e irreconhecível. Os romanos pagãos patriotas devem colocar suas mãos sobre suas cabeças ao ver como multidões dos ignorantes arrebatam de seus herdeiros toda a colheita de culturas pagãs, não só da própria Roma, mas também do Egito, Pérsia e Grécia.

- Em 353 o Decreto de Constâncio estabelece a pena de morte para quem pratica uma religião com "ídolos". Outro decreto, em 354, ordena fechar todos os templos pagãos. Muitos deles são agredidos por multidões fanáticas, que torturam e assassinam os sacerdotes, saqueiam os tesouros, queimam os escritos, destroem obras de arte que hoje seriam consideradas sublimes e arrasam com tudo em geral. A maioria dos templos que caem neste período são profanados, sendo convertidos em estábulos, bordéis e salas de jogo. As primeiras fábricas de cal são instaladas ao lado de templos pagãos fechados, dos quais extraem sua matéria-prima, de modo que grande parte da escultura e arquitetura clássica é transformada em cal! No mesmo ano de 354, um novo edito simplesmente ordena a destruição de todos os templos pagãos e o extermínio de todos os "idólatras". Segue-se, então, os massacres de pagãos, as demolições de templos, a destruição de estátuas e os incêndios de bibliotecas em todo o império.

Esta estátua do imperador Augusto (o primeiro imperador romano, que era obviamente pagão) foi deformada por cristãos, que gravaram uma cruz em sua testa.

Não cometamos o erro de culpar os imperadores cristãos romanizados. Eram homens ridículos e fracos, mas estavam nas mãos de seus educadores. Esses instrutores, que respondem ao tipo de sacerdote vampirico e parasitário tão odiado por Nietzsche, eram os verdadeiros líderes da destruição meticulosa e maciça que estava sendo realizada. Os muitos bispos e santos a que nos referimos eram homens "cosmopolitas" de educação judaica, muitos dos quais nascidos na Judéia ou provenientes de áreas essencialmente judaicas. Transformaram-se judeus que, entrando em contato com seus inimigos, estudando-os com intensidade e ódio, souberam destruí-los melhor. Eles tinham uma ampla educação rabínica e conheciam em profundidade também os ensinamentos pagãos, dominando as línguas latina, grega, hebraica, aramaica, síria e egípcia. Tais personagens, com inteligência e astúcia tão destacadas como seu ressentimento, estavam convencidos de que estavam construindo uma nova ordem inteira, e que para isso era necessário apagar integral qualquer vestígio de qualquer civilização anterior e qualquer pensamento que não fosse de origem judaica. Deve-se reconhecer que seu conhecimento psicológico e seu domínio da propaganda eram de um nível muito alto.

- Em 356, todos os rituais pagãos são colocados fora da lei e puníveis com a morte. Um ano depois, todos os métodos de adivinhação, incluindo a astrologia, são proscritos.

- Em 359, na cidade muito judaizada de Citópolis (província da Síria, hoje corresponde a Bete-Seã, em Israel), os líderes cristãos organizam nada mais e nada menos que um campo de concentração para os pagãos detidos em todo o Império. Neste campo, aqueles que professam crenças pagãs ou simplesmente se opõem à Igreja são presos, torturados e executados. Com o tempo, Citópolis se torna uma infra-estrutura inteira de campos, masmorras, células de tortura e salas de execução, onde milhares de pagãos iriam. Os maiores horrores do palco acontecem aqui. São os gulag que usaram o comunismo da época para suprimir os "capitalistas burgueses" pagãos, os dissidentes e a intelligentsia da sabedoria pagã, enquanto a população, mesmo os parentes, traem e denunciam entre eles freneticamente para ficar com as possessões dos caídos em desgraça.

O IMPERADOR JULIANO COMO ÚLTIMO SUSTENTÁCULO ROMANO

Como a Europa está neste estado lamentável e toda a esperança parece perdida, há uma última figura que representa a tradição ancestral: o imperador Flávio Claudio Juliano (331-363), a quem os cristãos chamaram Juliano o Apóstata, por ter rejeitado o cristianismo (no qual foi educado) e defendido um retorno ao paganismo. Juliano restaura o paganismo em 361, organiza uma igreja pagã para se opor à Igreja Cristã, e proclama benevolência para pagãos. Em 362, ordena a destruição do túmulo de Jesus em Samaria.

Juliano era filósofo, ascético, artista, neoplatônico, estóico, estrategista, homem de letras, místico e soldado. Nas guerras, ele sempre acompanhava suas legiões, sofrendo as mesmas privações e calamidades que um soldado raso da Infantaria. Diz-se que este imperador teve uma visão em seus sonhos antes de sua morte: a águia imperial de Roma (símbolo solar de Júpiter) deixa Roma e voa para o Oriente, onde se refugia nas montanhas mais altas do mundo. Depois de dormir por dois milênios, ele acorda e volta ao Ocidente com um símbolo sagrado entre as garras, e é aclamada pelo Povo do Império. Em 363, no meio da campanha contra o império do imperador Sapor II, Juliano é assassinado apunhalado pelas costas por um cristão infiltrado em suas fileiras.

O último imperador romano pagão foi o homem que, tentando evitar o fim, vislumbrou um novo começo. Pertence a essa misteriosa lista de grandes homens nascidos muito tarde ou muito cedo. Após este último anúncio de uma futura ressurreição, Roma já está podre, carcomida, maldita. Passou de um espírito robusto, contundente, natural e espartano a um helenismo decadente, cosmopolita, promíscuo, pseudo-sofisticado e complacente para com os escravos — e deste helenismo decadente ao credo cristão. Agora nada vai salvar Roma da destruição galopante final.

O Imperador Juliano, o Apóstata (331-363). A partir daqui, veremos como as estátuas dos imperadores gradualmente degeneram.

O GENOCÍDIO ANTIPAGÃO CONTINUA COM MAIS VIRULÊNCIA

Juliano, o último patrício imperador de Roma, é sucedido pelo imperador Flávio ​​Joviano, um fundamentalista cristão que reintroduziu o terror, incluindo os campos de Citópolis. Em 364 ele ordenou queimar a biblioteca de Antioquia. Devemos supor que o que existe da filosofia, da ciência, da poesia e da arte em geral da era clássica não passa de um desapossamento mutilado do que restou da destruição cristã.

Através de uma série de decretos, o imperador decreta a pena de morte para todos os indivíduos que prestam culto pagão (incluindo culto doméstico e privado) ou praticam adivinhação, e faz com que todas as propriedades dos templos pagãos sejam confiscadas. Em um decreto de 364, proíbe os comandantes militares pagãos de comandar tropas cristãs.

Nesse mesmo ano, Flavio Joviano é sucedido pelo imperador Valentiniano, outro fundamentalista alienado. Na parte oriental, seu irmão, Valente continuou com a perseguição dos pagãos, sendo especialmente cruel na parte mais oriental do Império. Em Antioquia, ele executou o ex-governador Fidustio e os sacerdotes Hilário e Patrício. O filósofo Simónides é queimado vivo e Máximo, outro filósofo, é decapitado. Todos os neoplatônicos e leais ao Imperador Juliano são perseguidos com fúria. Até agora deve ter havido uma forte reação anticristã por parte dos homens sábios e todos os patriotas pagãos em geral. Mas era tarde demais, e tudo o que restavam era preservar seu conhecimento de alguma forma.

Nas praças das cidades orientais são erguidas grandes fogueiras onde queimam livros sagrados de pagãos, sabedoria gnóstica, ensinamentos egípcios, filosofia grega, literatura romana... O mundo clássico está sendo destruído, e não apenas naquele presente, mas também no passado e no futuro. Os fanáticos cristãos querem literalmente apagar todos os vestígios do Egito, da Grécia e de Roma, que ninguém saiba que eles existiram, e acima de tudo o que os egípcios, os gregos e os romanos disseram, pensaram e ensinaram.

- Em 372, o imperador Valentiniano ordenou ao governador da Ásia Menor que exterminasse todos os helenos (entendidos como tais aos gregos pagãos da antiga linhagem helenística, isto é, arianos e acima de tudo a antiga casta dominante macedônica) e destruísse todos os documentos relativos à sua sabedoria. Além disso, no ano seguinte novamente proíbe todos os métodos de adivinhação.

Musa grega. Personificação de um tipo de ser humano sã, belo, equilibrado, trabalhador, atlético, bélico, dourado e elevado espiritualmente. 

Por volta desta época é quando os cristãos cunharam o termo depreciativo "pagão" para designar os gentios, isto é, a todos que não são nem judeus nem cristãos. "Pagão" é uma palavra que vem do latino pagani, que significa aldeão. A razão é que, nas cidades sujas, corruptas, decadentes, cosmopolitas e mestiças do decadente Império Romano, a população é essencialmente cristã, mas no campo os camponeses, que mantêm sua herança e tradição, praticam zelosamente o culto pagão. É no campo, alheio ao multiculturalismo, onde a memória ancestral é preservada. (Tanto os cristãos quanto os comunistas se esforçaram para acabar com o modo de vida do latifundiário, do fazendeiro e do camponês). No entanto, este paganismo camponês, privado da liderança e dos templos dos sacerdotes, e finalmente mergulhado na perseguição e na mestiçagem, está condenado a tornar-se eventualmente um monte de superstições populares misturadas com paganismo pré-indo-europeu, embora algo do fundo tradicional sempre permanecerá, como nos "curandeiros" locais e "bruxas" que por muito tempo subsistiram apesar das perseguições. Acabar com o paganismo não foi tão fácil. Não era fácil encontrar ou destruir todos os templos pagãos. Também não era fácil identificar todos os sacerdotes pagãos, ou os pagãos que praticavam seus ritos em segredo. Essa era uma tarefa de longo prazo, para uma celosa, minuciosa e fanática elite de "comissários" que duraria muitas gerações, em séculos de terror espiritual e perseguição intensa.

- Em 375 foi fechado a forçar o templo do deus Asclépio em Epidauro, Grécia.

Extensão do cristianismo, ano 375. Estão marcados os territórios e as fronteiras do Império Romano, já em decadência galopante. Em vermelho, áreas fortemente cristianizadas. Em rosa, as áreas atingidas pelo cristianismo, mas menos cristianizadas no momento.

- Em 378 os romanos são derrotados pelo exército godo na Batalha de Adrianópolis. O imperador intervém e, através de uma diplomacia astuta, faz aliados (foederati ou federados) dos godos, um povo germânico originário da Suécia, famoso por sua beleza e que tinha um reino no que é agora a Ucrânia. Mais tarde, em 408, depois da queda de Estilicão (um general de origem dos germânicos vândalos que serviu fielmente a Roma, mas que foi traído por uma gentalha política cristã e invejosa), as mulheres e os filhos destes federadores germanos serão massacrados pelos romanos, propiciando que os homens, prisioneiros de raiva, se unissem em massa ao líder germânico Alarico.

- Em 380, o Imperador Teodósio I (Teodósio, o Grande para o cristianismo) decreta, pelo Édito de Tessalônica, que o cristianismo é oficialmente a única religião tolerável no Império Romano, embora, claro, isso tenha sido óbvio por anos. Teodósio chama os pagãos de "loucos", além de "repugnantes, hereges, estúpidos e cegos".

O imperador Teodósio I. Á partir de agora, é cada vez mais difícil de encontrar imagens em boa qualidade dos imperadores cristãos, tendo de contentar-se com montagens feitas no paint e pixeladas. 

O bispo Ambrósio de Milão inicia uma campanha de demolição dos templos pagãos de sua zona. Em Elêusis, antigo santuário grego, os sacerdotes cristãos lançam uma multidão faminta, ignorante e fanática contra o templo da deusa Deméter. Os sacerdotes pagãos Nestório e Priskos são quase linchados pela multidão. Nestório, um venerável ancião de 95 anos, anuncia o fim dos mistérios de Elêusis e prevê a imersão dos homens na escuridão durante séculos.

- Em 381 visitas simples aos templos helênicos são proibidas, e a destruição de templos e as queimas de bibliotecas continuam durante todo a metade oriental do Império. A ciência, técnica, literatura, história e religião do mundo clássico são assim queimadas. Em Constantinopla, o templo da deusa Afrodite é convertido em bordel!, e os templos do deus Hélios e a deusa Ártemis são convertidos em estábulos! Teodósio persegue e clausura os mistérios de Delfos, o mais importante da Grécia, que teve tanta influência na história da Grécia antiga.

- Em 382, ​​a fórmula judaica Hallelu-Yahweh ou Aleluia ("Louvai a Javé"), está instalada nas massas cristãs. Em 384, o imperador ordenou ao prefeito Materno Cinégio (tio do imperador e um dos homens mais poderosos do império) cooperar com os bispos locais na destruição de templos pagãos na Macedônia e na Ásia Menor — coisa que ele, um fundamentalista cristão, faria de bom grado. Entre 385 e 388, Materno Cinégio, estimulado por sua esposa fanática Acância e em conjunto com bispo São Marcelo, organizou bandos de assassinos "paramilitares" cristãos que vão por todo o Império Oriental para pregar a "boa nova" — isto é, arrasar altares e santuários pagãos. Eles destroem, entre muitos outros, o templo de Edessa, o Kabeireion de Imbros, o templo de Zeus em Apameia, o templo de Apolo em Dídimos e todos os templos de Palmira. Milhares de pagãos são presos e enviados às masmorras de Citópolis, onde são aprisionados, torturados e assassinados em condições subumanas. E se algum amante das antiguidades ou da arte pensa em restaurar, preservar ou conservar os restos dos templos saqueados, destruídos ou fechados, em 386 o imperador proíbe especificamente o cuidado deles (!).

Busto do imperador germânico Júlio César, sucessor de Tibério. Os cristãos o desfiguraram e gravaram uma cruz em sua testa.

- Em 388, o imperador, em uma medida pseudo-soviética, proíbe conversas sobre assuntos religiosos, provavelmente porque o cristianismo não pode-se sustentar por muito, e pode até sofrer sérias perdas apenas através de debates religiosos livres e argumentos convincentes. Neste ano, Libânio, o velho orador de Constantinopla, uma vez acusado de ser um mago, dirige ao imperador sua epístola desesperada e humilde "Pro Templis" ("Pró Templos"), tentando preservar os poucos templos pagãos restantes. Julgando o que aconteceu a seguir, podemos concluir que o imperador, infelizmente, fez pouco caso.

- Entre 389 e 390 todas as datas de férias não-cristãs foram proibidas. Ao mesmo tempo, tribos misteriosas de selvagens do interior, lideradas por eremitas do deserto, invadem as cidades romanas do leste e do norte da África. No Egito, na Ásia Menor e na Síria, essas hordas arrasam com templos, estátuas, altares e bibliotecas, matando qualquer um que cruze seu caminho. Teodósio ordena destruir o santuário de Delfos, centro de sabedoria respeitado em toda a Hélade, destruindo seus templos e obras de arte.

O bispo Teófilo, patriarca de Alexandria, inicia perseguições de pagãos, inaugurando em Alexandria um período de autênticas batalhas civis, seja entre cristãos e pagãos, seja entre as próprias facções cristãs. Ele transforma o templo do deus Dionísio em uma igreja, destrói o templo de Zeus, queima o Mitreu e defere imagens de culto. Os padres pagãos são humilhados e ridicularizados publicamente antes de serem apedrejados.

- Em 391 um novo decreto de Teodósio especificamente proíbe olhar para as estátuas pagãs quebradas (!). As perseguições antipagãs são renovadas por todo o Império. Em Alexandria — onde as tensões estão a flor da pele durante anos — a minoria pagã, liderada pelo filósofo Olimpio, realiza uma revolta anticristã. Depois das sanguinárias lutas civis com faca e punhal contra multidões de cristãos que superam em número, os pagãos se anexam e se estrincham no Serapião, um templo fortificado consagrado ao deus Serápis. Depois de cercar (praticamente sediar) o edifício, a turba cristã, sob o comando do patriarca Teófilo, invadiu o templo cega de ódio, assassinou todos os presentes, profanou imagens de culto, saqueou propriedades, incendiou sua famosa biblioteca e, finalmente, derruba toda a construção. É a famosa "segunda destruição" da Biblioteca de Alexandria, jóia da sabedoria antiga em absolutamente todos os campos, incluindo filosofia, mitologia, medicina, gnosticismo, matemática, astronomia, arquitetura ou geometria. Claramente, uma verdadeira catástrofe espiritual para a herança do Ocidente. Uma igreja foi construída sobre seus restos.

O deus Serápis, "patrono" da Biblioteca de Alexandria.

- Em 392 o imperador proíbe todos os rituais pagãos, chamando-os de "gentilicia superstitio", isto é, "superstições dos gentios". Então, novamente volta as perseguições pagãs. Os mistérios de Samotrácia são clausurados e todos os seus sacerdotes são mortos. Em Chipre, o extermínio espiritual e físico dos pagãos é liderado pelos bispos São Epifânio (nascido na Judéia e criado num ambiente judaico, judeu de sangue) e São Ticon. O mesmo imperador dá carta branca a São Epifânio em Chipre, estabelecendo que "aqueles que não obedeceçam ao padre Epifanio não têm direito de continuar vivendo nessa ilha". Assim protegidos, os eunucos cristãos exterminam milhares de pagãos e destroem quase todos os templos pagãos em Chipre. Os mistérios de Afrodite locais, baseados na arte do erotismo e com uma antiguíssima tradição, são erradicados.

- Este ano fatídico de 392 há insurreições pagãs contra a Igreja e contra o Império Romano em Petra, Areopoli, Ráfia, Gaza, Baalbek e outras cidades orientais. Mas a invasão oriental-cristã não vai parar neste ponto em seu impulso até o coração da Europa.

- Em 393, os próprios Jogos Olímpicos (que já vão pelo número 293), os Jogos Píticos e os Jogos Aktia são proibidos. Os astutos cristãos devem intuir que este culto desportivo "profano" e "mundano" da superação, excelência, agilidade, saúde, beleza e força deve logicamente pertencer ao culto pagão, e que o esporte é um campo onde os cristãos da época nunca podem reinar. Aproveitando a situação, os cristãos saqueiam o templo de Olímpia.

- No ano seguinte, em 394, todos os ginásios na Grécia são fechados à força. Qualquer lugar onde a menor dissidência floresça, ou onde fermental mentalidades poucos cristãs, deve ser fechado. O cristianismo não é simpatizante dos músculos, do atletismo, do suor triunfante, mas de lágrimas de impotência e terríveis tremores. Nesse mesmo ano, Teodósio remove a estátua da Vitória do Senado Romano. A Guerra da Estátua foi encerrada, um conflito cultural que confrontou senadores pagãos e cristãos no Senado, removendo e restaurando a estátua várias vezes. O ano 394 também viu o fechamento do templo de Vesta, onde o fogo sagrado romano queimava.

- Em 395 Teodósio morre, sendo sucedido por Flávio Arcádio (reinou entre 395-40). Este ano, dois novos decretos revigoram a perseguição antipagã. Rufino, eunuco e primeiro-ministro de Arcádio, faz os godos invadir a Grécia, sabendo que, como bons bárbaros, eles vão destruir, saquear e assassinar. Entre as cidades saqueadas pelos godos estão Dion, Delfos, Mégara, Corinto, Argos, Neméia, Esparta, Messênia e Olímpia. Os godos, já cristalizados na heresia do arianismo, ainda que com seu caráter bárbaro intacto, matam muitos gregos, queimam o antigo santuário de Eleusines e queimam todos os seus sacerdotes (incluindo Hilário, sacerdote de Mitras).

O Imperador Arcádio. À primeira vista, um eunuco, um menino, especialmente quando comparado com os antigos imperadores pagãos e soldados.

- Em 396 outro decreto do imperador proclama que o paganismo será considerado como alta traição. A maioria dos sacerdotes pagãos restantes estão trancados em calabouços sombrios pelo resto de seus dias. Em 397, o imperador literalmente ordena demolir todos os restantes templos pagãos.

- Em 398, durante o Quarto Concílio Eclesiástico de Cartago (Norte de África, agora Tunes), qualquer pessoa (mesmo os bispos cristãos) é proibida de estudar obras pagãs. O bispo Porfírio de Gaza, onde houve revoltas pagãs, derruba quase todos os templos da cidade, faltando nove.

- Em 399, o imperador Arcádio volta a ordenar a demolição dos templos pagãos que permanecem em pé. Neste ponto, a maioria deles estão nas profundas áreas rurais do Império.

- Em 400, o bispo Nicetas destrói o oráculo de Dionísio em Vesai, e batiza à força todos os pagãos na área.

- Até o ano 400, já foi estabelecida uma hierarquia cristã definida que inclui sacerdotes, bispos, metropolitanos (ou arcebispos de grandes cidades) e patriarcas (arcebispos responsáveis ​​por grandes cidades, nomeadamente Roma, Jerusalém, Alexandria e Constantinopla).

Esta imagem de uma sacerdotisa de Ceres (Deméter romana, deusa da agricultura e do cereal), esculpida pacientemente sobre o marfim por volta do ano 400 (!) e de uma beleza sem precedentes; seu rosto foi mutilado e jogado em um poço em Montier-en-Der, uma posterior abadia no noroeste da França. É possível que não tivessem lançado ao poço por ódio (os cristãos eram mais propensos a destruição direta), mas que os seus proprietários eliminaram-na por medo de que as autoridades religiosas iria encontrá-la. É impossível saber a quantidade de representações artísticas, mesmo superiores a esta em beleza, que foram destruídas, e das quais nada permaneceu.

- Em 401, uma multidão de cristãos lincha os pagãos em Cartago, destruindo templos e ídolos. Em Gaza, os pagãos são linchados a pedido do bispo São Porfírio, que também ordena a destruição dos nove templos restantes na cidade. Nesse mesmo ano, o 15º Concílio de Calcedônia (entre outras coisas de grande importância, como a crença em "Um e só mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito" —?—) ordena a excomunhão (mesmo depois da morte!) dos cristãos que mantêm boas relações com seus parentes pagãos.

São João Crisóstomo, "Santo e Pai da Igreja", arrecada fundos com a ajuda de mulheres cristãs ricas, entediadas e ociosas, ressentidas contra o culto patriarcal romano pela perfeição e pela guerra e fascinadas pelo sadomasoquismo cristão doentio. Assim financiado, realiza um trabalho de demolição de templos gregos. Graças a ele, o antigo templo de Ártemis em Éfeso é amável e caritativamente demolido.

Reconstrução do imenso templo de Ártemis em Éfeso foi uma das sete maravilhas do Mundo Antigo e tinha sido construído no século VI AEC em uma área considerada sagrada desde, pelo menos, da Idade do Bronze. Sua construção levou 120 anos e poderia ser dito que era perfeitamente comparável a uma catedral. Uma multidão cristã histérica liderada por São João Crisóstomo ("pai da Igreja") demoliu-a em 401, terminando a existência deste edifício quase milenar.

- Em 406, o bispo São Eutíquio, discípulo do mencionado São Epifânio, continua em Salamina, Chipre, as destruições de templos e os homicídios compassivos de pagãos.

- Em 407, o imperador Arcádio novamente lança um decreto no qual proíbe todos os cultos não-cristãos — o que significa que por este tempo o paganismo ainda persiste.

- Em 406-407, um grupo de tribos federadas, os vândalos, os suevos e os alanos (este último de origem iraniana, não germânica), invadem a França, destinados a Espanha.

- Em 408, o Imperador Honório do Império Ocidental e o Imperador Arcádio do Império Oriental ordenam juntos que todas as esculturas pagãs sejam destruídas. Há novamente destruições de templos, massacres de pagãos e queimas de seus escritos. Por esta altura, o famoso eunuco africano Santo Agostinho, bispo de Hipona, "Santo, Pai e Doutor da Igreja" massacra centenas de pagãos em Calama (atual Guelma), na Argélia (não demorará a morrer nas mãos dos vândalos, um povo germânico). Também estabelece a perseguição de juízes que mostram piedade pelos "idólatras".

Este mesmo ano de 408, o imperador Arcádio morre, sendo sucedido pelo imperador Teodósio II. Para termos uma idéia do fanatismo, demência e gosto deste aborto abulante, basta dizer que ele teve filhos executados por brincar com pedaços de estátuas pagãs quebradas. De acordo com os mesmos historiadores cristãos, Teodósio II "seguiu os ensinamentos cristãos meticulosamente". Não duvido, embora possa ser apropriado fazer um ponto: Teodósio era um erudito pusilânime das "sagradas escrituras", na verdade manejado por sua irmã Élia Pulquéria e sua esposa Eudócia.

O imperador Teodósio II, um eunuco fanático alienado... A julgar pela qualidade da estátua, as coisas no Império não iam muito bem sob o seu reinado, ou talvez seja que os verdadeiros escultores tinham sido mortos por pagãos.

Enquanto tudo isso ocorre, no mesmo ano de 408, um chefe romano de origem germânica que valentemente defendeu as fronteiras do império, o vândalo Estilicão, é executado por um partido de romanos decadentes invejosos de seus triunfos. Após a sua morte injusta, este partido dá uma espécie de "golpe de Estado" e as mulheres e crianças — estamos falando de um mínimo de 60.000 pessoas — dos federados germânicos (federados a Roma, residentes dentro de suas fronteiras e fiéis defensores dos mesmos) são abatidos em toda a Itália pelos cristãos. Depois deste ato covarde, os pais e maridos destas famílias (30.000 homens que foram fiel soldados de Roma) são passados ​​às fileiras do rei visigodo Alarico, descarregado de raiva e vingança de chorar contra os assassinos.

- Em 409, a proibição dos métodos de adivinhação é novamente decretada. O Império Romano desmorona em uma crise irresistível, na corrupção imunda e subjugada pelos germânicos, mas os poderosos cristãos estão com pressa para erradicar o legado pagão antes que os germanos descubram (para que os germânicos não convertam a Grécia-Roma II e tenham que começar novamente), enquanto as classes altas romanas estão mais preocupadas em subir no novo sistema cristão, traindo um ao outro para a Igreja ou desvanecendo em orgias que lhes fazem esquecer o que está à frente. Neste ponto, os únicos que permanecem fiéis a Roma como uma idéia, mesmo apesar das injustiças abjeta cometidas contra eles são os soldados germânicos que servem nas legiões.

Nesse mesmo ano, suevos, vândalos e alanos atravessam os Pireneus e invadem a Espanha.

- Em 410, um exército composto por visigodos e outros aliados germânicos seus, saqueiam a mesma Roma, continuando mais tarde pelo sul da França, Espanha e África. De lá, eles tentam dominar o Mediterrâneo.

- Em 416, um famoso líder cristão conhecido como "Espada de Deus" extermina os últimos pagãos de Bitínia, Ásia Menor. Naquele ano, em Constantinopla, todos os funcionários públicos, comandantes do exército e juízes que não são cristãos são demitidos.

- Em 423, o imperador decreta que o paganismo é "um culto do diabo" e ordena que aqueles que continuam a praticá-lo sejam aprisionados e torturados.

- Em 429, os pagãos atenienses são perseguidos, e o templo da deusa Atena (o famoso Partenon de Acrópole) é saqueado.

- Em 430, os vândalos cercam a cidade norte-africana de Hipona. No local, morre o mencionado Santo Agostinho, um dos pais da Igreja, escritor de um livro hippie chamado "De Civitate Dei" ("Cidade de Deus").

- Mas aqui está o ato mais significativo por parte do imperador Teodósio II em 435: ele proclama abertamente que a única religião legal em Roma, além do cristianismo, é o judaísmo!

Por uma luta bizarra, obscura e assombrosa, o judaísmo não só conseguiu perseguir o paganismo, e que Roma, seu arqui-inimigo mortal, adotou um credo judeu, mas que a mesma religião judaica, tão desprezada e insultada pelos romanos pagãos anteriores, é elevada a única religião oficial de Roma, juntamente com o cristianismo. É necessário reconhecer a astúcia da conspiração e a implacável permanência dos objetivos do núcleo judaico-cristão original. O que eles fizeram foi, literalmente, virar o tabuleiro a seu favor, converter Roma em anti-Roma, pôr ao serviço da judiaria tudo o que os judeus tanto odiavam, aproveitar a força de Roma, seu aparelho de Estado, para colocá-la contra ela em um sinistro jiu-jitsu político-espiritual, para passar de escravos cuspidos, pisoteados, insultados, desprezados e olhados por cima do ombro a mestres espirituais absolutos do Império Romano. Nietzsche soube compreendê-lo perfeitamente, mas quando nós poderemos assimilar inteiramente o que isto significou e o quê ainda significa?

A trágica agonia do mundo antigo, clássico, pagão, belo, valente, artístico, atlético e próximo dos deuses, às mãos da Serpente Oriental. Laocoonte e seus filhos.

- Em 438, Teodósio II culpa a "idolatria" por uma praga.

- Em 439, os vândalos tomam Cartago. Sua frota domina o Mediterrâneo.

- Entre 440 e 450, os cristãos demolem os monumentos pagãos de Atenas, Olímpia e outras cidades gregas.

- Em 448 o imperador Teodósio II ordena queimar todos os livros não-cristãos.

- Em 450, em Afrodísias (cidade de Afrodite), todos os templos são destruídos e todas as bibliotecas queimadas. A cidade é rebatizada com o sinistro nome de Stavroupoli (Cidade da Cruz).

Vênus Capitolina.

- Em 441, os hunos do líder asiático Atila atravessam o Danúbio, massacrando, estuprando, torturando, escravizando e profanando toda a terra que pisam.

- Em 445, o imperador Valentiniano III faz um decreto segundo o qual todos os bispos do Ocidente são subordinados ao Papa de Roma.

- Em 451, o imperador lança um outro edito reiterando que a "idolatria" deve ser punida diretamente com a morte. Naquele mesmo ano, os hunos de Átila são interrompidos por uma coligação romana-visigoda incomum na batalha de Troyes (Campos Cataláunicos), no centro da França.

- Em 453, Atila morre.

- Em 455, Roma é saqueada pelos vândalos, uma tribo germânica que acabou por se estabelecer no que hoje é Tunes. Tal é o caos que semeou nesta cidade suja e decadente que, até hoje, "vandalismo" significa um comportamento destrutivo em direção a um ambiente civilizado.

- Entre 457 e 491 as perseguições antipagãs seguem no Império Oriental. O filósofo Gesio é executado. Severiano, Herestios, Zosimo, Isidoro e muitos outros sábios, são torturados e mortos. O pregador cristão Conon e seus seguidores exterminam os últimos pagãos da ilha de Imbros, no noroeste do mar Egeu. Também exterminado em Chipre aos últimos crentes do deus Zeus Lavranios. São anos frutíferos para o cristianismo.

- Em 476, Odoacro, líder visigodo de uma união de tribos germânicas, é proclamado rei de Roma, já sob um sistema pseudo feudal que substitui os vestígios decadentes de uma Roma destruída de dentro. Este ano de 476 é considerado como o fim do Império Ocidental. O último imperador de Roma, Rômulo Augusto (ironicamente, tem o mesmo nome que um dos míticos gêmeos fundadores de Roma), é deposto por seu próprio exército, um exército que é romano só em nome, uma vez que é composto quase exclusivamente de germânicos, que são os únicos que sentem algum tipo de lealdade a Roma, e para quem a palavra "romano" tornou-se sinônimo de traiçoeiro, covarde e indigno de confiança. Rômulo Augusto é enviado pelos germanos, num gesto de grande nobreza, ao exílio de Constantinopla com todas as honras imperiais e emblemas do Ocidente. O Império Oriental ou Império Bizantino subsistirá, progressivamente re-helenizado, destinado a ser baluarte contra o Islã até que, no século XV, cai nas mãos dos turcos otomanos.

Entre 482 e 486, após uma revolta pagã anticristã desesperada, a maioria dos pagãos da Ásia Menor são exterminados.

A extensão do cristianismo em 485. O Império Romano do Ocidente caiu, os reinos germânicos apareceram em seu lugar, o Império Romano do Oriente ainda subsiste e a Inglaterra voltou ao paganismo com a invasão anglo-saxã. Em vermelho, áreas sujeitas a uma forte influência cristã. Em rosa, as áreas menos sujeitas à Igreja.

- Em 486, em Alexandria, mais padres pagãos foram descobertos que permaneceram escondidos. Eles são humilhados publicamente, depois torturados e executados.

- Em 493, Teodorico, o Grande, um rei germânico, assume o controle da Itália. Um admirador da Roma clássica que ele nunca conheceu, tenta preservar o que resta da arquitetura, da escultura e do aparato de Estado, pondo fim à destruição cristã.

- No Império Oriental, e já no século VI, é declarado que qualquer pagão não tem direito.

- Em 525 o batismo torna-se obrigatório mesmo para aqueles que se declaram já cristãos. O imperador Justino I ordena destruir o templo do deus local Teandrites e ordena um massacre dos pagãos na cidade de Zoara.

- Em 527, o imperador Justiniano I do Oriente encarnado no Corpus Juris Civilis ou Corpo de Direito Civil romano é a base de toda a lei européia medieval, exceto na Saxônia e na Inglaterra (depois da invasão normanda, apenas o condado inglês de Kent manterá o direito saxão).

- Em 528, Justiniano proíbe os chamados "Jogos Olímpicos alternativos" de Antioquia. Ele ordena executar qualquer um que pratica "feitiçaria, adivinhação, magia ou idolatria" e proíbe todos os ensinamentos pagãos.

- Em 529, o imperador fecha a Academia de Filosofia de Atenas (onde havia ensinado a Platão) e confisca seus bens. Assim, termina a existência de um dos principais centros da cultura européia a desde do período clássico.

- Em 532, Juan Asiaco, um monge fundamentalista e fanático que tem a bênção do imperador, organiza uma cruzada contra o que resta dos pagãos maltratados da Ásia Menor. Com base em muito sangue, ele "cristianizou" Frígia, Cária e Lídia. 99 igrejas e 12 mosteiros são construídos em templos pagãos destruídos.

- Em 546, Juan Asiaco condena à morte em Constantinopla centenas de pagãos.

- Em 553, no Segundo Concílio de Constantinopla, decreta-se que: "Aquele que sustentar a idéia mística da preexistência da alma e a maravilhosa opinião de seu retorno será anatematizado". Estamos, nada mais e nada menos, ante uma proibição de crenças sobre a reencarnação.

- Em 556, o imperador envia outro comissário cristão, Amâncio, a Antioquia, para exterminar os últimos pagãos e queimar qualquer biblioteca privada restante.

- Em 562, há uma onda de perseguições em que são humilhados, presos, aprisionados, torturados e executados pagãos de Atenas, Antioquia, Palmira e Constantinopla.

- Em 568, a Itália é invadida pelos lombardos, uma tribo germânica que, pressionada pelos ávaros, baseia-se no que é agora a Lombardia, no norte da Itália.

- Entre 578 e 582, pagãos foram torturados e crucificados em todo o Império Oriental, exterminando os últimos pagãos de Heliópolis e Baalbek.

- Em 580, graças provavelmente à fofoca habitual, agentes cristãos descobrem em Antioquia um templo secreto dedicado a Zeus. O sacerdote se suicida para evitar a tortura, e o resto dos pagãos são detidos pelos cristãos. Os presos, que incluem, surpreendentemente, o vice-governador Anatólio, são torturados e condenados em Constantinopla. Eles são condenados a serem devorados pelos animais, mas os animais não os atacam (algo que nunca tinha acontecido com os cristãos lançados aos animais durante as antigas perseguições romanas). Portanto, eles são crucificados. Então a multidão cristã paganofóbica arrasta seus cadáveres pelas ruas e os lança em um aterro

Em 583, o imperador Maurício I renova as perseguições antipagãs.

- Em 590 novamente há outra febre antipagã. Até então, o paganismo organizado no sul da Europa foi praticamente erradicado. O que resta é um monte de tristes ruínas salpicadas de sangue, tradições de significado esquecidos, despojos de práticas pagãs. Os helenos e latinos originais foram perseguidos em todo o Mediterrâneo deseuropeizado fortemente, e permanece uma enorme massa de mestiços sem herança, que adotam o cristianismo muito propriamente. No alto ergue-se uma casta de pastores: a Igreja e o clero cristão. Até que a área sofra novas invasões germânicas, o cenário continuaria.

- Entre 590 e 604, o Papa Gregório I "O Grande" ordena queimar o conteúdo da Biblioteca Palatina de Roma, devido aos escritos "pagãos" que ela aloja.

- Em 692, durante o Concílio de Constantinopla, são proibidas festas de origem pagã como as Calendas, Brumales, Antestérias etc.

Um caso notável foi o de uma população lacônia de Mesa Mani, Cabo Tênaro, na Grécia. Em meados de 804, eles resistiram com sucesso a uma tentativa por parte de Tarásio, patriarca de Constantinopla, para cristianizá-los. Sua resistência duraria até que, entre 850 e 860, o armênio São Nicon, pela violência, os converte ao cristianismo. Lembre-se que Lacônia era o antigo reino do qual Esparta era capital.

Por fim, pensemos em outra tragédia paralela ao genocídio, lavagem cerebral e várias destruições: a adulteração, queima, falsificação, manipulação e desfiguração da literatura clássica. Assim, o cristianismo profanou a antiga sabedoria européia, erradicando a memória dos antigos deuses e sabotando a mesma civilização européia por séculos. Por exemplo, os "Anais" de Tácito foram corrigidos e censurados pelos monges copistas em tudo o que pudesse manchar a memória das origens da nova fé. Plínio, o Velho afirma ter coletado em sua "História Natural" 20.000 fatos teúrgicos ou mágicos das obras de cem diferentes autores gregos e romanos, mas não pudemos recebê-lo em sua totalidade. Em "História do Império Romano", iniciada por Aufidio Basso e terminada pelo mesmo Plínio, restam apenas fragmentos. Tito Lívio foi objeto de tal selvageria (talvez porque foi lido por Juliano) que apenas algumas "Décadas" de seu trabalho histórico permanecem. Os livros de Heródoto, Suetônio e Plutarco estão fortemente adulterados. De Euclides está preservado "Os Elementos", mas seus outros escritos, especialmente "Porismas", desapareceram. Queimaram quase toda a produção de Porfírio, na qual havia um "Tratado sobre os oráculos", um "Tratado sobre as imagens dos deuses", um "Tratado sobre o retorno da alma a Deus", um "Tratado sobre a abstinência",  um "Vida de Plotino", um "Vida de Pitágoras", um "Perguntas Homéricas" e quinze (!) alegações contra os cristãos cujos títulos nem sequer são conhecidos. Os vários comentários de Proclo sobre os "Diálogos" de Platão desapareceram e seu "Elementos de Teologia" foram retocados e resumidos pelos cristãos em um "Livro de causas" atribuído a Aristóteles.

Tais foram os métodos usados ​​pelos adalides do profundo Oriente para se apresentarem à Europa como supremos salvadores. Desde então, a Europa viveu essencialmente sob os pesos de idéias estrangeiras e feitas pelo inimigo, lutando de tempos em tempos para libertar-se de sua carga.

O MARTÍRIO DE HIPÁTIA COMO EXEMPLO DO TERRORISMO CRISTÃO

Alexandria, Egito, ano 415. a protagonista é Hipátia (370-415), filósofa e matemática educada por seu pai, o também famoso filósofo e matemático Téon de Alexandria. Os biógrafos de Hipátia dizem que na parte da manhã se exercitava, e que depois tomava banhos relaxantes que a ajudavam a concentrar sua mente para dedicar o resto do dia ao estudo da filosofia, da música e da matemática. Hipátia era virgem e casta, isto é, ela estava ao nível de uma sacerdotisa. Ela era, em suma, uma mulher sábia, "um ser humano perfeito", assim como seu pai a desejara. Hipátia também dirigia uma escola filosófica, da qual as mulheres eram excluídas (para situar às feministas que tentaram "empoderar" e "feministar" a figura de Hipátia nos últimos tempos).

O peixe gordo de Alexandria naquela época era o arcebispo Cirilo (370-444), sobrinho do mencionado Teófilo. Tinha o título de patriarca, uma honra eclesiástica que era quase equivalente à do papa, e que era suportada apenas pelos arcebispos de Jerusalém, Alexandria e Constantinopla, isto é, as cidades mais judaicas e cristãs do Império Romano. Durante este tempo houve outra revolta em massa; mais uma vez, as guerras civis, as tensões e ajustes de contas entre cristãos e pagãos ocorreu.

O arcebispo Cirilo iniciou uma perseguição aos acadêmicos de Alexandria, 24 anos após o incêndio da biblioteca. Desta vez, mais radicalizados, os cristãos assassinavam qualquer um que se recusasse a se converter à nova religião. Hipátia, então diretora do museu (onde se dedicava à filosofia de Platão), foi uma dessas pessoas, pelo qual foi acusada de conspirar contra o arcebispo. Dias depois da acusação, os frades chamados parabolanos (monges fanáticos encarregados do "trabalho sujo" do arcebispo e da igreja de São Cirilo de Jerusalém) sequestraram "a filosofa" de sua carruagem, espancaram-na, e desnudaram-na (deixaram-na pelada), e arrastaram-na por toda cidade, até chegar à igreja de Cesaréia. Lá, sob as ordens de Pedro, o Leitor, a estupraram várias vezes e depois esfolaram sua pele com carapaças de ostras. Hipátia morreu ultrajada, esfolada e sangrando até a morte com dores atrozes. Depois disto, eles desmembraram seu cadáver, andaram com seus membros por Alexandria como troféus e então os levaram para um lugar chamado Cinaron, onde foram queimados. O arcebispo que ordenou seu martírio é lembrado pela Igreja como São Cirilo de Alexandria.

Somente uma multidão doente de ressentimento e ódio, e enfurecida por comissários habilidosos na arte de criar os escravos, poderia realizar este ato, que repugna qualquer um com um mínimo de decência. Hipátia foi a vítima perfeita para um sacrifício ritual: européia, bonita, saudável, sábia, pagã e virgem. E é que mais excita os escravos no momento de sacrificar é a inocência e bondade da vítima. Por outro lado, a crueldade demonstrada, mesmo em relação à destruição de seu cadáver, indica que os cristãos temiam muito Hipátia e tudo o que ela representava. A morte da científica, além de ser perfeitamente ilustrativa das atrocidades cometidas pelos cristãos nesta época, inaugurou uma era de perseguição aos padres pagãos no norte da África, especialmente dirigida contra o sacerdócio egípcio. A maioria deles foram crucificados ou queimados vivos.

A atrocidade de Hipátia é descrita aqui porque foi conhecida, e é ilustrativa e chocante ter acontecido a uma mulher desarmada, indefesa e inofensiva, mas tenhamos cuidado de pensar que foi um caso isolado: muitos pagãos humildes "que não interferiam na vida de ninguém" foram sacrificado de uma forma semelhante ou pior, e seguiria a ser assim por muitos séculos.

"Hipátia antes de ser morta na igreja", por Charles William Mitchell.

CONCLUSÃO

O cristianismo primitivo caracterizava-se pela sua intolerância e intransigência e por considerar-se o único caminho de salvação para todos os homens da Terra; essas características foram herdadas do judaísmo, das quais ele veio e imitar. Ele mostrou que, paradoxalmente, consider todos os seres humanos iguais é a pior forma de intolerância, já que é assumido como um dogma de fé que a mesma religião ou moralidade é válida para todos os homens e, portanto, obrigatória mesmo que contra sua vontade. Este aspecto foi então renovado com as outras grandes e virulentas doutrinas igualitárias: democracia e comunismo.

Os pagãos,  ao aceitar a diferença dos povos, também aceitavam que eles adorassem deuses distintos aos e tivessem costumes diferentes, e nunca teriam pensado em pregar sua religião ou moralidade fora de seu povo. Seria ridículo para eles pregarem o culto de um deu europeu entre os africanos negroides, por exemplo, e dava na mesma para eles que os semitas adorassem a Moloch. A tática pagã européia sempre foi dominar mediante o triunfo militar, não forçar ou manipular pensamentos. A reação do cristianismo, por outro lado, era aniquilar qualquer coisa que pudesse lembrar antigas crenças e tradições pagãs. Qualquer conhecimento medicinal, de plantas ou animais, era marcado como heresia e perseguido. Na verdade, qualquer tipo de conhecimento que não fosse judaico-cristão era perseguido conscientemente. O terror espiritual tinha aparecido no mundo antigo, irrompendo sangramente na Europa.

Isto é o cristianismo, e o que veio depois, conflitos, palimpsestos e misturas disso com o paganismo, em combinações instáveis ​​que nunca acabaram de calhar no confuso inconsciente coletivo europeu. Naqueles dias sentou-se a esquizofrenia do Ocidente atual: debater entre a heróica herança romana-pagã ou a humanista herança judaico-cristã .

Os fundadores das cidades e os grandes conquistadores haviam querido que seus povos triunfassem e fossem eternos na Terra. Eles não conseguiram a longo prazo, e todos eles desapareceram. Os romanos, então, começaram a inchar essa lista macabra. No Ocidente, o futuro de milênios pertencia aos germânicos, que estabeleceram reinos feudais em toda a Europa Ocidental, onde se ergueram como aristocracia.

Eu listei fatos que marcaram o fim da antiguidade clássica com toda a sua sabedoria, e o início de uma idade das trevas. Esta era escura, usada como ferramenta pelos germânicos, e da qual eles não foram culpados (só deram o toque de graça a um monstro decadente, e foram precisamente eles que preservaram as obras de arte romana da destruição cristã quando tomaram o poder— ver o caso do rei Teodorico), duraria na Europa até o tempo do catarismo, dos vikings e cruzadas no século XI, quando os cavaleiros europeus descobriram a tradição que o Oriente havia guardado e alguns frades estavam empenhados em compilar os conhecimentos naturais tais como medicina ou botânica. O legado mesopotâmico, egípcio, persa e até certo ponto grego e hindu foi preservado pela civilização islâmica que, ao contrário do cristianismo, não só destruiu o legado pagão, mas a preservou.

Dizemos que o ressurgimento da espiritualidade européia veio da mão das castas guerreiras e cavalheirescas. E os resultados mais visíveis desse ressurgimento foram o Sacro Império Romano-Germânico, os vikings, a civilização occitânia, os templários, o Renascimento italiano com seu fascínio pelo mundo greco-romano e o Império Espanhol.

Haverá aqueles que podem fazer uma confusão com a "herança cristã" da Europa. Eu não posso. Vejo os europeus vivendo com costumes e rituais naturais, belos e harmoniosos, que eles realizavam automaticamente como a coisa mais normal do mundo, participando da imensa orquestra que é a Terra. Vejo um credo fanático pregado por fundamentalistas semitas do Oriente e da África que inflamaram os espíritos do lixo do mundo contra pessoas boas contra os europeus nativos contra os representantes da ordem e da luz. Disseram que os nossos costumes ancestrais eram abominações. Disseram que aqueles que os praticavam eram pecadores. Disseram que nossa ciência era feitiçaria demoníaca, e nossa arte, uma blasfêmia. Disseram que quem não se ajoelhasse diante de um estranho e novo deus oriental merecia os piores tormentos. Amaldiçoaram os fortes, os nobres, os guerreiros, os puros, os filósofos e os sábios, e abençoaram os escravos, os doentes, os pisoteados, as prostitutas, os ignorantes e os covardes. Destruíram o legado que tínhamos acumulado ao longo dos séculos. Mataram nossos líderes. Puseram fim a um Império que poderia muito bem ter estado sob influência germânica e se espalhar pelo mundo. Mergulharam a Europa na ignorância e banalizaram o conhecimento. Durante séculos, espalharam a depressão, a culpa e o sentimento pecados, introduzindo na Europa esse câncer que é o Antigo Testamento, e esse veneno castrador que é o Novo Testamento. Se a Europa pôde desenvolver-se nestas condições, não foi graças ao cristianismo, mas apesar dele, e graças às coisas que o cristianismo ainda não tinha tocado.

O espirito romano enterrado na seca areia do deserto.

NIETZSCHE SOBRE O CRISTIANISMO

Mas você não entende? Você não tem olhos para ver algo que levou dois milênios para alcançar a vitória?

Esse Jesus de Nazaré, o evangelho vivo do amor, esse "redentor" que traz felicidade e vitória aos pobres, aos enfermos, aos pecadores — não era ele a sedução em sua forma mais perturbadora e irresistível, a sedução e o desvio precisamente daqueles valores judeus e às inovações judaicas do ideal? Será que Israel, pelo desvio desse "redentor", desse aparente antagonista e liquidador de Israel, alcançou o objetivo final de seu sublime anseio de vingança? Não faz parte de uma oculta magia negra de uma política verdadeiramente grande de vingança, de vingança de progresso demorado, subterrânea, lenta, pré-calculada, o fato de que Israel mesmo tinha que negar e pregar a cruz antes de o mundo inteiro, como se fosse seu inimigo mortal, ao autêntico instrumento de sua vingança, para que "todo o mundo", isto é, todos os adversários de Israel, pudessem morder sem medo dessa isca? E por outro lado, pode-se imaginar, com todo o refinamento do espírito... algo que iguala em atraente, intoxicante, deslumbrante, corruptora força... aquele horrível paradoxo de um "deus na cruz", aquele mistério de uma inimaginável, última, extrema crueldade e autocrucificação de Deus para a salvação do homem?... Pelo menos, é verdade que sub hoc sign (sob este signo, latim) Israel triunfou uma e outra vez, com sua vingança e transvalorização de todos os valores em todos os outros ideais, em todos os ideais mais nobres.

("Genealogia da moral", Primeira Dissertação, 8).

A compaixão bloqueia essa lei da evolução que é a seleção. Manter o que está maduro para perecer; constitui uma resistência que milita a favor dos deserdados e condenados à vida. Por causa do grande número e da grande variedade de coisas fracassadas que preserva a vida, ele dá a esta um aspecto sombrio e duvidoso.

Multiplicar miséria e preservar todo miserável significa um dos principais instrumentos para aumentar a decadência.

("O Anticristo", 7).

O cristianismo só pode ser compreendido se se partir do âmbito em que apareceu: não foi um movimento de reação contra o instinto judeu, mas sua conseqüência lógica, uma dedução adicional de sua lógica terrível. Para colocá-lo nas palavras do Redentor: "A salvação vem dos judeus."

("O Anticristo", 24).

A incapacidade de oferecer resistência é traduzida em uma moralidade ("não resistam ao mal" é a frase evangélica mais profunda, e que, até certo ponto, nos oferece sua chave).

("O Anticristo", 29).

O cristianismo espalhou da maneira mais intensa o veneno desta doutrina que afirma que "todos temos os mesmos direitos". O cristianismo fez uma guerra de morte, dos cantos mais ocultos dos maus instintos, a todo sentimento de respeito e possível distância entre os seres humanos; ou seja, tem combatido o fundamento e a base de toda elevação, de todo avanço da cultura. Ele converteu em sua arma principal o ressentimento das massas contra nós, contra todo indivíduo aristocrático, alegre e generoso na Terra; contra a nossa felicidade na Terra. Conceder "imortalidade" ao filho de qualquer vizinho significou a tentativa maior e mais perversa jamais feita contra a humanidade aristocrática.

O cristianismo é uma rebelião de tudo o que rasteja no chão contra tudo o que tem altura.

("O Anticristo", 43).

A fim de não perder de vista o fio, vamos primeiro considerar que estamos entre os judeus. A elevação do pessoal à categoria do "santo", que atinge neste caso um nível de gênio nunca atingido por qualquer outro livro ou por qualquer ser humano, essa falsidade da palavra e do trabalho feito arte, não é o fruto casual do dom de um indivíduo, de um caráter pessoal fora de série. É o produto de uma raça. Todo o judaísmo, com sua aprendizagem e sua técnica secular e rígida, consegue sua obra-prima no cristianismo como a arte de mentira santa. Essa última ratio da mentira que é o cristianismo representa o judeu elevado ao quadrado e até mesmo ao cubo...

Toda essa falsidade só foi possível pelo fato de que já existia no mundo uma espécie semelhante, radicalmente semelhante, de ilusão de grandeza: o delírio de grandeza característico do judeu. Quando o abismo entre judeus e judeu-cristãos se abriu, estes não tiveram escolha senão usar contra os judeus os mesmos procedimentos para sobreviver que que o havia ditado o instinto judeu, enquanto os judeus até então haviam usado tais procedimentos contra não-judeus somente.

("O Anticristo", 44).

Numa época em que os estratos doentes e corrompidos dos párias (chandalas) se cristianizaram em todo o Império, existiu, em sua manifestação mais bela e madura, seu tipo oposto: a aristocracia. A maioria acabou dominando; o espírito democrático dos instintos cristãos prevaleceu. O cristianismo não tinha um caráter "nacional", nem era determinado pela raça: tratava de todas as variedades de vida deserdada, tinha aliados em toda parte. O cristianismo baseava-se naquele rancor característico dos doentes, dirigido instintivamente contra os saudáveis, contra a saúde. Tudo o que é bem formado, altivo, orgulhoso e, acima de tudo, belo, ferem seus olhos e ouvidos.

("O Anticristo", 51)

O cristianismo foi o vampiro do Império Romano; numa noite aniquilou o enorme trabalho realizado pelos romanos de conquistar uma terra para construir um império duradouro.

Na verdade, São Paulo representou o ódio do chandala a Roma, o "mundo", encarnado, transformado em gênio; o judeu eterno por excelência. Foi ele que intuiu a maneira pela qual um "fogo à escala mundial" poderia ser provocado, com a ajuda da reduzida seita cristã, à margem do Judaísmo; A forma como ele poderia se concentrar em um poder enorme, sob o símbolo do "Deus crucificado", tudo inferior, clandestinamente rebelde, toda a herança das intrigas anarquistas existentes dentro do império. "A salvação vem dos judeus." O cristianismo poderia ser a fórmula que ultrapassa todos os tipos de culto subterrâneo (os de Osíris, os da Grande Mãe, os de Mitra, por exemplo).

("O Anticristo", 58).

Eis um primeiro exemplo, bastante provisoriamente. Sempre se quis “melhorar” os homens: sobretudo a isso chamava-se moral. Mas sob a mesma palavra se escondem as tendências mais diversas. Tanto o amansamento da besta-homem como o cultivo de uma determinada espécie de homem foram chamados de “melhora”: somente esses termos zoológicos exprimem realidades — realidades, é certo, das quais o típico “melhorador”, o sacerdote, nada sabe — nada quer saber... Chamar a domesticação de um animal sua “melhora” é, a nossos ouvidos, quase uma piada. Quem sabe o que acontece nas ménageries duvida que a besta seja ali “melhorada”. Ela é enfraquecida, tornada menos nociva; mediante o depressivo afeto do medo, mediante dor, fome, feridas, ela se torna uma besta doentia. — Não é diferente com o homem domado, que o sacerdote “melhorou”. Na Alta Idade Média, quando, de fato, a Igreja era sobretudo uma ménagerie, os mais belos exemplares da “besta loura” eram caçados em toda parte — foram “melhorados”, por exemplo, os nobres germanos. Mas que aparência tinha depois esse germano “melhorado”, conquistado para o claustro? A de uma caricatura de homem, de um aborto: tornara-se um “pecador”, estava numa jaula, tinham-no encerrado entre conceitos terríveis... Ali jazia ele, doente, miserável, malevolente consigo mesmo; cheio de ódio para com os impulsos à vida, cheio de suspeita de tudo o que ainda era forte e feliz. Em suma, um “cristão”... Em termos fisiológicos: na luta contra a besta, tornar doente pode ser o único meio de enfraquecê-la. Isso compreendeu a Igreja: ela estragou o ser humano, ela o debilitou — mas reivindicou tê-lo “melhorado”...

("O crepúsculo dos ídolos", VII, 2).

Os Evangelhos constituem um documento de primeira ordem; mais ainda do que o livro de Enoque. O cristianismo, que nasce das raízes judaicas e só pode ser explicado como uma planta característica deste solo, representa o movimento oposto a toda a moral, raça e privilégio de reprodução. É a religião antiaria por excelência. O cristianismo é a inversão de todos os valores arianos, o triunfo dos valores chandalas, o evangelho dirigido aos pobres e inferiores, a rebelião geral de todos os oprimidos, miseráveis, fracassados e derrotados dirigidos contra a "Raça"; a eterna vingança dos chandalas se torna a religião do amor.

("O crepúsculo dos ídolos", VII, 4).

VERSÃO NIETZSCHIANA DO SERMÃO DA MONTANHA

Vocês ouviram como nos tempos antigos se dizia: "Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra". Mas eu vos digo: Bem-aventurados os corajosos, porque eles tornarão a terra seu trono. E ouviste dizer ao homem: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque entrarão no reino dos céus". Mas eu vos digo: Bem-aventurados aqueles cuja alma é grande e o espírito livre, pois entrarão no Valhala. E ouviram dizerem aos homens: "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Javé". Mas eu vos digo: Bem-aventurados os que fazem Guerra, porque serão chamados, não filhos de Javé, mas filhos de Wotan. E eu digo-lhe finalmente que Wotan colocou um coração de pedra em nosso peito, que essas palavras da antiga saga escandinava vieram de um verdadeiro viking e que um homem nascido de tal raça é orgulhoso de não ter sido criado para sentir piedade.

O CRISTIANISMO FOI UM MOVIMENTO SUBVERSIVO DE AGITAÇÃO CONTRA ROMA, CONTRA A GRÉCIA E, POSTERIORMENTE, CONTRA O MUNDO EUROPEU.

DEVEMOS ASSUMIR QUE O QUE FOI CHEGADO DA ANTIGUIDADE NÃO É MAIS DO QUE UMA ÍNFIMA PARTE QUE HAVIA, E QUE FOI ARREBATADO PELA DESTRUIÇÃO JUDAICO-CRISTÃ.

O CRISTIANISMO, COMO REBELIÃO DE ESCRAVOS PROJETADOS E DIRIGIDOS PELOS JUDEUS PARA DESTRUIR O PODER ROMANO (E, POSTERIORMENTE, QUALQUER PODER EUROPEU), FOI E É UMA DOUTRINA DE TENTATIVA PARA CONVERTER AOS POVOS VIGOROSOS EM REBANHOS DOMÉSTICOS.

Atualmente, somos incapazes de ver o que esse arcanjo tem relacionado com o cristianismo. Este guerreiro não tem absolutamente nada a ver com as multidões de escravos que destruíram a maior parte da arte clássica, representando a figura humana. Esta imagem vem do subconsciente pré-cristão europeu: mesmo dentro do cristianismo, o elemento indo-europeu e o elemento semítico entram em conflito...

NOTAS

[1] As figuras dos mortos dados em todo o texto vêm dos escritos "A guerra dos judeus" e "Antiguidades Judaicas", de Flávio Josefo, bem como Dião Cássio em "História de Roma". Muito provavelmente o números estão inflados para ampliar a importância dos eventos, algo comum na história.

[2] De acordo com os autores alexandrinos (que eram fervorosos antissemitas e acreditavam que os judeus faziam sacrifícios humanos), Pompeu libertou no templo um prisioneiro grego que estava prestes a ser sacrificado a Javé.

[3] Crasso, que cometeu um erro crasso (daí o termo) durante a batalha, foi responsável pelo massacre de 20.000 soldados nas mãos dos partas. Outros 10.000 soldados romanos foram feitos prisioneiros e enviados para fazer trabalho forçado para o que é agora o Afeganistão. Muitos acabaram lutando, sob mando parta, contra os hunos, perdendo seu caminho. A análise genética parece indicar que este destacamento, a famosa "legião perdida de Crasso", terminou na atual província chinesa de Liqian, onde eles são responsáveis ​​por uma maior freqüência de características étnicas européias na população nativa. Mas isso vimos em outro artigo.

[4] Paradoxalmente, os judeus mais tarde lamentariam a destruição deste mesmo templo nas mãos dos romanos.

[5] Que Zorobabel, Esdras e Neemias haviam reconstruído em 516 AEC ao retornar do exílio babilônico (os babilônios haviam destruído o templo em 586 AEC e deportado a elite judaica para a Babilônia em um processo chamado "Cativeiro Babilônico"). Os persas, gratos aos judeus por terem tomado o seu lado traindo os seus senhores babilônicos, forneceram aos judeus matérias-primas, arquitetos e trabalhadores qualificados para levar a cabo a construção, pois os judeus não tinham meios de erguer um templo em condições. Quando o imperador Dario sucedeu o trono de Ciro, as obras continuaram a seu comando, dissipando o temor dos judeus de que talvez com a mudança de coroa haveria uma mudança de atitude em relação a eles. Em 516 AEC a reconstrução do Segundo Templo tinha sido concluída e em 515 AEC houve uma consagração. Os persas haviam tratado os judeus com verdadeira generosidade. No entanto, os judeus em breve apunhalaria-os nas costas, como aconteceu por volta de 450 AEC com o episódio de Ester e Hamã, em que os judeus se levantaram para massacrar seus inimigos políticos persas, pelo qual é celebrado até hoje na festa de Purim. Quando, no século IV AEC irrompeu Alexandre Magno na Pérsia, os judeus fizeram o mesmo com os persas, como fizeram com os babilônios: traí-los para ganhar o favor do novo invasor, que logo iriam trair. Pode-se dizer talvez que os romanos foram os primeiros a quebrar este círculo vicioso.

[6] São Lucas era um indivíduo de Antioquia ou Antáquia, na atual Turquia.

[7] São Mateus também era chamado Levi, e era um judeu do Mar da Galileia.

[8] Aqui está a causa provável da difamação histórica sem precedentes deste imperador. Os textos da história romana acabariam por cair nas mãos dos cristãos, que eram na sua maioria de origem judaica e detestavam visceralmente os imperadores. Uma vez que, de acordo com Orwell, "Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado", os cristãos adulteraram a historiografia romana, transformando em monstros perturbados os imperadores que se opuseram a eles e a seus antecessores judeus. Desta forma, não temos um único imperador romano que tenha participado em duras represálias judaicas e que não tenha sido difamado com acusações de homossexualidade, crueldade ou perversão. O historiador Roldán Hervás desmantelou muitas dessas falsas acusações contra a figura histórica de Calígula.